Como criar um leitor

Um leitor em criação.

Um leitor em criação.

Apesar do título, este não é um post de autoajuda. Também não pretende seguir uma linha Mary Shelley de criação. É um post sobre experiência. Uma sucessão de tentativas mais ou menos bem sucedidas e ainda incompletas. Sobre uma experiência materna/paterna e não do lugar de educadores (disso, posso falar num outro momento).

Quando começamos a imaginar o Miguel, deixamos uma grande margem de liberdade. Fazíamos votos que ele herdasse algumas características fenotípicas, que tivesse algumas inclinações. Duas coisas, porém, resolvemos não dar tanta margem de liberdade. O time do coração (no caso do pai dele) e o fato de que não queríamos apenas um filho, a gente queria um leitor. E decidimos agir proativamente para isso.

Eu sei. Vai ter quem diga: “Ora, vocês dois são leitores, é claro que ele também será.” Bom, eu não acredito muito nesse tipo de lógica. Embora o exemplo seja importante, já vi muito pai/mãe leitores criar filhos que acham que livros servem para nivelar estantes. Então, sinceramente, achei que não deveria deixar margem ao acaso.

Antes mesmo de o Miguel nascer, estava preocupada em adquirir lentamente os livros que eu queria que o cercassem (inclusive, escrevi sobre isso aqui: A biblioteca do Miguel). Mas, decidi, não bastaria que ele apenas visse livros à sua volta, então, fui criando, meio desajeitada e meio planejadamente, algumas técnicas.

  1. O livro de banho. Os livros de banho são ótimos. Coloridos, de fácil manuseio, vão à qualquer lugar, são mordíveis, babáveis, podem coçar gengivas, serem desinfetados com álcool, alguns tem até barulho. Mais que brinquedos, se tornam parceiros. Companheiros que se pode folhar. Fiz ponto aqui.
  2. Livros com música. Usei muito para fazer o Miguel dormir. Folhava as páginas, mostrava as figuras coloridas, fazia tocar a música que eu cantava ou cantarolava o que vinha escrito na página. Por que? Associação: página, música nova e a minha voz. Sempre uma novidade. A cada página uma surpresa. Quantas vezes repeti cada livro? Infinitamente. Os pequenos amam repetição e eu dei toda a que o Miguel pediu. Só trocava quando ele cansava ou eu estava quase surtando com a musiquinha.

OBSERVAÇÃO: Alguém vai dizer: “que bom que você tinha tempo para fazer isso pelo seu filho”. Bom, falando claramente, acho que tempo ninguém tem. Eu abdiquei da minha hora de leitura, eu trabalhava até às 22 ou 23h da noite. Apenas, bem, como eu disse acima, meu projeto não era só um filho, era um leitor. Seguindo…

3. Livros com folhas cartonadas e barulho. Miguel tinha 1 ano e 6 meses quando me pediu o primeiro livro (sim, conto isso como vitória). A obra em questão tinha folhas acartonadas (aquelas mais grossas) e um botão azul que soltava o apito de um trem. Como sei que ele me pediu, se ele mal falava? Vimos o livro num dia e no outro ele me puxou para a loja dizendo piuí, foi até a prateleira, pegou o livro e abraçou. Eu achei eloquente. Tivemos um longa linhagem de livros sobre trens e caminhões e outros veículos nessa época.

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

4. Livros baratos. Pois é, sabem aqueles livros fininhos, que a gente compra em bando, custando cerca de 0,75 centavos (preço da época) e que tem contos de fadas tão mal adaptados que dá horror de ler? Pois é. Comprei uns quantos daquele e larguei nas mãos do guri. O objetivo era que no processo de refinar seu processo de apreensão e motricidade fina, eles o pudesse rasgar sem perigo de grande perda. O que eu fazia quando os livros apareciam rasgados? Um dramão. Dizia que ele tinha feito algo muito feio, fazia de conta que o livro chorava, fazia curativo com fita adesiva, embalava o livro e dizia que tudo ia ficar bem, fazia o Miguel pedir desculpas para o livro. Você dava um livro só para poder passar um pito no seu filho? Exatamente. Pergunte hoje o que ele acha de livros rasgados, queimados ou proibidos, vai pergunte!

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

5. Livros Brinquedos. Esse tipo de livro foi um desafio. Para mim, não para ele. Eu sabia o que o estava atraindo e sei que muitos pais se enganam nessa fase. Dizem ele/ela adora livros, quando na verdade as crianças não estão nem aí para as letras ou a história, mas apenas para o brinquedinho que vem junto. O que ocorre é que o entendimento do livro como brinquedos, faz com que muitas crianças abandonem ambos quando começam a transicionar para outros interesses. Eu sempre fazia questão de ler as histórias. Quando o Miguel não se interessava por elas, em algum momento iria ouvir-me cortar algum tipo de privilégio ligado ao consumo. Por outro lado, encarei como uma fase, depois de um tempo, passei a dizer que ele somente ganharia o livro se me mostrasse a história e que os livros com brinquedos eram para bebezinhos (não me olhe assim, não há jogo limpo quando se cria um leitor).

Por outro lado, os livros também podem “ser” brinquedos. Veja o vídeo abaixo.

Cuidado!… Cuidado!!

O FATO É QUE: Encher a casa de livros não adianta nada se você não lê… com ele/ela (falo das crianças).

6. Lendo com as crianças. Por algum tempo estudei a História da Leitura, mas não precisaria disso para saber que durante cerca de 98% da nossa história, a esmagadora maioria da humanidade foi completamente analfabeta, iletrada, esteve longe das letras e dos livros. Ainda assim, as pessoas contavam e sabiam histórias. Quando os níveis de leitura começam a crescer no século XIX não se está falando apenas de maiores níveis de alfabetização, mas também do que viemos a chamar de leitura partilhada. O fato de alguém não estar alfabetizado não o impede de ser um leitor, desde que a leitura seja compartilhada. Não basta pegar um livro na beira da cama da criança e ir contando com base nas figurinhas ou do que você lembra da História de João e o Pé de Feijão. A leitura partilhada é ler. Prestar atenção ao texto, às linhas, aos parágrafos, ao ritmo de cada página. Perceber o que desperta a criança, o que a embala, o que a entedia. É uma troca. É envolver a criança no texto e conversar com ela sobre ele.

Nessa fase, marquei meu primeiro ponto lendo Branca de Neve para o Miguel. No meio da história ele me faz parar a leitura e comenta: “são folgados esses anõezinhos, hein?” Por que? “Ora, mãe, você me disse que eles não são crianças, mas eles querem que a Branca de Neve faça tudo para eles”.

Hoje, contabilizo mais pontos. Leitura de A Fantástica Fábrica de Chocolates (duas vezes em sequencia); Charlie e o Elevador de Vidro; toda a coleção do Capitão Cueca (12 livros, recomendo); os 7 volumes de Harry Potter; O feiticeiro de Terramar (da Úrsula Le Guin); O bom Gigante amigo; Matilda (Roald Dahl é sucesso absoluto, estamos esperando As Bruxas)…

Agora, ele começa a ler no ritmo dele, está descobrindo HQs, mas mantém os livros na leitura partilhada, vendo neles também uma fase de aprendizagem. “Logo vou ler esses sozinho, não é mãe?”  É.

Eu tinha 13 para 14 anos, era 1987…

Que país é esse

Escritos de adolescência, em geral, causam vergonha. Os meus não são diferentes. Ontem, porém, dia 11 de maio de 2016, dia tão difícil para o Brasil, encontrei esse poema, da época em que me atrevia a poesia engajada (atualmente acredito que a poesia pede talento muito superior a qualquer um que já tive). Essa época, entretanto, era intensamente inspirada pela leitura apaixonada de Que país é este?, de Afonso Romano de Sant’Anna, o qual eu declamava no clube de declamação do Colégio Centenário, sob a orientação da fantástica Professora Norminha.

A Norminha e outros, como o Professor José, foram grandes incentivadores da minha escrita. Mas também tive professores incentivadores do meu engajamento, como a professora Soni, a Professora Ivete, a Professora Hugélia, o Prof. João Rodolfo, a Turca (prof de filosofia), a Deise de biologia (estas ultimas também incentivadoras do meu feminismo). Devo muito, muito a el@s. E a profissional que sou hoje também deve.

Hoje, numa época em que se quer falar de escola “sem partido” (a falsa neutralidade que oblitera o conhecimento e o ensino), eu rendo homenagem aos meus professores. Esses incríveis e maravilhosos professores que, em tempos de difícil abertura política da década de 1980, foram faróis e jamais negaram seu papel de educadores.

Trago para este texto para blog como um registro. Do que muda e do que não munda. O Brasil mudou e não mudou. Que correu largas distâncias e hoje volta sobre os seus passos. Eu mudei obviamente e, em muitos sentidos, nos mais profundos dos sentidos, eu também pouco mudei. Nem pretendo. Como se diz atualmente nas redes #soudessas.

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A coisa toda do nome

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Nomes são complicados. Quem nunca pensou sobre isso é porque jamais teve de nomear nada. Poucas coisas exigem tanto quanto nomear alguma coisa ou alguém. As coisas são mais fáceis, eu admito. É possível nomeá-las por sua função. No entanto, pense comigo e imagine a primeira pessoa que deu ao pente, seu nome de pente. Daí veio pentear, mas o quê? O cabelo? Como foi que se ligou a palavra pente com a palavra cabelo? Pente, lembra pelo, mas só forçando muito a amizade.

Existem ciências que se dedicam unicamente ao histórico das palavras. Como foram criadas, como se desenvolveram, como começaram designando uma coisa e, depois, passaram a designar outra. É fato, as palavras caminham no tempo, e ganham estatura com ele. Ou podem diminuir e sumir.

Mitologicamente, dar nomes é nossa função mais primeva. Deus não chamou Adão e o mandou nomear a criação? Atividade que ainda chamamos de função adâmica. E lá vamos seguindo nossos dedos e apontando e dando nomes. Mais adiante inventaram-se também os adjetivos, mas essa é outra história, afinal, os adjetivos são os pais da crítica, essa horrível faladeira que cola nossos nomes ao que não somos, não queremos ou não gostamos de ser. A crítica dá nomes aos nomes.

Se nome de coisa é difícil. Imagine nome de bicho ou de gente. Minha irmã e eu geralmente usávamos nomes de novelas nas ninhadas de cãezinhos que nasciam lá em casa. Num verão particularmente sem nem nada de emocionante na TV, os filhotinhos foram nomeados: Nãodigo, Játedisse, Nãolembro, Ésegredo, etc. Algumas crianças têm nomes favoritos (que, claro, podem mudar). Minha prima Fernanda queria nomear tudo de Marcelo. Meu filho está apaixonado pelo nome Guilherme, que agora é também o nome de um resplandecente Beta Vermelho nadando na minha sala.

O estudo dos nomes de pessoas se chama Antroponímia (de antropos = homem [ainda no sentido de humanidade] e nímia/nomos/nome) e dialoga com diferentes ciências e pesquisas. Os nomes seguem modas, têm ápices, e quedas. Isso significa que chegaremos a um tempo que somente os muito velhos se chamarão Rodrigo ou Lucas, como hoje já não vemos nenhuma Emerenciana ou Genoveva. É certo que nomear uma criança, um filho, não é fácil. Afinal, a pobre criaturinha há de carregar esse nome como fardo e identidade para o resto de sua vida e isso dá uma responsabilidade enorme aos nomeadores. Tanta e tanto que é muito comum ouvir os pais relatando sonhos em que os nomes dos filhos aparecem magicamente. Sem desfazer dos sonhos meus amigos, é bom lembrar que eles ajudam a dividir o peso horrível de nomear com o transcendente ou, se permitirem, algo do tipo: “seu nome é esse, mas a culpa não é só minha, entendeu Vitoriana Mariah?”

Complica tudo se formos dissertar ainda sobre a história e forma dos sobrenomes. Cada cultura lida de forma diferente com eles. Alguns colocam apenas o sobrenome do pai (e engolfam a mãe nesse jogo de posse familiar), outros colocam o nome do pai na frente, outras culturas (como a nossa) ao fim. Há aquelas que empilham nomes e as que flexionam estes com o gênero – no Brasil dos séculos anteriores ao XX era comum encontrar uma Joana Pedrosa, filha do Pedroso. Há casos em que as mulheres usavam somente os sobrenomes maternos, e outros em que os sobrenomes se dividiam, o pai nomeava o primogênito, a mãe o segundo e aí por diante. Isso complica bastante para os historiadores que gostam de conhecer suas gentes e persegui-las pelos nomes História adentro.

Voltando aos primeiros nomes, atualmente, estão na moda os simples e de raiz portuguesa (ao menos na classe média, à falta de uma definição sociológica melhor). Assim, pululam Pedros, Joãos, Luisas e Manuelas. Gabriel foi uma febre e agora é Bernardo e Miguel (é, pois é, em defesa, escolhi quando a febre era Gabriel). Quando nasci, há 40 anos, nomes diferentes é que eram o grito da moda. Se tivessem letras inexistentes no alfabeto da época (K, Y, W) melhor ainda. Se eu fosse menino, me chamaria Lawrence, como o Lawrence da Arábia, nasci menina e veio Nikelen. Me escapei a risco de um Y, mas ganhei um K (solitário, sem C para acompanhar e, ao meu ver, um pouco mais digno que um QU). Era diferente. E isso bastava para meus pais, que também achavam (e acham) meu nome lindo.

Acreditem, não foi nada fácil crescer sendo Nikelen. Não foi uma, nem duas vezes, em que eu chorei e perguntei: por que não me chamo Cláudia, Fernanda, Andreia? Eu odiava ser a “Ni… o que?” dos professores. E por um tempo, lá pelos 3 ou 4 anos, eu me apresentava como Simone (sim, eu tinha um namorado invisível chamado Cristiano). Outra vez troquei por uma semana de nome com uma amiguinha e virei Nichele. Nossas mães recusaram a troca como ilegítima, vejam só. Quando comecei a escrever, ainda envergonhada do resultado, usei pseudônimo, ninguém jamais me disse nada. Quando comecei a usar o meu nome, perguntaram se era pseudônimo. E recebi sugestões de não me apresentar como autora brasileira, afinal, com um nome desses… Em suma: o amor ao meu nome foi uma construção bem difícil.

Ainda penso que algumas tribos indígenas é que têm razão: deveríamos dar um nome de criança, algo a agradar aos pais e diminuir o incômodo de nomear de bebê, nenê, gurizinho, guiriazinha, mana, mano, etc. Depois, mais velhos, nos nomearíamos, esplendorosamente como quiséssemos. Provavelmente, alguns passariam o resto da vida nos diminutivos, mas… ora, viva a liberdade de escolha.

Sendo assim, nomear este blog – uma coisa minha, pessoal, manifesta – não foi fácil. Acabei lembrando do conto imortal de Andersen (para derrubar os que acham que Sapatinhos Vermelhos foi uma escolha fashion de minha moda pessoal). Sapatinhos Vermelhos é uma história de obsessão, forte e dolorosa. Me diz muito, pois luto com várias obsessões todos os dias. As que preciso me livrar e as que cultivo, me apego, e defendo. Sempre me foi um nome visceral, já que o meu, vindo de uma história conflituosa, ainda era difícil de usar como bandeira.

A troca do nome do blog, se você está pensando que este é um post confessional de auto aceitação, é, na verdade, prática. Tenho desenvolvido trabalhos em várias frentes: como educadora, como historiadora, como escritora, como ativista social e feminista. Tudo isso sou eu e tem meu nome. Tudo isso, assim como o blog, são espaços e matéria de mim. Em tempos de Google, diversificar nas nomenclaturas pode não ser a melhor opção para fazer as engrenagens se movimentarem.

Assim, como os gregos antigos, resolvi unir nome e potência, e ser tudo isso.

Bem vindos: a casa é velha, mas a pintura é nova.

 

Experiência

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Costumamos idealizar a experiência como algo que começa a fazer sentido no momento em que nos ocorre. Tenho a impressão, inclusive, que só compreendemos realmente como experiência aquela mistura que ensopa pequenos e grandes traumas no acúmulo do tempo. No entanto, uma experiência – naquele sentido construtor e modificador – pode acontecer muitos anos depois de um fato (bem banal) ter ocorrido com a gente. Alguns superestimam isso, chamam até de iluminação. Merma, Bacco! Nem tanto. Contudo, é realmente extraordinário quando a poeira assenta e realizamos o que, por anos, esteve escondida atrás dela.

Em 1988, eu cursava o primeiro ano do ensino médio (2º grau, na época). Minha escola contava com uma disciplina que, hoje, considero brilhante e inovadora: Introdução à Pesquisa ou IPE. É possível que ela não tenha marcado tanto aos meus colegas quanto marcou a mim, mas naquela época, eu sonhava em fazer pesquisas e escrevê-las (não sabia bem sobre o que, mas o método me fascinava). O foco da disciplina era o de dar aos alunos a oportunidade de conhecer como eram elaborados projetos, recortados os temas, construidas as problemáticas e os instrumentos de pesquisa. Além disso, forneceu meus primeiros contatos com as normas técnicas textuais que viriam a dominar minha vida acadêmica anos depois.

Após formarmos os grupos de trabalho para o semestre, saímos à cata de algo que envolvesse a nossa cidade, que tivesse algum grau de polêmica e que afetasse a vida das pessoas. Não foi difícil. Meu grupo habitual de trabalho e amizado morava em um mesmo bairro. Até bem pouco tempo, esse bairro havia sido dominado mais por construções de alto padrão do que por casas habitadas. Todavia, tanto os novos quanto os antigos moradores eram acostumados à uma vizinhança calma, pacata, as pessoas se conheciam, se identificavam. Mesmo a contrução de uma grande avenida cruzando o bairro não havia mudado muito dessa vidinha.

Pois, exatamente por volta de 1988 (talvez um pouco antes) foi decidido que a nova rodoviária seria construída no bairro, o que, obviamente, iria mudar de forma significativa o cotidiano de todos os moradores do lugar. Com base nisso e até mesmo pensando que a geração que viria após a nossa não se criaria brincando na rua, como nós havíamos crescido, montamos nosso intrumento de pesquisa de opinião e saímos à campo. Obtivemos algumas respostas simpáticas de donas de casa (mais preocupadas com o nosso trabalho escolar do que com a pesquisa em si); evasivas dos comerciantes, enquanto outras pessoas simplesmente se recusaram a responder. Até aí, imagino que estivéssemos dentro de um padrão. Mas hoje, me recordo, havia um algo bem diferente do mundo cheio de opiniões em que vivemos atualmente. Não era que as pessoas não tivessem uma opinião sobre o fato, elas não queriam dar sua opinião, não queria seus nomes registrados, não queriam dizer o que pensavam. E por quê? Isso eu percebi naquela época. Por medo. As pessoas tinham medo de 4 meninas de escola, tinham medo de seus nomes anotados em papéis dizendo o que elas pensavam e que elas pensavam.

Minha recordação mais forte é a de um senhor que morava em uma casa verde, há cerca de duas ou três quadras de onde eu havia crescido. Ele conversou conosco, mas só o fez para nos convencer que éramos novas demais para se meter com aquilo! “Aquilo”? Mas “aquilo” era somente um trabalho de escola. “Não, meninas, vocês não sabem. Não entendem como é. Eles sabem tudo.” Mas a gente só que saber a sua opinião sobre a rodoviária e a estrada que vai passar aqui na frente da sua casa. “E o que vocês querem que eu responda?” Isso, a gente quer a sua opinião. “Não. Eu respondo o que vocês quiserem que eu responda. E não põe meu nome aí! Nem o número da casa!”

Eu lembro do quanto fiquei chocada. Ele tinha idade para ser meu avô e reagiu com medo… de mim. Meu pai me explicou sobre os anos da ditadura e eu sabia que a repressão tinha sido terrível. Minha professora ouviu nosso relato e também conversou conosco, aletando sobre o fato de não sabermos exatamente do que o velho senhor tinha tanto medo. Eu nunca duvidei da explicação do meu pai, mas não tinha idade ou experiência ou, mesmo, leituras para compreender o tamanho daquilo com que minhas colegas e eu havíamos nos deparado.

Esta semana, estudei com meus alunos textos sobre o Terror de Estado durante as ditaduras latino-americanas. Falamos sobre as mordaças instaladas na educação, na cultura, nos centros de conhecimento e saber. Na mordaça velada em jornais, rádio e TV. Falamos sobre a cultura do medo, instalada em cada período em que a democracia é colocada nos porões, torturada e mantida sob armas. Então, eu voltei a 1988 e à pequena varanda da casa verde escura, próximo à hora do meio-dia. E lá estava o senhor de bigodes brancos, com mais roupas que o necessário para aquela hora da manhã. Ele nervosamente nos perguntava o que queríamos que ele achasse, pedia muito que deixássemos de fazer aquelas coisas e que nunca, em hipótese alguma, deveríamos dizer onde era a casa dele.

Se tenho alguma experiência sobre os anos de chumbo, elas me foram passadas, mais que por qualquer outra coisa, pelos olhos daquele homem. Mesmo que essa experiência só tenha feito sentido depois de muitos anos e de muita leitura, ela é forte, poderosa o suficiente para que sua dor e trauma ainda me atinjam. E para que eu nunca esqueça disso é que eu resolvi contar aqui.

 

Aniversário

Eu sempre disse que eu era uma garota fácil. Bastava me dar um bombom, uma flor e um livro. 
Claro que tinha de ser o bombom certo
O livro certo
E as flores certas
Quem acertasse, levava. 
Ah, tinha de ser o cara certo também.
Há 20 anos.

Dia de Bolo – Fubá

Ouça enquanto lê


A memória nos engana. Tece paraísos onde não havia mais que o ordinário. No entanto, o tempo nos faz misturar lembranças e, quando olhamos para trás, ficamos com uma nostalgia edênica, para sempre inacessível. Memórias de infância, não raramente, se revestem dessa roupagem. Claro, isso não ocorre do mesmo jeito para todo mundo.
Os que tiveram infâncias felizes, veem quase tudo com esses olhos. Os que não tiveram, tomam rumos diferentes. Uns escolhem lembrar apenas o que era bom e se apegam de forma quase cega a um sabor, ou uma sensação. Outros se ligam a memória de uma única pessoa, muitas vezes, lhe retirando todos os defeitos óbvios que ficaram na lembrança dos outros conhecidos.
De qualquer forma, não conheço quem não tenha seu cantinho de Éden em algum lugar perdido das reminiscências.
Minha avó tinha uma casa fresca, de portas abertas, por onde o vento corria e que só vim a saber como realmente era depois de adulta. Para mim, era o lugar onde eu chegava e determinava o que queria comer. E eu comia o tempo todo. Começava a tarde com merengue com limão (ao qual eu ia colocando ora mais limão, depois mais açúcar, e assim por diante até ficar intragável); e depois vinha o bolo de milho com chá de mate (nunca contei a minha avó que não gostava desse chá, porque ela tinha o maior trabalho para fazer); no fim da tarde, meu avô colhia abacates, que minha avó amassava com açúcar e limão. Eu, com 4 ou 5 anos procedia exatamente como o merengue (mais limão, mais açúcar, mais limão, etc, até virar uma eca).
Foi aprendendo sobre como fazer as coisas que gostava de comer que percebi o engano. O bolo de milho da minha memória, tinha apenas um xícara de farinha de milho, o resto era farinha de trigo. Na minha cabeça o nome perdeu sentido, bem como minha ideias sobre textura e sabor que deve ter um bom bolo de farinha de milho. O que não quer dizer que não tenha comido alguns memoráveis.
Em Porto Alegre, havia uma padaria no Jardim Botânico, chamada Doce Paraíso, onde se podia comer bolos divinos. Inclusive de milho. No Rio de Janeiro, conheci o Mãe Benta (bolo de milho com erva-doce) que era gostoso até quando industrializado.
Minhas experiências em casa, até hoje, não saíram perfeitas. O milho facilmente torna o bolo farelento e seco. É preciso uma habilidade que, talvez, só o povo das Minas Gerais – capazes de maravilhas culinárias – consiga fazer com excelência. Ainda assim, meus meninos aprovaram minha tentativa no sábado e divido com vocês com algumas correções que pretendo fazer na próxima tentativa.
Três claras em neve batidas à parte. As 3 gemas batidas com o açúcar e a gordura. Correções à minha receita:
1. Se você é sensível ao açúcar pode diminuir minha xícara e meia para apenas uma xícara. Explico. Inspirei-me na Mãe Benta e coloquei uma colher (das de chá) de erva-doce. Ora, essa erva tem o condão de ampliar na boca a sensação adocicada; sendo assim – e caso você não seja tão brasileiro a ponto de pensar que doce para ser bom, tem de ser bem doce – dá muito bem para fazer o bolo com somente uma xícara do “ouro branco” do país.
2. Em bolo de milho ou fubá não dá para economizar na gordura. Então, eu ampliaria os ¾ de xícara de óleo que coloquei para uma xícara. Aliás, acho até que, no próximo, substituirei o óleo por manteiga sem sal.
Os três ingredientes misturadinhos e no meu armário tinha fubá e farinha de milho. A diferença? Bem, o fubá é a farinha de milho mais fininha, um pó. Interessante como o povo aqui do sul não é muito ligado nessas diferenças. Somente quando comecei a viajar para o norte do país fui percebendo as várias gradações das farinhas de milho e de mandioca e que havia um universo completamente desconhecido nesse âmbito para mim.
Pausa: Optei pelo bolo de fubá esta semana porque tinha acabado de ler um livro sobre a história da culinária no Brasil Colônia, que me foi emprestado pela Claudia Antonini. Fiquei inspirada na cozinha e na escrita. Lembrei de coisas que já escrevi sobre os princípios da culinária gaúcha e… humm, farei um post apenas com isso. Fim da pausa.
Voltando à farinha, optei pelo fubá. Mas, não quis fazer um bolo somente de fubá, lembrando de como minha mãe e minha avó me tinham ensinado a fazer bolo de milho. Então, foram 2 xícaras de fubá e uma de farinha de trigo, mais uma xícara de leite. Por favor, não vá colocar leite desnatado! Este é um bolo que tem história e regionalismos nesse país! Eu achei bom respeitar e coloquei leite gordo. Um bolo de fubá não é aliado de dietas.
Eu levei à batedeira pela comodidade de ver os gruminhos de farinha sumirem rápidos, mas a última parte do bolo tem de ser feita com colher de pau. Inclua o fermento (uma colher de sopa cheia), a erva-doce e as claras em neve, mas, por favor, não bata. Misture. É esta clara que vai dar fofura ao bolo (junto com a gordura). A explicação técnica é que estes dois ingredientes ajudam a incorporar ar à massa. Se você bater, expulsa o ar e o bolo vira uma sola ou uma borracha, dependendo do ponto de vista.
O meu cresceu e ficou lindão. Sem cobertura para cumprir o ritual de homenagear o Brasil antigo e a casa da minha avó. Ficou gostoso. Mas vai ficar ainda melhor da próxima vez.


Fechando a conta

Durante 10 anos, tive como campo de estudos em história a área da saúde. Entre 1997 e 2007, pesquisei curadores das mais diversas formações e dei especial atenção à sua clientela, a quem nomeei sofredores, por entender que a doença nunca se resume somente aos doentes. Ela envolve, agrega e dilacera seus familiares, vizinhos, amigos e todos os que compões seus grupos de relação.
No fim do doutorado, minha história pessoal acabou engolfando o objeto da pesquisa. E após quase 4 anos de hospitais, médicos, curandeiros e estando eu, obviamente, do lado dos sofredores, achei que era a hora de seguir um novo rumo. O desvio durou algum tempo a acabou dirigindo-se ao que, no futuro, parecerá ter sido a escolha mais óbvia.
É certo que 10 anos não se apagam. Ainda falarei disso. Ainda orientarei. Ainda pretendo reeditar meu primeiro livro e, talvez, publicar a tese. Mas achei que, por hora, era necessário fechar a conta e revisando meus últimos escritos, vejo os todos num tom de óbvia despedida. Como é possível ainda que haja neles algo de interessante, colocarei algumas coisas aqui no blog. Nada exaustivo, nem excessivamente acadêmico, mas, espero, que deem algum material para a curiosidade e para o pensamento. 

Notas de um verão diluviano

Para Caminhante



Isso foi por volta de 2000 ou 2001, nossos primeiros anos com emprego e salário. A conta bonitinha de 13º e terço de férias dava vontade de realizar as viagens sonhadas que se encaixassem no orçamento. Tínhamos uma amiga em Curitiba e um convite. Eu vinha de anos com histórias do meu pai sobre a cidade, uma visita rápida – das que deixa com vontade de mais – e um passeio de folheto que tinha virado mito na minha cabeça: Curitiba-Paranaguá de trem, mais temporada na Ilha do Mel. Não foi difícil convencer o Guto, afinal, o que pode dar errado quando você reúne as palavras Ilha e Mel na mesma frase?
Os dois glutões que carregamos conosco e nunca deixamos em casa adoraram os restaurantes de Curitiba. Nem ficamos chateados com a chuva ou o fato de termos de colocar lã quando, em dois dias, iríamos para praia. A lã tinha tudo a ver com o bufê de queijos e o bom vinho.
Embarcamos num dia promissor. Tinha sol com nuvens claras, era de manhã cedo e a viagem começou com vistas da serra de tirar o fôlego. Uma hora depois tinha nuvens demais, porém cerração de manhã, no alto da serra, é de se esperar. Não reclamamos. Choveu.
Almoço em Morretes, depois viagem com sol e calor até Paranaguá e, mais sol e calor de lancha, pelo mangue, até a Ilha do Mel. 
Foi quando a lancha virou as costas.
Não, eu garanto, gostamos da ilha. Era selvagem, mas a gente ainda tinha idade para aventuras. A pousada era legal, a praia bonita, com água excepcionalmente quente. Como a população de turistas era formada quase somente por surfistas, a praia de enseada era vazia, ficava apenas para nós. Ou seja, ilha e mel.
O problema foi a claustrofobia.
No Guto veio como uma sensação de ansiedade e eu tive um ataque de rinite. Mas fomos bravos. Eu encarei a primeira noite sem respirar “quase” numa boa. Ele estava com insônia, então cuidar de mim e ver as notícias de uma rebelião monstro nos presídios de São Paulo, foi até… legal. Chovia.
Combinamos de ir embora na lancha das 9:00 do dia seguinte.
Só que na manhã seguinte tinha sol, eu respirava, o Guto dormira algumas horas. Sugeri aproveitarmos o dia e irmos na lancha das 17. Como o dia foi bom, pensamos em aguardar mais uma noite. Às 18 horas começou a chuva, ficamos ilhados no quarto. Eu sem respirar, o Guto ansioso, os dois com fome.
O dia seguinte foi igual e nós, por insistência, agimos do mesmo jeito. Realmente lutamos pela Ilha do Mel. Então, minha alergia atingiu a pele. Sem respirar. Coçando inteira e com o marido sem dormir, passando as noites ilhados e, para comer, tínhamos de ir até um bar com água pelos joelhos.
Voltamos no terceiro dia.
A sim, chovia em Curitiba, claro. Mas dava para vestir roupas quentes e ir a uma farmácia. Resolvemos aproveitar a cidade.
Era o nosso 5° dia. Amanheceu quente e claro. Vestimos roupas confortáveis e frescas e fomos passear. Às 10 da manhã já se declarava a eterna previsão do tempo da cidade: já vai chover. Precisamente às 16 horas desabou o mundo. Não tenho nada contra água, mas a temperatura baixou uns 15° também. Precisamos buscar refúgio em um shopping. Tive de entrar em uma loja e pelar um manequim que, felizmente, já se vestia para o outono. Sequei meus chinelinhos com papel higiênico e massageei os pés para aquecê-los.
Mas, TUDO BEM. Estávamos em férias. Tirei minha cara de infeliz, coloquei na bolsa e saí do banheiro pronta para aproveitar o que podia dentro de um shopping.
– Que tal cinema? – sugeri.
– Ótimo – respondeu o Guto.
– Vamos ver o que? – perguntei.
– Humm – pensou ele, olhando os cartazes do cinema. – Eu queria ver O Náufrago.
Cogitei assassinato por 0,0000001 segundo. Felizmente, o Guto se deu conta e sugeriu rapidamente Chocolate, Juliette Binoche, Jonny Depp e paisagens secas do sul da França.