Excertos do Livro de Judite

O Livro de Judite é um projeto muito antigo que por quase uma década buscou seu tom narrativo. Não creio que ele o tenha encontrado ainda. Contudo, é uma história inteira, completa, que, muito provavelmente, só virá à luz aos poucos, meio aos pedaços. Talvez porque isso venha calhar à natureza da velha Judite. Talvez porque esta história queira chegar à palavra escrita assim. Não posso afirmar. Há muito deixei de controlar meus personagens, já parei de brigar com isso. A jovem Judite deste conto nasceu após um ano de leituras acadêmicas do obrigatório Simões Lopes Neto, daí o tom regionalista.
 
 
 
 
Excertos do Livro de Judite
 – O Baile de Debutantes –
  
Nikelen Witter
 
                Ih, meu filho, isso começou faz tempo. Naquela época, a Judite era a moça mais linda que havia por estas bandas. Linda sim. Tinha uns 15 anos e os homem daqui era tudo louco por ela. Coronelzinho Afonso inclusive. E ela? Ah, ela era faceira, claro, mas o povo falava bem mais do que era.
                Eu, que conheci a Judite meninota, posso dizer que ela sempre foi é muito trabalhadeira, isso sim. Claro que tinha riso fácil, mas você sabe como o povo é. Ninguém achava que era direito uma menina tão bonita, pobre, sem pai, com uma mãe daquelas, rir e sorrir tanto. Não podia ser decente, então, falava.
                Lembro que o velho Coronel Amarildo Teixeira Neves – que nunca gostou dos encanto do filho por ela – sempre defendeu. Ele era o primeiro a dizer que era tudo maldade do povo e nunca deixou de chamar a Judite e a mãe dela quando tinha rodeio de marcar rês nas terra dele.

                O que elas faziam? Ah, esse era outro problema. A Judite sempre foi campeira, desde petitinha. Trabalhava junto com os homem e igual dum. Não se queixava, não fazia corpo mole, nem se fazia, bem, de moça, sabe? Pegava junto. Montava, laçava, ajudava a segurar a rês e não tinha medo de por o ferro no bicho. Ninguém podia falar nada dela trabalhando. Mas, vê lá! Aquela moça novinha e linda, linda, trabalhando com os homem… Ih! As mulher ficavam tudo alvoroçada. Mas, claro, ninguém tinha coragem de dizer palavra que a mãe dela pudesse ouvir. A comadre ia nos rodeio para ajudar na cozinha.
                Qual o problema com a mãe da Judite? Ora, menino! Como se tu não pudesse imaginar. Rã! –  – Todo mundo dizia que a comadre era bruxa.
                Sabe como é? Uma história aqui, outra ali. Sempre no diz-que-diz-que, mas quem é que ia arriscar? Todo mundo morria de medo dessas coisa. Eu cheguei a ver mulher fazendo o sinal da cruz pelas costas dela. Vi sim. Ah, eu defendia, claro, era minha comadre. Ajudou no parto de três dos meus e tudo cresceu bem. Os dois que ela não ajudou, goraram. Os meus anjinhos. Um foi na noite que nasceu. O outro teve febre no primeiro verão e se finou. Se a comadre já andasse por aqui, talvez, eu ainda tivesse os meus dois…
                Ah sim, sim, a história, claro, claro. Pois foi assim:
                O povo da vila inventou de fazer um baile de debutante. Tinha umas quantas meninas-moça por lá e alguém tinha dito que era assim que se fazia na capital. Sabe? Um baile para apresentar as menina para a sociedade.
                Pois bem, tanto se falou, tanto se fez, que até o Cel. Amarildo se empolgou. Mandou vir as sobrinhas que moravam no litoral para debutarem, encomendou uma fatiota das mais finas para o Coronelzinho Afonso, deu três rês inteiras para o churrasco, mais não sei quantos leitões e lembro de dizer que podiam vir pegar ovelha de carreta que ele dava. O homem abriu as burras.
               A gente ficava vendo a movimentação dos rico e achando bonito. Eu até tinha combinado de ir ver a entrada do baile, só para ver as roupa. Então, um dia, a comadre me disse:
                – A Judite só fala nesse tal baile.
                Fiquei cabreira. Disse que o baile só ia ter gente fina. A comadre, que Deus a tenha, é preciso que se diga: nunca foi mulher de se apequenar (tinha gente que se incomodava mais com isso que com a fama de bruxa dela). Ela deu de ombro entre uma tragada e outra de palheiro e disse que fina a filha dela também era, só não sabia é se ia conseguir vestido.
                Eu acabei ficando quieta, mas pensei que vestido não era o caso. Pensei que, tá que a Judite era vistosa que só ela e isso ninguém discutia, mas será que iam deixar debutar com as outra menina branca? Com aquela cara de bugrinha que ninguém sabia quem era o pai? Mas, fiquei quieta. Longe de mim, aborrecer a comadre. Nem iam conseguir o vestido. Agarrei e deixei.
                Claro, claro que conseguiram o vestido. Capaz que não. A pobre menina se esfalfou trabalhando como uma condenada. Se deixassem, era capaz de falquejar moirão. Na época, uns tempos depois, é claro, se falou besteira sobre o que ela tinha feito para conseguir o dinheiro do vestido, mas eu te garanto, foi trabalho, trabalho mesmo.
                Bom, como eu ia dizendo, chegou os dia do baile e a irmã do Coronel Amarildo veio do litoral com as filhas pelo trem. O marido dela não pode vir, mas também não ia deixar elas viajarem sozinha, aí ele mandou junto um capitão do exército do Imperador que, diziam, estava quase noivo duma das menina. Nem lembro a cara do tal, mas era vistoso, com aquela farda e tudo mais. As moça andavam a virar os olhos só por saber que ele ia ao baile para fazer par para as sobrinhas do Cel. Amarildo.
                Pois então, no dia do tal baile, a comadre me chamou na casa dela. Cheguei e dei de cara com a Judite num vestido branco, mais feliz que padre em final de quermesse. A custo a gente conseguiu que ela ficasse quieta para se pentear e arrumar. Nem preciso dizer que a menina parecia um sonho quando a gente terminou. A comadre envergou o vestido melhor – que era um preto de estampa miudinha, que ela usava em missa, enterro e festa na casa de parente – pôs a menina na charrete e se foi com ela para a cidade. O que se sucedeu depois, eu não vi, mas ouvi contar tantas e tantas vez que foi como se tivesse vivido junto.
                Diz que quando a comadre e a Judite chegaram, o povo já dançava. Tava as moça lá, tudo rodopiando com os pai e os par delas. O Cel. Amarildo estava com uma das sobrinhas e o Coronelzinho Afonso com a outra prima, de mode que o tal capitão tava solteiro. Me contaram que assim que ele viu a Judite entrar, linda de vestido branco e sem homem para acompanhar, atravessou o salão e foi bater continência pra mãe dela. Não deu instante e os dois já iam na valsa junto com os outro. O capitão todo galã e a Judite se sorrindo mais que nunca.
                Me pergunte se tudo ia ficar bem caso o ocorrido não tivesse ocorrido? Não sei. Como se há de saber? O que eu sabia é que as gralha das mulher daqui não iam deixar barato toda aquela ousadia. Nenhuma ia bater de frente com a comadre, claro. Mas correram tudo a envenenar a irmã do Cel. Amarildo que tava lá sentada, bem quieta sem saber de nada. Nem me pergunte o que disseram, mas foi o suficiente pra mulherzinha subir nos tamanco e mandar a banda parar de tocar. Ela foi até o meio do salão, onde a Judite tava e começou a desaforar a menina. Disse que aquilo era baile de moça e não rendevous de chinaredo. Que não queria as filha dela dançando em salão com uma tipa de má fama como ela e por aí foi. Um horror. Imagine o choque de quem viu e tava de fora? O tal capitão, diz que só pedia calma, mas mal se mexia. E a mulherzinha não parava de falar. A Judite? Minha nossa. Acha que ela já sabia se defender naquela época? Sabia nada. Começou a chorar baixinho, sem conseguir retrucar. Isso foi assim até que um urro varreu o salão.
                Dizem que foi urro. Não sei. Só sei que meteu medo o suficiente para a irmã do Coronel calar a boca e todo o resto do povo olhar para da onde o urro vinha. A comadre traçou uma reta até a filha, pegou da mão dela e a passou para trás do corpo como só mãe furiosa faz para defender a cria. Dizem que tinha um ódio no olhar que virou provérbio por aqui. Ela escarrou e bateu com o pé três vez no chão sem parar de olhar para a irmã do Coronel.
                – Isso aqui começou em festa e vai acaba em tragédia!
           Ush, menino, só em falar eu já me arrepio. Que coisa! Te esconjuro. Valha-me Nossa Senhora.
               Mas foi assim. A comadre arrastou a Judite para fora do baile e ninguém foi atrás, nem o coronelzinho Afonso, porque o pai olhou feio para ele. O Cel. Amarildo resolveu, então, por panos quentes. Mandou a banda seguir, disse para o povo comer, liberou quase toda a bebida que tinha de uma única vez. A ordem dele era o povo se divertir e ninguém desobedecia o Cel. Amarildo. Diz que o baile seguiu bem bom até perto da meia-noite. Então, começou uma confusão num canto, ninguém sabe muito bem como, mas quando declarou, estavam o capitão e o coronelzinho Afonso se atracando e abrindo espaço no meio dos dançarino.
               Foi briga feia. Briga de faca. Teve vestido de moça manchado e o salão lavou em sangue. Me disseram que o Cel. Amarildo chegou a engatilhar o revolver, mas que demorou. Talvez tenha ficado pensando se atirava prá cima ou no capitão, mas, em todos caso, ia desmoralizar o filho. Talvez, tenha achado que, num momento, um dos dois ia se render e aí ficava só como briga de moço. E eu nem sei se teve tempo de pensar tudo isso.
           O que sei é que o capitão lutava bem, mas era todo galã, confiante, acabou abrindo a guarda e o coronelzinho Afonso rasgou a garganta dele de fora a fora. A faca nem bem tinha saído da carne do homem e a prima que era quase noiva correu para o meio da briga. A faca ainda tava no ar, no círculo da luta. Ah menino, uma judiação. Lá tava o tal capitão, morto, estendido no chão. A moça com um talho horroroso no rosto. Uma tragédia. Coronelzinho teve que fugir para não ser preso, mesmo sendo filho de quem era. Levou uns dois anos para voltar e teve de responder processo.
              Foi bem assim que aconteceu. Cada palavra. E esse, dizem, foi o primeiro homem que o Afonso matou por causa da Judite.
               Só o primeiro.