Cansada de coisas sérias: regras pessoais de admissão de amigos na RS

mercado-ecommerce-qual-rede-social-escolher-capa

Apenas porque hoje estou cansada das coisas sérias, seguem minhas regras pessoais para aceitar pedidos de amizade nas redes sociais.

  1. Vem cá, te conheço?
  2. Quais dos meus amigos te conhecem?
  3. Eu lembro quem são esses amigos?
  4. Seus pais te odiavam tanto assim para dobrar todas as consoantes do seu nome ou você é fake mesmo?
  5. Moço, num mundo de tantas imagens e fotos, você acredita MESMO que seu melhor ângulo é sem camisa?

Passando tais fases, vamos a porcentagem de besteiras versus bobagens postadas. Todos têm, só vou conferir.

 

 

A propósito do estupro em obras de ficção

cultura do estupro

Estava debatendo com uma amiga escritora a questão do estupro em obras de ficção. Em especial, como o uso desse “recurso” tem sido cada vez mais recorrente em séries, mas também em filmes e livros. Parece que quanto mais se reclama da cultura do estupro, quanto mais se evidencia o lugar do estupro como um dado de opressão social das mulheres*, mais ele povoa nossa ficção como “exemplo da realidade”. Mas será que é realmente isso? Uma história só tem “toques de realidade” se tiver abuso sexual?

Não estou advogando o não uso de estupros em peças de ficção, estou apenas questionando o porquê de o estupro se tornar um recurso narrativo tão correntemente usado em histórias ficcionais. É como se, sem um estupro, a história não fosse forte o bastante, não alcançasse o gosto do público, o qual é “ávido” por histórias que mexam com suas emoções. É só o estupro que pode fazer isso? Como leitora e escritora, permitam-me questionar.

Falemos da Cultura do Estupro (tão negada e tão evidente). Uso aqui a definição que dei em uma entrevista para meus alunos no ano passado:

Pode-se dizer que cultura do estupro é toda crença, prática, ideia ou regra sobre o mundo e a convivência que, de forma clara ou tácita, autoriza a violência contra as mulheres. Não se trata apenas de coisas como “mulher gosta de apanhar”, mas igualmente “as mulheres preferem os canalhas”, “com essa roupa? Estava pedindo”, etc. Nesse sentido, as mídias são propagadoras, incentivadoras e educadoras, eu diria, dessa cultura. Vale salientar que, embora o termo cultura do estupro seja recente, não se trata de uma invenção do século XXI. A cultura do estupro é a nossa cultura, essa cultura descendente de épocas em que as mulheres eram proibidas por lei de estudarem, falarem na rua, saírem sozinhas, proibidas de trabalhar e de se sustentar, vistas apenas como reprodutoras. A percepção é nova, mas as ideias não. O estupro era e é uma forma de manter os oprimidos em seus lugares. Como as feministas cansam de repetir: não é sobre sexo, é sobre poder.

Assim, com o intuito de criticar o uso do estupro nas mídias, uma série de artigos têm sido publicados pela crítica feminista nos últimos anos, procurando qualificar e perceber os porquês e a necessidade de seu uso.

Contudo, e acabei de escrever isto, voltei, apaguei e coloco agora em separado para poder me aprofundar: não é absolutamente chocante o fato de que a mídia que está sendo criticada por esses artigos é aquela voltada para o entretenimento? Refazendo a frase: o estupro se tornou um tipo de recurso narrativo em livros, séries e filmes voltados ao ENTRETENIMENTO? Dá para refazer a frase de outro jeito: ESTUPRO COMO ENTRETENIMENTO!

As justificativas: 1. essa é a realidade; 2. a série, filme, livro se passa numa época violenta, logo, isso ocorre; 3. feminista vê problema em tudo; 4. A arte imita a vida; etc. parecem bem ocas diante da pergunta: qual é o real sentido desse recurso numa obra de ficção? E como isso é realizado pelo autor, roteirista ou diretor?

Este artigo – http://www.vulture.com/2015/07/orange-is-the-new-black-is-the-only-tv-show-that-understands-rape.html?mid=facebook_thecutblog# – analisa amplamente alguns dos estupros que no último ano foram servidos como prato principal ou petisco para os espectadores. Na sequência, a autora, Jada Yuan, avança e propõe um tipo de teste Bechdel para os estupros em peças ficcionais. O blog Collant sem Decote traduziu o teste e colocou nesta ótima postagem: http://www.collantsemdecote.com/conheca-o-teste-jada-o-teste-bechdel-do-estupro.

O teste Jada consiste em fazer as seguintes perguntas ao assistir ou ler uma cena de estupro:

  1. O estupro ocorre pelo ponto de vista da vítima?
  2. A cena de estupro tem o propósito de desenvolvimento da personagem da vítima em vez da trama da narrativa?
  3. O abalo emocional da vítima é desenvolvido depois?

A Renata Alvetti, autora do artigo do Collant sem Decote, ainda adiciona uma pergunta:

  1. O corpo nu da vítima é mostrado durante a cena como objetivo de sexualização?

O teste é de grande valia se queremos desconstruir a cultura do estupro. Porém, como leitora e espectadora, acho que é possível ir além e questionar também o uso do estupro como recurso COMUM em peças de ENTRETENIMENTO.

Por outro lado, como escritora, acredito que a naturalização dos estupros na ficção precisa ser questionada como um todo. Um dos usos que mais me incomoda é o de estupros mostrados como ritos de passagem para personagens. Tipo: moça ingênua se torna bad ass após ter sido estuprada, ou se torna manipuladora, ou salvadora, etc. A leitura latente é: tal criatura nunca desenvolveria seu potencial sem um estupro. Horrível de ler dito assim, não é? Mas é o tipo de “moral” que acaba subjacente a vários tipos de narrativas ficcionais.

Além disso, e conversando com o meu comentário acima sobre as mídias, se estas compõem parte de nosso tecido educacional, não estariam os autores, com o uso do estupro como recurso narrativo, colocando apenas mais e mais pedras no edifício da cultura do estupro? Vou repetir: não estou defendendo o fim de referências a estupros em peças ficcionais! Estou questionando seu uso como recurso narrativo, muitas vezes de forma leviana (para dar uma virada na história), como fetiche (nenhum personagem goza, mas o autor, sim), como rito de passagem (uma personagem só ganha força suficiente após o trauma de um estupro) ou simplesmente por preguiça literária.

Em função disso, coloco mais duas perguntas ao teste Jada Yuan/Renata Alvetti:

  1. O autor só pode dizer/contar que quer usando o recurso narrativo do estupro? Nenhum outro tipo de narrativa pode substituir naquele dado ponto da história a violência sexual? Em resumo: o autor precisa mesmo desta passagem no texto?

Em respondendo sim a essa questão:

  1. Quão próximo o autor – ou autora – esteve de um abuso em si ou de alguém que ele conheça? Claro que um ficcionista pode criar, mas terrenos delicados exigem pesquisa e acho que este seria um que, se a opção fosse por um olhar aproximado, exigiria muita pesquisa. O intuito aqui é fugir ao máximo da leviandade.

Outro ponto que também é possível questionar: por que há tantos estupros na ficção e tão poucas “tentativas de estupro”? Aquelas em que a vítima se vira (sem o auxílio de um herói salvador) e dá um jeito de impedir o algoz (use todas as justificativas acima e a tentativa é tão válida como elemento de tensão quanto as “vias de fato”). Por que achamos normal ter isso em nosso ENTRETENIMENTO, mas ainda reagimos mal aos casos de amor que envolvem outros tipos de sexualidade que não a heteronormativa?

As respostas, é claro, estão nessa cultura na qual todxs estamos embebidos. Por isso mesmo a importância de se questionar, perguntar por que isso e não outra coisa? Naturalizar reforça os sentidos de opressão que a cultura do estupro dissemina. Nossa maior arma para acabar com tal cultura e ficar em pé e dizer: não, não é natural; não é o normal; ninguém precisa que isso lhe ocorra para que sua história fique mais interessante. Seja na realidade, seja na ficção.

 

* Embora não exclusivamente, pois se pode incluir crianças e até homens adultos em ambientes estritamente masculinos como prisões e exército.

 

Mais sobre o assunto:

https://ideiasemroxo.wordpress.com/2015/07/03/o-problema-do-estupro-na-ficcao/

http://fomedetudo.com.br/mulher/problematicas-cenas-de-estupro-na-ficcao/

http://blogueirasfeministas.com/2014/04/ha-uma-razao-para-haver-tantas-cenas-de-estupro-em-seus-programas-de-tv-favoritos/

http://tapiocamecanica.com.br/editorial-precisamos-falar-sobre-estupro-na-ficcao/

http://doutornerds.blogspot.com.br/2015/07/estupro-o-eterno-tabu-das-obras-de.html (O texto é legal, apesar de eu discordar do uso da palavra tabu, se fosse, o estupro na ficção não seria tão comum.)

Sobre espelhos

mirror7

Um continho que foi publicado há uns dois anos na Revista Fantástica.

 

Sobre espelhos

 

Foi assim: o menino entrou na sala de espelhos numa tarde branca de inverno. Perseguia uma bola multicor e os guardas o acharam tão gracioso que não puderam evitar um pouco de sorriso. A sala de espelhos é enorme, quase um salão, mas não tão grande, quase uma galeria, mas não tão comprida. É coberta de espelho em três paredes. Naquela em que é possível olhar para fora, para os jardins de noiva, há um espelho entre cada vão de janela. É uma sala linda de se ver, mas poucos gostam de entrar nela, menos ainda de entrar sozinhos. Só as crianças muito pequenas não têm essas inquietações. É sinal de estar crescendo recear ir à sala de espelhos e de amadurecimento esconder isso o quanto se puder de todos os outros.

 

Só quando a luz começou a diminuir – e o acendedor passou colocando fogo no óleo de baleia dos lampiões – foi que os guardas lembraram. Ninguém vira o menino voltar pela porta em que entrou. Não, com toda a certeza, o menino não saíra da sala de espelhos. Os guardas procuraram, por lá e por toda parte. Nada, nem de menino, nem de bola colorida. A brincadeira virou susto, que virou desespero e, depois, tristeza. Nunca mais se soube do menino. Um riso seu talvez tenha ficado dentro da sala. Sei de muitas pessoas que disseram ter ouvido o menino por lá. Alguém, numa festa, jurou ver o menino refletido, olhando os homens de peruca e as mulheres de saia quadrada com um riso nos lábios. Divertia-se o menino. O que era aquela criança no meio dos adultos, perguntou uma dama que ignorava o ocorrido. Mas não havia criança. Não na sala como ela julgara. Só nos espelhos.

 

Então, quando não era festa, já ninguém entrava na sala, fosse sozinho ou acompanhado. Até mesmo as multidões, que nunca admitiram o pânico que as festas entre os espelhos começavam a causar, resolveram que os jardins seriam melhores no verão e as salas com altos lambris de madeira muito mais quentes nas noites de inverno.

 

A sala de espelhos foi ficando sozinha. Há quem diga que foi o abandono que transformou o menino em peixe. Porque peixes de calda longa podem nadar sob a superfície dos espelhos d’água e o menino já não se satisfazia apenas com a sala de espelhos. Nem mesmo a revolução conseguira voltar a encher a sala, mas nesse dia foi que o peixe-menino fugiu. Há quem diga, que ele se grudou no espelho de uma espada e saiu para o mundo. Foi navegando de reflexo em reflexo, indo a todo lugar, ficando mais nuns que em outros. O melhor de tudo é que os peixes são muito mais difíceis de ver do que os meninos. O ruim é que alma de menino não pode virar peixe e disso se pode saber com certeza.

 

Até mesmo há quem diga que quando os espelhos bruxuleiam como a superfície dos lagos, fingindo que é a luz que falha sobre eles, é o peixe-menino vindo à tona em busca de um amigo. Sob a superfície é possível ver o olhar do menino-peixe, convidando para brincar.

Como funciona a cabeça de um escritor?

18827448.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx

A pergunta já me apareceu algumas vezes em entrevistas e a melhor resposta é essa.

Você ouve, vê, lê algo que te sugere uma ideia.

Você escreve. Esquece num caderno.

Relê. Acha uma bosta. Esquece.

Tempos depois reencontra. Relê. Gosta. Resolve que vale digitar.

Relê digitado. Acha uma bosta. Esquece.

Tempos depois vai verificar um título estranho no meio de uma pasta do Windows que guarda coisas que você escreveu.

Relê. Gosta. Resolve publicar.

Ajeita. Re trabalha, perde umas duas horas.

Relê. Acha uma bosta. Esquece de novo.

 

Sem açúcar, mas não sem amor

494px-Pieter_de_Hooch_-_A_Woman_Peeling_Apples-resized-600

No último ano aconteceu de novo. A combinação de estresse, atividades em excesso, muito trabalho e alimentação quando dá (cheia de compensações), resultou mais uma vez numa crise severa de hipoglicemia. A diferença entre as pequenas crises (que os hipoglicêmicos resolvem erradamente comendo um docinho) e as severas, é que, nas severas, comendo um docinho, você fica pior, muito pior. Eu sabia o que precisava. Cortar o doce drasticamente, já tinha acontecido, três meses e as coisas voltariam aos eixos.

Busquei um endócrino e uma nutricionista com quem tenho grande empatia. Do primeiro, depois da vista dos exames, saí com medicação para pré-diabetes: da outra vez que te aconteceu, você não tinha quarenta anos – me disse ele.

Já a minha amorosa nutricionista, entre dicas e ideias, foi suave ao dizer: creio que deves pensar que açúcar não é algo que te pertence mais.

Não farei uma longa postagem sobre os malefícios do açúcar e o fato de que, na verdade, não precisamos dele (a não ser como uma auto carícia). Isso é coisa para sites especializados em saúde e dá para ler aos montes por aí.

O grande problema é como o açúcar tem sido percebido. Açúcar é afeto, é amor, é carinho, é cuidado. Vai-se agradar uma criança, dá-se a ela um pirulito. Não sabe o que dar de presente a um adulto, leva-se um chocolate. Quer dar um mimo? Um bombom é ótimo para isso. Como assim, não vai repetir a sobremesa? Prova, prova!

Claro que é amor. O que mais seria? Ninguém presenteia ou acaricia com doces pensando que pode causar males graves, pelo contrário: é só por hoje, é só agora. Contudo, não é “só hoje”, uma exceção a regra, nunca é só por esse único momento em toda a sua vida.

Não há maldade no pensamento. Não é uma cultura maldosa. Mas pense: quantas vezes você presenteou com doces um amigx que deveria ficar longe deles? Quantas vezes, mesmo sabendo que o colega com diabetes se esforçou para resistir à torta servida na reunião você insistiu para que ele provasse? Está tão gostoso, só um pedacinho, vai. Um pedacinho não fará mal. Quem nunca fez isso? Eu já. Um monte de vezes

O problema é que faz mal. E nunca será só um pedacinho. Deixar de comer algo que toda a cultura te ensina ser uma tentação exige um bocado de disciplina. Contudo, não é um sacrifício como a maioria das pessoas imagina. Quando comentei minha nova condição, a frase que mais ouvi foi: ah, eu não conseguiria, eu morro se não comer doce, eu sou formiga, não consigo ficar sem chocolate, etc, etc.

Não, você não morreria, pelo contrário. Dá para ficar excepcionalmente bem. E não comer doces poder ser uma atitude nada exigente. Na verdade, é até bem simples. De um lado, basta lembrar o quanto a gente passa mal se comer. Em segundo, basta ter amigxs compreensivos que, simplesmente, não te oferecem e nem mesmo insistem para você comer mais (não só doces, mas todas as coisas, afinal todo carboidrato terá peso e não estou falando de balança).

Eu não sei porque (e posso estar errada) creio que as pessoas acham mais difícil compreender a abstenção se você não coloca uma alergia ou doença grave na frente, tipo diabetes, alergia à glúten (celíacos), alergia a laticínios ou ovo. Mas, também, as pessoas costumam implicar com determinadas decisões alimentares, como não comer carne ou qualquer produto animal. Parece que a alergia real é ao comportamento diferente e ao fato de que alguém que se alimenta de forma desigual da maioria, causa desconfortos na comensalidade. Mas aí, creio, tenho material para outra postagem.

Até lá, um pedido: me deem longos abraços ao invés de mimos açucarados. Presenteiem-me com vasos de temperos ao invés de caixas de chocolates. E me ofereçam frutas ou mais chá ao invés de um docinho ao final da refeição. Entenderei tudo isso como afeto, e sem açúcar.

 

Para adoçar, fica o Chico Buarque.

https://www.youtube.com/watch?v=C7Zcyk_lWms

O que dizem os leitores de Territórios Invisíveis

472207_291391814298516_650740894_o

Um pequeno registro do patrimônio crítico de meu primeiro romance.

http://desfocalizar.blogspot.com.br/2014/01/territorios-invisiveis-nikelen-witter.html

http://pausaparaumcafe.com.br/resenha-territorios-invisiveis-de-nikelen-witter-selofantas/

https://carolchiovatto.wordpress.com/2012/11/29/impressoes-ou-resenha-de-territorios-invisiveis-de-nikelen-witter/

https://www.youtube.com/watch?v=we8P_D03Og4

http://www.concentrofoba.com.br/2013/03/territorios-invisiveis-nikelen-witter.html

http://blogdafads.blogspot.com.br/2012/08/territorios-invisiveis-de-nikelen-witter.html

http://linhasepensamentosdalivia.blogspot.com.br/2012/12/resenha-01-territorios-invisiveis.html

http://gra-zzy.blogspot.com.br/2013/01/resenha-territorios-invisiveis-nikelen.html

http://balaiodelivros.blogspot.com.br/2013/06/territorios-invisiveis-nikelen-witter.html

http://companheirasdeaventuras.blogspot.com.br/2011/11/conhecendo-nikelen-witter-entrevista-1.html

http://soliloquioadois.blogspot.com.br/2013/01/resenha-territorios-invisiveis-nikelen.html

http://www.skoob.com.br/livro/resenhas/261982/edicao:293574

http://blogdopainerd.blogspot.com.br/2012/12/territorios-invisiveis.html

Por fim, o vídeo com a apresentação das alunas do Ensino Médio na Feira do Livros de Catuípe, RS.

https://www.facebook.com/NikelenWitterescritora/videos

 

 

Só uma memória…

 

Gabriely-Baby-MacacC3A3o-Jeans-Peixinhos-Vermelho-Gabriely-Baby-3396-15022-1-product

Acabei de ler um texto sobre “amigos imaginários” e lembrei do meu. O post era sobre os “amigos imaginários assustadores”, aquele tipo de texto que aparecia antigamente na Revista Planeta ou num dos artigos da Revista Seleções, e hoje tem lugar em blogs nerds e/ou sensacionalista. Meu amigo não era assustador, mas foi imensamente presente quando eu tinha uns 3 ou 4 anos. Seu nome era Cristiano e ele era meu namorado. Claro, eu também me apresentava como Simone… Mas não julgue uma criança com um nome esquisito que via Selva de Pedra em preto e branco numa TV de tubão que virava chuvisco depois das 11 da noite.

Meus pais se lembram do Cristiano, assim como eu. Ele vinha lá em casa todos os dias, sempre de banho tomado, muito cheiroso, com talco no pescoço. Usava uma camiseta vermelha e branca e um macacão de jeans azul. Era educado e aceitava tudo o que eu impunha. Às vezes, nós dois apenas ficávamos sentados de mãos dadas, no sofá de napa vermelha com manchinhas mais escuras. Minha irmã ia reclamar para a minha mãe que eu não queria brincar com ela, ao que eu respondia: “não posso, estou namorando”. Meu pai se incomodava com o Cristiano. Um dia, ele achou que era hora de mandar meu amigo embora. Abriu a porta e o expulsou segurando pela gola da camiseta. Era noite e estava chovendo. Abri um choro frenético, acompanhada pela solidariedade da minha irmã que (no fundo) também gostava do Cristiano. Só paramos quando meu pai abriu a porta, vencido: “entra… Cristiano”. Foi uma festa! Esmagamos o menino com um abraço.

Um dia, simplesmente, o Cristiano se foi. Acho que ele se mudou. Eu tinha amigos que mudavam de uma casa para outra e sempre me pareceu traumático. Anos mais tarde, já adulta, estava falando no Cristiano e alguém perguntou: “quem é Cristiano?” A resposta veio da boca da minha irmã: “era um amigo imaginário que estava sempre com a Nika”. Fiquei impressionada com a lembrança e com a forma como ela construíra a frase e perguntei: “tu lembras dele?” “Claro”, respondeu a minha irmã. Rimos e ficamos por isso. Afinal, ela lembrava de minha fixação no amigo imaginário e não do amigo imaginário em si, foi o que pensei. Eu mesma não lembro de tê-lo descrito para ela, pois em criança isso não me parecia necessário e, depois de grande, eu praticamente esqueci..

Então, quando meu sobrinho mais velho fez um ano, minha irmã fez um poster do pequeno, que foi exibido na festa. Eu parei na frente e fiquei olhando. Minha irmã e minha mãe chegaram perto e ficamos elogiando o garoto, como a foto estava bonita e tal… Então me ocorreu de perguntar, meio por brincadeira, pois achei que era um acaso, já que não havia como ela saber o que eu guardava tão bem na minha cabeça: “Mana, por que tu vestiste o Ângelo de Cristiano?” “Hã? Eu não… Minha nossa! Eu realmente VESTI o Ângelo de Cristiano!”

 

 

 

 

Sobre a imposição de padrões de Beleza

padroes_beleza

Na semana passada, os alunos do curso de jornalismo da UFSM, na pessoa do Sandro Lacerda Schlemmer entrou em contato comigo para marcar um programa no qual me entrevistariam sobre a imposição dos padrões de beleza. Como passei a semana afônica, a entrevista acabou sendo por escrito. No final, combinamos que após o áudio ir ao ar, eu colocaria a entrevista por escrito aqui no blog, como um registro.

1 – Qual sua opinião sobre o assunto em geral?

Vivemos numa sociedade baseada na imagem. Somos bombardeados por elas o tempo todo. Revistas, jornais, TVs, internet. Esses veículos têm um poder quase ilimitado de fazer valer padrões estéticos idealizados e transformar esses padrões, que de fato não existem no mundo real, em algo que é normal. Ou seja, a exceção, aquilo que é extraordinário, diferente, passa a ser aceito pelas pessoas como se fosse o normal. Ao mesmo tempo é aquilo ao que você jamais irá se ajustar. Ninguém será tão magro quanto à modelo (que muitas vezes está morrendo para representar esse ideal), nem tão sarado quando o ator ou modelo que ganha dinheiro justamente por passar horas malhando. A imensa maioria das pessoas trabalha para comer, não para ficar “bonito” conforme esses padrões.InMySkin_interna1

2 – Você acredita que essas “regras” atingem mais as mulheres do que os homens?

É interessante pensar em termos de números. A maior parte dos anúncios e imagens que vemos dizem respeito às mulheres. São elas que estão nas capas da grande maioria das revistas, é o corpo delas que está exposto nos anúncios em grande parte das vezes. As roupas em que as mulheres aparecem são geralmente mais reveladoras, ou possuem a intenção de revelar. Os padrões estéticos sobre as mulheres estão de tal forma disseminados que mesmo as mulheres que não se sentem atraídas pelo corpo feminino passam a julgar os corpos das outras com base nesses padrões. Ou seja, somos bombardeados com uma superexposição e com isso passamos a assimilar ideais de beleza como a julgar isso. Nesse sentido, sim, as mulheres são mais atingidas pelas regras de beleza que, analisadas ao fundo, demonstram um cerceamento, uma limitação para todas as mulheres. Entenda, não é estar contra a beleza, mas quando esta é a maior ou a única preocupação, o que sobra para o resto da existência? Por outro lado, a insistência sobre a beleza feminina parece afirmar que o lugar ideal das mulheres é este decorativo, o de ser enfeite para o mundo.

36843 – Em sua opinião, os padrões de beleza para mulheres são definidos por homens?

Acho que é conjunto. Os padrões de beleza são definidos por uma cultura que privilegia o olhar masculino, mas isso não se reduz a homens ou mulheres. É uma questão cultural. Nossa cultura vê o masculino como protagonista, e as mulheres como acessórios. Ora, os acessórios ficam melhores quando são bonitos. Mas não dá para reduzir isso aos sujeitos homens ou mulheres, pois é maior.

4 – Afinal, os padrões são criados pelas indústrias, pela mídia ou pela sociedade?

Novamente é um conjunto. Um autoriza, endossa e alimenta o outro. Nos apropriamos das imagens e tentamos nos moldar a elas, fazendo isso, lhes damos legitimidade, reproduzimos, recriamos e fortalecemos. Nosso consumo é a base da coisa. Consumir um padrão X de beleza, faz com que ele se mantenha e se prolongue no tempo. Deixamos de consumir o ideal de mulheres com cintura de vespa (como foi no século XIX e nos anos 1950), mas passamos a consumir mulheres hiper magras, com ossos salientes. Moda e cultura são elementos para se pensar onde essas coisas surgem e são mantidas.

5 – Você acredita que esses padrões foram criados pelas indústrias para incentivar o consumismo?

141Os padrões estéticos existem em todas as sociedades. Cada uma a sua maneira. Se a indústria do mundo industrial usa isso? Sim, ela usa. Usa os padrões que nos são caros, transforma-os de acordo com a audiência e os reproduz para estimular determinados consumos. Mas, não, ela não inventou esses padrões.

6 – Você acredita que os padrões de beleza divergem muito ao redor do mundo hoje?

Sim, ainda hoje divergem. Apesar da imensa globalização midiática, os padrões de beleza regionais não estão completamente mortos. Talvez, em fase de agonia, mas não mortos.

7 – Como eram os padrões antigamente, como nas primeiras sociedades, na época medieval, Europa antiga e Ásia antiga?

padrão-de-beleza-durante-os-séculosCada época tem sua forma corporal e sua moda. Isso dá um curso inteiro sobre beleza. Há épocas em que corpos atléticos são o modelo da beleza, como foi entre os gregos, em outros, formas mais rechonchudas como no Renascimento. Há ainda determinadas modas que alteram o corpo para torná-lo apropriado a determinado padrão, como os pés quebrados e enfaixados das chinesas para se manterem pequenos; os cabelos raspados até a metade da cabeça das europeias do século XVI para aumentar a testa; os espartilhos, as sobrancelhas raspadas. Corpo, cultura e moda são inseparáveis para compreendermos cada época.

8 – E como eram há pouco tempo atrás no Brasil, como nos anos 40, 60, 80 e 2000?

Quando se estuda as décadas do século XX se percebe que boa parte do padrão estético proposto por cada uma só consegue ser percebido na posteridade. Isto é, só depois que nos desvencilhamos daquilo que a década propôs, conseguimos realmente entender a sua estética. Além disso, é preciso costurar esses modelos físicos com o mundo e a sociedade que o cercam. Nesse sentido, o cinema tem um papel bem importante em propor padrões de beleza, os quais não envolvem apenas uma beleza objetiva (se é que se pode pensar em algo assim), mas também cabelos, maquiagem, roupas, formas artificialmente dadas ao corpo por meio de certos exercícios, plásticas ou peças que moldem as formas. O Brasil foi e é, como o restante do mundo ocidental, uma presa desses valores. O principal desses valores, no entanto, não está na forma, mas no que cada filme ou publicidade parece afirmar, ou seja, de que a beleza é algo jovem. Se você não é jovem, não tem como ser belo. Isso se intensifica ainda mais numa sociedade de consumo e numa sociedade em que o valor do trabalhador enquanto experiência é descartado em nome de menores salários.

9 – Dietas, academia, cremes, loções, remédios… Saúde ou estética?

Na maior parte das vezes estética. A ditadura das dietas, os anúncios de “perca peso”, endureça, firme, etc. são elementos voltados a adequar os corpos comuns ao padrão estético dos corpos extraordinários que são veiculados pela mídia. Por outro lado, os anúncios que apelam para saúde, não raro começam a criar um clima de terrorismo, com o não pode isso, não pode aquilo. A gordura é a vilã; o ovo é o vilão; tudo o que não é industrializado é o vilão; o açúcar é o vilão (bem, esse tem bastante culpa mesmo, ainda mais nessa nossa cultura doce). O que quero dizer é que muitas pessoas acabam aderindo usando a saúde como desculpa, mas que no fundo vemos a tirania de um padrão estético. Veja: você está bem de saúde, seus exames médicos estão legais, você sobe escadas com fôlego e consegue brincar no final de semana com as crianças. Diga: por que raios você “precisa” perder 4 quilos?

10 – Qual sua opinião a respeito das cirurgias plásticas, implantes e demais tratamentos?

Para mim é um terreno delicado. Não é possível colocar tudo isso numa sacola só. O corpo é a base da nossa identidade e pode ser fonte de sofrimento psicológico e físico. Sim, há uma indústria que estimula isso e, em muitos casos, percebemos que se espalham procedimentos completamente desnecessários. Nesse sentido, uma cultura de aceitação do próprio corpo, de des-normalização dos padrões de beleza midiáticos, e até mesmo acompanhamento psicológico podem auxiliar em desinflar o apelo para as “correções” cirúrgicas. Mas eu não parto do princípio de que as intervenções cirúrgicas são más por definição. Eu mesma fiz redução de mamas e minhas costas até hoje agradecem, assim como a minha conta bancária, pois não preciso mais de roupas feitas sob medida. Quanto aos outros tipos de tratamento, há uma discussão que vai além da estética e que envolve os níveis de intervenção que estamos dispostos a aceitar em nosso corpo. Nesse ponto, compreender a imagem corporal que temos (e que é a soma de elementos individuais, sociais e culturais) é também uma forma de defesa contra os excessos.Barbie-02

11 – O que você acha das pessoas chegarem ao ponto de desenvolver distúrbios alimentares para se manterem a “bonitas”?

Ontem mesmo eu lia um texto sobre o tema. Aliás o segundo em pouco tempo. O primeiro que li foi Mulheres Famintas, da Lélia Almeida. O outro é Transtornos alimentares, uma questão feminista, da Carol Marques. As duas autoras apontam o fato de que muito do controle exercido sobre as mulheres vem dessa obsessão com o peso, fonte de instabilidade emocional, de “loucuras”, de doenças. Muitas mulheres nem mesmo tem outro assunto se não a questão do peso. Além disso, o padrão de beleza midiático tem se mostrado extremamente nocivo para o grupo mais frágil: as meninas. Estas passam a adentrar no martírio das dietas com medo do “supremo fracasso” que é o de não ser magra”. Claro que a obesidade infantil é também uma questão importante. De fato, acredito que ela é o outro lado da moeda. É recusa, resistência, mas também falta de informação, de controle dos pais, excesso de industrialização na alimentação, dificuldade em dizer o pedagógico não, falta horários. Todos estes elementos podem criar crianças obesas e/ ou adolescentes bulímicos. Nossas “loucuras” para atender aos padrões de beleza irreais da mídia não afetam apenas a nós. Os padrões ideais da mídia afetam o futuro. Afetam nossas crianças.

12 – Esses “defeitos”, assim julgados pelas pessoas, seriam baseados na saúde perfeita ou no consumismo que as indústrias desejam?

Essa assimilação entre beleza e saúde é um dos principais problemas com os quais nos deparamos. Até porque saúde não é se parecer com Gisele Bünchen. Saúde não é algo que deva ou sequer possa ser equacionado com um padrão estético de beleza. É uma falácia. O pior é que, aí, quem não se enquadra passa a ser visto como um candidato a doenças X e Y. O “defeito estético”, vira descuido com a saúde e, portanto, um defeito de caráter. É uma lógica perversa. Por outro lado, não dá para ver as indústrias como uma entidade que paira acima da cultura e da sociedade. Essas coisas estão juntas, ligadas, amalgamadas. É também importante destacar o papel que o julgamento moral que vem sob o julgamento estético tem outras consequências danosas, como a exclusão de grupos ou a auto-exclusão. Individualmente, isso pode ter efeito de tragédia, coletivamente é sim uma orientação para determinados tipos de consumo. Mas é interessante pensar que a mesma construção sócio-cultural que nos impõe a magreza como sinônimo de beleza, também nos faz ser obcecados por comida. Se fala de comida o tempo todo, se vê comida o tempo todo, se coloca a comida como um índice de civilidade e de nível de consumo. Empanturre-se de refrigerantes e fast foods, mas ai de você se não vestir 36.

 

Para finalizar, se você ainda não assistiu, vale uma olhadinha nesse vídeo.

 

A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells

Máquinas marcianas e seus raios de calor incendiando a Terra.

Máquinas marcianas e seus raios de calor incendiando a Terra.

Ontem, depois de algumas noites com pesadelos fugindo de marcianos, terminei minha leitura de Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. O livro era desejado há muito e o ganhei em meu último aniversário. Acho meio ridículo fazer aviso de spoilers num livro de mais de 100 anos com uma vasta filmografia e mil adaptações, mas se isso afeta você, fique sabendo que recomendo muito a leitura e pare por aqui.

A boa edição da Alfaguara, com tradução de Thelma Médici Nóbrega e Introdução de Brian Aldiss.

A boa edição da Alfaguara, com tradução de Thelma Médici Nóbrega e Introdução de Brian Aldiss.

Quando se lê um romance super icônico e altamente adaptado como este, costuma-se achar que se está prevenido. Que lerá a maioria das páginas do livro como um original de todos os clichês nos quais você cresceu imerso, seja pela TV, seja pelo cinema. Não se espera realmente surpresas. Como uma fã descarada dos escritores do século XIX e do início do XX, sempre pronta a me encantar com o muito que parece ficar escondido nas adaptações, mantenho diligentemente em minha bagagem de leitura uma visão histórica. Colocar o autor em sua época, tentar entender suas influencias e ideias conforme foram postas, ao menos, para mim, refresca a obra, a enriquece, a mantém absolutamente viva. Além disso, essa percepção me ajuda a escolher quais romances obrigarei meus alunos a lerem minha disciplina de História Contemporânea I (se algum estiver lendo esse post, já fique avisado que Guerra dos Mundos entrou na grade curricular da matéria).

Há casos, porém, em que as verdades de um bom romance extrapolam sua época, às vezes, até as intenções do autor. Então, não importa o tempo ou as adaptações, o livro será sempre uma surpresa, uma maravilha, um encontro com o prazer da leitura. Não, não acho que todo o bom romance seja imune à passagem do tempo, mas isso é assunto para outro post. Voltemos à Guerra dos Mundos.

Orson Welles e a célebre transmissão radiofônica do livro em 1938. O povo entrou em pânico e por muito tempo se achou que isso se devia à ingenuidade dos ouvintes daqueles anos. Hoje em dia, em tempos de internet, a tese da ingenuidade dos primeiros anos das mass media caiu por terra. Atire a primeira pedra quem nunca caiu numa notícia falsa da Web.

Orson Welles e a célebre transmissão radiofônica do livro em 1938. O povo entrou em pânico e por muito tempo se achou que isso se devia à ingenuidade dos ouvintes daqueles anos. Hoje em dia, em tempos de internet, a tese da ingenuidade dos primeiros anos das mass media caiu por terra. Atire a primeira pedra quem nunca caiu numa notícia falsa da Web.

Eu gostaria de destacar muitas coisas e cada uma delas guarda um universo. Ouvi muitas vezes o romance ser criticado por criar a imagem dos extraterrestres “maus”, que querem dominar a Terra e que passou a ser combatida em filmes como E.T, de S. Spielberg, e todos aqueles que imaginam de forma idealista que evolução tecnológica coincida com superioridade ética (interessante que Spielberg também dirigiu a versão mais recende de GM, aquela com Tom Cruise). Sinceramente, não foi isso que encontrei no livro, que, sim, me surpreendeu. Não vi nele nenhum marciano “mau”. Não encontrei nenhum dos clichês celebrizados pelo gênero invasão espacial, com heroicos humanos usando de planos mirabolantes e coragem suicida para livrar o planeta da destruição. Os humanos falham miseravelmente em todas as tentativas de guerra aos marcianos, que são tolas, canhestras e arrogantes. O que resta é a covardia, o medo, o desvario, egoísmo e toda a feiura humana que aparece nas situações limites. E, eu confesso, tive medo. Meus sonhos são testemunhas: tive muito medo.

Manchetes da época do programa de rádio de Orson Wells.

Manchetes da época do programa de rádio de Orson Wells.

Não é de admirar que cada leitor leia um livro diferente. Eu, por exemplo, li um livro que critica ferozmente o imperialismo, que coloca em cheque o conceito de civilização, de superioridade branca europeia e mesmo humana diante das outras espécies. Li um ensaio sobre os medos irracionais, a selvageria, a loucura. Li um ataque frontal às religiões de aparência (ou a qualquer religião, se você quiser). Li um lamento sobre os apoios ilusórios que nos são fornecidos pelas ideias de ser escolhido, eleito, especial, piedoso, abençoado. Para Wells, os marcianos não são diferentes do humanos (exceto fisicamente), assim como os humanos não diferem dos outros animais, sobre os quais exercem domínio, sem piedade, como se o planeta estive aqui unicamente para servi-los. Li críticas que acham o final previsível. Sério? O que seria não previsível? O gênio e a coragem humana derrotarem os alienígenas? O maior ataque de Wells é a própria arrogância humana. Inclusive e, especialmente, em seu desfecho, cujo trecho mais célebre, eu reproduzo abaixo.

Acontecera o que eu e muitos poderiam ter previsto se o medo e a catástrofe não tivessem cegado a nossa inteligência. As bactérias portadoras de doenças haviam castigado a humanidade e nossos ancestrais pré-humanos desde o começo dos tempos, desde que a vida começou no planeta. Mas, por virtude da seleção natural, nossa espécie desenvolveu resistência contra elas; a nenhum micróbio sucumbimos sem nos defender, e a muitos – àqueles que putrefazem a matéria morta, por exemplo – nosso organismo vivo é totalmente imune. Mas não há bactérias em Marte e, assim que os invasores chegaram, assim que começaram a comer e beber, nossos microscópicos aliados começaram a preparar a sua queda. Enquanto eu os observava, eles já estavam irremediavelmente condenados, morrendo e apodrecendo mesmo enquanto se moviam de um lugar para o outro. Era inevitável. Pelo preço de um bilhão de vidas, o homem comprara seu lugar de direito na Terra, que lhe pertence em detrimento de todos os invasores e que continuaria a pertencer-lhe ainda que os marcianos fossem dez vezes mais fortes do que eram. Pois o homem não vive nem morrem em vão. (p. 223).

 

Então, quando fechei o livro meu pensamento não foi apenas para romance perturbador e do qual realmente gostei. Veio-me imediatamente à mente aquelas horríveis propagandas que mostram criancinhas tomando banho e lavando as mãos com sabonetes bactericidas. Com aqueles pais e mães que acham que esterilizar casa, banheiros, quartos de bebês e até mesmo a pele é um índice de saúde, uma forma de proporcionar segurança e de eliminar as doenças da nossa vida. Estudei as práticas de cura por 10 anos da minha vida, destes, 4 anos foram dedicados ao estudo das epidemias. A minha compreensão de nossa interação com os microrganismos é muito semelhante à expressa acima (não me refiro a “possíveis invasões alienígenas”, mas a coisas bem terrenas). De fato, minha percepção do jogo entre nós a as micro-espécies é suficiente não apenas para que eu concorde com Wells, mas para que ache as tais propagandas potencialmente tão assustadoras quanto seu livro.

Tão saboroso, que não resisti…

casa-banho-bambu

“Que Deus me perdoe as críticas que vou fazer, mas as noivas de hoje são todas fúteis, desmioladas… As noivas de antigamente queriam casar-se com um homem que fosse sério, severo, dono de capital, que soubesse julgar as coisas e conhecesse assuntos de religião, mas as de hoje ficam tentadas pela instrução. A gente tem que lhes apresentar alguém instruído, mas, quanto a senhores funcionários ou gente do comércio, não se pode nem mostrar a elas, começam logo a zombar! Existem diversos tipos de instrução… Há, naturalmente, gente instruída que atinge altos cargos, mas outros passam a vida toda como escriturários e, depois, não se tem com que enterrá-los. Gente assim não falta agora. Costuma vir aqui um desses… instruídos… trabalha nos Correios… Sabe tudo, pode redigir sozinho os telegramas, mas lava-se sem sabão. Até dá pena de olhar!

(…)

“É um desses… de cabelos compridos! – Mikhailo piscou o olho – Desses que têm ideias… Agora, existe um despropósito de gente assim! Não se consegue caçar a todos… Como soltou esses cabelos, o esqueleto! Toda conversa cristã lhe repugna, como incenso ao tinhoso. Está defendendo a instrução! pois bem, é de gente assim que as noivas de hoje gostam. Gente exatamente assim, Vossa Alta Nobreza! Dá até nojo, não é mesmo? No outono, fui chamado por uma filha de um pope. ‘Você tem de encontrar para mim, Michel (nas casas, costuma me chamar de Michel, porque friso cabelo de senhoras), um noivo que seja escritor’. Ora, para a felicidade dela, eu tinha um assim… Ele costumava ir a taverna de Porfíri Iemieliânitch e ameaçar todos de publicar coisas no jornal. (…) Era fraco, maltrapilho. Tentei o com o dinheiro do pope, mostrei-lhe o retrato da moça e fui apresentá-lo. Arranjei para ele um terno alugado… Não agradou à senhorita! ‘Tem pouca melancolia no rosto’. E ela mesma não sabia que diabo estava querendo”.

Nos banhos, Anton Tchekhov