O tempo sem o poeta

Decorei minha primeira poesia quando estava na segunda série primária e foi um dos sonetos de Rua dos Cataventos, de Mario Quintana. Aliás, foi só uma das inúmeras poesias dele que ainda sei recitar de cor. Tive vários namoros com a linguagem poética. 
Como declamadora (eu era do time do colégio) adquiri uma má vontade especial com os que declamam  (mais ou menos no mesmo tom de Quintana, que acusava “as declamadoras” de assassinarem as poesias). A má vontade é ainda maior com os que declamam poesias campeiras (e se pautam pelos versos da batatinha), mas isso é outra história.
Flertei seriamente com as palavras e, até mesmo tentei, ensaiar a escrita poética, o que me rendeu uma postura algo radical sobre o tema: a poesia não é para todos. Felizes os que tem talento, mas sejamos honestos, a grande maioria resta patética nas tentativas. A poesia é exigente e ingrata. Obriga a um tal domínio de elipses e imagens que, apesar dos aventureiros, não se reduz ao confuso e ao excesso de adjetivos ou, o que há de pior, a colagem aleatória de palavras de impacto.
“O sangue jorra brota da alma em fogo crepitante de um desejo mórbido, escolástico.”
Eca! Como ex-aventureira, acabei aprendendo que a poesia, o fazer poesia, é para quem pode e não para quem quer. Desejar ser poeta não é suficiente. Apesar das inúmeras oficinas – eu fiz uma excelente com o Orlando Fonseca – é difícil ensinar técnica poética como se ensina técnica literária. A poesia, sim, deve brotar da alma. E quem a alimenta não é o amor adolescente ou as perdas ou a dor, é o deslumbramento com o mundo, o olhar para ele como se sempre fosse novo e extraordinário. Foi o olhar que Quintana deixou em seus poemas, por toda a vida, e que tem me acompanhado por toda a minha. 
Neste dia, lembrar de Quintana é lembrar da doçura com que ele encadeava as palavras e nos fazia (e ainda faz) voar nelas, sorrir e, claro, se encantar com o mínimo que, nele, é o máximo.
A Rua dos Cataventos
I
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…
Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!
II
Dorme, ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…
Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…
O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…
Só os meus passos… Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…
(este é o que eu decorei por primeiro)
III
Quando meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se…
Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.
Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio…
As famílias, que haviam de dizer?
Nenhum milagre é permitido agora…
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!…
IV
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente,
Nem é deste Planeta… Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…
E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda…
Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!…
V
Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.
Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola…
Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.
Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…
VI
Avozinha Garoa vai cantando
Suas lindas histórias, à lareira.
“Era uma vez… Um dia… Eis senão quando…”
Até parece que a cidade inteira
Sob a garoa adormeceu sonhando…
Nisto, um rumor de rodas em carreira…
Clarins, ao longe… (É o Rei que anda buscando
O pezinho da Gata Borralheira!)
Cerro os olhos, a tarde cai, macia…
Aberto em meio, o livro inda não lido
Inutilmente sobre os joelhos pousa…
E a chuva um’outra história principia,
Para embalar meu coração dorido
Que está pensando, sempre, em outra cousa…
VII
Para Dyonélio Machado
Recordo ainda… E nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!…