Sobre criar meninos: “O Touro Ferdinando”

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Ferdinando LivroEm 1935, Munro Leaf recebeu uma encomenda do ilustrador Robert Lawson e escreveu um pequeno conto pacifista: O Touro Ferdinando, que acabou sendo publicado no ano seguinte nos EUA. Às vésperas do início da Guerra Civil Espanhola, o conto passado na Espanha foi interpretado como antifascista e acabou sendo proibido em diversos países.

Nos EUA, porém, o pequeno livro com ilustrações em P&B fez tanto sucesso que em 1938, Walt Disney transformou o conto em um curta. O desenho novamente fez sucesso. Povoou gerações de infâncias, inclusive a minha. Meu primo, minha irmã e eu nunca perdíamos quando o desenho passava, nas inúmeras reprises do universo anterior à TV à cabo.Ferdinando-o-Touro

Por algum motivo – e não imagino que essa fosse uma intenção clara dos estúdios Disney – os longos cílios piscantes de Ferdinando fizeram que com que boa parte de seus fãs o identificassem com um touro gay. Uma série de estereótipos sobre feminilização pesou nessa interpretação, sem dúvida (tanto para quem fez, quanto para quem assistiu).306376

Quando foi anunciado o longa, confesso que fiquei super empolgada. Não sabia nada sobre a jornada do livro, mas o desenho sempre me foi caro. Ora, eu amava o touro Ferdinando e queria dividi-lo com o meu filho. O fato de Carlos Saldanha ser o diretor apenas recomendou o filme. Gostamos muito dos Era do Gelo e Miguel adora Rio.1597315.jpg-r_1020_458-f_jpg-q_x-xxyxx

Fomos assistir ao longa no último domingo em família, junto com os três meninos (Miguel e os primos) que se divertiram muito. Nenhum deles achou que Ferdinando fosse gay e, pelo que li nas entrevistas de Carlos Saldanha, essa não era a intenção primordial do estúdio. Preferiram focar na questão da tolerância e na aceitação das diferenças. De fato, todas resenhas e críticas do filme salientam isso. Algumas destas chegam a colocar isso em termos um pouco jocosos (parece que nem todos gostam da ideia de se aceitar diferenças), mas mantém a propaganda do filme. Outros ressaltam as reviravoltas, do roteiro e reclamam disso como algo excessivamente esticado.Interna01

Não vi isso. E acho que os meninos que me acompanhavam também. O Touro Ferdinando é engraçado, tem gráficos excelentes (eu pirei nas telhas das casas espanholas), um ritmo ótimo e momentos antológicos (como a disputa de dança entre cavalos e touros). Mas não sou crítica de cinema, sou uma escritora feminista e mãe de um menino e o que eu vi foi o seguinte:

Ferdinando – que na versão original tinha uma mãe – tem um pai. Um modelo de masculinidade. Bravio, violento com o mundo, doce com ele – nem todos são assim, há uma outra dupla de pai e filho em que a exigência da violência em todos os campos se faz, o tourinho Valente e seu pai. Essa doçura se reflete na admiração de Ferdinando pelo pai, mas ele é diferente para além disso. Todos descrevem Ferdinando como gentil, mas é mais que isso, ele é um pequeno macho que não acredita que brigar possa resolver qualquer coisa. Veja, isso não significa ser passivo ou não lutar pelo que acredita (o que fica claro no Ferdinando adulto), apenas significa um outro caminho.

Cedo, Ferdinando se dá conta de que a bravura e a coragem não são suficientes. Que isso não é uma salvaguarda. Que ser violento não é a resposta para a vitória. Quando o pai não volta da tourada para viver como um rei, como ele havia prometido, Ferdinando realiza sua derrota. No futuro, essa percepção ganhará o contorno de “o touro nunca vence”.Ferdinand-movie-john-cena-manning-600x400

Mas eu vi algo além do libelo contra às touradas – que também aparece em outra animação brilhante Festa no Céu –, algo que já na metade do filme mal deixava eu me conter na cadeira.

Eu vi na animação uma fábula sobre criar meninos nesse novo século. Criar meninos com outros modelos de masculinidade que não a violência, temerária e tóxica, emulada pelo machismo estrutural. Ferdinando é pacífico e não passivo; não acredita na violência, não acredita em cada um por si; não acredita em competir, mas em cooperar. Ferdinando não acredita que aquele que não se encaixa – por ser muito pequeno, medroso, ter uma deficiência ou falhar – deva ser descartado ou visto como menos importante. Ferdinando é um macho diferente e, nesse sentido, acho que é até interessante que o subtexto gay tenha perdido a importância. Ser menino – independe de suas orientações sexuais – é que é o tema aqui. E, nossa, é brilhante.

Sem spoilers, o final é arrebatador justamente por mostrar que essa masculinidade nova pode ser aceita e trazer felicidade. Essa nova masculinidade pode ensejar um mundo diferente: cooperativo, pacífico e, bem, com amor. Coisas que precisamos ensinar aos nossos meninos para que o mundo deles e o nosso sejam muito melhores.443623.jpg-c_215_290_x-f_jpg-q_x-xxyxx

Nunca amamos tanto nossas crianças, e ainda não as amamos o suficiente

Sobre “A Infância no Brasil”, de José de Aguiar

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Creio que poucas publicações para o grande público tem o impacto de A infância no Brasil. A HQ de José Aguiar, publicada pela Avec Editora neste último ano de 2017, consegue esse efeito raro. O quadrinista escolhe tratar de um assunto bastante espinhoso: ser criança num país múltiplo e desigual como o Brasil. Mais que isso, o autor não se furta a fazer uma viagem pela história violenta e cruel do país em que vivemos.

Ao longo de suas páginas desfilam caravelas, povos indígenas, missionários jesuítas, bandeirantes, escravocratas, crianças abandonadas na roda ou fugindo de seus algozes. Mas, em cada século, o autor faz uma comparação com o princípio do século XXI. O que mudou e o que não mudou tanto assim estão ali.a-infância-no-brasil-jose-aguiar-avec-editora-post-cosmonerd-4

O bandeirante que quer um filho macho e o ultrassom celebrado pelo casal de classe média que mostra uma menina. Os indígenas apresados como escravos que entregam suas crianças aos jesuítas e os povos desenraizados que vendem cestos nas vias públicas para sobreviver. As crianças abandonadas e famintas de qualquer século. Os filhos nascidos nas senzalas e os que estão encarcerados com suas mães nas doentias prisões brasileiras. O cinema que faz o deleite das crianças operárias e os filhos de papeleiros que pedem nos sinais.

Não é uma obra fácil de ser lida e vista. As ilustrações são poderosas, trazem subtextos doloridos, batem direto em nossa ignorância, mas ainda mais forte em nossa indiferença.

O que faz uma criança ser diferente da outra?

O que faz uma infância ter mais direito que a outra?infancia_cap06_p02A_PT

O que faz um juiz achar que uma menina de 13 anos que se prostitui é uma mulher; e que protege sua filha, da mesma idade, com o zelo amoroso de quem a deixa na porta da escola e cuida para ver se ela entrou direitinho?

Lembrei de meu filho, aos 8 anos, chocado por saber que nazistas – que mandavam crianças em fila para as câmaras de gás – podiam ser bons pais. Ele também acha que sou uma mãe maravilhosa; mas o que sabem nossos filhos de nossas pequenas maldades, de nossa indiferença para com os outros, nossos pré-julgamentos e preconceitos?

O fato é que, para além da História do Brasil, pelos olhos quase sempre tristes de boa parte de nossas crianças (para não dizer a maioria), José Aguiar propõem outras questões. Profundas e filosóficas perguntas como: o que é ser bom? O que é cuidado? Como podemos amar tanto os nossos filhos e fechar os vidros dos carros para as crianças que estão do outro lado?a-infância-no-brasil-jose-aguiar-avec-editora-post-cosmonerd-5

As respostas podem parecer fáceis, mas a HQ deixa claro que não são. Ela vai a nossa história de dor e desigualdade. Mostra que o Bem se modifica a partir dos pontos de vista e da cultura. E deixa claro que o conceito do que é infância, do que é ser criança, não é apenas mutável no tempo, as também a partir do nosso lugar social.

José Aguiar faz uma obra poética e forte, sem cair no didatismo. Contudo, deixa claro que seu trabalho teve por base uma pesquisa histórica de fôlego, e baseada em uma historiografia de ponta, a qual, bem indicada, aparece ancorada em metodologia científica e em uma documentação amplamente analisada.noticia_583696_img1_esp2f1

É uma obra fundamental, penso. Para se ter em casa e provocar perguntas aos pequenos privilegiados que criamos. Porém, como professora formadora de professores também indico-a fortemente para ser usada nas escolas. Em especial a partir dos 5º anos do Ensino Fundamental, tanto nas aulas de História, quanto de Língua Portuguesa ou filosofia. Aos professores, indico também a leitura da obra História das Crianças no Brasil (já indicada por mim no portal Sul21), organizada pela historiadora Mary Del Priore (que, aliás, assina o prefácio da HQ). Creio que eles perceberão que as duras, mas poéticas imagens e texto de José Aguiar “pegam leve”, pois a realidade de abusos de nossos pequenos pode ir ainda mais longe.

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