156 anos de Santa Maria, uma história…

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Meu livro Dizem que foi Feitiço: as práticas de cura no sul do Brasil (1845-1889) está esgotado em sua versão física. Sei que ele reside em algumas bibliotecas universitárias fora do Brasil; sei de muitos colegas que o usam seja em aulas, seja como elementos de debate, seja para compor um retrato das práticas de cura no século XIX; sei que vez ou outra um exemplar dá as caras na Estante Virtual e também logo desaparece. Em todos estes fatos, só posso declarar meu contentamento em acompanhar este trabalho, quase 15 anos depois de sua construção e cerca de 13 de sua publicação, ainda sendo lido e rendendo frutos. Incomoda-me um pouco, portanto, que ele não esteja acessível por completo (há uma visualização parcial no Google Books) e, tenho pensado em relançá-lo apenas em e-book (com ou sem revisões, dependendo do meu tempo). Minha intenção não é, de forma alguma, segurar o trabalho tornando-o raro e pouco acessível. Pelo contrário, é um trabalho acadêmico cujo objetivo é chegar ao maior número de pessoas possível para, assim, poder ser estudado, criticado e ultrapassado. É assim que se faz ciência. Algumas pessoas, por vezes, me cobram uma reimpressão física do livro. Infelizmente, sua editora original não se interessou. Obviamente, relendo-o, eu encontro muitos elementos e conclusões datadas; pontos em que, como pesquisadora, eu avancei; coisas que faria diferente; academicismos próprios de um trabalho de mestrado; excesso de notas; debates que poderiam ser incluídos no texto, etc. No entanto, o trabalho ainda é válido e me orgulho dele.

Hoje, o cenário de minha pesquisa, a cidade de Santa Maria da Boca do Monte, completa 176 anos. Não é incomum, nessas datas comemorativas, que as pessoas lembrem os seus ilustres cidadãos, as pessoas que por aqui nasceram ou viveram e suas contribuições para o grande mundo. É bem natural, como forma de “relevo” aos “feitos” da cidade, dizer que ela deu ao mundo ou formou fulano ou sicrano. É um jeito de dizer: vejam, é bom que essa cidade exista, ela permitiu beltrano de tal existir. Sendo assim, e como eu realmente gosto de Santa Maria, vou lembrar mais uma vez de uma sua antiga cidadã, por tanto tempo anônima e esquecida, mas cuja vida me deu um mestrado e um livro. No aniversário de Santa Maria, eu agradeço à cidade que me acolheu no nome dessa ilustre desconhecida: a curandeira preta forra septuagenária Maria Antônia.

Abaixo a primeira página da introdução do livro:

A preta forra Maria Antônia tinha cerca de 70 anos em 1866, quando foi indiciada por envenenamento. A vítima era uma mocinha de nome Henriqueta, filha de um casal de lavradores pobres que moravam nas cercanias da Vila de Santa Maria da Boca do Monte, região central da então Província do Rio Grande do Sul. Maria Antônia tinha o ofício de roceira, porém, possivelmente, a maior parte de seu sustento vinha de suas agências como curandeira. Conhecida pelos habitantes daquele local por suas habilidades nessa atividade, a preta foi chamada pelos pais da jovem Henriqueta, José Pires de Arruda e sua mulher Florisbella, para curá-la. A moça vinha padecendo de uma “estranha moléstia”. De acordo com os vizinhos, que presenciaram os fatos, ela tinha “ataques” e, às vezes, expelia barro, linha, lã e agulhas pela boca e pelo nariz.

Maria Antônia não fora a primeira curandeira a ser chamada. Tinha sido precedida pela índia Maria Nungá. E, mesmo que a preta tenha conseguido trazer melhoras ao estado da moça, como sua antecessora, ela falhou em curá-la completamente. A família da enferma recorreu, então, ao cirurgião-mor da Guarda Nacional, Francisco Custódio da Silva e, a seguir, ao médico homeopata Theobaldo Jaeger. De todos os que trataram de Henriqueta, Maria Antônia foi a única a conseguir algum resultado positivo.

Como não fora possível identificar a moléstia que acometia a jovem, o último curador a ser chamado, o homeopata Jaeger, sugeriu que Henriqueta estava sofrendo em razão de alguma matéria venenosa que lhe havia sido ministrada. Quando o caso foi denunciado às autoridades, a família de Henriqueta e os vizinhos que acompanhavam os acontecimentos foram unânimes em apontar a preta Maria Antônia como culpada. No processo de Sumário de Culpa instaurado contra a curandeira, as mesmas pessoas que lhe imputaram o papel de causadora da doença de Henriqueta se negaram a acusá-la diretamente. Essas testemunhas informaram ao delegado que não tinham certeza sobre o envolvimento de Maria Antônia, mas que a voz corrente, na região, era de que a moléstia da jovem se dera por obra do feitiço.

A leitura deste processo sugeriu-me uma série de questões. Por que tantos curadores diferentes foram chamados para tratar a jovem Henriqueta? Por que a única curandeira que logrou melhoras na enferma foi denunciada como causadora de uma moléstia, da qual ela nem mesmo fora a primeira a cuidar? Quais os elementos constantes na narrativa acima que, no século XIX, poderiam ser associados pela cultura popular à feitiçaria? Ao iniciar a análise do documento, notei que, mais do que perguntas intrínsecas ao relato, existiam aí uma boa quantidade de pistas que permitiam pensar as formas como a doença, as testemunhas e os agentes da cura eram percebidos no Brasil imperial. Somente a partir do estudo desses três elementos, e das relações que se estabeleciam entre eles, é que se tornaria possível começar a responder os pontos obscuros do processo contra a curandeira Maria Antônia.

 

 

 

Amor? Que História é essa?

 

mão amadaA pergunta me foi feita em um programa de rádio do qual participo semanalmente*. A provocação surgiu porque, ao longo deste semestre, estarei ministrando a disciplina de História do Amor na universidade em que trabalho**. As perguntas quando se oferece uma disciplina diferente dos moldes habituais se sucedem. Não chegam a ser originais (como costumo trabalhar com recortes não usuais da História, ouça as mesmas perguntas várias vezes), mas refletem a curiosidade encantadora das pessoas, seu estranhamento (que eu acho mais encantador ainda) e o fascínio do tipo: “sério? é possível fazer isso?” Há reações negativas também, claro. Mas prefiro deixá-las de lado, pois, em sua maioria, são fruto do desconhecimento da proposta.

Resolvi fazer esta postagem para falar de Amor e responder: afinal. que história é essa? Assista o curta abaixo (clic no link) e me responda: o Amor é isso para você?

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A pequena obra-prima de Christophe Beck e John Kahrs, apesar da beleza, da poesia e de falar uma linguagem que somos capazes de reconhecer e, mesmo sem palavras, compreender, é um conto de amor datado. Por favor, não leia a palavra “datado” como algo pejorativo. A maior parte das coisas que pensamos ou consumimos são datadas, no sentido em que são parte de uma História muito maior. Uma História que antecede o que somos e pensamos e que seguirá em frente após nossa partida. Em termos humanos nada (ou quase nada) pode ser dito atemporal. Uma de nossas mais importantes características como seres humanos é o fato de que nos reinventamos a cada geração e, com isso, atualizamos os conceitos, as ideias e a forma como nos expressamos no mundo.

Isso serve para o Amor? Sim, claro. Mas o Amor é um sentimento, você dirá. Sim, é um sentimento (ou um impulso), mas é também um conceito. Um conceito que nos permite reconhecer o sentimento. Um conceito cultural, histórico e socialmente determinado, o qual acessamos na mesma medida em que somos introduzidos, ensinados e adestrados em nossa cultura-mãe. Um conceito que nos permite investigar nosso íntimo, nossa alma, nossas entranhas e saber: sim, eu estou amando.

A antropóloga física Helen Fisher

A antropóloga física Helen Fisher

É claro que se pretendermos saber se as formas de “sentir” o Amor se modificaram ao longo do tempo, se há mais ou menos intensidade neste “sentir”, estaremos entrando num beco sem saída, mesmo que com algumas janelas. Nesses termos, nosso melhor material de estudo são os poetas, os escritores, as cartas de amor, os diários. Ainda assim, sem um “amorômetro” respostas conclusivas sobre intensidade e sentimentos são em grande parte relativas. A neurobiologia, no entanto, tem avançado na compreensão de como o nosso cérebro e o nosso corpo reagem quando nós dizemos e sentimos que estamos amando. Existe, conforme os cientistas, uma fisiologia da paixão e também do Amor. É nesse sentido que estudiosos como Helen Fisher dizem que o Amor mais que um sentimento é um impulso bioquímico, um movimento do cérebro em direção à alguém, ou alguma coisa. Abaixo a palestra de Helen Fisher no TED Talks e que vale à pena em cada minuto.

Helen Fisher e o Cérebro que ama – TED Talks

É claro que estudos como este não são apenas interessantes, mas também fundamentais em nosso atual estágio civilizatório, na medida em que são ferramentas para que possamos compreender melhor quem somos. Por outro lado, que espécie de investigares seríamos se reduzíssemos tudo aos nossos impulsos biológicos? Sendo seres culturais, aprendemos a controlar, dominar e até a recalcar nossos impulsos. Alguns desses impulsos encontram explicações fáceis na biologia, adequando-se a ideias como reprodução, preservação da espécie, controle de natalidade, etc. No entanto, também a biologia é uma ciência histórica e, não raro, o que interpretamos sobre suas descobertas tem a ver com compreensões que são datadas pela História e pelo tipo de moral constituída dentro dessa História.  (Volto a sugerir aqui no blog o livro de Thomas Laqueur, Inventado o sexo: corpo e gênero dos gregos à Freud. que dá um ótimo panorama da biologia humana como uma ciência do indissociável do tempo).

Sendo assim, seria bem reducionista se acreditássemos que amamos “apenas” porque queremos reproduzir e garantir o sucesso da criação de nossos filhotes – fornecendo defesa e alimento – dando, com isso, continuidade à nossa espécie. Vários elementos desse tipo de interpretação podem ser relativizados. Vejamos: trata-se de uma racionalização do “amor”. Uma transformação de um impulso que toda a nossa cultura se moldou para afirmar “irracional”, “incontrolável”, “irrefreável”, para algo que possamos entender e domesticar aos parâmetros morais e históricos da sociedade em que vivemos. De fato, o Amor não é indissociavelmente ligado a isso: digo reprodução, crias e toda essa questão da espécie. Na verdade, historicamente faz bem pouco tempo que “precisamos” do Amor para justificar essas coisas. O Amor, aliás, nem sempre foi sequer uma justificativa necessária para o sexo (e pra muita gente ainda não é). A relação sexual pode ser um “fim” encantador para algumas histórias de amor, mas não é um fim obrigatório. Por outro lado, sexo é algo que os humanos aprenderam a fazer por diversão e não só reprodução, certo? E isso, biologicamente falando, já que, pelo menos em tese, nossos corpos estão sempre disponíveis para o sexo. Logo, o Amor pode ou não ser um componente disso.

amor caravaggioO primeiro ponto a se pensar quando se mergulha num tipo de explicação estritamente biológica é que: uma coisa é descrever o que acontece no cérebro ou no corpo, outra é definir estas explicações a partir de um ponto de vista funcionalista. Sim, amamos. Sim, nossos corpos e cérebros reagem. Agora, daí a dizer que amamos para isso ou aquilo é um tanto diferente. Nesse ponto nos voltamos para a História e a Cultura: para que amamos? E as respostas da História e a Cultura falam do Amor como um afeto vivido em sociedade ou, se preferir, em termos de relações sociais que nos afetam de diferentes formas; mas, certamente, não como uma obrigação biológica. Embora tenhamos construído o gosto por pensar no Amor como um sentimento que nos abalroa como um raio ou nos invade como um Tsunami, o Amor tem várias faces e várias formas de nos alterar e alterar as nossas relações com os outros. Tais formas, ao contrário do que gostamos de pensar, têm uma História. Tais formas se alteram no tempo, tais formas sofrem sansões, repressões e autorizações. O que quero dizer com isso? Ora, quero dizer que você pode amar tanto quanto o Romeu de Shakespeare, mas que ao invés de ir sussurrar na sacada de alguém é bem possível que você lhe mande um carro de som com música brega ou piche o muro em frente a casa do seu amor.

Não nos expressamos no Amor – como em nada – da mesma forma ao longo do tempo. De fato, alguns autores acusam nossa sociedade, fixada nos ideais do Amor Romântico, em reduzir largo o espectro do Amor. Roman Krznaric, por exemplo, volta a Grécia Antiga para encontrar pelos menos seis formas de amar:  eros, o amor sexual; Phila, o amor amizade; ludus, o carinho lúdico entre crianças ou amantes casuais; pragma, o amor maduro e o profundo conhecimento que se desenvolvem em relações duradouras; ágape, o amor altruísta estendido a todos os seres humanos, oferecidos incondicionalmente e sem expectativa de reciprocidade; e Philautia, ou o amor-próprio, que pode ser tanto negativo, manifestadas como ganância e narcisismo (depois do mito de Narciso), quanto positivo, como um alargamento nutritivo da nossa capacidade de todo o amor, a partir de dentro.

Krznaric acredita que boa parte da sensação de desamor que sentimos modernamente está no fato de querermos encontrar em um único alguém, se não todas, a maioria destas vertentes amorosas. Uma noção mítica de que ao encontrarmos nossa “alma gêmea” todas as nossas incompletudes serão saciadas.

Nós podemos navegar por essas dificuldades de amor – e aumentar as suas alegrias – segurando a importância de duas grandes tragédias da história das emoções. A primeira é que nós perdemos o conhecimento das diferentes variedades de amor que existiram no passado, especialmente os que estão familiarizados com os gregos antigos, que reconheciam que o amor poderia ser descoberto não apenas com um parceiro sexual, mas também nas amizades, entre estranhos, e com eles mesmos. A segunda tragédia é que ao longo dos últimos mil anos, essas variedades foram incorporadas uma noção mítica do amor romântico, que nos obriga a acreditar que todos eles podem ser encontrados em uma pessoa, uma alma gêmea única. Podemos escapar dos limites dessa herança, procurando por amor fora do reino de ligações românticas, e cultivando suas diversas formas.

Para Krznaric, a pergunta sobre o que é o Amor e a busca por definir sua essência é uma falsa questão. Para ele, o Amor assume diferentes formas pessoais e mesmo históricas e, como filósofo, sua resposta é que deveríamos cultivar mais essa diversidade do nos mirarmos no ideal romântico.

Como historiadora, interessa-me o Amor como ele vem sendo expresso (e impresso) ao longo da História. Como as pessoas elaboraram a leitura de seus sentimentos de acordo com os ideais amorosos de sua época? Como as sociedades usaram de seus mecanismos permissivos e repressores para autorizar determinadas formas de Amor e desautorizar outras? Como o sublime Amor dos gregos entre iguais se tornou um “amor contra a natureza”? Como a “imposição biológica” da gestação se tornou o “Amor materno incondicional”? Como o Amor virou condição para casamento? Além disso, não amamos somente pessoas: mas também coisas, atividades, trabalhos, animais. Amamos, acima de tudo, o prazer que sentimos com tudo isso. E, ainda resta perguntar: por que e para que amamos fora das relações pessoais?

Estas perguntas nortearão meu semestre com meus alunos. Acima de tudo, quero partir com eles por uma viagem que desnaturaliza o sentimento como um dado sem tempo ou espaço. Nossa viagem pretende, como fim, compreender a fragilidade das relações humanas e o Amor como seu principal amálgama. Um Amor que, no entanto, na compreensão de pensadores como Zygmunt Bauman, tende a se tornar líquido, fluido e tão cheio de vazios quanto as pessoas que dizem senti-lo.

 

* Programa de Debates Jogo de Cintura, na Antena 1 SM, das 13 às 14h – estou no time das sextas-feiras. Pode ser ouvido on line.

** Centro Universitário Franciscano, Curso de História.

 

 

 

De cheiros, perfumes e História

Uma das coisas chatas em História é o fato de toda vez que se inicia a fazer algo fora do ordinário pesa um pouco a necessidade de elaborar uma justificativa. Isso ocorre porque temos plasmado em nossa avaliação do mundo uma hierarquia de assuntos, dos mais importantes aos menos, e isso constitui a base de grande parte de nossas avaliações. Obviamente, com alguns segundos a mais de pensamento, tal edifício se desmonta, mas, convenhamos, há um grande número de pessoas que não se dá ao trabalho de pensar esses segundos preciosos a mais. Não se preocupem, não direi que tal hierarquia é culpa da sociedade burguesa, da ignorância veiculada pela grande mídia, nem mesmo de algum partido político, ou do descaso sobre a educação. A hierarquia de assuntos é humana, civilizacional e levou milênios sendo construída, logo, não é culpa de ninguém em especial, “nem dos romanos” (diria o Monty Python).

Algumas das hierarquias em que nos baseamos estão estruturadas sobre o que consideramos fundamental, ficando lá, no fim da várzea, tudo o que é visto como supérfluo e fútil. A economia, a fundamentações políticas e o gênero, aparecem como algumas da principais réguas nessa medida. Um exemplo do que estou falando foi a reação que colhi de algumas pessoas quando ministrei História do Vestuário na universidade. As associações com moda, futilidade, preocupações “femininas” pareciam argumentos suficientes para risinhos laterais e uma visão antiquarista sobre homens de meia-calça e mulheres com vestidos (ah, os vestidos) de “princesa” Disney. Comecei a disciplina com duas palavras que, a meu ver, calam esses argumentos: revolução industrial. A partir delas fui construindo com meus alunos uma visão de vestuário que passava pela identidade, religião, organização social dos povos até a indústria que capitaneou a ascensão do capital e que move bilhões hoje, indo do mercado do luxo, à escravidão moderna nos países asiáticos e em alguns pontos da América Latina (Brasil incluído).

Outra régua, bem mais antiga, remontando ao nascimento da civilização é a que se baseia nos sentidos. Fomos elegendo os que nos faziam mais civilizados e nos lembravam menos nossa porção animal. Assim, o olfato caiu para o fim da fila. Nosso aliado em farejar o perigo, os feromônios, as memórias, foi considerado menos necessário que a visão e a audição, menos ligado ao intelecto, menos preciso na conceituação do que quer que fosse. Essa percepção acabou dando-nos, modernamente, a ideia de que a percepção olfativa não tem uma história, ou se tem, ela é acessória, supérflua e pouco importante. Se nesse tópico ainda adicionarmos a questão dos perfumes – sinônimo de luxo e do conceito estereotipado de feminino frívolo e condenavelmente sedutor – então, estamos levantando e estudando a mais desnecessária das Histórias, certo? Obviamente, não se poderia fazer suposição mais errada (como provam apontamentos de Febvre e Bloch que, claro, mapearam quase todas as possibilidades de temas para a História muito antes do resto da classe se dar conta delas)..

Eu poderia fazer um retorno à pré-história para provar meu ponto de vista, mas serei mais breve. Pense na cidade em que vive. Na sua estrutura: o lixão longe do centro e os aterros sanitários, o cemitério deslocado para longe das catedrais, ocupando também a periferia, nossa classificação de limpo e sujo, os centros saneados, as periferias com esgoto à céu aberto, “sou pobre, mas sou limpinho”, o olhar repugnado dos transeuntes aos moradores de rua (olhar? são seus narizes que se torcem), os shoppings desodorizados como hospitais e limpos das gentes mal cheirosas. Se hoje os cheiros parecem nos menos importantes são porque foram domesticados e nos agridem quando não o são. Isso, claro, tem uma História.

No ocidente, a renascença marca o início de uma obsessão: a busca pelos perfumes, pelos cheiros agradáveis. Queria-se tornar as casas mais agradáveis e a convivência estreita da nascente sociedade de corte também (nada mais ilustrativo dessa busca do que o romance, O Perfume, de Patrick Süskind). No século XVII, mais que buscar cheiros agradáveis, iniciou-se a caça aos maus cheiros, em especial os do ambiente. O cheiro foi visto como o veículo dos males pestíferos, as doenças, eram os miasmas e o trabalho por sua domesticação levará os três séculos precedentes (acredito que ainda não se possa considerar que tal trabalho esteja plenamente acabado). No XX, a indústria do luxo capturou os aromas, mas não só ela. A industria da higiene colocou em sabonetes, desodorantes e shampoos não apenas um conceito de limpeza, mas também, doravante, uma classificação social. A domesticação dos cheiros, mais que nunca, passou a ter um papel fundamental na classificação que se faz dos espaços e, claro, das gentes.

No Brasil, esse assunto é ainda revestido de outras questões, preconceitos (alguns herdados do tempo da escravidão) e, como não poderia deixar de ser, de alguns mitos cultivados por nossa sociedade que acredita que o banho é seu índice máximo de civilização. Nosso costume – tão pleno dos auto-elogios que nos jactamos – nos coloca acima dos europeus, dos indus, do resto do planeta. Oh, fantásticos nós que tomamos banho todo o dia, por vezes, mais de um. Neste raciocínio se perpetuam pérolas do anacronismo: “nós (brasileiros) aprendemos a tomar banho com os índios”. Ou “o perfume foi inventado porque as pessoas não tomavam banho”. Neste sistema, o banho é o dado e todo o resto é reação, oposição.

O fato é que, não se “aprendeu” a tomar banho com os indígenas  Sim, eles tomavam banho, mas de forma lúdica, como parte das brincadeiras ou até afazeres do dia. Não há percepção higiênica, em outras palavras: é banho sim, mas não é o nosso tipo de banho. Por outro lado, quando o banho se tornou um hábito nas cidades brasileiras (primeiro nelas, depois no campo), há muito já não existia um convívio estreito com os indígenas que mantivessem os costumes ancestrais. Por outro lado, imagine se: com o frio de menos de 10º – como o que faz no momento em que escrevo -, algum habitante do sul, antes do chuveiro elétrico, se arriscaria ao banho diário.

Sobre o perfume ser inventado porque as pessoas não tomavam banho, trata-se de uma frase é invertida em suas proposições. O banho não era um dado. Os romanos o tomavam como parte de suas atividades politicas e, principalmente, masculinas. No entanto, os banhos romanos foram vistos como culpados pela propagação de doenças e pestes ao longo do medievo. O banho era um risco. A pele ficava porosa justamente aos terríveis e mortíferos miasmas. O cheiro do corpo e sua oleosidade o protegiam. O perfume era uma busca do agrado, do prazer, do estimulo dos sentidos. Não se pretendia apagar os cheiros, eles tinham uma função. A busca hedonista não é funcionalista. Sua justificativa está onde não se quer percebê-la, em nossa animalidade, nessa coisa estranha e de difícil classificação que é a percepção e a sensibilidade olfativa.

A história dos cheiros e dos perfumes é um mergulho em todos estes pontos. Em elementos constitutivos de nossa humanidade, em nossa estrutura urbana e social. É um pouco de tudo isso que pretendo estudar com meus alunos no segundo semestre deste ano em História do Perfume, disciplina optativa do curso de História da UNIFRA. Quem ficou curioso por mais, pode perguntar. Devo voltar a comentar sobre isso, pois o assunto é instigante e pleno de apelos a todos os sentidos e intelectos.

 

 

 

O Fim do Mundo e a História

A UFRGS propôs este ano, em seu ciclo de cinema, debater o Fim do Mundo. Afinal, com tantas apostas em 2012, por que não debater as visões cinematográficas da tão aguardada catástrofe? Contudo, o Fim do Mundo é uma prima-dona, faz barulho demais e, no final, ou leva poucos ou deixa alguns e, de fato, o mundo não acaba. Ainda assim, os ensaios (no cinema) são válidos e, por vezes, até empolgam.

Fiquei muito contente em ser convidada a participar e comentar o filme Contágio (2011), de Steve Sodenbergh, juntamente com o Professor Cassius Ugarte Sardiglia, microbiologista da IFSUL. A sessão e o debate que se seguiu foram muito interessantes. O filme prestou-se a isso, tanto por seus acertos quanto por suas falhas, e, muito provavelmente, poderia ter-nos permitido falar mais sobre o tema.

O filme conta com um elenco estelar, daqueles com que normalmente Sodenbergh nos brinda. Não estou me referindo à astros especificamente, mas atores realmente bons e capazes de trabalhos que impressionam a academia e o público. Confio totalmente no Professor Cassius e ele afirmou em sua palestra que, em termos de avanço epidêmico, o filme não comete grandes erros e, em sua maior parte, apresenta corretamente o processo de trabalho com vírus altamente contagiosos. Contudo, não cheguei a perguntar-lhe se ele gostou do filme ou não.

Não sei as intensões do diretor, nem tenho a pretensão de fazer crítica de cinema, mas a mim, o filme soou fraco. Não pelo excesso de personagens – coisa comum no cinema catástrofe dos anos 1970 e que parece, de alguma forma, ter inspirado o diretor – nem pelas tramas paralelas, nem pelo jogo “vida de gente comum x vida de gente que tem responsabilidade”. Nada disso. Também não me incomodou o simulacro de documentário ou as estratégias maniqueístas para dispor o espectador contra alguns personagens – a paciente zero ser uma adúltera que leva o filho à morte é digno de ser execrado por seu odioso moralismo embutido.

O filme é fraco, no meu entendimento, por tratar com leveza o tema de uma pandemia mundial. Os realizadores parecem acreditar que saques, invasões, quebra-quebra, alguns ataques,  multidões em polvorosa, desorganização de alguns serviços são o suficiente para demonstrar o caos potencial de uma epidemia. Talvez, tenha faltado um historiador a dizer-lhes: senhores, isso que o filme mostra, não é NADA. E não é mesmo. Leituras sobre a Peste Negra (que foi sim um fim de mundo, pois toda a vida precisou reorganizar-se depois), ou sobre a conquista da América (que teve populações inteiras eliminadas), ou mesmo sobre a Hespanhola (que avançou sobre um mundo já abalado e enfraquecido) poderiam ter feito o diretor ser mais imaginativo sobre o quanto os seus personagens poderiam fazer.  Fiquei esperando os rasgos de crueldade, os desatinos, a loucura, a perda da noção das coisas. Não, o filme não mostra nada disso.

Algumas críticas repetiram a ideia de que o cineasta quis filmar o impacto da epidemia sobre a vida das pessoas. Creio que sim, porém, Sodenbergh aposta no racionalismo (sim, saques neste contexto são racionais, bem como a busca por “milagres” caseiros) e na angústia. Somente. E, aí, o filme falha. Ele não consegue dar medo, não consegue fazer com que fiquemos apreensivos com a situação. Depois do início virulento, as mortes vão lentamente virando números, estatísticas, rostos em fotos. Logo, a identidade com os mortos vai se perdendo junto com os corpos em sacos azuis depositados na vala comum. A última morte sentida pelo espectador é a da médica vivida com a habitual competência por Kate Whislet, mas que, por culpa do roteiro, acaba protagonizando a mais constrangedora cena do filme. Se o filme tivesse o peso adequado ao tema, a cena teria o poder pretendido, contudo, em meio a água morna, ela figura patética ao mostrar a médica, já à morte, retirar de si um casaco para dar ao paciente ao lado que implora um cobertor.

Jean Delumeau em seu já clássico História do Medo no Ocidente, ao tipificar os comportamentos em tempo de peste, aponta que heroísmo e covardia aparecem como os dois lados de uma mesma moeda. Mais cedo ou mais tarde, se estaria de um dos lados, ou, até mesmo, se poderia ir de um ao outro. Sodenbergh elege, claramente, os heróis. Sou menos otimista.

[youtube]http://youtu.be/eif4myB-Cuk[/youtube]

 

O comentário aqui é apenas um conjunto de impressões sobre o filme. O assunto debatido de forma mais longa em um artigo para o livro do Ciclo de Cinema, a ser lançado em outubro na Feira do Livro de Porto Alegre.

 

Como ler um texto acadêmico em Humanas

Em geral, quando alguém diz que pretende escrever (seja o que for), os mais experientes lhe recomendam que leia e, provavelmente, os menos experientes fariam a mesma recomendação. O problema, porém, não é apenas entupir-se de letras e palavras, mal mastigadas, mal deglutidas, mal digeridas. Para escrever bem é preciso LER e, ao contrário do que dizem, passamos toda a vida aprendendo a ler. 
Mas deixo uma ressalva aqui e agora: falo de aprender a ler e não de estar alfabetizado. Conhecer a língua portuguesa gramaticalmente é obra a ser completada no ensino fundamental e médio. Finda a ressalva. 

Comentei num post anterior que venho trabalhando-me para ser também uma leitora melhor e, em função disso, tenho lido livros que parecem falar aos escritores, mas que falam também aos leitores. Porém, todas estas obras dirigem-se ao leitor de ficção, mas este não é o único leitor. Tampouco o único tipo de escritor que há. 
Assim, cerca de quatro anos atrás, ministrei uma disciplina chamada Produção Textual em História. O intuito era facilitar aos nossos alunos a escrita de sua monografia de conclusão de curso, ritual de passagem temido e odiado pela maioria. As famigeradas 30 ou 40 páginas são dores de cabeça constantes para os concluintes e (não em menor grau) para seus orientadores. Comecei falando de narrativa. Assistimos ao belíssimo Herói (filme que recomendo). Vimos como é possível dar uma mesma informação por pessoas ou órgãos diferentes. Fizemos alguns exercícios. Então, percebi o óbvio: estava ensinando a escrita sem saber exatamente como meus alunos liam. Claro que costumo evidenciar logo nas primeiras aulas o que acho serem as etapas básicas da leitura acadêmica: 1ª leitura – reconhecer o texto; 2ª leitura – saber do que o texto trata em profundidade; 3ª leitura – compreendê-lo; 4ª leitura – relacioná-lo com outros textos. 
Os quatro passos genéricos serviam para alguns, mas nem todos pareciam segui-los ou internalizá-los. Então, formulei uma sequência mais completa, com a intenção de ajudar um leitor a seguir um texto acadêmico. Hoje, organizando a vida, encontrei com este material e resolvi postá-lo por aqui. 
Como ler um texto Acadêmico das Humanas: 
1. Localizar quem é o autor.
2. Título do capítulo, título da obra, que tipo de obra: o que tudo isso informa sobre o texto?
3. Como o autor começa?
4. Que elementos o autor utiliza para definir o tema?
5. O autor define os objetivos do artigo? Como?
6. Ele problematiza o trabalho? Como?
7. Quais os principais problemas que o autor aponta para o tema que ele propõe?
8. Quais os conceitos que o autor utiliza e como ele os aborda?
9. O autor faz uma revisão bibliográfica? Neste caso, preste atenção em:
a) que autores e obras ele cita?
b) o que dizem estas obras?
c) os autores citados se contrapõe, concordam ou se complementam?
d) o autor do texto concorda ou discorda deles?
10. O que o autor agrega, em termos de argumentos, o seu texto ao debate com os autores que ele cita. Você consegue perceber que é um diálogo? O que o autor ressalta da fala dos outros autores e como ele opõe ou concorda com o que já foi escrito?
11. O autor recupera obras que trazem como modelo o tema que ele está abordando? De que forma ele as apresenta?
12. Como o autor apresenta o problema das fontes? Qual é a visão dele? Ele apresenta a visão de outros autores? Ele concorda ou discorda dos outros?
13. Como o autor estrutura os trabalhos analisados no tema abordado em relação ao uso de fontes e métodos?
14. O autor se posiciona sobre a validade desses usos?
15. O autor se refere à escolas de pesquisa? Quais? E, principalmente, COMO?
16. Quando o autor começa a desenvolver sua própria idéia sobre o tema?
17. A partir de que problematização ele discute?
18. Como ele faz isso?
19. O autor cita outros autores e obras nessa parte? De que forma?
20. Ele retorna à obras já citadas? Como? Qual o seu objetivo no texto ao fazer este retorno?
21. Que outras questões ainda aparecem?
22. De que forma o autor começa a concluir? Como ele finaliza?
23. Situe em termos de páginas: introdução, revisão bibliográfica, problemas, desenvolvimento, conclusão.
São 23 pontos árduos, mas que, acredito, podem ser internalizados aos ponto de serem imperceptíveis, de serem feitos de forma quase automática. Mas acho um bom guia de trabalho. Para ler. E, certamente, para escrever dentro da academia.

Mil Histórias

Neste último semestre e nos próximos, os professores do meu curso resolveram que era hora de nos utilizarmos de um pouco de ousadia. Sendo assim, resolvemos que as disciplinas optativas deveriam abrir-se para seu foco original, ou seja, tornar o curso mais flexível e permeável a outras leituras da história. O resultado está sendo oferecido aos alunos e interessados assim.

Foi dessa forma que puxei para mim a responsabilidade de trabalhar com as disciplinas de História da Alimentação, História do Vestuário e História da Leitura. Obviamente, algumas perguntas advieram daí. Afinal, onde se constrói a competência para trabalhar com áreas tão diversas. Num momento de superespecialização da História em suas áreas de pesquisa, os historiadores tendem a ficar restritos aos seus estudos mais técnicos e teóricos e nem todas as fugas são bem vistas.
Como já comentei outras vezes aqui no blog – não quer dizer que o leitor deste tenha conhecimento – minha área de pesquisa em história foi, durante uma década, a História da Saúde. Finalizada esta etapa, tenho iniciado minha reconstrução como pesquisadora adentrando em outro campo, o da História da Leitura. Vem daí e, de minha declarada e pouco racional paixão por livros, meu mergulho nesta nova e instigante área do conhecimento. Trabalhá-la com um grupo de alunos também pretende ser uma forma de estimular o interesse deles e dar espaço ao meu novo vício em pesquisa.

Nesta semana, inclusive, vou fazer uma fala na Semana Acadêmica dos estudantes de História da UFSM, justamente sobre o assunto e convido quem estiver ou for de Santa Maria a passar por lá.

Mas, você pode perguntar: como chegou até a História da Alimentação? Pelo blog dá para saber que sou uma entusiasta da boa arte culinária e, de fato, esta nem é minha primeira experiência com a disciplina. E, como da primeira vez, eu cheguei a este campo pela porta de meus estudos em saúde. As referências à alimentação são onipresentes nos estudos que se faz sobre saúde, doença e mesmo medicina, a qual, por muito tempo andou de mãos dadas com a dietética. Mesmo entre os curandeiros populares, o consumo de alimentos aparece de forma constante como parte das evitações ou necessidades para o controle do corpo e do bem viver.
A diferença de enfocar o mesmo assunto – a comida – pelo viés da História da Alimentação ao invés da História da Saúde está no acréscimo de prazer ao estudo e seus resultados. Afinal, não se buscou apenas saúde à mesa, mas também o prazer do sabor, da comensalidade, das trocas nutricionais e simbólicas. Por outro lado, quando se fala de comida, também se fala de fome, de escassez, de falta de distribuição, de morte.

Uma disciplina como esta – e falo sobre a minha experiência – pode ser assaz transformadora. Isso porque ela tem um potencial de significação do mundo que nos cerca e nos informa, cujo poder é inusitado e nos atinge dentro de nossos particularismos. Parece estranho afirmar isso sobre uma disciplina de faculdade, contudo, eu acredito que a história da alimentação muito pode contribuir para reformular e arejar nossos programas de ensino. E este, talvez, seja um dos pontos mais importantes a serem debatidos e reforçados.
Infelizmente, mesmo dentro da academia, ainda é comum perceber estes outros campos da História como “curiosidades”. Só a palavra já me dá engulhos, pois ela trai um tipo de concepção de História com a qual não compactuo. Por outro lado, chamar História da Alimentação de curiosidade é não ver do que ela se compõe. Uma história da Alimentação é econômica (produção, região, meios de produção, regimes de trabalho, distribuição, consumo), é política (organização do trabalho, disputas de posse, poder econômico, expansão marítimo comercial, controle de estoques, redistribuição produtiva), é cultural (representações étnicas e religiosas da culinária e da comensalidade, estabelecimento de hierarquias por meio da comida, alteridade, diferenças, e identidade de grupo). Logo, estamos bem longe da época em que se fazia uma história culinária sobre quem inventou tal preparo de alimento ou bebida.
É fácil perceber que há um universo aí e que a História da Alimentação, antes de ser uma parte da grande História é uma PORTA para a grande História, pois é necessário trabalhar com todos estes elementos para compreendê-la e construí-la.
Manequim de costureira adquirido com o apoio da UNIFRA
para uso nas aulas de História do Vestuário.
Mas e a História do Vestuário? Isso não seria a máxima expressão de uma História frívola? Bem, primeiro é importante não confundir a História do Vestuário e a História da moda com a própria Moda. Segundo, aos historiadores cabe tentar compreender o que movimenta o mundo e a moda movimenta bilhões em capital e se irradia a quase todas as esferas da vida das pessoas. Por outro lado, olhando para o passado, é igualmente difícil perceber seu estudo como mera “curiosidade”. Igualmente identitário e econômico, o vestuário é a marca visível de grupos sócio-histórico-culturais que demonstram por seus lenços, batas, roupões, kimonos, cores, etc. que não há apenas o “modo ocidental” de vestir.
De fato, o estudo do significado das roupas ao longo do tempo e também (por que não?) do espaço é de grande importância para construir o respeito à alteridade. Alguns exemplos ilustrativos do que estou tentando dizer:
1. Os panos listrados já foram conhecidos no Ocidente como “panos do diabo” por serem parte comum da indumentária de judeus e muçulmanos.

2. O estudo da indumentária com características religiosas nos coloca em melhores condições de compreender ações arbitrárias como a proibição do uso do véu muçulmano em lugares públicos na França (em tempo, as velhas senhoras católicas ainda os usam em missas por lá).

3. O nu e o vestido ainda são tabus não apenas em termos de comportamento, mas nas sanções e discriminações feitas aos outros. Não vestir-se é ainda, para a grande maioria das pessoas e sociedades, um índice de selvageria e falta de civilização.
4. As tramas dos tecidos  superposição de roupas também seguiram as prescrições dos médicos e as crenças sobre o corpo, não se desvinculando de toda da história da saúde também.

Manequim de costureira masculino.




5. Os caracteres sexuais do vestir são tremendamente significativos da cultura e da identidade de pessoas e etnias. O ocidente não é imune com seu rosa para menina e azul para menino. Certo? Para quando? Além disso, temos o exemplo dos estudos a cerca das roupas íntimas femininas ligados aos movimentos de libertação da mulher tanto para o trabalho como para a vida sexual e social independente.
Espartilho datado de 1887

Os exemplos poderiam se estender ad infinitun, por isso, fica aqui meu manifesto para que olhe a história por outras portas, de outros lugares. Mas, principalmente, que não se veja estes olhares como acessórios. Deslocar-se por entre espaços de pesquisa apenas enriquece nossa disciplina e, mais, tende a contribuir para uma compreensão mais ampla do mundo para nós e para nossos alunos presentes e futuros.


Ah, claro, quem disse que não podemos nos divertir no processo?


Manequim de costureira de 1947 emprestado à UNIFRA para as aulas de  História do Vestuário

Fragmentos de História da Vaidade

Esse artigo já foi publicado em outro blog, do qual, às vezes, sou colaboradora: o Pink Side. Trata-se de um blog bem humorado sobre meninas nerds e seus interesses e vaidades (que aparecem aí tanto de forma séria quanto de forma debochada). Conversando com uma aluna-amiga esta semana, ela perguntou por que este texto não estava também aqui nos Sapatinhos. É mesmo, por quê? 
Então, abaixo segue uma pequena pesquisa sobre a História da Vaidade, no tom que foi apresentado para o Pink Side.




Fragmentos de História da Vaidade I
Bem, se tem algo que define um nerd é a curiosidade, certo? Logo, atentas à curiosidade nerd (nossa e alheia), aqui vão alguns fragmentos interessantes sobre a História da Vaidade. Você certamente não imagina que tudo sempre foi assim tão fácil, não é? Que, desde sempre, bastava levar um livrinho para abstrair da conversa chata de salão, se entregar a mãos competentes e voilá: o milagre estava feito. Você passava com facilidade de uma nerd de óculos à uma mulher de aparência aceitável (de óculos).

Não, não. A mulherada podia não ter salões, creminhos e todos os leave in possíveis, mas dava seu jeitinho. O importante era o resultado e, claro, chamar uma atençãozinha básica para o visual.

Há uns 200 anos atrás não era diferente. Estamos falando do Brasil, mais propriamente do Rio Grande do Sul há dois séculos. E, acreditem, estar longe da corte não era o suficiente para fazer com que as mulheres que aí viviam esquecessem que uma frescurinha alegra a vida.

Então, imaginem: uma festa.
Longos cabelos para serem arrumados, penteados e embelezados.

Lavar?
Água de bica (na cidade) ou de rio (no verão, tanto nas cidades quanto nos campos). Nem imaginem que se lavava a cabeça no frio do inverno, ou na época das regras, ou… interdições é que não faltavam.

Pentear? Claro.
As maçarocas eram domadas com um pouco de óleo. O de mocotó era famoso por aqui, mas era preciso macerá-lo com ervas para tirar o cheiro forte.

E os enfeites?

Bem, flores seriam a primeira opção, mas não a única. E se a garota em questão quisesse “causar”? Se a garota em questão quisesse algo… assim:



Convenhamos que para o início do século XIX, o penteado é lindo. Mas aqueles brilhinhos… como consegui-los? E, morando no fim do mundo? Sem falar na pobreza atávica dos primeiros povoadores. Isso seria suficiente para muita gente desisitir, mas se vocês acham que a criatividade das(os) brasileiras(os) é recente, é melhor repensar e olhar abaixo.


Você conhece este bichinho?
Não?
Povo da cidade grande… Isso é um vaga-lume ou pirilampo. Inseto bem comum na fauna das nossas matas. Quem foi criança há mais tempo, talvez se lembre de pegá-los com um vidro que, depois de cheio e tampado, era levado para iluminar reuniões “secretas” ou fazer às vezes de vela em rodas de história de terror.
Porém, alguém com habilidade, pode pegá-los assim:


Eles não são muito rápidos no voo.
Mas você já adivinhou o que nossas ancestrais faziam, não é?
Exatamente.
Os penteados festivos vinham cheios dessas luzinhas lindas e “naturais”, que eram gentilmente enroladas nos fios. Óbvio que os bichinhos tinham de estar vivos, senão não tinha efeito algum.
O fato foi atestado por um dos viajantes que passou pelo Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XIX, o inglês John Luccock. Como foi o único a documentar o fato, se pode se perguntar se foi uma moda passageira, ocasional ou fruto de uma crise sem par (de excesso) de criatividade.

Por mim, fico com 3 imagens que não me saem da cabeça.
1. O desespero do bichinho preso no cabelo.
2. A ideia de insetos vivos ou mortos enroscados no cabelo me parece uma imagem infernal.
3. Imagine se seu par de dança não curtisse o efeito, ou se assustasse? Imagine o pobre Mr. Darcy estapeando a cabeça da Lizzye, apavorado.



Mas, até que o efeito geral podia ser bonito, não é?
Se alguém resolver testar, mande fotos :D.