Lembrando Antígona

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Eu tenho um caso de amor com Antígona. Longos e longos anos redescobrindo-a vez por outra, sempre grandiosa, sempre extraordinária. Mil coisas podem ser ditas sobre ela e ainda restará o que pensar. As camadas que revestem a personagem parecem infinitas, pois se renovam a cada leitura e, em essência, está lá a narrativa de um amor que não hesita, que não se diminui. A dignidade de Antígona é esteticamente bela e metaforicamente feroz. Mesmo sendo princesa, ela é mulher, sua linhagem é amaldiçoada, seu sexo está a serviço do outro. Não há nada que ela possa. Ninguém quer ouvir suas razões. Seu dever para com o mundo é calar e obedecer. No entanto, Antígona se posta em pé, não se verga, não se dobra, reivindica o direito de ter consciência, de ter deveres para consigo mesma, de ser fiel ao que acredita, ao que entende do mundo.

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Antígona é um libelo contra a tirania. É essa eterna dúvida entre o que me é exigido e o que eu quero, entre quem sou e como o mundo deseja que eu me comporte. Os deveres que ela clama são, claro, auto impostos e sua decisão, já tomada desde as primeiras linhas da peça de Sófocles, não isenta de perceber sob ela as lacerações dolorosas da escolha. Esse é, para mim, um ponto fundamental do mito e da peça: nenhum dos caminhos que se apresentam para Antígona são isentos de dor, qualquer um deles irá levá-la a um tipo de morte, e ela escolhe o que lhe parece mais suportável, continuar fiel a si mesma.

Filha de Édipo e Jocasta, Antígona sobreviveu ao horror do incesto que levou o pai a cegar-se e a mãe/avó ao suicídio. Confrontada com a morte dos dois irmãos numa mesmo dia, ela se vê obrigada a acolher a ordem de seu tio Creonte, agora no papel de rei de Tebas. Um dos irmãos, Etéocles, que morrera defendendo Tebas do ataque de exércitos estrangeiros deveria ser enterrado com honras. Já Polínice, que se valera de estrangeiros para fazer valer seu direito ao trono, deveria ter o corpo abandonado ao tempo e às feras. Para os gregos antigos não poderia haver pior sentença. O corpo insepulto era a desgraça da alma que jamais encontraria descanso ou adentraria ao mundo dos mortos. Uma sentença de horror pela eternidade.

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As duas irmãs sobreviventes dão voz às possibilidades. Ismena resolve calar, pois teme a sentença de morte que virá à sua desobediência. Antígona sabe da morte, mas esta a apavora menos que conviver com a memória ultrajada do irmão. A apavora menos do que conviver consigo mesma e a certeza de não ter agido com sua consciência. O dilema de Antígona não se perdeu nos milênios que avançam entre a peça e os dias de hoje. Sua decisão, contudo, ainda soa revolucionária.

Você escreve bem ou escreve com bacon?

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A pergunta é uma paráfrase do Chef franco canadense Chuck Hugues. Num de seus programas, ele faz um prato vegetariano para servir como um mimo às suas garçonetes. Ao servi-lo, ele comenta com as moças que precisava testar aquela receita com elas, já que o grupo vivia dizendo que ele costumava colocar bacon em tudo. “Aí”, diz ele, “eu fiquei me perguntando: afinal, eu cozinho bem ou eu cozinho com bacon?”

Alguns dias depois, conversávamos aqui em casa sobre literatura, escritores grandes e pequenos e seus textos literários; conversávamos sobre nossos próprios textos e os recursos usados num e noutro como plot ou como arco criador de tensão. Num recurso associativo para explicar um ponto de vista, eu saquei: mas afinal, isso é escrever bem ou é escrever com bacon?

Reconheço que, sendo escritora de ficção fantástica, a pergunta pode soar estranha vinda de mim. Afinal, seguindo a metáfora: bacon is my busness em termos literários. Contudo, não é bem assim, não há viagem no tempo, vampiro ou lobisomem que disfarcem um texto ruim ou mal escrito. Por outro lado, um texto pode ser magnificamente escrito, arrebatador em termos literários, mas chega na hora de criar tensão e lá vem um assassinato, um suicídio, um adultério, um estupro ou sexo sado-masô em resumo… bacon (convenhamos, há inclusive literaturas que se sustentam só em cima da quantidade de bacon). Mas, sendo criteriosos em nossas leituras e escritas, o protagonista precisa mesmo ser um matador de aluguel que vai visitar a mãe velhinha? Ou a mesma tensão poderia ser obtida com o cara sendo um especulador na bolsa de valores e a mãe sendo uma operária sindicalista? Sei que muitas escritores vão gritar, não, não pode. Ainda assim, a pergunta é válida: precisa?

No caso da ficção fantástica, onde sim, o bacon está em tudo, acho importante nos perguntarmos sobre a quantidade do seu uso. Não, não estou defendendo uma literatura ascética – já vimos no que vampiros vegetarianos podem dar -, mas acho importante, como escritores, nos perguntarmos o quanto é preciso jogar de tripas, pedaços de cérebro e membros decepados sobre o nosso leitor para que ele realmente se impressione com o nosso texto. Lembrando que, quando essas coisas começam a entrar em escalada ascendente, é provável que, em pouco tempo, nada mais horrorize, nada mais “cause” impressão no leitor. A pergunta que precisa ser feita (com respostas variadas, claro) é: aquela descrição detalhada serve realmente para levar o seu texto para frente, para horrorizar, ou só para você preencher o nível mínimo de caracteres exigidos pelo editor?

Ainda na ficção fantástica, ontem entrei em contado com a polêmica das Mulheres na Geladeira no universo HQ. Qual é o bacon? Violentar, matar, mutilar ou aleijar personagens femininas com o fito de dar ao arco da história do personagem masculino um pouco mais de tensão. Claro que aí há outros exageros que envolvem todo sexismo com que as personagens femininas são tratadas nas HQs (sugiro o ótimo artigo José Abrão no República dos Quadrinhos). Por outro lado, sei que muitos objetarão classificar HQ como literatura e o debate é amplo, mas, no meu entendimento, é uma manifestação literária sim e, como tal, também pode se perguntar se alguns arcos narrativos são realmente necessários ou se não passam de muito, mas muito, bacon.

No primeiro final de semana de maio de 2014, participei do evento Uma Noite Alucinante, quando 9 escritores de ficção fantástica ficaram confinados na Athena Livraria, em Santa Maria (RS), para escrever um conto cuja temática era a noite, usando suspense e/ou terror. O confinamento foi antecedido por um debate sobre Mary Shelley e a literatura de terror. Na ocasião, eu defendi que um bom conto de terror pode, por vezes, ter uma única frase, tão forte e pesada em referências que não precisa ser necessariamente seguida de qualquer descrição para causar horror. E, há mestres nisso, como Stephen King ou a nossa Simone Saueressig no seu conto A Cisterna (só para comentar os dois que citei na minha fala). Ou seja, dá para fazer muito com pouco ou quase nenhum bacon.

Para quem consome literatura fantástica, é possível que um ou dois (até mais) textos cheios de pesadas descrições de torturas, mutilações e estripamentos não enfarem o leitor. E é sempre possível contar com a “virgindade” das gerações mais jovens de leitores para garantir a continuidade do interesse. Contudo, num longo prazo, qualquer um que escreva ou leia (aqui fala a consumidora desse tipo de literatura) poderia ou deveria se perguntar: afinal isso está realmente bom ou só tem muito bacon?

Como escritora, eu me pergunto isso sempre e garanto que tento manter a dieta. Começo toda a segunda-feira, termino na terça.

Virginia Woolf, Peter Walsh e a Mrs. Dalloway de cada um

Hoje é aniversário de Virginia Woolf. Como estou afundada em outra escrita, fico devendo algo novo essa escritora que frequenta meu primeiro círculo de amores profundos. Republico um pequeno artigo escrito em 2012 e publicado pelo portal Sul21, em 17 de março daquele ano. 

 

Mrs. Dalloway tem quase tantos adoradores quanto Virgínia Woolf. Talvez, até mais. Algo nas palavras cuidadosamente pensadas de sua autora parece mexer profundamente com as pessoas que leem este romance. A beleza poética de cada parágrafo desliza na mente, fala ao que não nos é visível, sensibiliza. De fato, não é uma prosa completamente ligada ao consciente, especialmente nas passagens entre um e outro personagem. Nestas, há uma espécie de cortina, ora de fogo, ora de água, ora de fumaça, que fortalece ou suaviza o impacto de mudar de um fluxo de consciência a outro.

É certo que cada leitor há de constituir sua própria Mrs. Dalloway, bem como sua própria Virginia Woolf. A autora, para muitos, parece ela própria convertida em personagem, dentro e fora de sua obra. As semelhanças entre a trajetória da escritora e o livro publicado em 1925 sugerem a muitos leitores um acesso direto ao personagem oculto que é a narradora-escritora. Esta percepção é tão corrente e aceita que rendeu o romance As Horas (depois convertido em filme) que se utiliza do primeiro título pensado por Virginia para seu romance.

Nicole Kidman no filme As Horas | Foto: Divulgação

Não vi o filme oscarizado, nem li o romance que lhe deu origem. De fato, não quis ler nada que me dissesse sobre o que tratava Mrs. Dalloway antes de ler o livro. Terminada a leitura, procurei algumas resenhas no Google sem muito afinco. A maioria ressaltou pontos muito semelhantes. Devo ter parado minhas buscas no terceiro site que entrei. Bem claro que o primeiro foi a Wikipedia, mas incomodou-me que as resenhas de Mrs. Dalloway fossem tão semelhantes — era como se houvesse um protocolo sobre o que devesse ser dito a respeito do livro. As resenhas ressaltavam o estilo, o uso do fluxo de consciência, as similaridades com a autora, a questão da superficialidade da vida em sociedade, o suicídio (não a angústia ou a depressão), as similaridades com a vida da autora, as relações homossexuais, a passagem do tempo, a frivolidade das horas mortas do dia e… já falei que eles comentam muito sobre a similaridade do romance com a vida da autora?

Deixarei de lado o protocolo, não por sua falta de interesse, apenas porque já se falou sobre isso. Ficarei com as coisas que me chamaram a atenção e até com parágrafos que me marcaram fortemente. Então, caso você não tenha lido e não goste de saber a história antes de fazê-lo, abandone este texto neste ponto, vá ler o livro – que recomendo fortemente – e, depois, se lhe aprover, retorne.

Virginia: uma feminista na alta classe inglesa

Começo com a história de amor e, obviamente, com Peter Walsh. Apaixonei-me por Peter à primeira vista e odiei Clarissa Dalloway no mesmo parágrafo. Que orgulho tolo fê-la perdê-lo. Mesmo sem nunca ter retribuído seu amor na mesma intensidade, Peter não é um homem a ser desperdiçado sem dor. E Clarissa, no fundo, lamenta. Porém, Clarissa é uma inglesa, diz o romance, mas não só. Ela é da alta classe inglesa, e esta não é uma alta classe qualquer, é aquela forjada pelo Império; cheia de mesuras e auto-importância que somente a mais forte das contenções pode manter. Uma contenção que Peter Walsh não tem. Aos 52 anos, ele ainda chora o amor perdido aos 20 e a filha que poderia ser sua. É um cavalheiro que se coloca a resgatar uma jovem de um casamento infeliz e assumir seus filhos (com os ganhos disso, obviamente), porém, não tem carreira, emprego, ou qualquer das coisas respeitáveis que Clarissa tanto valoriza. Mesmo com toda a angústia que cada hora do longo dia de reminiscências vai lhe causando, o fato é que Clarissa adora ser Mrs. Dalloway. Ela não consegue imaginar-se como Mrs. Walsh, mesmo sabendo que isso poderia significar ser mais feliz.

Na casa dos 50 anos, os protagonistas avaliam as vidas, mas, fazem mais que isso. Eles lutam contra um sentimento de juventude que insiste em acompanhá-los, juntamente com esta percepção – nova para eles – que estão velhos e já dobram o cabo dos bons dias. Clarissa se angustia com as horas vazias dos dias enquanto mergulha nas preocupações fúteis de uma dama de sociedade. Peter se angustia por precisar de um lugar para envelhecer, porém, o lugar que ele quer é, e será sempre, Clarissa.

Duas coisas aí me chamaram a atenção. A primeira é o fato de Clarissa estar num espectro que me recordou passagens de Um teto todo seu. Ela é a mulher apagada pelo casamento. Sua maturidade é uma mescla do que ela poderia ter sido, do que perdeu e do que ela mantém. Permanece adorável a todos, perfeita nos gestos de grande dama, mas os que a conheceram no passado sabem que isto não é mais que uma pálida marionete da apaixonante Clarissa dos tempos idos. Este casamento que a consome é uma morte em vida, foi o que me pareceu ver Woolf repetir em ideia e exemplo nestes dois livros. O casamento, porém, atua diferente sobre os homens. Richard Dalloway (que protagoniza um delicioso momento intertextual do livro) melhora. Peter, a quem o casamento não ocorreu, permanece. Hugh Witbread desenvolve o resto de sua personalidade sebosa, nojenta e lambedora de botas, vivendo em torno de uma mulher sempre doentia ou (entrevê-se) sempre em fuga da vida medíocre com o marido.

Gabriel García Márquez: reverente à escritora que mais o influenciou

O segundo ponto foi a lembrança de que Gabriel García Márquez credita a Woolf uma de suas fortes influências literárias. De imediato Florentino Ariza, Fermina Daza e seus 50 anos de amor e espera me vieram à mente. A associação pode ser só minha, mas senti-me, novamente, próxima de O Amor nos tempos do Cólera.

A outra história de amor de Clarissa, entre ela e Sally Seton é bastante comentada por quem lê o livro, mas de novo fico a pensar se o motivo deste interesse é o livro ou a vida da autora. No romance, Sally e Clarissa se enamoram, beijam-se, mas jamais parecem pensar em tornar aquilo claro ou público. Clarissa não perderia sua posição, nem por Sally. E Sally acaba, com o passar dos anos, tornando-se mais próxima de Clarissa (mesmo que não de forma física). Ela se casa, tem cinco filhos e o sucesso financeiro do marido vindo das classes baixas (o que a orgulha, mas o empana para os senhores do Império) faz dela uma lady. Peter quase não acredita: a cáustica e contestadora Sally, uma lady, e, pior de tudo, confortável no papel.

A presença do Império na Índia: subjacente a toda conversa

A questão do Império é bem presente no livro, subjaz a tudo e a todas as vidas. A Índia parece mais próxima que a Irlanda ou a Escócia. É como se ocupasse o lugar que estas ocuparam no passado. A Índia preocupa. Está nas conversas, nas chegadas, nas partidas, nos estudantes de pele azeitonada quem vem aprender com os ingleses o que é civilização. A Índia circula por cartas e é o assunto a se puxar com o Primeiro Ministro. O Império é algo perene da primeira a última página. Está no carro oficial que abre o livro e na empáfia dos personagens: eles têm um rei, que é o imperador de terras além da imaginação. Todos partilham disso em maior ou menor grau. Os personagens de Woolf navegam nesta corrente e se deixam deslumbrar por ela, menos, claro, Peter Walsh. Ele viveu na Índia, ele sabe o que é o Império para além de seu esplendor. Não, o admirável Peter não se engana com as pompas imperiais inglesas e sua tola importância.

Assim como o Império, também a Primeira Guerra é uma presença. Ela acompanha um personagem paralelo a Clarissa, Septimus Warren Smith, o jovem veterano. Traumatizado, deprimido, afundando lentamente na loucura, ele se culpa. Ora pela morte de um amigo no conflito, ora pelo intempestivo casamento com uma jovem italiana e o sofrimento que agora causa nela. Rezia, a esposa, sofre a loucura do marido e o expatriamento. Ela é e será sempre uma estrangeira, o que aumenta sua solidão de forma quase insuportável, enquanto, desesperada, ela tenta inutilmente salvar o homem que ama. Mas, perde-o. Primeiro para a doença, depois para os médicos e, por fim, para a memória da guerra mais traumática do século XX (até, claro, virem as outras).

Woolf dois anos antes da publicalção de Mrs. Dalloway

Os médicos merecem um capítulo à parte. São detestáveis tanto aos doentes, quanto aos seus cuidadores, e até pelos que os conhecem de passagem. Os médicos, ao menos na figura de Sir Willian Bradshaw, são aqueles que roubam o poder que cada um tem sobre si mesmo, usurpam as decisões sobre nosso corpo e mente. Em suma, eles têm poder demais e são odiosos por isso.

O feminino é também uma questão cara ao livro, mesmo que isso seja feito na forma determinadamente não militante de Virginia. Sally Seton não é, nem de longe, a única mulher com quem as relações de Clarissa geram tensões (para o bem ou para o mal). Temos a ama de sua filha, a pobre (e isso é um defeito quase pessoal) e raivosa Miss Killman. Clarissa a acusa constantemente de ter-lhe roubado a filha, mas não é apenas isso. O ódio que se estabelece entre essas duas mulheres é mais profundo. A Clarissa chega a ser vital. E ela reconhece isso. Em seu ódio por Miss Kilman, ela se sente viva, pronta a fazer algo, ela ferve! Nas relações superficiais e teatrais de sua vida, Miss Kilman é seu oásis de Verdade. Ali, no ódio por aquela mulher, no enfrentamento, Clarissa existe, é real. É a velha (jovem) Clarissa novamente.

Já Miss Kilman tem um ódio de classe, um ódio de gênero, um ódio religiosamente alimentado por Clarissa, que é tudo que ela não é e aprendeu a detestar por lhe ser inalcançável.

Amargurada e raivosa, Miss Kilman entrara numa igreja, fazia agora um ano e três meses. Ouvira o sermão do reverendo Whittaker; cantavam os meninos do coro; vira apagarem-se as luzes solenes; e fosse a música ou as vozes (ela própria, quando sozinha, à noite, achava consolo no violino; era o som mais lastimável que tinha ouvido), o certo é que os iracundos sentimentos que lhe fervilhavam no íntimo se haviam apaziguado quando sentara, e tinha chorado copiosamente, e fora visitar Mr. Wittaker em sua residência particular, em Kensington. Era a mão de Deus, disse-lhe ele. O Senhor havia lhe mostrado o caminho. De modo que agora, quando lhe vinham aqueles exaltados e penosos sentimentos, aquele ódio à Mrs. Dalloway, aquele rancor contra o mundo, ela pensava em Deus. (p.118).

Woolf, presente nos muros ingleses | Foto: Brocco Lee

Elisabeth Dalloway também atormenta Clarissa. Ao observar a passagem de criança a moça, a protagonista se surpreende em não ver-se em nada na filha e se depara com uma estranha. Elisabeth é adorável, bela, mas não é uma versão do que sua mãe foi no passado. A jovem é silenciosa, fechada, e faz escolhas que a mãe não compreende. Prefere o campo e os animais à vida frívola de Londres e, mágoa das mágoas, escolhe Miss Kilman (como todos os seus defeitos) como companheira.

A última das contendoras (não que Virginia não nos faça perceber outras, sentadas nos cantos da sala de Clarissa) é a velha Lady Bruton. É certo que as duas não se suportam, mas se respeitam. No fundo, Lady Bruton é, de alguma forma, o que Clarissa gostaria de ser. Uma grande dama, mas também uma mulher influente, capaz de conversar assuntos “de homens”, aconselhar-se com eles, tendo até a deferência do Primeiro Ministro. Lady Bruton não tolera Clarissa, e parece ser a única a não se deixar enganar pelas fachadas da outra, mesmo sem ter isso tão claro. De qualquer forma, a velha lady a teme.

Woolf, consertando vestidos no entre-guerras?

A uma historiadora ainda chamam atenção momentos como o que Clarissa (rica, burguesa e cheia de empregados) conserta, ela própria, um vestido já usado anteriormente para sua grande festa. Em tempos de consumismo desenfreado, como o nosso, a imagem causa um deslocamento no tempo. Se, por um lado, vemos uma educação feminina persistente mesmo nas altas classes, por outro lado, o pós-guerra, por tantos descrito como uma era propícia ao esbanjamento, se revela, neste mísero detalhe. O grande Império não passara impune pela Guerra Mundial que devastara a Europa.

Também marcou-me uma frase, dita a Elisabeth: “todas as profissões estão franqueadas às mulheres de sua geração.” A frase é uma novidade, impensável na geração anterior. Mas também é uma mentira e Virginia sabe disso. As mulheres podem formar-se, em 1925, no que quiserem, mas exercer uma profissão é apenas para aquelas que não escolhem (ou são empurradas para) o casamento, seja o de fachada, seja o por amor. Os casamentos superficiais sugam e murcham as mulheres. Os por amor acabam por destruir tudo o que tocam. É o que pensa Mrs. Dalloway, presa ao primeiro e eternamente fugindo do segundo. Talvez, olhando com atenção, se possa ver Virginia Woolf escondida atrás dela.

WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. Trad. Mario Quintana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Pip e nossa época de Grandes Esperanças

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Não se mede um livro pelo tempo que se leva para lê-lo. O tempo dos livros é uma coisa única, intransferível; envolve o leitor da mesma forma que um relacionamento a um amante. Em alguns casos é arroubo, em outros, amor secreto. Eu costumo ter brigas e nunca mais com alguns livros; depois, sinto saudade, banco a mulher de malandro e volto. Outras vezes, eu preciso de distância, de respiro, e também daquela melancolia que as dores profundas, dos amores insondáveis, causam.

Foram seis meses para completar a releitura de Grandes Esperanças, de Charles Dickens. A edição da Companhia das Letras/Penguin está excelente. A tradução do Paulo Henrique Brito é rica, encantadora e especialmente hábil nas construções das variantes das linguagens populares inglesas do século XIX. A introdução feita pelo Professor David Trotter é um complemento extraordinário (embora, acredito, deva ser lida depois do romance). Então, por que seis meses para completar a leitura? Minhas desculpas são inúmeras: excesso de trabalho, exaustão mental, filho que dorme tarde, filho que acorda cedo, coisas para escrever, exigências profissionais de leitura, etc. Dá para escolher uma ou somar todas. Tanto faz. Há uma outra categoria de desculpas também: o romance é grande e cheio de notas (eu leio as notas); precisa ser degustado, seja na forma de sua escrita, seja na sua ambientação (tão cara ao meu eu historiadora).

Poderia ser tudo isso, e foi tudo isso. Mas houve também algo que só compreendi quando reencontrei Pip em meados de dezembro. Um incômodo, um mal estar, um reconhecimento que me jogou de volta à minha primeira leitura de Grandes Esperanças. O volume pesadão de Dickens ficou tantos meses fechado à minha cabeceira, agora eu sei, não só pelas minhas desculpas grandes ou pequenas, mas por conta desse reconhecimento. Por conta do Pip e do quanto eu não sabia da relação que eu tinha com ele.

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Esta não é uma postagem de resenha, apenas de impressões gerais sobre o livro. É fruto de uma leitura pessoal e, se você estiver buscando na postagem algum guia de leitura, talvez seja melhor parar por aqui. Aos que seguirem, gostaria de explicar as circunstâncias de minha releitura.

Sempre narro que cresci com muitos livros e que meus pais eram leitores. Mas a realidade foi menos romântica do que a frase sugere. Meus pais eram leitores sim, mas meu pai era leitor de pulp: espaçonaves, cowboys, coisas assim. Minha mãe sempre preferiu os livros de filosofia religiosa, auto-ajuda e outros do gênero. Eu, bem, eu lia até bula de remédio. Nenhum deles me guiou a qualquer tipo de leitura ou orientou na escolha das edições ou dos clássicos. Além disso, como a maioria das crianças e adolescentes, eu desconfiava das indicações escolares, quase nunca as seguia. Meu maior indicador de leituras era aquela lista de publicações que as editoras colocavam no fim do livros. Foi assim que cheguei numa coleção da Ediouro que recontava clássicos para juventude. Esse foi meu primeiro contato com Dickens e seu David Copperfield, depois Oliver Twist e, por fim, Grandes Esperanças. Devia ter em torno de 12 ou 13 anos. Assim, tenho passado alguns bons momentos de minha vida adulta a reler estas obras, agora, na sua forma completa, em alguns casos, até na língua original.

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Recordo isso porque, por mais que eu nunca tenha cessado de expressar minha admiração por Dickens – a qual sempre esteve ligada a minha irrecuperável tendência para a esquerda – o fato é que eu não tinha a dimensão do impacto do escritor inglês na minha formação literária. Veja, estou falando de textos que eram recontados, adaptados por bons escritores brasileiros, não das construções originais. Ainda assim, quem sou eu para, por conta disso, diminuir a força de uma grande história. Charles Dickens me orientou em direção ao século XIX, à história e ao desconfortos de viver em nossa civilização. De seus personagens emblemáticos, talvez Pip seja aquele que mais me tenha falado.

Pip é minúsculo. Um herói mesquinho. Sua história, porém, traz em seu âmago o desconforto que os últimos dois séculos de igualdade jurídica nos legaram. Pip sofre da mais absoluta sensação de inadequação. Quando pobre, criado pela irmã e pelo cunhado, ele se vê como alguém inadequado por ter sobrevivido aos pais, por nunca saber expressar corretamente a gratidão que esperam dele, por ser criança e sentir como criança num mundo de adultos. Quando é escolhido para ser o brinquedo de Estella e da Sra. Havishaw, ele passa a sofrer pela inadequação de suas roupas e modos para um mundo que ele pressente ser maior. Então, tudo o que o cerca torna-se pequeno, desprezível, porque todas as coisas que o formam o fazem pequeno e desprezível. Nesse olhar desabonador, está também a percepção de ser muito mais do que o destino se encarregou de lhe legar. Logo, a angustia de Pip é que ele nunca será o bastante para si mesmo. Todos são iguais, professa a lei, mas o que seria alcançar essa igualdade? Para Pip, essa igualdade só começaria quando ele pudesse ser superior a si mesmo e a todas as suas circunstâncias.

As grandes esperanças não são apenas de Pip, que aguarda que a vida melhore por conta de alguma fada madrinha que venha destacá-lo, reconhecer o valor intrínseco que só ele vê em si mesmo. As grandes esperanças são destes séculos novos – o XIX e o XX – que vieram a convencer-nos de que nunca, por mais que façamos, somos o suficiente para nós mesmos. Dickens não traçou apenas um retrato vivo do mundo industrial e capitalista, através de Pip ele foi até a alma das pessoas nascidas desse tempo. Eternamente inconformadas; presas a desejos inatingíveis; carregando, como as bolas de ferro dos forçados, essa insustentável sensação de inadequação ao que a existência lhes apresenta como dado. As ambições de ascensão de Pip são, por conta disso, mesquinhas, egoístas, materiais. Não são diferentes daquelas com que nos confrontamos todos os dias. Pip redecora dezenas de vezes os seus aposentos; Pip deslumbra-se com suas roupas de cavalheiro; Pip sente-se muito dono de si por poder pagar pelo que quer. Usando uma frase ao gosto das redes sociais: todos somos Pip. E também somos Estella, com todo o nosso alto conceito sobre nós mesmos e todas as más escolhas. E somos Sra. Havishaw e seu culto ao passado e aos rancores com o mundo em constante transformação.

Eu poderia falar ainda da romantização do velho Joe, essa pedra angular do romance. Pedra porque imutável, contendo em si toda a simplicidade e decência dos que aceitam o que são e, não nos enganemos, essa é uma virtude que Charles Dickens admira.

Sra. Havishaw

Eu poderia falar da Sra. Havishaw que, para mim, continua a ser uma das mais atordoantes imagens literárias já criadas. O que essa noiva velha, em seu vestido decrépito. ao lado de seu bolo de casamento podre, causa em mim não é menor do que causou quando eu tinha 12 anos. Fantasmagórica e amedrontadora, para mim, ela sempre será uma imagem de pesadelo.

Ainda há Estella e Bidi e o fato de eu nunca ter conseguido simpatizar com nenhuma das duas. Não gosto também do exercício vingativo (me aproprio da interpretação do Prof. Trotten aqui) no destino de Estella ou das recompensas a Bidi, mas não interprete isso como uma crítica ao romance, são reações. As minhas reações ao romance. Sou tão somente a velhinha no fim da fila, a que houve a história e se escandaliza com seus rumos.

Mas, de todos, eu sei, foi Pip que me fez estagnar na leitura. Pip, esse espelho incomodo que Dickens levanta aos seus leitores. Esse garoto cheio de esperanças que envolvem o reconhecimento dos outros e não seus próprios esforços. Esse menino ambicioso, eternamente incompleto, buscando na matéria uma aceitação que não encontra em si. Pip é filho e pai da época que gestou nosso mundo. Sua inadequação e insatisfação são as nossas. Por isso é tão difícil lidar com Pip, e com a melancolia que acompanha o estar com ele.

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As bibliotecas e o paraíso

anatomia de uma leitora

Minha relação com os livros nunca teve nome. Jamais imaginei que pudesse haver um nome específico. Sou uma leitora, ponto. Desde quando? Mal sei. Não brinco quando digo que lia antes de saber ler e que minha maior ambição na infância era ler um livro todo sem figurinhas. Usei imensamente a biblioteca da escola. Minhas fichas de retirada foram grampeadas apenas uma vez, depois, a bibliotecária passou a usar um clips por conveniência. Não fui instruída nem pela escola, nem pela família a utilizar a biblioteca pública. De fato, só depois de adulta vim saber de sua existência. Por felicidade, meus pais acreditavam que, para livros, não se devia fazer economia. Assim passei a adquirir os que não encontrava na biblioteca ou os que eu retirava em demasia (comprei O Conde de Monte Cristo após tê-lo retirado 18 vezes no ano dos meus 12 anos). Sempre preferi ganhar livros de aniversário. Nunca fiz coleções, a não ser de livros. O resultado é que, por volta de meus 17 anos, eu tinha em torno de 400 livros MEUS. Digo meus por não serem partilhados com ninguém. Não eram livros que meus pais lessem e minha irmã, sendo disléxica, só se tornou a leitora que é hoje, bem mais tarde.

Casei aos 24 anos em comunhão de livros (eu com meus quase 500 e ele com 50, ou seja, fui vítima de um tremendo golpe da estante, mas o cara é bonito e me passou a conversa). Somos meios compulsivos, mas não excessivamente apegados (fazemos doações anuais do que já perdeu o interesse). Temos gostos que se confundem, outros que correm quilômetros em diferença. Como trabalhamos na mesma área, os livros de história são instrumentos de trabalho. Como somos escritores, os de literatura também. Temos uma biblioteca considerável, mas não absurda para nossas atividades. É uma biblioteca de leitura, de trabalho, nenhum livro fica nela para bonito. Invariavelmente todos são ou serão consultados (mesmo que não inteiramente lidos) em algum momento. De qualquer forma, somos esse tipo de gente que pensa qualquer mudança levando os livros. Pensa a casa tomando em conta os livros. Pensa a economia doméstica tendo em conta o que vai adquirir em livros. De fato, raramente achamos um livro caro (o que coloca o resto da economia doméstica sempre em segundo plano). Gostamos de comprá-los, porque os imaginamos úteis, sempre. Faltam roupas, mas não livros novos (ou de segunda mão). Não somos viciados em edições X ou Y (embora eu venha ficando cada vez mais criteriosa com as traduções). Não fazemos loucuras. E não nos achamos melhores do que ninguém por conta disso. Vivemos assim, simplesmente. É um estilo de vida.

Talvez, por sermos tão parecidos, jamais pensamos em dar um nome a isso. A ideia de que, de fato, não conseguimos viver sem estarmos cercados por uma biblioteca é tão natural que se, por algum funesto acaso, a nossa sumisse (bate na madeira), em poucos anos a reconstruiríamos, comprando novos e volumes ou os mesmos (daqueles mais amados e/ou necessários). Aliás, comprar duas vezes o mesmo livro não é incomum. Emprestamos, esquecemos, ou os livros não voltam ou (suprema agressão) voltam detonados. Ontem mesmo re-comprei um que acho que será fundamental para meu novo romance e que não consigo lembrar para quem eu emprestei.

Por outro lado, eu costumo achar, como uma espécie de jogador com crenças transcendentes, que há livros que me chamam, que me abordam e que, mesmo que eu não saiba, um dia me servirão. Aconteceu com A História Continua, do Georges Duby, e com tantos outros que nem consigo lembrar. Outros livros aparecem pra mim como aquele tipo de encontro amoroso de comédia romântica. De repente nos olhamos e… o tempo se suspende e… só existe nós dois e, claro, o caixa, em que eu passo para pagá-lo.

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Foi assim com minha primeira leitura terminada em 2014. O livro é Fantasmas na bibliotecaA arte de viver entre livros, de Jacques Bonnet. Estava na Athena Livraria em Santa Maria, ainda em seu endereço antigo, conversando agradavelmente com a proprietária Daniela Kliemman e, de repente, o livro branco saltou nos meus olhos. O título era fabuloso, os livrinhos antigos sobre o fundo claro, atraentes demais. Quase perdi a conversa. Havíamos prometido não comprar mais livros, mas vá… era dia do Livro (um dos vários que se vê comemorado nas redes sociais) e eu não tinha dado nenhum livro para o Guto. Shame on me. Comprei, claro. Fingi que li a orelha, fingi que li a parte de trás do livro. Eu queria o livro e nada poderia me convencer mais a comprá-lo do que isso. Como não ter aquele título entre meu livros sobre leitura e História da Leitura?

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Para os leitores contumazes não é incomum encontrar-se em um livro (eu mesma tenho vivido alguns encontros bem reveladores), mas o livro de Bonnet é um tanto mais. Primeiro, ele dá nome a essa compulsão de posse: bibliomania. Não bibliofilia, pois nesse caso há mais cuidado e mais trabalho na aquisição, menos idiossincrasias. É como se ele falasse de uma turma desconhecida a qual desde sempre pertenci. Os problemas com o espaço, as angustias de separação, o sonho de perder-se eternamente em uma biblioteca; a descrição destas, emprestada de Borges, como um paraíso.

Acontece que esta turma, ao que parece, é um grupo em extinção. Não, os livros não vão acabar, mas possuí-los em quantidade? Quem o fará? Quem terá, como Bonnet, 40 mil livros em sua casa? Ou, muito mais modestamente, os 1000 e poucos que possuímos aqui em casa? Com internet, Google, Biblioteca de Harvard on line, Amazon, etc. Quem investirá tanto, com as casas diminuindo de tamanho, o espaço contado nas grandes cidades e o mundo podendo ser acessado de um aparelhinho que cabe na palma da mão?

Sinceramente, acho que prefiro não pensar nisso. Não acho que tal vá ocorrer em minha existência. Se ocorrer, não sei se posso fazer algo para impedir e nem sei se quero. Fico feliz simplesmente em saber que, essa loucura, esse apreço pelos volumes, essa mania de bibliotecas pessoais ao alcance da mão, não é solitária como tantas vezes imaginei.

Além do mais, o livro de Bonnet oferece espaço para reflexões riquíssimas sobre a mágica da leitura. Sobre todo o tempo e o espaço que um livro pode conter dentro de si. Sobre a louca alegria que pode resultar de uma viagem aos confins do universo literário, da qual se pode sair exausto e plenamente descansado. Indico uma bela resenha do livro que saiu no The New Yorker e, claro, recomendo o livro.

Se os livros conversam entre si eu não sei, mas acho que Fantasmas na biblioteca fará bela figura em minha estante. Ou, então, acabará influenciando os meus livros a se acharem grandes coisas. Afinal, aqui em casa, fantasmas ou vivos, eles são membros da família.

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Refletindo sobre musselinas, por Jane Austen

Sua obsessão, agora, era escolher o vestido e o penteado para a grande ocasião. Não se tratava de um escrúpulo inocente. O zelo em relação ao traje é por vezes sinal de frivolidade, e a dedicação excessiva frequentemente aniquila as melhores intenções. Catherine sabia tudo isso muito bem; pouco tempo antes, no Natal, sua tia-avó a recriminara neste tema. No entanto, ela permaneceu acordada na cama por dez minutos naquela noite de quarta-feira, tentando decidir se seria melhor usar musselina estampada ou bordada, e somente a escassez de tempo impediu-a de comprar um vestido novo para o baile. Ela incorria num erro comum de julgamento, grave porém comum, do qual poderia ser prevenida por alguém do sexo oposto (mais do que por uma mulher) ou por um irmão (mais do que por uma tia-avó), pois apenas um homem pode ter ideia de como o homem é insensível diante de um vestido novo. Muitas damas cairiam em grande mortificação se chegassem a entender o quão pouco o coração de um homem é afetado por peças dispendiosas ou novas nas vestes femininas; o quão pouco é influenciado pela textura de uma musselina, e como é impassível e incapaz de fazer distinção entre tecidos finos ou de algodão, estampados ou bordados. A mulher se veste bem para satisfazer apenas a si mesma. Nenhum homem terá mais admiração por ela, nenhuma mulher lhe dedicará mais apreço. O asseio e a elegância bastam ao primeiro, e um aspecto andrajoso ou inadequado será bastante apreciado pela segunda. Mas nenhuma destas sérias reflexões transtornou a alma de Catherine.”

Jane Austen,  A abadia de Northanger. L&PM, 2011, p. 81.
O extraordinário de ler Jane Austen é constatar a agudeza e a atualidade de sua descrição do ridículo de cada criatura. Acabo imaginando-a como uma profunda estudiosa e, por isso, conhecedora da alma humana. Porém, neste caso, seria preciso acreditar que o humano possui um substrato que lhe é inerente, mesmo que metamorfoseado em função das raízes culturais. Seria acreditar que, no fundo, somos variações do mesmo e  patético serzinho. Tal reflexão, no entanto, caberia mais a um filósofo que a uma profissional da História (ou das histórias). Creio que minha conclusão, ao fim, não seria melhor. Talvez, fosse ainda mais desencantada. Pois, se não somos todos iguais em nosso fundamento, então, a verdade, é que, em algumas áreas, mudamos (a não ser nos modelos do guarda-roupas) bem pouco, nos duzentos anos que nos separam da inglesinha. 

Ainda Virginia Woolf

Minha renovação das leituras de Virginia Woolf tem me causado certa irritação. Não com a autora, certamente, mas com um grande número de seus leitores e uma boa parte da mídia literária. Como qualificar essa extravagante quantidade de comentários a tratar Virgínia como a escritora que se suicidou? A buscar nas obras dela, os indícios do “mal” que a assombrava? Parecem sempre querer apontar: está ali, está ali a lésbica depressiva suicida. É nojento (não encontro palavra melhor) e de uma religiosidade culpabilizante que dá engulhos.

No caso de seu romance mais famoso – Mrs. Dalloway – tem-se a impressão de que muitos leitores perderam o foco e praticamente deixaram de ler a obra para procurar Virginia nela. Será esta transformação da autora em personagem culpa do livro/filme As Horas, ou isso vem desde antes? Não consigo saber. Mas o raciocínio parece ser: há um suicídio no livro, então, isso é um indício. Indício do que? De que a autora pensava no assunto? Neste caso, quem não pensou no assunto que jogue a primeira pedra. Agora vejamos, o romance foi publicado em 1925, Virginia se suicidou em 1941. A diferença de 20 anos é suficiente ou é preciso desenhar? Ah sim, a questão da guerra. Ah sim, um de seus personagens não tolera a lembrança da 1ª guerra; Virginia demonstrou em cartas e bilhetes que não se achava forte para tolerar uma segunda. Pergunta, por que isso passou a ser usado como forma de reduzir sua obra? Toda a geração de Woolf foi marcada pelas grandes guerras e sofreu enormemente, mas isso é suficiente para que se fique achando que Septimus é Virginia? O que se pode dizer em relação à esta passagem, é louvar a imensa sensibilidade da autora em dar voz e vez às angustias que não eram apenas dela, mas de um sem número de homens e mulheres que habitavam a Inglaterra do Pós-Guerra.
Acho ainda mais incômoda a associação da autora com sua protagonista entediada, infeliz, sempre ciosa das aparências. Clarissa Dalloway é uma mulher que escolheu a alta sociedade em detrimento de relacionamentos mais satisfatórios. Clarissa teve um caso com uma amiga. Virginia teve alguns. Clarissa se casou com um homem rico. Virginia também. Mas isso não faz de Clarissa, Virginia, nem vice-versa.
(Parentese: ela também escreveu Orlando, que é sobre um homem que se torna mulher; escreveu Flush, que narra o ponto de vista de um cachorro. Virginia, como todo o escritor, está em todos os seus personagens e, igualmente, em nenhum deles).
Há associações possíveis? Sim, há. Porém, reduzir a leitura de seu mais adorado romance a isso ou reduzir a grande Virginia Woolf – escritora, feminista, ensaísta, crítica literárias, renovadora da linguagem – a isso, a mim, parece inaceitável. Penso que a própria Virginia, sempre ciosa em defender o poder da literatura por ela própria, sempre criticando o uso de bandeiras desfraldadas, tão avessa a tudo que diminuísse a obra pelos reducionismos do autor, também repudiaria fortemente esse tipo de leitura de sua obra. Sentir-se ia roubada no que lhe era mais sagrado: sua arte.
A sugestão (para combinar com o mau humor do resto do post) é: se quer saber sobre a vida da escritora, leia uma das inúmeras e interessantes biografias que existem sobre ela. Só leia seus livros se realmente quiser saber sobre sua obra e não por terem sido escritos por uma suicida ou por alguém que amou pessoas do mesmo sexo (aliás, e daí?).

Para que não digam que estou exagerando, deem uma olhada na imagem. Trata-se da capa de um livro de bonecos de papel com escritores. Lúdico, bem legal para apaixonados, cada autor aparece com uma vestimenta que lembra sua obra mais famosa: Hemingway com um peixe espada, Shakepeare como Hamlet. E Virginia está numa camisa de força! Qual o ganho da mídia literária em vendê-la como louca (seu lesbianismo entraria nisso?) e suicida? Por que não marcá-la pelo que ela foi: uma das maiores escritoras do século XX (e não a estou comparando somente com as suas colegas mulheres).

Minhas indignações acabam gerando ideias que sempre penso em escrever em camisetas. São tantas bandeiras que acabarei por criar uma grife (como já devem esperar meus alunos, a quem atormento com a descrição de meus futuros produtos). O nome da grife será NÃO É. Meus alunos de História lembram de alguns modelos já clássicos: Feudo NÃO É terra; Vassalo NÃO É servo. Agora adicionarei alguns modelos com temas literários e acabo de achar o primeiro:

Virginia NÃO É Clarissa!

 

Sport Club Literatura no StudioClio

O Sport Clube Literatura ocorre no StudioClio, em Porto Alegre. Trata-se de um embate de livros, mas como se fosse uma partida de futebol. Dois livros são resenhados em viva voz por dois árbitros que, entre pontos fracos e fortes das obras literárias, marcam gols até a vitória de um ou o empate. Eu gostaria de dizer que é a união de duas paixões nacionais, mas… Bem, não posso deixar de ter esperança. Quem sabe um dia lotaremos grandes salas e até teremos transmissões ao vivo de rádio e televisão. Até lá, iniciativas como a do StudioClio merecem o nosso aplauso. O reconhecimento já vem ocorrendo. Ano passado, o Sport Club Literatura recebeu o prêmio Fato Literário da RBS e, espero, seja só o começo.
No dia de ontem (02/04) participei de uma partida pela primeira vez. Ocupei a posição de árbitra com inexperiência, mas tive a companhia do Milton Ribeiro, já calejado de outros jogos, e formamos uma ótima  dupla. Tínhamos um jogo clássico para arbitrar: Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf x A Volta do Parafuso, de Henry James. Milton já comentou suas anotações para o jogo aqui (recomendo, pois lá ele faz um pequeno resumo das obras, o que não vou repetir) e, como ele, eu estava certa de uma vitória se não retumbante, ao menos, convincente de Mrs. Dalloway. Porém, como se diz: futebol é uma caixinha de surpresa e A Volta do Parafuso, mostrando tremendo vigor para um time, digo, obra de mais de 100 anos, por pouco não atropela a pensante Clarissa e meu amado Peter Walsh.
Como eu anunciara ao Milton, James fez um gol no primeiro minuto do primeiro tempo. O adversário mal entrara em campo, ainda estava frio, mal organizado, sem pegar gosto pelo jogo. A experiência foi fundamental. O gol saiu da primeira página do romance (novela?) de James.

“E se uma criança já da mais uma volta no parafuso, que tal duas crianças…?”

Ora, James se refere ao fato de que numa história de terror e suspense, a presença de crianças sempre ajuda a torcer ainda mais o parafuso pelo qual se regula a tensão de um mecanismo. Assim, em termos de tensão e emoção, já sai A Volta do Parafuso fazendo gol no susto do adversário, pois em Mrs. Dalloway não há criança alguma.
Eu gostei tremendamente do debate que se seguiu depois disso. Milton e eu tivemos percepções muito parecidas dos livros e, como eu avisei a ele, por vezes era preciso me cortar, pois sempre tendo a falar demais quando o assunto me empolga. Aliás, acho que este é um qualificativo bom para o jogo: foi empolgante. Conversamos sobre as inúmeras adaptações cinematográficas e teatrais de A Volta do Parafuso, suas referências nada obscuras à sexo e, até, a velada paródia dos antigos textos góticos de fins do século XVIII início do século XIX. Alguém da plateia gritou gol, por conta das referências sexuais, mas achamos que foi na trave. O narrador (narradora/personagem) nada confiável de James ganhou grande espaço na noite. De fato, a governanta foi o grande craque do jogo e roubou vários bolas, de outra forma, certeiras de seu adversário.
Obviamente, Mrs. Dalloway não foi bolinho. Jogou no ataque, fez bonito, com jogadas ensaiadas e uma boa inventividade em campo. Sua tática moderna seria suficiente para colocar a outra equipe de joelhos, porém… ah, o futebol. Sendo mais clara, nem sempre ter um jogo bonito resulta em gol e o vacilo do primeiro minuto custou caro à Mrs. Dalloway.
Seguindo os critérios propostos pelo Milton, aqui vão os gols acumulados durante a partida. Lembrando que ao final, o público presente clamou por mais alguns gols que foram acolhidos pelos árbitros apesar da relutância em ver o time, digo, obra favorita perder (provavelmente precisaremos de terapia depois disso).
1. Foco Narrativo: 2 x 1 (James já tinha um gol, lembram?)
(repasso abaixo minhas anotações, pois as do Milton estão no post dele)
Mrs. Dalloway, obviamente, tem muito de experimental. Muito já se falou sobre o fluxo de consciência, a alternância de personagens, a conjunção de mundos diferentes, do flaneur subjetivo que a autora realiza especialmente neste romance. Há consenso sobre a modernidade de sua narrativa, a qual, inclusive, já foi comparada ou estilo pontilhista em pintura. Como o pontilhismo, a obra de Woolf pareceria craquelada ao ser olhada muito de perto, sendo necessário a devida distância para realizá-la por completo. Mrs. Dalloway, por tudo isso é um livro pouco indicado para leitores devoradores. Quem fizer isso, perderá muito do livro em que cada parágrafo parece conter um mundo inteiro, o que desarma aqueles que o concebem apenas como um texto estético.  É uma obra de degustação lenta, que não deve ser vencida apenas para que o leitor a coloque em seus troféus de caça. De qualquer forma, falo longamente sobre o romance aqui, para quem tiver interesse.
Já James é um estilista notável e em A Volta do Parafuso, nos mantém amarrados a sua enganadora protagonista. É difícil não marcar gol num texto em que o duplo sentido é o próprio sentido da história. Você pode até dizer que é um livro de feição clássica, mas até esta dúvida ficará depois de terminar de lê-lo. Trata-se de um texto ilusionista. As várias leituras possíveis são orquestradas para enganar o leitor, para deixá-lo sem certeza alguma sobre o que é narrado. E.M. Forster dizia que James era um autor que não fugia aos padrões na hora de escrever. Mantinha-se rigidamente preso a eles. Se admitirmos que Forster está correto, então, AVP é um exemplo clássico de que o leitor não pode confiar em nada do que lhe é contado. De minha parte, já próximo ao fim, eu lia as palavras quase por seu contrário. Onde a narradora punha doçura, eu lia violência e assim por diante.
2. Construção de conflitos e estrutura do romance : 3 x 2
Tanto em James quanto em Woolf a realidade só existe a partir da visão que os personagens constroem dela. Logo, a ação de ambos os romances é muito mais interna do que externa. Isso não diminui a existência dos conflitos, pelo contrário. No caso de Mrs. Dalloway, os conflitos jamais chegam à superfície, mas todos eles estão lá, fortes, mesmo que não alterem as ações das pessoas. O tempo é que aparece como o grande catalizador desses conflitos. Seja nas horas vazias ou nos anos perdidos, na velhice ou na juventude desperdiçada. O tempo é a presença, a dor, está ali na forma do passado morto-vivo, do presente insípido e do futuro sem esperança.
A Volta do Parafuso vai num crescente de seus conflitos, com sustos e aumento do nível de tensão. Não tem como não fazer gol. Em ambos, os conflitos, externalizados ou não, são a raiz da estrutura do romance. Gol para as duas equipes.
3. Construção de Personagens : 3 x 3
Mrs. Dalloway empata. Muito difícil vencer em campo sua miríade de personagens cheios de nuanças e riquezas psicológica. Os 4 personagens de James perdem.
4. Relevância Sociológica : 3 x 4
Um gol belíssimo de Mrs. Dalloway. O livro faz referências à 1ª guerra, ao Império, à Índia, desfaz das hierarquias sociais. O time de James anda pelo campo, perde bolas sucessivamente, não se encontra, nem sabe o que fazer. O placar parece decidido: Virginia, de virada.
5. Análise Psicológica: 4 x 5
Pelo que foi exposto acima, fica claro que os dois times fazem golaços aqui. Estávamos prontos para o apito final, então… eu resolvi falar. Eu havia levado um último critério, caso desse empate, o qual acabou virando um gol de empate, no último minuto.
6. Emoção : 5 x 5
O time de A Volta do Parafuso quase sem surpresa faz gol no último minuto, empatando a partida. Duro golpe para a torcida de Mrs. Dalloway já pronta para festa e volta olímpica. Mas, vamos lá, o texto de Woolf é angustiado e duro, mas o de James, mantendo o leitor em suspense, entre a verdade e a mentira, entre o terror e a loucura… bem: gol.
Aceitaríamos com prazer o empate, mas foi quando o público orquestrou os pênaltis e foram mais 3 gols. O título de A Volta do Parafuso fez gol por ser uma importante chave de leitura do romance, estando inclusive em sua estrutura básica. Inapelável. O contra-ataque veio a seguir, o emblematismo da personagem título de Woolf levou a um novo empate. Porém, o último pênalti deu a vitória a Henry James: sua obra tem nuanças e possibilidades de leitura que o mantém extremamente atual. Sua atemporalidade foi o gol da vitória.
Um grande jogo, do qual fiquei orgulhosa em participar, mas, como a própria platéia comparou: era um jogo de nível de seleções, quase uma final de Copa. 

Para não enlouquecer

Li em tempo recorde A espécie fabuladora, de Nancy Huston. Não há nenhum mérito nisso, o livro é fácil ou facilitado (como queira enxergá-lo). O texto se compõe de sentenças quase sempre solitárias e parágrafos curtíssimos. Precisei me acostumar com isso, pois minha impressão de textos assim fica bastante craquelada, composta por saltos respiratórios de uma narrativa feita em vários fôlegos. Talvez, por conta disso, tenha gostado mais do livro após ter vencido o seu primeiro terço, quando o ensaio se estende com um pouco mais de calma, com parágrafos mais longos e menos vontade de simplificar. Quem sabe, o livro tenha sido composto para dois tipos de leitores, aqueles que leem apenas os primeiros capítulo e os que são capazes de vencê-los. No geral, porém, concordo com a opinião do Milton Ribeiro sobre o livro (que, aliás, me foi presente dele), inclusive, indico sua resenha. 
O ensaio de Nancy Huston versa sobre o humano e a necessidade básica de construir-se através de narrativas. Somos impelidos desde sempre a nos explicarmos como espécie e/ou como indivíduos narrando o que acreditamos ser. Usando um exemplo da autora: nós podemos dizer que viemos da barriga da nossa mãe; um chipanzé também reconhece sua mãe, mas jamais dirá que veio da barriga dela e nem terá essa imagem ou certeza, nem contará histórias sobre si mesmo e de sua a relação (cuidado, carinho, abandono, tutela) com esta mãe. 
Sob esta ótica, Huston examina os componentes da identidade: o nome, a filiação, a história do crescimento e a familiar, a profissão, os amores, a religião, as crenças, etc e, conclui: todas estas são narrativas. São fabulações que pretendem ser o real, mas que somente o são na medida em que nossos cérebros acreditam que tais narrativas são a verdade. Em outras palavras, toda a realidade sobre o que somos reside em acreditarmos sê-lo. Se tudo for retirado, se eliminarmos as ficções que nos compõem, resta somente a realidade da carne, absolutamente desprovida de identidade. Somos apenas mais um macaco pelado sobre a terra e nada mais..Tudo o que se coloca sobre isso, tudo o que constitui o self, são narrativas, ficções como diz a autora. Acreditamos que nosso nome é este e na história que nos contaram sobre ele. Acreditamos que nossos pais são os que se apresentaram a nós. Acreditamos que nossa história é a que nos foi contada. Porém, um simples exercício de deslocamento, um rápido passeio pela alternativa filosófica do: “e se você não fosse você, não fosse quem acredita ser?”; e tudo cai por terra. Resta o corpo e só ele. De fato, por vezes, até mesmo o corpo pode nos apresentar ficções e falsidades. 
Em suma, tudo o que confiamos e batemos no peito a afirmar “sou isso”, pode desmoronar se pensarmos que a maior parte das coisas em que acreditamos não o são por saber, mas porque nos contaram, porque nos afirmam. Huston não se limita nesse raciocínio e vai até mesmo às ficções teológicas e históricas nas quais a humanidade se apega com firmeza, como a uma boia para não afundar no mar das incertezas. Em certo momento, a autora diz que vivemos na eterna tensão entre nosso desejo de controlar o mundo que nos cerca e a acachapante realidade de que não podemos fazê-lo. Por isso precisamos de deus, ou deuses, ou do que quer que nos dê esperança de que existe algum tipo de inteligência no controle da coisa toda, de que não há apenas o abismo à nossa espera. Mas, tudo isso são somente crenças… nada mais. 
A romancista canadense faz um trabalho muito interessante de desconstrução das certezas e, imagino, alguns tipos de leitores podem até se sentir perturbados pelas proposições da autora. Afinal, ela é muito convincente e, certamente, não está errada. Mas, da mesma forma que – como ela afirma – as pessoas necessitam de ficções para suportarem o real, não vê-las sob a carga que o real lhes empresta pode ser desestabilizador e doloroso. Isso nada tem a ver com inteligência, mas com a firme decisão que muitos de nós tomam de, simplesmente, acreditar. 
Na tarde em que lia o miolo do livro, cada vez mais interessada, tirei uns 40 minutos para ir a manicure – coisa que tenho feito cada vez menos por tomar gosto nos pinceizinhos coloridos. Marquei num salão à mão com uma moça que não conhecia. Do silêncio inicial entabulamos uma conversa educada, de superfície. Começamos falando de nomes e sobrenomes. Como falei um pouco demais, justifiquei: sou historiadora. Não lembro bem de onde veio a pergunta:
– Tu é ateia? – e juntou em seguida. – Eu tenho um irmão que é ateu. E outro que é pastor. Sou espírita e já frequentei a umbanda. É bom, me ajudou muito quando perdi minha mãe. Mas, sei lá, tem coisas que nunca a gente vai saber, tipo, se Adão e Eva existiram mesmo.

Reprimi um “claro que não” e disse:
– Bem, cada o povo tem sua própria história de como surgiu na terra. Esta foi a história que nós herdamos.

Ela afastou os olhos da minha mão, pensou um pouco e respondeu uma das conclusões de Nancy Huston em seu livro:
– É… não dá para pensar muito nisso, se não a gente fica louco.
Tá certa a garota. Admitiu a incerteza e admitiu sua necessidade colocar algo em seu lugar para poder conviver com ela. Eu não sou tão corajosa assim, aferro-me as minhas incertezas com devoção religiosa. Cada vez mais. 

Os perfumes têm intimidade

Um segredo também o é quando a gente não entendo o porquê de alguma coisa. Esta é, em parte, a conclusão da historiadora Tilar Mazzeo ao terminar seu livro O Segredo do Chanel nº5: a história íntima do perfume mais famoso do mundo. Depois de 245 páginas tentando decifrar o enigma, Mazzeo capitula. Por que o século XX se deixou capturar por este aroma que deixou rica e famosa sua criadora, mas teve uma existência a parte dela? Como uma fragrância (do cheiro até o rótulo e o frasco) pode se tornar um ícone cultural? Por que até mesmo que não se interessa por perfumes já ouviu alguma vez falar deste?
Quando fiz 15 anos, ganhei um frasco minúsculo de Chanel Nº 5. Avisaram-me que tinha valor de joia, contaram-me sobre Marilyn Monroe, mas, quando cheirei, não gostei. Lembrava talco e eu tenho aversão à talco por ter sido daquelas crianças que, após o banho, desfilava um pescoço branco empoado pela mãe. Hoje, depois de ler o livro de Mazzeo, acho que, como muitas coisas vividas na juventude, talvez, eu não não tenha compreendido o perfume. 
De fato, o livro foi capaz de me abrir um mundo sensorial que eu desconhecia. Mazzeo é hábil em traçar as diversas implicações existentes na criação da fragrância, da infância de Coco Chanel à Russia Imperial. Fala de antecedentes, parentes olfativos, vai até o mais íntimo que consegue imaginar das pessoas envolvidas. Mas o que ela prova é que um perfume – como uma música, um livro, ou um filme – é uma experiência emocional e, claro, pessoal. Então, de novo, cai-se no enigma: como uma única fragrância conseguiu ser este acessório tão íntimo para tantos?
A julgar pela primeira parte do livro, se pensa na conexão do perfume e da criadora. Pode-se (quase) achar que se trata de uma biografia da estilista, mas não é. A biografia é do perfume. E logo na segunda parte a autora nos apresenta ao universo que existe em cada um destes vidrinhos. Como desconhecedora total, saí do livro mais inteligente ao saber de notas e ingredientes e das três nuanças em cada fragrância. Depois, ela mergulha na estrutura do mercado dos artigos de luxo de princípios do século XX, nas duas grandes guerras, nas batalhas empresariais entre Coco Chanel e a Bourjois, a fabricante do Chanel Nº 5. Por fim, depois de desfazer-se dos mitos em torno do perfume e de mostrar sua complexidade histórica, Mazzeo tenta reconstruir sua trajetória na cultura do pós-guerra.
Sem conseguir largar o livro do princípio ao fim, só posso indicá-lo. Afinal, eu nem gosto tanto de perfumes, tampouco me interesso apaixonadamente por biografias e, ainda assim, só consigo pensar no meu minúsculo e perdido frasquinho de Chanel Nº 5. Preciso cheirá-lo novamente.