Comidas desaparecidas 1

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O ano recomeça e entre o material escolar e os planos de ensino me vejo as voltas com a questão do lanche. Somos três estudantes. Dois eternos – já que o Guto e eu somos professores – e um iniciante – o Miguel indo para a primeira série do Ensino Fundamental. Nós dois nos viramos com as comidas de cantina que detestamos: gordurosas, de gosto muitas vezes intragável, acompanhadas de líquidos extremamente doces, industrializados, quando não, repugnantes. Tentamos levar alternativas caseiras, mas com o tempo escasso e o ano empurrando, sempre nos perdemos no meio do caminho.

Com o Miguel é diferente. O lanche é feito diariamente e, mesmo com a preferência dele por sanduichinhos acompanhados por água, gosto que ele leve tudo fresquinho de casa. Sei, nem todo mundo tem tempo de preparar, e isso nem é um ensaio de crítica. De fato, toda essa introdução é para lembrar da época em que comprar o lanche na cantina da escola, ou mesmo da faculdade, não era algo odiosamente apavorante.

Primeiro, naquela época, a minha época (estou cada vez mais nas antigas), se chamava merenda e não lanche. Segundo, éramos avisados por nossos pais constantemente que a comida do bar (não era cantina que é coisa de imigrante italiano) não era tão boa quanto a de casa. Eu costumava levar ovos cozidos que passavam a noite na salmoura e eu mesma cozinhava toda noite. Uma vez por semana levava bolo, que aprendi a fazer aos 8 anos. Quando finalmente fui liberada para ir ao bar do colégio, ainda preferia minha merenda vinda de casa e que eu mesma gostava de arrumar, acompanhada de suco do dia anterior (levemente oxidado) ou chá gelado (no inverno quente). As coisas do bar não me atraíam. Fui criada com medo de fritura fora de casa e a torrada demorava quase todo o recreio para ficar pronta, vinha insonsa ou com excesso de margarina.

Então, eu provei pela primeira vez algo que meus colegas adoravam e me juntei ao grupo de adoradores. Comprávamos por “meio-prensado” (e ignoro como isso era comido ou nomeado em outras partes do universo que não as escolas de Santa Maria, RS) algo que consistia em: 1/2 pão de xis (definição para gaúchos, acredito), queijo, presunto, maionese e molho de tomate (mas molho feito, não essa coisa industrializada com sabor de salsão que dá vontade de chorar, e acrescido de sal em quantidade para fazer um charque). Aquilo era uma delícia, tinha quase sabor de conforto.

Hoje em dia, os meio-prensados estão completamente desaparecidos das cantinas colegiais. Foram substituídos pelos pães de queijo farinhentos e pelos folhados cuja gordura hidrogenada cola no céu da boca, e cujo recheio de galinha é tão salgado que endurece a língua. Permanecem as torradas insonsas, duplicaram-se as frituras cujas massas caseiras são igualmente industrializadas.

Do meio-prensado não encontrei nem fotografias. E, como registro de uma memoriosa e melancólica nostalgia das comidas desaparecidas, lavrei este post.

 

O que dizem os leitores de Territórios Invisíveis

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Um pequeno registro do patrimônio crítico de meu primeiro romance.

http://desfocalizar.blogspot.com.br/2014/01/territorios-invisiveis-nikelen-witter.html

http://pausaparaumcafe.com.br/resenha-territorios-invisiveis-de-nikelen-witter-selofantas/

https://carolchiovatto.wordpress.com/2012/11/29/impressoes-ou-resenha-de-territorios-invisiveis-de-nikelen-witter/

https://www.youtube.com/watch?v=we8P_D03Og4

http://www.concentrofoba.com.br/2013/03/territorios-invisiveis-nikelen-witter.html

http://blogdafads.blogspot.com.br/2012/08/territorios-invisiveis-de-nikelen-witter.html

http://linhasepensamentosdalivia.blogspot.com.br/2012/12/resenha-01-territorios-invisiveis.html

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http://balaiodelivros.blogspot.com.br/2013/06/territorios-invisiveis-nikelen-witter.html

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http://soliloquioadois.blogspot.com.br/2013/01/resenha-territorios-invisiveis-nikelen.html

http://www.skoob.com.br/livro/resenhas/261982/edicao:293574

http://blogdopainerd.blogspot.com.br/2012/12/territorios-invisiveis.html

Por fim, o vídeo com a apresentação das alunas do Ensino Médio na Feira do Livros de Catuípe, RS.

https://www.facebook.com/NikelenWitterescritora/videos

 

 

Só uma memória…

 

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Acabei de ler um texto sobre “amigos imaginários” e lembrei do meu. O post era sobre os “amigos imaginários assustadores”, aquele tipo de texto que aparecia antigamente na Revista Planeta ou num dos artigos da Revista Seleções, e hoje tem lugar em blogs nerds e/ou sensacionalista. Meu amigo não era assustador, mas foi imensamente presente quando eu tinha uns 3 ou 4 anos. Seu nome era Cristiano e ele era meu namorado. Claro, eu também me apresentava como Simone… Mas não julgue uma criança com um nome esquisito que via Selva de Pedra em preto e branco numa TV de tubão que virava chuvisco depois das 11 da noite.

Meus pais se lembram do Cristiano, assim como eu. Ele vinha lá em casa todos os dias, sempre de banho tomado, muito cheiroso, com talco no pescoço. Usava uma camiseta vermelha e branca e um macacão de jeans azul. Era educado e aceitava tudo o que eu impunha. Às vezes, nós dois apenas ficávamos sentados de mãos dadas, no sofá de napa vermelha com manchinhas mais escuras. Minha irmã ia reclamar para a minha mãe que eu não queria brincar com ela, ao que eu respondia: “não posso, estou namorando”. Meu pai se incomodava com o Cristiano. Um dia, ele achou que era hora de mandar meu amigo embora. Abriu a porta e o expulsou segurando pela gola da camiseta. Era noite e estava chovendo. Abri um choro frenético, acompanhada pela solidariedade da minha irmã que (no fundo) também gostava do Cristiano. Só paramos quando meu pai abriu a porta, vencido: “entra… Cristiano”. Foi uma festa! Esmagamos o menino com um abraço.

Um dia, simplesmente, o Cristiano se foi. Acho que ele se mudou. Eu tinha amigos que mudavam de uma casa para outra e sempre me pareceu traumático. Anos mais tarde, já adulta, estava falando no Cristiano e alguém perguntou: “quem é Cristiano?” A resposta veio da boca da minha irmã: “era um amigo imaginário que estava sempre com a Nika”. Fiquei impressionada com a lembrança e com a forma como ela construíra a frase e perguntei: “tu lembras dele?” “Claro”, respondeu a minha irmã. Rimos e ficamos por isso. Afinal, ela lembrava de minha fixação no amigo imaginário e não do amigo imaginário em si, foi o que pensei. Eu mesma não lembro de tê-lo descrito para ela, pois em criança isso não me parecia necessário e, depois de grande, eu praticamente esqueci..

Então, quando meu sobrinho mais velho fez um ano, minha irmã fez um poster do pequeno, que foi exibido na festa. Eu parei na frente e fiquei olhando. Minha irmã e minha mãe chegaram perto e ficamos elogiando o garoto, como a foto estava bonita e tal… Então me ocorreu de perguntar, meio por brincadeira, pois achei que era um acaso, já que não havia como ela saber o que eu guardava tão bem na minha cabeça: “Mana, por que tu vestiste o Ângelo de Cristiano?” “Hã? Eu não… Minha nossa! Eu realmente VESTI o Ângelo de Cristiano!”

 

 

 

 

Metamorfose

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Numa manhã qualquer, ao acordar, o Sr. T se viu convertido em uma mocinha. Ainda preso à nébula do sono, acreditou-se num pesadelo estapafúrdio. Buscou virar de lado para voltar a dormir, mas o corpo o obedeceu de forma estranha, assumindo uma posição na cama que, com sua idade e peso anteriores, o Sr. T sequer julgava ser possível. Sentou para perceber, abismado, que o novo corpo, além de se mover melhor que o antigo, era real. Ou, ao menos, assim lhe parecia. O lençol escorregara na nova pele de pelos curtos e o cheiro dessa pele também lhe parecia real. Até mesmo um sabor diferente se espalhava por seu paladar. Havia uma sensação estranha à altura da cintura e uma falta de peso entre suas pernas. O pior era a cabeça que, por ter aquele corpo, inexplicavelmente, lhe parecia tão cheia de caminhos diferentes, desejos inconfessáveis, dores insondáveis. A força que se desvanecera de seus braços, outrora grandes e pesados, agora caminhava por seus sentidos, indo e vindo, de um para outro. Quando a força finalmente chegou à sua boca, o Sr. T gritou, como nunca havia sentido ser possível antes. Contudo, ninguém veio atendê-lo. Um bolha de silêncio parecia envolver aquele corpo e o quarto em que estava, era pavoroso ao Sr. T sentir que estava preso ali dentro. Da bolha, do quarto, do corpo de moça.

Foi quando se ergueu da cama, em busca de um novo equilíbrio, que um pequeno peso se revelou para ele. Estava ali, naquele lugar abaixo da cintura, mas era um peso líquido e não sólido. O Sr. T caminhou até o espelho, olhando seus novos pés e pernas, procurando e encontrando tudo diferente. Um segundo antes de ver sua imagem nova, o Sr. T se interrogou se seria bonita a moça que ele era. Uma preocupação fugaz, mas importante para o homem que ele tinha sido. No espelho encontrou a imagem de uma jovem que se tornava mulher num avanço de instantes, como se o tempo se acelerasse. O ventre bojudo revelava outro corpo dentro do seu. Um que ele não sabia como tinha ido parar lá. Só tocara em mulheres, o antigo Sr. T, como poderia ter um filho em seu ventre aquela moça que apenas amanhecera? O que faria? O que seria daquela criatura? Tão jovem, com um filho? Presa numa bolha de silêncio.

 

****

 

 

Esse conto foi publicado anteriormente (março de 2014) no Caderno Planeta Ciência, de ZH, na seção chamada Fricções. O texto acima – obviamente uma homenagem a Kafka – foi inspirado na notícia de que cientistas japoneses criaram um equipamento que simula, para homens, a sensação de estar “grávido”. Ao vestir o “Mommy Tummy”, é possível não apenas sentir o peso do bebê, como os movimentos da criança e as mudanças pelas quais passa o corpo da mãe, como o aumento dos seios. O colete conta com balões, saco com água morna, vibradores, sensores de toque e estimuladores. Todos os nove meses de gestação são resumidos em dois minutos. 

 

 

Sobre a imposição de padrões de Beleza

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Na semana passada, os alunos do curso de jornalismo da UFSM, na pessoa do Sandro Lacerda Schlemmer entrou em contato comigo para marcar um programa no qual me entrevistariam sobre a imposição dos padrões de beleza. Como passei a semana afônica, a entrevista acabou sendo por escrito. No final, combinamos que após o áudio ir ao ar, eu colocaria a entrevista por escrito aqui no blog, como um registro.

1 – Qual sua opinião sobre o assunto em geral?

Vivemos numa sociedade baseada na imagem. Somos bombardeados por elas o tempo todo. Revistas, jornais, TVs, internet. Esses veículos têm um poder quase ilimitado de fazer valer padrões estéticos idealizados e transformar esses padrões, que de fato não existem no mundo real, em algo que é normal. Ou seja, a exceção, aquilo que é extraordinário, diferente, passa a ser aceito pelas pessoas como se fosse o normal. Ao mesmo tempo é aquilo ao que você jamais irá se ajustar. Ninguém será tão magro quanto à modelo (que muitas vezes está morrendo para representar esse ideal), nem tão sarado quando o ator ou modelo que ganha dinheiro justamente por passar horas malhando. A imensa maioria das pessoas trabalha para comer, não para ficar “bonito” conforme esses padrões.InMySkin_interna1

2 – Você acredita que essas “regras” atingem mais as mulheres do que os homens?

É interessante pensar em termos de números. A maior parte dos anúncios e imagens que vemos dizem respeito às mulheres. São elas que estão nas capas da grande maioria das revistas, é o corpo delas que está exposto nos anúncios em grande parte das vezes. As roupas em que as mulheres aparecem são geralmente mais reveladoras, ou possuem a intenção de revelar. Os padrões estéticos sobre as mulheres estão de tal forma disseminados que mesmo as mulheres que não se sentem atraídas pelo corpo feminino passam a julgar os corpos das outras com base nesses padrões. Ou seja, somos bombardeados com uma superexposição e com isso passamos a assimilar ideais de beleza como a julgar isso. Nesse sentido, sim, as mulheres são mais atingidas pelas regras de beleza que, analisadas ao fundo, demonstram um cerceamento, uma limitação para todas as mulheres. Entenda, não é estar contra a beleza, mas quando esta é a maior ou a única preocupação, o que sobra para o resto da existência? Por outro lado, a insistência sobre a beleza feminina parece afirmar que o lugar ideal das mulheres é este decorativo, o de ser enfeite para o mundo.

36843 – Em sua opinião, os padrões de beleza para mulheres são definidos por homens?

Acho que é conjunto. Os padrões de beleza são definidos por uma cultura que privilegia o olhar masculino, mas isso não se reduz a homens ou mulheres. É uma questão cultural. Nossa cultura vê o masculino como protagonista, e as mulheres como acessórios. Ora, os acessórios ficam melhores quando são bonitos. Mas não dá para reduzir isso aos sujeitos homens ou mulheres, pois é maior.

4 – Afinal, os padrões são criados pelas indústrias, pela mídia ou pela sociedade?

Novamente é um conjunto. Um autoriza, endossa e alimenta o outro. Nos apropriamos das imagens e tentamos nos moldar a elas, fazendo isso, lhes damos legitimidade, reproduzimos, recriamos e fortalecemos. Nosso consumo é a base da coisa. Consumir um padrão X de beleza, faz com que ele se mantenha e se prolongue no tempo. Deixamos de consumir o ideal de mulheres com cintura de vespa (como foi no século XIX e nos anos 1950), mas passamos a consumir mulheres hiper magras, com ossos salientes. Moda e cultura são elementos para se pensar onde essas coisas surgem e são mantidas.

5 – Você acredita que esses padrões foram criados pelas indústrias para incentivar o consumismo?

141Os padrões estéticos existem em todas as sociedades. Cada uma a sua maneira. Se a indústria do mundo industrial usa isso? Sim, ela usa. Usa os padrões que nos são caros, transforma-os de acordo com a audiência e os reproduz para estimular determinados consumos. Mas, não, ela não inventou esses padrões.

6 – Você acredita que os padrões de beleza divergem muito ao redor do mundo hoje?

Sim, ainda hoje divergem. Apesar da imensa globalização midiática, os padrões de beleza regionais não estão completamente mortos. Talvez, em fase de agonia, mas não mortos.

7 – Como eram os padrões antigamente, como nas primeiras sociedades, na época medieval, Europa antiga e Ásia antiga?

padrão-de-beleza-durante-os-séculosCada época tem sua forma corporal e sua moda. Isso dá um curso inteiro sobre beleza. Há épocas em que corpos atléticos são o modelo da beleza, como foi entre os gregos, em outros, formas mais rechonchudas como no Renascimento. Há ainda determinadas modas que alteram o corpo para torná-lo apropriado a determinado padrão, como os pés quebrados e enfaixados das chinesas para se manterem pequenos; os cabelos raspados até a metade da cabeça das europeias do século XVI para aumentar a testa; os espartilhos, as sobrancelhas raspadas. Corpo, cultura e moda são inseparáveis para compreendermos cada época.

8 – E como eram há pouco tempo atrás no Brasil, como nos anos 40, 60, 80 e 2000?

Quando se estuda as décadas do século XX se percebe que boa parte do padrão estético proposto por cada uma só consegue ser percebido na posteridade. Isto é, só depois que nos desvencilhamos daquilo que a década propôs, conseguimos realmente entender a sua estética. Além disso, é preciso costurar esses modelos físicos com o mundo e a sociedade que o cercam. Nesse sentido, o cinema tem um papel bem importante em propor padrões de beleza, os quais não envolvem apenas uma beleza objetiva (se é que se pode pensar em algo assim), mas também cabelos, maquiagem, roupas, formas artificialmente dadas ao corpo por meio de certos exercícios, plásticas ou peças que moldem as formas. O Brasil foi e é, como o restante do mundo ocidental, uma presa desses valores. O principal desses valores, no entanto, não está na forma, mas no que cada filme ou publicidade parece afirmar, ou seja, de que a beleza é algo jovem. Se você não é jovem, não tem como ser belo. Isso se intensifica ainda mais numa sociedade de consumo e numa sociedade em que o valor do trabalhador enquanto experiência é descartado em nome de menores salários.

9 – Dietas, academia, cremes, loções, remédios… Saúde ou estética?

Na maior parte das vezes estética. A ditadura das dietas, os anúncios de “perca peso”, endureça, firme, etc. são elementos voltados a adequar os corpos comuns ao padrão estético dos corpos extraordinários que são veiculados pela mídia. Por outro lado, os anúncios que apelam para saúde, não raro começam a criar um clima de terrorismo, com o não pode isso, não pode aquilo. A gordura é a vilã; o ovo é o vilão; tudo o que não é industrializado é o vilão; o açúcar é o vilão (bem, esse tem bastante culpa mesmo, ainda mais nessa nossa cultura doce). O que quero dizer é que muitas pessoas acabam aderindo usando a saúde como desculpa, mas que no fundo vemos a tirania de um padrão estético. Veja: você está bem de saúde, seus exames médicos estão legais, você sobe escadas com fôlego e consegue brincar no final de semana com as crianças. Diga: por que raios você “precisa” perder 4 quilos?

10 – Qual sua opinião a respeito das cirurgias plásticas, implantes e demais tratamentos?

Para mim é um terreno delicado. Não é possível colocar tudo isso numa sacola só. O corpo é a base da nossa identidade e pode ser fonte de sofrimento psicológico e físico. Sim, há uma indústria que estimula isso e, em muitos casos, percebemos que se espalham procedimentos completamente desnecessários. Nesse sentido, uma cultura de aceitação do próprio corpo, de des-normalização dos padrões de beleza midiáticos, e até mesmo acompanhamento psicológico podem auxiliar em desinflar o apelo para as “correções” cirúrgicas. Mas eu não parto do princípio de que as intervenções cirúrgicas são más por definição. Eu mesma fiz redução de mamas e minhas costas até hoje agradecem, assim como a minha conta bancária, pois não preciso mais de roupas feitas sob medida. Quanto aos outros tipos de tratamento, há uma discussão que vai além da estética e que envolve os níveis de intervenção que estamos dispostos a aceitar em nosso corpo. Nesse ponto, compreender a imagem corporal que temos (e que é a soma de elementos individuais, sociais e culturais) é também uma forma de defesa contra os excessos.Barbie-02

11 – O que você acha das pessoas chegarem ao ponto de desenvolver distúrbios alimentares para se manterem a “bonitas”?

Ontem mesmo eu lia um texto sobre o tema. Aliás o segundo em pouco tempo. O primeiro que li foi Mulheres Famintas, da Lélia Almeida. O outro é Transtornos alimentares, uma questão feminista, da Carol Marques. As duas autoras apontam o fato de que muito do controle exercido sobre as mulheres vem dessa obsessão com o peso, fonte de instabilidade emocional, de “loucuras”, de doenças. Muitas mulheres nem mesmo tem outro assunto se não a questão do peso. Além disso, o padrão de beleza midiático tem se mostrado extremamente nocivo para o grupo mais frágil: as meninas. Estas passam a adentrar no martírio das dietas com medo do “supremo fracasso” que é o de não ser magra”. Claro que a obesidade infantil é também uma questão importante. De fato, acredito que ela é o outro lado da moeda. É recusa, resistência, mas também falta de informação, de controle dos pais, excesso de industrialização na alimentação, dificuldade em dizer o pedagógico não, falta horários. Todos estes elementos podem criar crianças obesas e/ ou adolescentes bulímicos. Nossas “loucuras” para atender aos padrões de beleza irreais da mídia não afetam apenas a nós. Os padrões ideais da mídia afetam o futuro. Afetam nossas crianças.

12 – Esses “defeitos”, assim julgados pelas pessoas, seriam baseados na saúde perfeita ou no consumismo que as indústrias desejam?

Essa assimilação entre beleza e saúde é um dos principais problemas com os quais nos deparamos. Até porque saúde não é se parecer com Gisele Bünchen. Saúde não é algo que deva ou sequer possa ser equacionado com um padrão estético de beleza. É uma falácia. O pior é que, aí, quem não se enquadra passa a ser visto como um candidato a doenças X e Y. O “defeito estético”, vira descuido com a saúde e, portanto, um defeito de caráter. É uma lógica perversa. Por outro lado, não dá para ver as indústrias como uma entidade que paira acima da cultura e da sociedade. Essas coisas estão juntas, ligadas, amalgamadas. É também importante destacar o papel que o julgamento moral que vem sob o julgamento estético tem outras consequências danosas, como a exclusão de grupos ou a auto-exclusão. Individualmente, isso pode ter efeito de tragédia, coletivamente é sim uma orientação para determinados tipos de consumo. Mas é interessante pensar que a mesma construção sócio-cultural que nos impõe a magreza como sinônimo de beleza, também nos faz ser obcecados por comida. Se fala de comida o tempo todo, se vê comida o tempo todo, se coloca a comida como um índice de civilidade e de nível de consumo. Empanturre-se de refrigerantes e fast foods, mas ai de você se não vestir 36.

 

Para finalizar, se você ainda não assistiu, vale uma olhadinha nesse vídeo.

 

A pior coisa em escrever…

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A pior coisa em escrever é não escrever. Não sei dos outros, mas escrever para mim se processa como uma necessidade alimentar. Há épocas em que pequenos bocados diários me satisfazem, há outras em que tenho fome o tempo todo. Uma fome que não se sacia fácil. Uma fome que tudo incomoda. Uma fome que só sente a si mesma. Todo o resto me irrita. Estou imersa em vidas exigentes e colocá-las em pausa para voltar ao cotidiano me aflige. Não quero saber do dia seguinte, não quero saber se há abobrinha na geladeira ou o cardápio do almoço de amanhã. Não quero lembrar se tenho o texto da xerox, se há notícias no jornal ou se o gelo polar está derretendo.  É horrível. Insano. Alienante. Ainda assim, as vozes dos personagens na minha cabeça reclamam de suas histórias não contadas. Queremos estar vivos, me dizem, me gritam enquanto dançam e dialogam sem parar. E eu quero que estejam vivos. Quero vivê-los, pois não me contento mais em tê-los apenas na minha cabeça. Só que não há portas que te separem do cotidiano, não há trancas que deixem o mundo lá fora o suficiente. Tenho sono, tenho compromissos, tenho amores. Ainda assim, represar histórias é uma dor física, uma urgência insatisfeita. Estar escrevendo é ter o diabo aos calcanhares, é ter alguém à espreita, é sempre ter algo inconcluso para fazer. Pior? Só quando não se consegue escrever.

Lembrando Antígona

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Eu tenho um caso de amor com Antígona. Longos e longos anos redescobrindo-a vez por outra, sempre grandiosa, sempre extraordinária. Mil coisas podem ser ditas sobre ela e ainda restará o que pensar. As camadas que revestem a personagem parecem infinitas, pois se renovam a cada leitura e, em essência, está lá a narrativa de um amor que não hesita, que não se diminui. A dignidade de Antígona é esteticamente bela e metaforicamente feroz. Mesmo sendo princesa, ela é mulher, sua linhagem é amaldiçoada, seu sexo está a serviço do outro. Não há nada que ela possa. Ninguém quer ouvir suas razões. Seu dever para com o mundo é calar e obedecer. No entanto, Antígona se posta em pé, não se verga, não se dobra, reivindica o direito de ter consciência, de ter deveres para consigo mesma, de ser fiel ao que acredita, ao que entende do mundo.

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Antígona é um libelo contra a tirania. É essa eterna dúvida entre o que me é exigido e o que eu quero, entre quem sou e como o mundo deseja que eu me comporte. Os deveres que ela clama são, claro, auto impostos e sua decisão, já tomada desde as primeiras linhas da peça de Sófocles, não isenta de perceber sob ela as lacerações dolorosas da escolha. Esse é, para mim, um ponto fundamental do mito e da peça: nenhum dos caminhos que se apresentam para Antígona são isentos de dor, qualquer um deles irá levá-la a um tipo de morte, e ela escolhe o que lhe parece mais suportável, continuar fiel a si mesma.

Filha de Édipo e Jocasta, Antígona sobreviveu ao horror do incesto que levou o pai a cegar-se e a mãe/avó ao suicídio. Confrontada com a morte dos dois irmãos numa mesmo dia, ela se vê obrigada a acolher a ordem de seu tio Creonte, agora no papel de rei de Tebas. Um dos irmãos, Etéocles, que morrera defendendo Tebas do ataque de exércitos estrangeiros deveria ser enterrado com honras. Já Polínice, que se valera de estrangeiros para fazer valer seu direito ao trono, deveria ter o corpo abandonado ao tempo e às feras. Para os gregos antigos não poderia haver pior sentença. O corpo insepulto era a desgraça da alma que jamais encontraria descanso ou adentraria ao mundo dos mortos. Uma sentença de horror pela eternidade.

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As duas irmãs sobreviventes dão voz às possibilidades. Ismena resolve calar, pois teme a sentença de morte que virá à sua desobediência. Antígona sabe da morte, mas esta a apavora menos que conviver com a memória ultrajada do irmão. A apavora menos do que conviver consigo mesma e a certeza de não ter agido com sua consciência. O dilema de Antígona não se perdeu nos milênios que avançam entre a peça e os dias de hoje. Sua decisão, contudo, ainda soa revolucionária.

Quadro clínico

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Sofro de otimismo patológico. Não se preocupem, estou bem. Essa coisa não chega a dar pintas pelo corpo. Faço exercícios regulamente e me alimento com um pouco mais de vontade que as pessoas normais. Meu histórico clínico registra apenas um ataque à transeuntes em via pública. Mas eu ainda afirmo que a criatura mereceu. As lentes cor-de-rosa não me pesam, mas se atrapalham um pouco com meu alto astigmatismo. Seria ele o responsável por ver tudo embaçado? Por dar excessos à minha imaginação? Olho a vida minúscula com carinho e a grande me enlouquece a ponto de tirar o sono. Choro pelas crianças desse mundo feio enquanto doentiamente acredito que irá melhorar. Sou filha do século XX, fui exposta a altas doses de iluminismo, contaminada desde o berço com a injustificada crença no progresso humano. No meio do caminho, admito, num revés de meu estado (ou seria um agravamento deste?), desfiz-me do agasalho das crenças nas forças externas. Decidi enfrentar o frio e esperar que o fogo venha das entranhas humanas e crie algo melhor. É uma doença, eu sei, eu sei. Estou conformada com essa condição, mesmo que não haja sombra de tratamento. Não, amigos, infelizmente, as doses regulares de jornais e redes sociais não adiantaram. Já tentei o tratamento, e é apenas um paliativo. Por este momento estou a me entorpecer apenas, auto-medicando-me com literatura alheia e alguma coisa de fabricação própria. Não ameniza os sintomas de forma alguma. Mas conforta meu olhar vesgo adentrar em mundos inexistentes ou que eu possa, minimamente, controlar.

Ligeira crônica de Amor

Eu tinha um amigo. Grande amigo. Grandes papos. Amávamos um monte de coisa juntos. Literatura, teatro, um certo tipo de música (ele sempre foi mais musical que eu), histórias, mistérios. Gostávamos de montanhas, de escalá-las e de olhar o vale. Ele contava piadas. Eu ria. Eu contava piadas. Ele as entendia. Nunca se chocou com meu sarcasmo maldoso e nem achou que isso mudava meu caráter.

Também odiávamos coisas juntos. O curso de Direito, as pessoas que se levavam à sério demais, os discursos hipócritas e grandiloquentes. Tínhamos algo que era só nosso: parecíamos certinhos, agíamos dentro do que todos aceitavam, mas não pensávamos certinho e nem achávamos que nosso jeito valia para os outros. Defendíamos os esquisitos, mesmo que eles nos achassem mainstream. O pessoal mainstream nos achava esquisito. Tínhamos uma montanha de livros. Escrevíamos apenas um para o outro ler.

Por que não namoram?

Já namoramos.

O quê?

Pois é.

E aí?

Éramos amigos que beijavam. Não era melhor que ser só amigo. Não sei. Faltava.

Faltava o quê?

Eu não sei. Uma liga. Uma coisa. Um inexplicável. Um não sei onde. Uma faísca.

O beijo era ruim?

Não. Era bom. Só não dava vontade de ir além do beijo.

Então acabou?

É.

E vocês continuaram amigos?

Sim. Por um tempo distantes. Depois, muito próximos.

Vocês são esquisitos.

Pois é.

Fomos esquisitos por um tempo. Quanto tempo? Não sei, difícil precisar. Seis meses, meio ano. Ou foi um ano inteiro? Teve aquela formatura em que ele não quis dançar comigo, mesmo que estivéssemos sem par. Pôxa, eu adoro dançar. Não é o que os amigos fazem? Mas ele sumiu e só voltou no fim do baile. Depois, teve a vez em que desmaiei na escada, nem tinha visto ele, mas estava ali e me segurou e levou pra casa. Aí veio o convite. “Vamos fugir, pra outro lugar, baby?” Vamos! Tem uma montanha pra escalar. De noite, teve papo longo, no carro, na rua escura, e um “eu te amo” tão alucinado que fez meu coração falhar. Depois, teve beijo. mas foi diferente. Deu vontade de mais. Bem mais. O não sei o quê estava ali. De um jeito… de um jeito que dava vontade de arrancar a roupa.

A montanha foi escalada, mas ficou diferente. O mundo lá embaixo tão menos interessante que o mundo lá em cima. O encontros viraram necessidade, mais que só prazer. Como se ter certeza, quando se tem certeza e se tem medo de ter certeza? Um mês às escondidas para anunciar o que todo mundo sabia.

Quem não sabia no que ia dar? A gente, claro. Mas só no começo.

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156 anos de Santa Maria, uma história…

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Meu livro Dizem que foi Feitiço: as práticas de cura no sul do Brasil (1845-1889) está esgotado em sua versão física. Sei que ele reside em algumas bibliotecas universitárias fora do Brasil; sei de muitos colegas que o usam seja em aulas, seja como elementos de debate, seja para compor um retrato das práticas de cura no século XIX; sei que vez ou outra um exemplar dá as caras na Estante Virtual e também logo desaparece. Em todos estes fatos, só posso declarar meu contentamento em acompanhar este trabalho, quase 15 anos depois de sua construção e cerca de 13 de sua publicação, ainda sendo lido e rendendo frutos. Incomoda-me um pouco, portanto, que ele não esteja acessível por completo (há uma visualização parcial no Google Books) e, tenho pensado em relançá-lo apenas em e-book (com ou sem revisões, dependendo do meu tempo). Minha intenção não é, de forma alguma, segurar o trabalho tornando-o raro e pouco acessível. Pelo contrário, é um trabalho acadêmico cujo objetivo é chegar ao maior número de pessoas possível para, assim, poder ser estudado, criticado e ultrapassado. É assim que se faz ciência. Algumas pessoas, por vezes, me cobram uma reimpressão física do livro. Infelizmente, sua editora original não se interessou. Obviamente, relendo-o, eu encontro muitos elementos e conclusões datadas; pontos em que, como pesquisadora, eu avancei; coisas que faria diferente; academicismos próprios de um trabalho de mestrado; excesso de notas; debates que poderiam ser incluídos no texto, etc. No entanto, o trabalho ainda é válido e me orgulho dele.

Hoje, o cenário de minha pesquisa, a cidade de Santa Maria da Boca do Monte, completa 176 anos. Não é incomum, nessas datas comemorativas, que as pessoas lembrem os seus ilustres cidadãos, as pessoas que por aqui nasceram ou viveram e suas contribuições para o grande mundo. É bem natural, como forma de “relevo” aos “feitos” da cidade, dizer que ela deu ao mundo ou formou fulano ou sicrano. É um jeito de dizer: vejam, é bom que essa cidade exista, ela permitiu beltrano de tal existir. Sendo assim, e como eu realmente gosto de Santa Maria, vou lembrar mais uma vez de uma sua antiga cidadã, por tanto tempo anônima e esquecida, mas cuja vida me deu um mestrado e um livro. No aniversário de Santa Maria, eu agradeço à cidade que me acolheu no nome dessa ilustre desconhecida: a curandeira preta forra septuagenária Maria Antônia.

Abaixo a primeira página da introdução do livro:

A preta forra Maria Antônia tinha cerca de 70 anos em 1866, quando foi indiciada por envenenamento. A vítima era uma mocinha de nome Henriqueta, filha de um casal de lavradores pobres que moravam nas cercanias da Vila de Santa Maria da Boca do Monte, região central da então Província do Rio Grande do Sul. Maria Antônia tinha o ofício de roceira, porém, possivelmente, a maior parte de seu sustento vinha de suas agências como curandeira. Conhecida pelos habitantes daquele local por suas habilidades nessa atividade, a preta foi chamada pelos pais da jovem Henriqueta, José Pires de Arruda e sua mulher Florisbella, para curá-la. A moça vinha padecendo de uma “estranha moléstia”. De acordo com os vizinhos, que presenciaram os fatos, ela tinha “ataques” e, às vezes, expelia barro, linha, lã e agulhas pela boca e pelo nariz.

Maria Antônia não fora a primeira curandeira a ser chamada. Tinha sido precedida pela índia Maria Nungá. E, mesmo que a preta tenha conseguido trazer melhoras ao estado da moça, como sua antecessora, ela falhou em curá-la completamente. A família da enferma recorreu, então, ao cirurgião-mor da Guarda Nacional, Francisco Custódio da Silva e, a seguir, ao médico homeopata Theobaldo Jaeger. De todos os que trataram de Henriqueta, Maria Antônia foi a única a conseguir algum resultado positivo.

Como não fora possível identificar a moléstia que acometia a jovem, o último curador a ser chamado, o homeopata Jaeger, sugeriu que Henriqueta estava sofrendo em razão de alguma matéria venenosa que lhe havia sido ministrada. Quando o caso foi denunciado às autoridades, a família de Henriqueta e os vizinhos que acompanhavam os acontecimentos foram unânimes em apontar a preta Maria Antônia como culpada. No processo de Sumário de Culpa instaurado contra a curandeira, as mesmas pessoas que lhe imputaram o papel de causadora da doença de Henriqueta se negaram a acusá-la diretamente. Essas testemunhas informaram ao delegado que não tinham certeza sobre o envolvimento de Maria Antônia, mas que a voz corrente, na região, era de que a moléstia da jovem se dera por obra do feitiço.

A leitura deste processo sugeriu-me uma série de questões. Por que tantos curadores diferentes foram chamados para tratar a jovem Henriqueta? Por que a única curandeira que logrou melhoras na enferma foi denunciada como causadora de uma moléstia, da qual ela nem mesmo fora a primeira a cuidar? Quais os elementos constantes na narrativa acima que, no século XIX, poderiam ser associados pela cultura popular à feitiçaria? Ao iniciar a análise do documento, notei que, mais do que perguntas intrínsecas ao relato, existiam aí uma boa quantidade de pistas que permitiam pensar as formas como a doença, as testemunhas e os agentes da cura eram percebidos no Brasil imperial. Somente a partir do estudo desses três elementos, e das relações que se estabeleciam entre eles, é que se tornaria possível começar a responder os pontos obscuros do processo contra a curandeira Maria Antônia.