Está na hora de falarmos sobre os uniformes escolares

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A questão dos uniformes das meninas na Educação Infantil e nas Séries Iniciais tem me incomodado desde o ano passado. Não estou falando do shortinho das meninas do Ensino Médio (apoiei). Os enfoques das questões são diferentes. Ou não.

Aqui, deixarei as meninas grandes que já fazem suas escolhas e me concentrarei nas pequenas, nas que ainda são vestidas pelas mães e pais. Meu incômodo vem com a seguinte pergunta: qual a necessidade do uniforme de meninas tão pequenas incluir saia? É bonitinho? É! Mas é igualmente restritivo dos movimentos, das atividades, do fato de ser criança. Para que serve colocar saia em uma menina que irá pular e correr? Para gritar e garantir a todos que ela é uma menina. Para lhe dizer: comporte-se! Sente direito! Feche essas pernas!

Ah, dirão alguns: as saias escolares de hoje têm shorts por baixo. Isso não é novidade. Eu colocava um short por baixo da minha saia de escola, mas a minha bunda continuava ali e os meninos continuavam levantando minha saia para provarem que eram machinhos. Devo ter adotado calças em tempo integral na escola pelos 8 ou 9 anos. Muito mais tranquilas para sentar no chão, correr, me embolar num canto qualquer lendo um livro.

E não são somente as saias. Já perceberam como são as bermudas? Tem as de menino: larguinhas, confortáveis. As da meninas são justas como as de ciclistas, enfatizam formas que as crianças não têm. Dizem sobre os corpos infantis o que não devem dizer. Aí, quando as meninas começam a crescer, as próprias escolas se outorgam o poder e a necessidade de dizer como elas devem se vestir, de coibir peças consideradas de pouco decoro, quando, de fato, as escolas participaram do movimento da sexualização infantil desde o início.

Haverá quem diga que por não ser mãe de menina, eu não devia me preocupar com isso. Sou educadora, sou feminista e estudei moda e identidade por dois anos. Creio que é suficiente para expressar meu incômodo e levantar esse ponto de debate. Se acha que este não e um ponto a questionar, digite no Google uniforme escolar de menina e veja o tipo de imagens que o buscador traz.

Devemos continuar a seguir uma tradição que em nada contribuiu para a educação das nossas meninas, que aprofunda as diferenças de gênero, que sexualiza corpos infantis? Ou devemos começar a questionar as escolas do porquê dessa escolha de peças? Não creio que as escolas saibam, apenas seguem o fluxo, atualizando continuamente um modelo de gênero que limita nossas garotas. Todos os dias.

Brasil, Sao Paulo, SP. 06/08/1963. Volta as aulas dos colegios de Sao Paulo no segundo semestre. Foto: Arquivo/AE Pasta: 46669

Brasil, Sao Paulo, SP. 06/08/1963. Volta as aulas dos colegios de Sao Paulo no segundo semestre.
Foto: Arquivo/AE
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Já ouvi falar de Moda do Bem?

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Durante os últimos dois anos ministrei disciplinas no curso de Tecnólogo em Design de Moda. Trabalhei com duas matérias: História da Moda e Moda, Cultura e Sociedade. Em ambas pude desenvolver, com as turmas com as quais trabalhei, excelentes debates. Seguindo a orientação do curso, marcamos junt@s a necessidade de se desenvolver produtos de moda com características inclusivas, sustentáveis e que valorizem os produtores e trabalhadores locais.

images (15)De minha parte, investi bastante para que tod@s percebessem que: 1) o vestuário é apenas a parte mais visível da moda e que ela envolve desde o nosso gestual, até o uso que fazemos das palavras. 2) Que a moda (esse fenômeno histórico-social do ocidente nascido em fins da época medieval) é, acima de tudo, política. E, por ser política, é ao mesmo tempo definidora e restritiva. A moda define gênero, classe social, etnia, religião. Ao mesmo tempo, ela restringe igualmente o gênero ao binário, as mudanças de classe social, impõe os limites entre religiões e etnias.

Cada item de moda tem uma história conectada não apenas com sua origem, mas também com as diferentes apropriações, recriações, sobrevivências e rupturas. Nossos usos disso são ao mesmo tempo pessoais e coletivos. São objetivos e subjetivos. Conscientes e inconscientes. Ninguém usa a moda exatamente como ela é proposta, nós a elaboramos de acordo com nossas necessidades, vontades, desejos (desde o que entendemos, até os que não conseguimos definir).

images (14)Parece incrível que a moda esteja em tantos níveis ao mesmo tempo, mas ela está. Isso não nos torna vítimas. Somos colaboradores mais ou menos engajados, estamos imersos em suas características de produção, distribuição, mercado, consumo. Até mesmo quem acha que está fora de tudo isso, não está, como brilhantemente explica Miranda Priestley em O Diabo veste Prada.

Tudo isso se torna mais complicado quando se toma consciência de que a industria responsável pela nossa vestimenta é uma das mais cruéis, poluidoras, desrespeitosa dos direitos trabalhistas e promovedora de escravidão moderna que se tem monitorado no mundo contemporâneo. Se quer uma mostra disso, não deixe de assistir o documentário The True Cost (o verdadeiro custo), disponível no Youtube e na Netflix.MV5BMTAwNzMyMDEyMTBeQTJeQWpwZ15BbWU4MDY2OTA5NDQx._V1_UY1200_CR90,0,630,1200_AL_
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É claro que é mais fácil entrar numa fast fashion da vida e tentar não lembrar que tem trabalhador explorado por trás da roupa de baixo preço e qualidade duvidosa que você compra. Aquela que vai 3 vezes à máquina e se desmancha, mas você não liga porque custou 20 reais. Esquecer que tem rio poluído e morto e crianças da idade do seu filho costurando em confecções insalubres do outro lado do mundo por centavos. Dá para esquecer sim. Dá para não lembrar.
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Mas também, dá para fazer melhor, sabe?
Um, dá para valorizar quem faz roupas perto de você. Dá para ir mais vezes ao brechó. Dá para trocar com @s amigues aquelas roupas que você já enjoou. Dá para comprar roupas de melhor qualidade para precisar comprar menos ao longo do tempo. Dá para comprar menos. E dá para se interessar e buscar empresas que respeitem seus trabalhadores e, por consequência, seus consumidores.
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Esse último, parece difícil, mas não é. Se você tem um smart phone, você pode baixar o aplicativo Moda Livre, o qual monitora 77 marcas e lhe informa quais são claramente comprometidas com a melhoria das condições de trabalho de seus operários. Sempre há um link para o site da empresa e algumas têm lojas virtuais que funcionam de forma excelente. Indo no site, você pode até se inteirar de outras preocupações da empresa, como por exemplo, o cuidado ecológico, com tingimentos e o uso de defensivos nas matérias primas (seu algodão e linho são plantados, logo, não esqueça que o veneno que vai à mesa também está em contato com a sua pele), como a Malwee.
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Outra dica, procure marcas perto de você que tenham a preocupação com uma produção inteirada com essas questões. E até com outras, como por exemplo, o feminismo, o antiracismo, a nerdice, etc. Sugiro a superfofa Toda Frida, a gaúcha Conceito Ada ou a Santamariense Criolando, de uma ex-aluna minha. Vá aos sites e explore um pouco. Meu bolso, meu guarda-roupas e minha consciência têm agradecido. Então, ficam as dicas para quem quiser aderir à moda do bem.
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Lembrando Antígona

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Eu tenho um caso de amor com Antígona. Longos e longos anos redescobrindo-a vez por outra, sempre grandiosa, sempre extraordinária. Mil coisas podem ser ditas sobre ela e ainda restará o que pensar. As camadas que revestem a personagem parecem infinitas, pois se renovam a cada leitura e, em essência, está lá a narrativa de um amor que não hesita, que não se diminui. A dignidade de Antígona é esteticamente bela e metaforicamente feroz. Mesmo sendo princesa, ela é mulher, sua linhagem é amaldiçoada, seu sexo está a serviço do outro. Não há nada que ela possa. Ninguém quer ouvir suas razões. Seu dever para com o mundo é calar e obedecer. No entanto, Antígona se posta em pé, não se verga, não se dobra, reivindica o direito de ter consciência, de ter deveres para consigo mesma, de ser fiel ao que acredita, ao que entende do mundo.

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Antígona é um libelo contra a tirania. É essa eterna dúvida entre o que me é exigido e o que eu quero, entre quem sou e como o mundo deseja que eu me comporte. Os deveres que ela clama são, claro, auto impostos e sua decisão, já tomada desde as primeiras linhas da peça de Sófocles, não isenta de perceber sob ela as lacerações dolorosas da escolha. Esse é, para mim, um ponto fundamental do mito e da peça: nenhum dos caminhos que se apresentam para Antígona são isentos de dor, qualquer um deles irá levá-la a um tipo de morte, e ela escolhe o que lhe parece mais suportável, continuar fiel a si mesma.

Filha de Édipo e Jocasta, Antígona sobreviveu ao horror do incesto que levou o pai a cegar-se e a mãe/avó ao suicídio. Confrontada com a morte dos dois irmãos numa mesmo dia, ela se vê obrigada a acolher a ordem de seu tio Creonte, agora no papel de rei de Tebas. Um dos irmãos, Etéocles, que morrera defendendo Tebas do ataque de exércitos estrangeiros deveria ser enterrado com honras. Já Polínice, que se valera de estrangeiros para fazer valer seu direito ao trono, deveria ter o corpo abandonado ao tempo e às feras. Para os gregos antigos não poderia haver pior sentença. O corpo insepulto era a desgraça da alma que jamais encontraria descanso ou adentraria ao mundo dos mortos. Uma sentença de horror pela eternidade.

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As duas irmãs sobreviventes dão voz às possibilidades. Ismena resolve calar, pois teme a sentença de morte que virá à sua desobediência. Antígona sabe da morte, mas esta a apavora menos que conviver com a memória ultrajada do irmão. A apavora menos do que conviver consigo mesma e a certeza de não ter agido com sua consciência. O dilema de Antígona não se perdeu nos milênios que avançam entre a peça e os dias de hoje. Sua decisão, contudo, ainda soa revolucionária.

Frankenstein, de Mary Shelley

Em 2012, diariamente, durante todo o período da Feira do Livro de Porto Alegre, o Portal de notícias Sul21 publicou textos a respeito de “melhores livros” na visão de seus colaboradores e leitores. O texto abaixo foi publicado em 31 de outubro.

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Não é o melhor livro de todos os tempos, claro. A escrita de Mary Shelley é prisioneira dos formalismos de sua época e de não poucos clichês, marcada por arroubos juvenis e alguns debates filosóficos ingênuos. Contudo,Frankenstein, ou o Moderno Prometeu é um dos maiores livros de todos os tempos e nisso não há qualquer tipo de exagero. Não pelo que lhe retornou a crítica de sua época, ou mesmo posterior (que soube vê-lo maior), mas por aquilo que um livro tem (ou deve ter) de mais visceral: sua interlocução com os leitores.

Talvez, a palavra interlocução não seja apropriada, é acadêmica e formal demais. Frankenstein conversa com seus leitores, sim, mas de uma forma pessoal, noturna, complexa, em outras palavras, ele os atinge, os abalroa como um navio enorme impulsionado pelos ventos gelados do Ártico. Por conta disso, não é um livro cujo apelo possa ser resumido ao intelecto, mesmo que ele ocupe um grande espaço aí. A bizarra história de um homem que constrói outro homem a partir de cadáveres extrapolou nos últimos dois séculos muito do que sua autora pretendia com ela. Mary Shelley desejava escrever um conto de terror, como os que ela e seus amigos partilhavam nas noites chuvosas de um verão na Suíça. Acabou forjando uma fábula poderosa, que mais se aproxima do mito por sua inesgotável capacidade de produzir interpretações, leituras, e, especialmente, pela imortalidade das emoções que provoca.

Em função disso, falar de uma leitura pessoal de Frankenstein é reduzi-lo. Por outro lado, mergulhar em suas inúmeras interpretações é passear pelos difíceis caminhos dos incontáveis ensaios a seu respeito. Críticos, historiadores, escritores, filósofos, Frankenstein foi e é material para todos, substantivo e gerador. Em minha formação, eu o utilizei em uma cadeira de meu mestrado em História. Como professora, atualmente, eu o indico para se estudar o romantismo (como, aliás, Harold Bloom, recomenda) com meus alunos de História Contemporânea I. No passado, convidava meus alunos a lê-lo em uma cadeira de Ética e Cidadania.

Aliás, foi numa leitura desta última cadeira, que tive o prazer de compreender o tamanho fenomenal deste livro. Quando analisamos o romance, muito falamos da questão da paternidade, tão fundamental em Frankenstein, assim como a responsabilidade pelo que se cria, bem como a incapacidade de controlar as criaturas. Pensamos em termos de famílias, de ciência, de Deus e de suas religiões, debatemos os terrores e implicações éticas da transfusão de órgãos, bem como os desconfortos de algumas crenças com o radicalismo deste tipo de terapia que, para outros, já parece absolutamente normal. Então, duas alunas do curso de Serviço Social – apoderando-se do livro para seu trabalho final – fizeram uma belíssima análise comparando o “monstro” com as crianças abandonadas às ruas, cuja violência cresce e apavora aos Victors Frankensteins encastelados em suas casas de condomínios fechados e apartamentos com grades nas janelas. A máscara de Frankenstein – que é o criador e o monstro ao mesmo tempo – pode ser também lida no egoísmo social que faz jogar sempre a culpa nos outros, amaldiçoando-os e nós mesmos, mas fugindo, virando o rosto, brincando de esquecer que para além do corpo monstruoso há um ser que sofre.

Outro grupo de estudantes, em nossos debates, mergulhou na metáfora do aristocrata que usa pedaços de corpos mortos de pessoas do povo e um cérebro de grande capacidade, para criar um ser superior a si próprio. É sedutor pensar em ecos das revoluções ou nas ideias libertárias que circulavam pelos círculos em que vivia a autora. E isso não é tudo, a cada ano, cada novo leitor a quem apresento o livro em minha sala de aula fixa-se num dos grandes debates que permeiam a história. Afinal, eles ainda se perguntam: como aquela jovem de 19 anos pode profetizar, há 200 anos, coisas que sua época intuía, mas mal chegava a imaginar?

Como leitora, a mim, ainda assombra o final de semana em que o li pela primeira vez. Tinha 14 anos e era um verão infernal, ainda assim, nos últimos capítulos, foi possível sentir frio, não pelo ambiente descrito, mas pelo tom do drama que se desenrola nas últimas páginas. Essa impressão, a de um livro que adentra a madrugada e vence o sono, pois se recusa a ser fechado antes do fim, é minha memória fundamental de Frankenstein e sempre estará comigo.

Atualmente, tenho vivido uma paixão nova, não pelo romance, mas pela autora. A vida extraordinária de Mary Godwin Shelley me tem sido digna do maior interesse. Este desembocou num conto em que ela é a personagem principal e que será lançado, na Feira do Livro de Porto Alegre (04/11, às 16h), na coletânea Escritores Fantásticos. Mary era filha de dois grandes literatos rebeldes do final do século XVIII, William Godwin e Mary Wollstonecraft. Ele, um libertário; ela, uma das precursoras do pensamento feminista. A autora de Frankensteincresceu assombrada pelo tamanho intelectual da mãe – morta 10 dias após seu nascimento –, e foi criada por um pai que esperava dela uma nova Wollstonecraf. A própria Mary admitia que Percy Shelley, o marido, sempre esperava que ela viesse a fazer jus a seus progenitores. Não creio que Mary – cuja vida foi constantemente perseguida pela tragédia – um dia tenha imaginado ter alcançado os pais. Contudo, ninguém há de negar que sua imortalidade os supera em muito. Godwin e Wollstonecraft podem ficar orgulhosos de sua criatura.

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Não podemos continuar dependendo dos homens bons

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Quem já teve seus 11 anos, ou algo em torno disso, deve lembrar que a véspera de Santo Antônio (em alguns lugares de São João também) era o dia das “provas” para saber com que se ia casar. Estão lembrados? Enfiar faca na bananeira para descobrir a primeira letra do nome do prometido e ficar imaginando se era Ivo ou Ignácio (sim, eu sempre olhava a bananeira e não a faca). Ou pingar cera derretida de uma vela branca (tinha de ser branca ou rosa) num copo de água e tentar ver ali o que se formaria, se uma letra ou um indício profissional (como um prédio, um navio, uma máquina de escrever). Era possível colocar nomes de conhecidos, interesses, possibilidades, esperanças em pequenos papeizinhos que, dobrados, eram colocados numa bacia sob o sereno*. No dia seguinte, o que abrisse… era o destino. Rodar a casca da laranja recortada inteirinha para ver se ela caía formando a 1ª letra de um nome especial. Eu queria G e sempre fazia L; minha irmã queria L e sempre fazia um G. Eu tenho um Luís e ela um Gustavo, mas acho que é só coincidência. Imagino que um inventário total dessas provas pelo Brasil resultaria num volume rechonchudo e curioso.

Na minha casa as “provas” eram uma farra. Seguiram dos 11 até os meus 17, mais ou menos. De início minha mãe nos ensinava, ou alguma tia que estivesse lá por casa. Depois, nós começamos a ensinar as primas e primos mais novos, que também se divertiam. Uma brincadeira. Ninguém levava a sério. Era um entretenimento para as noites frias de junho, com bolo, quentão, pipoca e risadas.

Estudando História e, em especial, a história das mulheres, acabei dando-me por conta que o significado dessas “provas” havia sofrido uma radical transformação. O tempo pode ter um efeito estranho sobre algumas coisas. Descaracteriza-as, ridiculariza-as ou, simplesmente, as joga na vala comum das tolices. Quase toda a chamada “sabedoria popular” ou as “crenças populares” segue esse caminho. Não farei defesa do tópico, tenho trabalhos inteiros sobre essa outra lógica publicados de forma acadêmica. O que afirmo aqui é que se engana quem vê nestas prática somente um exercício ignorante ou uma brincadeira.

As “provas” são, antes de tudo, a tradução da imensa angustia que era casar-se no passado, especialmente se você fosse uma mulher. Por passado refiro-me ao mundo que engendrou essas “provas”: o europeu, o Brasil colonial e imperial, quem sabe não vindo algo de África. O fato é, que nesses tempos, no Ocidente que nos concebeu, os casamentos eram em sua esmagadora maioria arranjados, negócio de família, casava-se à conveniência e, para as mulheres, casava-se pela sobrevivência. Casar era o destino das mulheres, assim como ter filhos. Ai daquelas que não conseguissem. Culpa delas, é claro. Não tiveram encanto para despertar interesse ou um dote capaz de tentar algum pretendente. Solteironas. Azedas. Mal-amadas. Um casamento impedia de viver da caridade alheia, dava dignidade, pertencimento, respeito. Contudo, não bastava um casamento. Era preciso, de alguma forma, assegurar que esse casamento resultasse em algum tipo de afeto e que esse afeto fosse capaz de manter essas esposas fisicamente à salvo de seus maridos. Sorte daquelas que além de casarem, casavam-se com “bons homens”, que não lhes batiam, não as humilhavam, não as violentavam.

Acabo lembrando daquelas conversas registradas na literatura, no cinema, na TV, no inconsciente coletivo, na voz de uma avó ou tia mais velha: não reclama do teu marido, ele é um homem bom. Não bebe, não joga, não é chineiro**, não bate em ti, põe dinheiro em casa. O que queres mais?

O homem bom era uma sorte. De se elevar as mãos aos céus. Como então julgar as jovens de todas as classes sociais que viam nas “provas” uma forma de tentar conhecer e, talvez, controlar esse destino? Essas moças que iam buscar junto aos santos uma segurança, uma dependência, uma possibilidade de serem brindadas com um futuro que não lhes fosse hostil e violento? É tentador dizer que a violência era comum e estava mais para regra do que para exceção. A frase “ele nunca te bateu” como elogio a um “homem bom” é tão plasmada em nossa cultura, que nos obriga a pensar na violência interna das casas e das famílias com dimensões bem diferentes das que gostaríamos de imaginar.

Por outro lado, olhando as notícias corriqueiras dos jornais, bordadas de feminicídios, ataques com ácido, agressões das mais diversas, percebemos que mesmo que as “provas” tenham caído no ridículo, a violência engendrada pela ideia de posse sobre as mulheres ainda continua firme e forte. Alguém dirá: ah, mas agora são as mulheres que escolhem. Sim, e elas apostam fortemente que estão escolhendo um “homem bom” ou tolamente num homem que irá mudar suas atitudes por amor à elas. Então, dir-me-á o interlocutor: a culpa é dela por não saberem escolher. Claro, de quem mais seria a culpa? (Estou sendo irônica).

Contudo, não repetirei esse discurso, pois o fato é que as escolhas vem menos ao caso que o ponto central dessa postagem. A imensa verdade é que não podemos continuar a depender dos “homens bons” ou da sorte em encontra-los, nem mesmo podemos continuar a depender das nossas escolhas para fugir dos abusos e maus tratos. A não violência contra as mulheres não é algo que deva passar pela “bondade” de ninguém, nem por seu caráter. Ela tem de ser uma regra, uma regra educacional. Nada da bobagem de “não se bate numa mulher nem com uma flor”. Mas da regra absoluta de que a posse de qualquer homem sobre qualquer mulher não existe, que o corpo da outra não é território conquistado, que casamento não é troca de dono, e que nenhum relacionamento dá qualquer tipo de direito que não esteja num claro acordo entre as partes.

No texto A violência contra as mulheres e os homens de bem, que saiu no Biscate Social Clube, a autora ressalta a estatística de que 40% do assassinatos de mulheres (em nível mundial) são cometidos por homens próximos a elas. Aí vem o parágrafo mais doloroso do texto:

“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Esses caminhos não são de agora. Vem de longo tempo. Infelizmente, há tanto tempo que algumas décadas não são suficientes para superá-los. É preciso uma nova educação. E temos caráter de urgência em engendrá-la. Precisamos construir um novo jeito de ensinar a ver os outros, sem desmerecer seu gênero, sem constituir o masculino como parâmetro de humanidade. Necessitamos de um novo jeito para educar as meninas (e as suas escolhas) e, principalmente, carecemos uma maneira nova, diferente, de se educar os meninos. Claro que os queremos bondosos, claro que os queremos com caráter, claro que os queremos gente do Bem. Mas, em relação às mulheres, o importante que é que eles saibam que elas não lhes pertencem, não os servem, não estão aí para enfeitar o mundo. Essa ideia fundamental que as mulheres não são prêmio nem estorvo, são gente.

 

* Sereno: orvalho em gauchez.

** Chineiro: no Rio Grande do Sul significa homem que frequenta prostíbulos ou contrata serviços semelhantes com grande frequência.

Despindo o corpo e a Moda além da Moda

Amanhã, sexta-feira, dia 22 de novembro, estarei na PUCRS, participando do seminário A Moda Além da Moda – Cultura Material e as Múltiplas Faces do Vestir. Estarei coordenando o simpósio temático: Não Se Nasce Com Gênero, Nos Vestimos Para Ter Um. Quando minha querida colega Taís Campelo me fez o convite e me propôs o tema: vestuário e gênero, uma série de coisas que eu já havia escrito e pensando vieram a minha cabeça. Assim, quando fiz a proposta do simpósio, eu a elaborei dessa forma:

A paráfrase de Simone de Beauvoir no título desse simpósio vem da necessidade de se pensar as roupas masculinas e femininas muito além dos rosas e azuis com que materializamos o sexo e definimos o gênero de nossas crianças. Temos uma educação “vestimental”  cheia de regras e interditos que mudam de época para época e nos dizem sobre nossas crenças, nosso erotismo, nosso sentido de alteridade. “São as roupas”, como escreveu Virginia Woolf, “que nos usam, e não nós que usamos as roupas; podemos fazê-las tomar o molde do braço ou do peito; elas, porém, modelam nossos corações, nosso cérebro, nossa línguas, nossa vontade.” Objetivos: Colocar em pauta pesquisas que tematizem as roupas como objetos na construção dos gêneros ao longo do tempo, bem como seu papel nas representações artísticas – literárias e plásticas – do feminino/masculino. Incluem-se aí também investigações sobre vestuário e gênero nas sub-culturas, sobre travestismo e androginia.

Hoje, aquecendo para o evento que começa hoje à noite, acabei por reler o texto abaixo, publicado no Sul 21 em 28 de novembro de 2011. A leitura me fez resolver republicá-lo aqui.

Despindo o próprio corpo

A primeira roupa que se veste é a pele. Depois, vem a cultura. Somente após esta camada é que aparecem os panos. No ocidente, eles podem ser cor de rosa para as meninas e azul para os meninos. Os pais que querem fugir disto optam pelos neutros: branco, verdinhos, amarelinhos, a gama de cores pastel em geral. Mas, cuidado: vista seu menino de cor de rosa para ver o que acontece? Os lilases são igualmente complicados. Azul para as meninas sem um grande laço definidor é igualmente visto com desconfiança. A ditadura da cor é a ditadura do gênero. Os que levantam a mão dizendo: eu não faço assim, apenas confirmam a regra geral.

A atriz Vesta Tilley.

A atriz Vesta Tilley.

Se a imposição fosse somente a cor, não haveria muito a ser dito, mas com a cor vêm tantos e tantos significantes e esta tirania desenvolve um tipo de prisão. Nela, são enquadrados os comportamentos. O que menina não faz, o que menina gosta. O que meninos devem fazer e do que não devem gostar. À medida que se cresce, pele, cultura e roupa se tornam uma coisa só. Os que fogem disso perdem em respeito social, atraem violência, despertam ira. Contudo, no espectro de luz das sexualidades, são os que pendem para o feminino que atraem mais desta repulsa. O tal cor de rosa se converte em preto branco e vira alvo.

Travestis vitorianos.

Travestis vitorianos.

A(O)s que vestem o corpo feminino se tornam o alvo da masculinidade dos machos. É sobre elas que eles se afirmam, se constroem, se fazem gente. Nas exigências de posse, de propriedade, de comportamento. O tal do “mulher minha isso ou aquilo”. Ou o “eu nunca me relacionaria com uma mulher dessas”. Ou ainda, o texto de tantos filmes e livros que, não raro, ganham para o herói os suspiros das espectadoras e leitoras: “você é minha”. É nessa posse que a sociedade se organiza para reconhecer o estatuto dos homens. E, claro, isto não se refere apenas ao Ocidente, os exemplos da cultura oriental são igualmente numerosos quando se trata restringir as mulheres para dar espaço à masculinidade dos homens.

De fato, basta um olhar rápido nas produções de nossa cultura para se perceber que dominar, subjugar, infringir sofrimento fazem parte inclusive da constituição da ideia de prazer masculino. Sob ele, um corpo feminino ou feminilizado sendo estuprado, sodomizado, maltratado, violado, deve restar passivo, agradecido, como se a violência lhe fosse necessária. Esta produção se “veste” de realidade, mas nem sempre parece querer contestá-la ou atuar para o seu fim. Engana-se quem pensa que somente a pornografia está cheia disso. Nossa cultura tem disso até às narinas. TV, cinema, literatura, as HQs consumidas por nossos filhos adolescentes. Em todas, há espaço para isso: para o feminino como alvo do ser masculino em construção.

Imagem de Hentai, tipo de ilustração que se aproxima do mangá, mas com conteúdo erótico/pornográfico.

Imagem de Hentai, tipo de ilustração que se aproxima do mangá, mas com conteúdo erótico/pornográfico.

O mesmo se repete com o ser feminina? Não. As mulheres não são ensinadas a colocar a construção desta persona no corpo do outro, mas no seu próprio. Daí, ser tão comum as mulheres que se sentem erradas, as que não conseguem cumprir todos os códigos e exigências desta mulher perfeita em imagem e super-treinada a ocupar o espaço que a sociedade, elaborada sobre o masculino, a elas designa. Não que haja qualquer tipo de parabenização por alguém ser mulher e aparentar-se com uma. Pelo contrário, as meninas jactam-se de seu passado “moleque”, que, muitas vezes, confunde uma ação masculina com possuir alguma liberdade. Isso porque – nesta visão – se ela fosse menina “mesmo” não se comportaria daquela maneira imprópria. Os comportamentos que, vindos da cultura, entranham na pele e passam às roupas, fazem-nos aquilo que o outro espera ao nos ver envergar as cores e os gestos que vestimos. Tornamos-nos o alvo. Ou o seu possuidor.

Por conta de um trabalho futuro, muito tenho pensado sobre o que se veste e o que se despe; e o que isto significa na construção de nossas identidades, seja as pessoais, seja as de gênero. Acabo caindo no excelente A Bela do Palco, de Richard Eyre, baseado em uma peça de Jeffrey Hetcher que enfoca, no mesmo palco, o último ator britânico a interpretar mulheres e a primeira atriz. Abaixo uma das mais tocantes cenas do filme, o qual recomendo muitíssimo.

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A cena instigante brinca com as posições sexuais e com as personas que vestimos. Contudo, ele, homem, encontra-se nu. Seu corpo – despido das roupas femininas que o acompanham dentro e fora do palco – não precisa cobrir-se. O dela, mulher, se constitui feminino pela falta de liberdade em despir-se. É coberto, de fendas entreabertas, mas velado, pois é no desvelamento desse corpo-alvo que o feminino é concebido histórica e culturalmente. Esta, porém, é somente uma parte pequena da bela cena que vai da intimidade à ao debate sobre atuação de ambos, como mulheres, no palco. A discussão se estende sobre Desdêmona, a infeliz esposa de Otelo, acusada e morta por uma traição não cometida. Mas é também um debate sobre atuar na vida, sobre viver de acordo com o gênero, sobre a sexualidade e sobre como se pode precisar e prescindir dela nas relações humanas. Dá para se amar alguém além do seu sexo? Para pensar mais, deixo como indicação o texto “A Bela do Palco — o feminino, de Freud a Winnicott”, de Edna Pereira Vilete.

E, de fato, este texto que ora escrevo não é mais que um pensar. Um pensar ainda sem fim, um pensar de busca. Um pensar que quer ver onde e quando a cultura deu aos corpos femininos este padrão de alvo para o masculino; e é um pensar que quer saber como se rompe com tal padrão. Como as próximas gerações podem ser mais livres das roupas-peles que as culturas lhes vestem? Como podemos nos livrar da violência que as exigências sócio-históricas impuseram ao comportamento do homem como ativo e da mulher – convertida em alvo – passiva.

Então, quando se vê, por vezes, a transgressão das exigências sociais, o que estamos vendo, pode ser também um tipo de resistência. As imagens dos homens vestidos de mulheres e das mulheres vestidas de homens foram buscadas em outras épocas unicamente para provocar o olhar. Afinal, quando se muda de roupa, se mudar de pele? E, quando se veste a roupa do outro, pode ser usar a pele do outro? O que resta quando nos despimos e o que fica é o corpo? Deveriam restar pessoas, porém, pelo olhar do mundo à nossa volta, mesmo quando estamos nus, nós estamos vestidos e as cores das primeiras roupas, entranhadas em nós. Quem perde? A divesidade. E, sem dúvida, a reflexão sobre gênero e sobre violência e liberdade.

De tudo, o que mais me incomoda é que a visão de um homem sem roupa é a imagem de um homem inteiro. Já, a de uma mulher sem roupa é a visão alguém que perdeu alguma coisa, até a si mesma. Eu discordo. Vocês, claro, lembrarão das que lucram em ser alvo. Eu, por aqui, vou lembrar em uma das que resolvem desvestir o alvo.

A jovem blogueira egípcia Aliaa Magda Elmahdy

A jovem blogueira egípcia Aliaa Magda Elmahdy

O “problema” dos seios desnudos

* Nota Inicial 1: Este texto já foi publicado anteriormente no Blog Biscate Social Club.

** Nota Inicial 2: Neste texto não comentarei sobre o Femen. Existem vários textos excelentes sobre a organização, portanto, não pretendo repetir aqui o que já foi dito. Some o fato de que não sinto, como feminista, qualquer tipo de empatia ou afinidade com o referido grupo. Feita a nota inicial, segue o baile.

 

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Desde que o Movimento Marcha das Vadias começou, tenho ouvido constantemente críticas às mulheres que mostram SEUS seios (pronome possessivo destacado) nos protestos. Os comentários vão desde o tradicional: “como querem respeito se não se dão ao respeito?”; até os que são colhidos do próprio feminismo e que envolvem a objetificação da mulher ou que acusam as manifestantes de mostrarem os seios para terem a atenção da mídia. Eu poderia elencar a cansativa lista de contra-argumentos sobre estes comentários. Cansativa porque já foram repassados centenas de vezes, ao menos para quem costuma manter-se informado. Também poderia dizer que mesmo que todas estas críticas tivessem fundo de verdade, ainda não teriam razão de ser. Isso porque o corpo exposto nos protestos não pertence aos tais críticos e, portanto, eles nada tem a ver com a decisão das DONAS dos seios de mostra-los ou não.

Por isso a minha opção foi ir à raiz de todos estes comentários e olhar para eles com um olhar infantil, com uma pergunta de criança de 3 ou 4 anos: por quê? Por que não?

As mulheres não podem mostrar seus seios em público.

Por quê?

É feio para uma menina se “expor”.

Por quê?

É coisa de vadia.

Por quê?

É ruim.

Por quê?

Porque os homens ficarão pensando bobagens.

Por quê?

Porque homens são assim.

Por quê?

Ah, é assim!

Por quê?

Se você é inteligente, com certeza percebeu onde todos estes porquês batem. Eles se chocam contra uma imensa parede cultural restritiva dos direitos das mulheres. As desculpas que vão desde a moralidade – que é histórica e temporal, portanto, de validade sempre limitada – até a total e descabida desconstrução do masculino, transformado em “besta selvagem e irracional”. No fim disso está: “mulheres mantenham-se escondidas, fechadas, se guardem para os que podem protegê-las, pois todos os homens não prestam”. O raciocínio todo é retrógrado e fere as mulheres e aos homens. Limita ambos a papéis restritos, impõe formas de comportamento, cerceia uma reivindicação que pertence à raiz da luta contra o patriarcado: o corpo das mulheres pertence as mulheres.

Parece uma reivindicação tola? Óbvia? Um pouquinho de história e antropologia resolve isso. A bíblia permite aos homens vender suas filhas e também as esposas. Caso você não saiba os livros que compõe a bíblia pertencem a épocas diferentes e foram escritos de acordo com o que interessava a tal época, ou seja, não desceram do céu. Por conta disso, em alguns trechos, as filhas e esposas poderiam ser repudiadas, expulsas, prostituídas ou condenadas ao apedrejamento caso fossem desobedientes. O mandamento que fala em não cobiçar a mulher do próximo trata as mulheres como coisas. Aliás, o velho testamento é cheio disso. Mas não pense que isso se restringe à mitologia judaico-cristã. Os romanos proibiam os direitos às mulheres porque consideravam que se tornariam perigosas caso tivessem direitos. Aí você pergunta: perigosas por quê? Perigosas como? Os romanos também proibiram as mulheres de falarem nas ruas, de dizerem o que pensavam. Por quê? (Leia Deusas e Adivinhas, de Santiago Montero). Ao longo da História as mulheres foram tratadas como o outro, o intruso, o macho defeituoso, a subespécie, a coisa incompreensível, o incontrolável a ser controlado, o incapaz a ser desacreditado (leia Inventando o Sexo, de Thomas Laqueur). Foram vistas como pertence, como coisas, como parte daquilo que os homens trocavam, se desfaziam, possuíam, punham sua marca. Por quê? O que assusta tanto?

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Não tome estas perguntas como ingênuas. Não são. Eu não as estou formulando em tom de coitadinha, de mimimi (como gostam de usar na internet). Estou formulando estas perguntas como bandeira, como lança, como ataque! Por quê? Por quê? POR QUÊ?

Mais que tudo: por que você acredita que tem de se dobrar a isso? Seja homem ou mulher, por que acha que esta é a forma correta de ser e se comportar? Por que faz coisas e repete ações sem se perguntar por que faz isso? Por que continua sendo a vaquinha do presépio balançando a cabeça ao “sempre foi assim”?

Uma das coisas que a História me ensinou foi que nenhum comportamento, nenhuma forma de ver o mundo, nenhum tipo de construção cultural é eterno e impermeável à crítica e a mudança. Tudo muda e muda o tempo todo. O passado nos serve para refletir e entender o presente, não para engessá-lo, controlá-lo ou limitá-lo.

Os seios desnudos são uma reivindicação de posse. Qualquer seio é, sendo exibido ou não. Os úteros também são reivindicações de posse, são nossos, férteis ou não, são nossos! Ponto. Não há margem para discussão. Assim como são nossas as pernas, os braços, os cabelos longos e soltos, curtos e curtíssimos, raspados ou moicanos; são também nossas as tatuagens e a ausência delas. É nosso o grito, a voz que fala, o texto escrito, a palavra no microfone, o andar na rua, o estudar, o amar quem quiser, o fazer esportes, o transar quando estiver a fim. Tudo isso, em algum momento, já foi proibido, disciplinado, limitado, estigmatizado. A tudo isso, em algum momento, foi nos foi dito “não, vocês não podem!” Por quê? “Porque vocês são mulheres.” Isto é uma constatação e não uma resposta. Quem diz que não podemos? Por que não podemos? Pense bem. Encontre uma resposta que não seja vazia, tola, religiosa, eivada de preconceito. Pense! Depois responda: por quê? Por que isso te incomoda tanto? E quando você souber por que te incomoda, eu ainda estarei te perguntando, como a mais insistente das crianças: por quê? Por quê? Por quê?

 

 

De cheiros, perfumes e História

Uma das coisas chatas em História é o fato de toda vez que se inicia a fazer algo fora do ordinário pesa um pouco a necessidade de elaborar uma justificativa. Isso ocorre porque temos plasmado em nossa avaliação do mundo uma hierarquia de assuntos, dos mais importantes aos menos, e isso constitui a base de grande parte de nossas avaliações. Obviamente, com alguns segundos a mais de pensamento, tal edifício se desmonta, mas, convenhamos, há um grande número de pessoas que não se dá ao trabalho de pensar esses segundos preciosos a mais. Não se preocupem, não direi que tal hierarquia é culpa da sociedade burguesa, da ignorância veiculada pela grande mídia, nem mesmo de algum partido político, ou do descaso sobre a educação. A hierarquia de assuntos é humana, civilizacional e levou milênios sendo construída, logo, não é culpa de ninguém em especial, “nem dos romanos” (diria o Monty Python).

Algumas das hierarquias em que nos baseamos estão estruturadas sobre o que consideramos fundamental, ficando lá, no fim da várzea, tudo o que é visto como supérfluo e fútil. A economia, a fundamentações políticas e o gênero, aparecem como algumas da principais réguas nessa medida. Um exemplo do que estou falando foi a reação que colhi de algumas pessoas quando ministrei História do Vestuário na universidade. As associações com moda, futilidade, preocupações “femininas” pareciam argumentos suficientes para risinhos laterais e uma visão antiquarista sobre homens de meia-calça e mulheres com vestidos (ah, os vestidos) de “princesa” Disney. Comecei a disciplina com duas palavras que, a meu ver, calam esses argumentos: revolução industrial. A partir delas fui construindo com meus alunos uma visão de vestuário que passava pela identidade, religião, organização social dos povos até a indústria que capitaneou a ascensão do capital e que move bilhões hoje, indo do mercado do luxo, à escravidão moderna nos países asiáticos e em alguns pontos da América Latina (Brasil incluído).

Outra régua, bem mais antiga, remontando ao nascimento da civilização é a que se baseia nos sentidos. Fomos elegendo os que nos faziam mais civilizados e nos lembravam menos nossa porção animal. Assim, o olfato caiu para o fim da fila. Nosso aliado em farejar o perigo, os feromônios, as memórias, foi considerado menos necessário que a visão e a audição, menos ligado ao intelecto, menos preciso na conceituação do que quer que fosse. Essa percepção acabou dando-nos, modernamente, a ideia de que a percepção olfativa não tem uma história, ou se tem, ela é acessória, supérflua e pouco importante. Se nesse tópico ainda adicionarmos a questão dos perfumes – sinônimo de luxo e do conceito estereotipado de feminino frívolo e condenavelmente sedutor – então, estamos levantando e estudando a mais desnecessária das Histórias, certo? Obviamente, não se poderia fazer suposição mais errada (como provam apontamentos de Febvre e Bloch que, claro, mapearam quase todas as possibilidades de temas para a História muito antes do resto da classe se dar conta delas)..

Eu poderia fazer um retorno à pré-história para provar meu ponto de vista, mas serei mais breve. Pense na cidade em que vive. Na sua estrutura: o lixão longe do centro e os aterros sanitários, o cemitério deslocado para longe das catedrais, ocupando também a periferia, nossa classificação de limpo e sujo, os centros saneados, as periferias com esgoto à céu aberto, “sou pobre, mas sou limpinho”, o olhar repugnado dos transeuntes aos moradores de rua (olhar? são seus narizes que se torcem), os shoppings desodorizados como hospitais e limpos das gentes mal cheirosas. Se hoje os cheiros parecem nos menos importantes são porque foram domesticados e nos agridem quando não o são. Isso, claro, tem uma História.

No ocidente, a renascença marca o início de uma obsessão: a busca pelos perfumes, pelos cheiros agradáveis. Queria-se tornar as casas mais agradáveis e a convivência estreita da nascente sociedade de corte também (nada mais ilustrativo dessa busca do que o romance, O Perfume, de Patrick Süskind). No século XVII, mais que buscar cheiros agradáveis, iniciou-se a caça aos maus cheiros, em especial os do ambiente. O cheiro foi visto como o veículo dos males pestíferos, as doenças, eram os miasmas e o trabalho por sua domesticação levará os três séculos precedentes (acredito que ainda não se possa considerar que tal trabalho esteja plenamente acabado). No XX, a indústria do luxo capturou os aromas, mas não só ela. A industria da higiene colocou em sabonetes, desodorantes e shampoos não apenas um conceito de limpeza, mas também, doravante, uma classificação social. A domesticação dos cheiros, mais que nunca, passou a ter um papel fundamental na classificação que se faz dos espaços e, claro, das gentes.

No Brasil, esse assunto é ainda revestido de outras questões, preconceitos (alguns herdados do tempo da escravidão) e, como não poderia deixar de ser, de alguns mitos cultivados por nossa sociedade que acredita que o banho é seu índice máximo de civilização. Nosso costume – tão pleno dos auto-elogios que nos jactamos – nos coloca acima dos europeus, dos indus, do resto do planeta. Oh, fantásticos nós que tomamos banho todo o dia, por vezes, mais de um. Neste raciocínio se perpetuam pérolas do anacronismo: “nós (brasileiros) aprendemos a tomar banho com os índios”. Ou “o perfume foi inventado porque as pessoas não tomavam banho”. Neste sistema, o banho é o dado e todo o resto é reação, oposição.

O fato é que, não se “aprendeu” a tomar banho com os indígenas  Sim, eles tomavam banho, mas de forma lúdica, como parte das brincadeiras ou até afazeres do dia. Não há percepção higiênica, em outras palavras: é banho sim, mas não é o nosso tipo de banho. Por outro lado, quando o banho se tornou um hábito nas cidades brasileiras (primeiro nelas, depois no campo), há muito já não existia um convívio estreito com os indígenas que mantivessem os costumes ancestrais. Por outro lado, imagine se: com o frio de menos de 10º – como o que faz no momento em que escrevo -, algum habitante do sul, antes do chuveiro elétrico, se arriscaria ao banho diário.

Sobre o perfume ser inventado porque as pessoas não tomavam banho, trata-se de uma frase é invertida em suas proposições. O banho não era um dado. Os romanos o tomavam como parte de suas atividades politicas e, principalmente, masculinas. No entanto, os banhos romanos foram vistos como culpados pela propagação de doenças e pestes ao longo do medievo. O banho era um risco. A pele ficava porosa justamente aos terríveis e mortíferos miasmas. O cheiro do corpo e sua oleosidade o protegiam. O perfume era uma busca do agrado, do prazer, do estimulo dos sentidos. Não se pretendia apagar os cheiros, eles tinham uma função. A busca hedonista não é funcionalista. Sua justificativa está onde não se quer percebê-la, em nossa animalidade, nessa coisa estranha e de difícil classificação que é a percepção e a sensibilidade olfativa.

A história dos cheiros e dos perfumes é um mergulho em todos estes pontos. Em elementos constitutivos de nossa humanidade, em nossa estrutura urbana e social. É um pouco de tudo isso que pretendo estudar com meus alunos no segundo semestre deste ano em História do Perfume, disciplina optativa do curso de História da UNIFRA. Quem ficou curioso por mais, pode perguntar. Devo voltar a comentar sobre isso, pois o assunto é instigante e pleno de apelos a todos os sentidos e intelectos.

 

 

 

A leitura partilhada

 

Quando se começa a estudar a história da leitura uma das primeiras coisas que se aprende é sobre o papel da leitura partilhada. Em outras palavras, em sociedades de maioria analfabeta, a presença dos leitores que leem e de outros que escutam é uma regra. Aliás, é como substituta da fala que a leitura nasce e foi na voz do outro que a leitura chegou à maioria das pessoas por um longuíssimo tempo. Quando a estrutura da leitura começou a mudar e, lentamente, se passou a construir a leitura silenciosa, transformações fundamentais ocorreram, tanto na compreensão do mundo, como nos inventos que passaram a povoá-lo, num número cada vez maior.

No entanto, o advento da leitura silenciosa – ocorrido em algum ponto do mundo medieval, pensando em termos de Ocidente – não modificou nem a primazia, nem a necessidade da leitura falada. Há quem acredite que foi a invenção de Gutemberg que permitiu à leitura tornar-se mais próxima, mais cotidiana. De fato, a letra impressa aumentou o número de livros e textos, mas não o de leitores. Ao menos, não substancialmente. Foi no século XIX, com aumento da escolaridade e da alfabetização que as coisas começaram efetivamente a mudar. Como é preciso dar a César o que é de César, é bom lembrar que este processo se inicia inspirado pela difusão das ideias iluministas que acreditavam que a diferença entre os homens estava em suas bases culturais e não em seu nascimento (Marx ainda não havia dito que as bases eram também sociais).

É no conjunto de transformações, de que o século XIX, foi palco que nasce aquilo que se veio a chamar de cultura de massa. Ora, não se pode pensar que esta surge em razão do aumento do numero de textos, sua base fundamental é o aumento do compartilhamento destes textos. E é neste ponto que devemos ajustar o nosso olhar ao passado. O aumento do número de leitores, neste contexto, não queria dizer apenas mais pessoas lendo em silêncio, mas, principalmente, mais pessoas lendo umas para as outras. Se em uma casa houvesse um alfabetizado, logo, o número de leitores ouvintes multiplicava-se. O leitor ocupava o centro dos entretenimentos noturnos, mas também podia ser visto nas esquinas, nas praças, nas boticas, nos cafés. Sempre cercado de seus leitores ouvintes.

Antes da metade do século, o investimento nessa nova “área cultural” – a das massas – já havia criado livros de tamanho e preço irrisórios, já criara o romance à vapor – com um capitão e vários ajudantes – para publicar em quantidade para um público cada vez mais ávido de emoções. Encontrou-se o tesouro? A jovem conseguiu casar-se com quem queria e não como pretendente paterno? Havia fantasmas na casa? Uma máquina para andar sob o mar poderia realmente existir? Conquistaríamos a lua? A tensão irmanava o público sedento por narrativas.

Ora, esta relação entre os textos e a leitura fazia com que desde há muito os autores fossem eles próprios a lerem seus textos para seu publico. No XIX, esta prática já comum aos salões aristocráticos e burgueses, adentrou os palcos. Não era teatro, mas leitura. Um autor que lia seu texto de forma forte, dramática, para depois conversar com seu público e estimular-lhe a leitura de outras partes de sua obra. O mais célebre destes autores-leitores foi Charles Dickens. Uns acreditam ter sido o escritor inglês a primeira grande celebridade literária, não se possa esquecer daqueles dois franceses, diferentes no estilo, mas de fama igualmente internacional: Alexandre Dumas pai e Victor Hugo.

Sou uma admiradora de Dickens, não nego. E, igualmente, dos outros dois. Dumas marcou minha infância com suas aventuras; Hugo e Dickens introduziram minha experiência literária no engajamento social. Afora isso, me lembro de, há muito, ter conhecimento das leituras de Dickens e tratá-las como uma espécie de relíquia de outro tempo. Claro que ouvir leituras ainda é um ato presente: audio-books, audio-contos, etc. Mas, com certeza, não é a mesma coisa. Primeiro, porque no caso dos audio-books e audio-contos nem sempre é o autor quem lê; depois, é diferente porque não há encontro entre o leitor/autor e o público. Não há o contato.

Alguns escritores mais recentes têm retomado esta prática, lendo trechos de suas obras em seus lançamentos ou em palestras. Apenas aqueles mais incensados se aventuram a ler capítulos inteiros. No geral, pesa a ideia de que o público não aguentaria, se entediaria, ou que o tempo seria diminuto para inserir esta parte em uma atividade coletiva. Ora, já não todos reclamam quando vão a uma palestra e o palestrante lê? Obviamente, a resistência é ainda maior quando se trata de Brasil e dos costumes dos brasileiros. E, claro, ainda há os que acham que “ler para” é algo que se faz para crianças.

Pois bem, por razões que envolvem o processo de editoração e divulgação – como devem saber os familiarizados com o universo dos livros – do meu romance de aventuras que sai em novembro, não foi divulgado nada escrito além do título – Territórios Invisíveis – e da sinopse, publicada pelo Blog Criando Testrálios. Contudo, resolvi fazer uma leitura do capítulo inicial do livro para alguns amigos, que já há algum tempo, acompanham minhas investidas folhetinescas. Confesso que, como são meus leitores habituais, eu talvez tenha subestimado as reações que o contato com a leitura causou a eles e a mim. Neste sábado, eu repeti a experiência com um público diferente. E, como pesquisadora e escritora, eis minhas conclusões:

1. Entendi porque Dickens nunca deixou de ler, até sua morte, para seus leitores.

2. Compreendi a força deste contato e sua importância e o que ele poderia ser em épocas mais pautadas na imaginação que nas imagens. Um tipo de compreensão não apenas intelectual, mas física, de uma forma que somente a experiência permite.

3. Percebi a necessidade de se reler em voz alta o que se escreve para que o texto fique realmente fluente.

4. Lamentei o fato de a leitura em voz alta estar esquecida nas escolas. Ler e ouvir ler são partes importantes da experiência humana. Se a primeira nos é inerente, a segunda não deveria nunca ser abandonada.

5. Alcancei outras significações da palavra contato nos termos literários. percebi o quanto ele nos faz crescer, e que, abrir mão disso, é perder mais do podemos mensurar.

 

A Felicidade é Vermelha e Amarela

Este semestre, quando comecei as aulas de História da Alimentação, fiz uma pequena brincadeira com os convivas da disciplina. Pedi que eles se olhassem. Isso mesmo. Pedi que, em silêncio, olhassem muito bem uns para os outros, que decorassem e classificassem o que viam. Depois, pedi que fizessem um pequeno quadro mental, dispondo de um lado as pessoas que eles conheciam bem e, de outro, as que não conheciam tão bem assim. Feito o exercício, fui um pouco mais longe e pedi que, numa planilha semelhante e igualmente mental e muda, dispusessem, de um lado, as pessoas que gostavam, de outro, as que não gostavam tanto assim. Só depois disso, finalizei o que pensava e lhes disse que todas aquelas percepções acerca dos outros iriam mudar. O motivo era bem simples: ao longo daquele semestre, eles iriam cozinhar, oferecer banquetes e comerem juntos. Naquele momento inicial da disciplina, eu não conseguiria convencê-los do quão poderosas eram estas ações, não é algo sobre o que se possa falar e convencer, mesmo que as pessoas acreditem no que você diz. Mas, afirmei, eles perceberiam isso.

Primeira aula
Falei tudo isso com uma certeza que não vem de nenhum livro – de fato, não lembro de ter lido isso em livro algum. Minha certeza vinha de uma experiência prévia com a mesma disciplina e que já havia me causado espanto. Nada é mais gratificante para um professor do que observar transformações em seus alunos e nas relações que eles estabelecem uns com os outros e eu já havia visto isso, tinha certeza de que veria novamente. E, sim, eu estou vendo. Eles mesmos já vieram me contar sobre isso. Sobre essas transformações e elas são contadas com sorrisos, o que as tornam mais profundas e mais poderosas.

O bom destas aulas é que não sou protagonista, sou mera testemunha. Falo, claro, quase sempre um pouco demais, e meus alunos me lançam um olhar condescendente de “ah, certo, ela não consegue mesmo se controlar”. Logo, tudo vira conversa e, meio aos brados, tão diferente de uma aula convencional, o conteúdo vai sendo construído com sabor (com sabores vários); e vai se gravando, na mente, no paladar, nos olhos brilhantes, nas risadas – é claro que rimos muito – nos cochichos. Aula de História da Alimentação, eu bem sei, é aula eterna.

A pergunta de: como chegou a isso, afinal, esta não era a tua pesquisa? – como tudo que envolve alimentar-se – só pode ser respondida extrapolando a academia. Entretanto, há, sim, uma resposta acadêmica. Estudei a história da saúde por 10 anos, impossível ficar indiferente às mudanças alimentares. Mas são estudos sobre o que se come. E, o que se come, é apenas uma parte da história toda. Quando se come, com quem se come e porque se come têm a mesma crucial importância que o alimento em si. E, embora, os pesquisadores do tema sempre escrevam isso, não foi com eles que aprendi, mas na casa em que cresci. Dividir o alimento cuidadosamente preparado com montanhas de amigos é um credo que meus pais seguem com fé monástica e atitude idólatra. 
Foi ao redor da mesa deles que fui retendo aprendizados que se inscreveram em mim sem qualquer esforço. De onde vem cada alimento, como é processado, onde foi comprado, qual o lugar mais barato, como foi preparado, o que se poderia modificar na próxima receita. Ora, em outras palavras, história, geografia, técnicas agropecuárias, economia, gastronomia, química e futurologia (é claro). Nos intervalos dos conhecimentos principais, se falava  de sociologia (ou vida alheia), literatura (o que inclui os folhetins conhecidos como novelas) e biologia (um repasse sobre mortos, nascidos e engravidados entre os conhecidos). Num dado momento, vinham à tona as duas polêmicas favoritas entre meu pai e meu compadre (seu irmão de alma, meu segundo pai). A primeira era sobre o futebol. Meu pai nunca gostou, meu compadre era aficionado. Meu pai defendia que os resultados eram arranjados, meu compadre (mais tarde com a adesão do Guto) dizia que isso era um despautério. A segunda polêmica era do evolucionismo X criacionismo. Meu pai era e é árduo denfensor de Darwin, meu compadre defendia a curiosa (e polêmica) teoria de que a vida havia sido plantada na terra por seres extraterrestres (anos de leitura da FC lhe renderam bons argumentos).
Herdei dos meus pais algum talento culinário, mas pouco de seu talento agregador. Hoje percebo, ao dar aulas de História da Alimentação, que a alquimia entre pessoas começa nas panelas, nas cozinhas repletas, nas salas organizadas com esmero de almofadas afofadas, cantos limpos e tralhas discretamente escondidas, nos potinhos com ingredientes picados. 
Foi com tudo isso que me deparei este final de semana na casa vermelha e quente como um coração, que pertence ao Milton e a Claudia. As pessoas carregam de significados excessivamente duros palavras como aprendizagem, aula, conhecimento. A mim, todas estas palavras soam leves, alegres, divertidas. A Claudia, com seus banquetes temáticos dá aulas de turismo, etnicidade, alteridade, tolerância, reverência, respeito ao inovador e ao diferente. O Milton com sua fala socrática, sempre terminando em perguntas, não raro, fazendo piada das contradições é um manancial cultural e nunca, nunca, parece estar ensinando nada. Algo raro, encantador e que merece ganhar aquela marca: preciso aprender isso!

A História da Alimentação, porém, ensina que nem só da alquimia das panelas e dos anfitriões se faz o momentum (inventei isso) de um banquete. Nos convivas é que este processo deve se condensar e catalizar. O que sai pela porta, não é mais como que entrou e isso só ocorre porque em meio a tudo que se aprendeu. Esta palavra não é pesada, ela é o cerne de tudo, o fogo verdadeiro que causa a transformação. Neste banquete tivemos aula de música e sobre a força do silêncio que se compartilha quando todos ouvem e se emocionam com o mesmo.

O encanto da música russo-brasileira de Elena e Vladimir Romanov

O piano de Alexandre Constantino

Houve aula de risos, sorrisos, e flores. A Astrid e o Augusto trouxeram doces em tigelas e palavras. A Caminhante Fernanda foi professora sobre caminhar e sobre fazer isso com leves passos de dança. Não se traduz em palavras conhecer uma pessoa que vive como quem dança. O gesto dela tem ritmo, os olhos, paciência observadora e luz de palco. Imagino com que atenção os passos dela se fazem quando ela os constrói numa música.

Astrid e Fernanda contra o fundo Vermelho sanguíneo coralino da casa de Claudia e Milton
Eu já tive o imenso desprazer de ir à festas (de adultos!) em que os homens ficam de um lado e as mulheres de outro. Então, a beleza das fotos abaixo dá a dimensão do meu bem-estar.

Comecei falando de aulas, terminei falando de festa. A diferença está nos olhos de quem vê e de quem vive. Não consigo conceber trabalho sem prazer. Festa sem um ENCONTRO TRANSFORMADOR, aquele que se estabelece por meio da aprendizagem e da melhoria de si, também não é uma festa merecedora deste nome em sua plenitude. Ao menos, aos meus olhos. E eu gosto de mantê-los maravilhados e muito bem alimentados de comidas e de gentes.
Amarelo foi o nome com que o Miguel (após duas cheias servidas) rebatizou o Locro Criollo da Claudia.
O nome desta postagem, espero, é auto-explicável em seu texto e legendas.