All male…

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Congrats, you have all male panel

Olhando o gabinete do interino (letras minúsculas), lembrei de um capítulo que estudei com meus alunos de História Contemporânea II. Não é a primeira vez que uso, mas foi a última. O capítulo trata sobre a cultura nos anos do entre-guerras. Não se trata de um texto analítico, mas informativo. Coloca os principais acontecimentos e faz umas extensas listas de criadores culturais. Listas por si só podem ser complicadas, no entanto, listas em que apenas figuram homens quando se trata de criação (cultural, tecnológica, política) tendem a ser muito mais problemática.

Pode-se argumentar que quando tal capítulo foi escrito, não havia patrulhas feministas rondando armadas a selvas da internet. Bem, o livro foi publicado nesse século, eu não vejo escusas para um historiador não se dar conta de que na sua lista só há homens.

Mas o fato é que isso está naturalizado. Tão naturalizado que eu mesma só me dei conta esse ano e terei de achar outro texto para colocar no lugar quando repetir a matéria, pelo simples fato de que não, não é mais aceitável que naturalizemos uma cultura primordialmente masculina. Até porque, pasme(!), as mulheres existem, existiram, criam e criaram cultura, não foram somente estrelas de cinema. Não tivemos apenas Virginia Woolf, a única mulher que, ao que parece, alcançou o status de ter de ser obrigatoriamente citada. Mas, com todo o seu brilhantismo, ela foi uma, não a única.

Então, assim como me incomodou o texto, o ministério me incomodou sobremaneira. Uma pena não poder trocá-lo como farei com o texto. Mas, pensando contra mim mesma, perguntei-me se me incomodaria um ministério só de mulheres. Respondi-me que não. Seria uma novidade, uma experiência. No entanto, imagino que isso incomodaria a maioria das pessoas que não viu qualquer problema num ministério de homens brancos e réus na justiça e eu queria perguntar por quê?

Para terminar, uma listinha das mulheres que produziram, especial na literatura e na política, no período entre-guerras. E não, elas não são esquecíveis.

Gertrude Stein https://pt.wikipedia.org/wiki/Gertrude_Stein

Emma Goldman http://jwa.org/womenofvalor/goldman

Rosa de Luxemburgo https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Luxemburgo

Anaïs Nin https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana%C3%AFs_Nin

Katherine Mansfield http://www.goodreads.com/author/show/45712.Katherine_Mansfield

Dorothy Parker https://www.poets.org/poetsorg/poet/dorothy-parker

Irene Nemirovsky http://jwa.org/encyclopedia/article/nemirovsky-irene

Alexandra Kollontai https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_Kollontai

Edith Wharton http://www.online-literature.com/wharton/

Colette https://en.wikipedia.org/wiki/Colette

Pagu https://pt.wikipedia.org/wiki/Pagu

A lista não se esgota e, olhem, nem falei das artistas plásticas como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. Ou das áreas da ciência, etc.

 

Dos usos das panelas

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Particularmente, o melhor uso que dou para minhas penelas é fazer comida. Gosto especialmente de enche-las bastante para receber amigos. Cheiro de tempero fresco, o povo na cozinha dando risadas, bebendo vinho ou cerveja de acordo com o clima, o gosto ou o espírito. A algazarra das crianças pulando na sala e vindo contar histórias.

Não me considero uma cozinheira particularmente habilidosa, muito embora possua um defeito gravíssimo: ADORO minha comida. Assim mesmo, com maiúsculas. E gosto, claro, de dividir isso. Porém, e tenho isso bem presente, cozinhar para os outros, num mundo tão gourmetizado, é um exercício de humildade. Comida de casa nem sempre dá certo. O que eu amo, pode não soar legal ao paladar de outra pessoa. Outras vezes, os insumos falham, não se apresentam com a perfeição de sabor que gostaríamos. Tipo a vez que eu fiz uma massa com molho de mostarda e cascas de laranja. Primeira tentativa: divina; na segunda… a massa não ajudou nada (eu não soube fazê-la direito) e ficou meio eca, mesmo que não ruim de todo.

Talvez, o erro tenha a sido a escolha do prato. As massas têm combinado com meu dia-a-dia corrido, acabo achando que os risotos combinam mais com as noites de amigos. Podem me chamar de bruxa (que eu gosto), mas eu amo mexer um caldeirão. Aliás, a não ser que eu peça, não precisam se oferecer para ocupar esse lugar. É muito gentil o “quer que eu mexa?”, mas sei lá, há coisas que somente o meu olhar e o meu olfato são capazes de captar no brilho, na textura e no cozimento do risoto. Sendo assim, agradeço de coração, mas prefiro que o ajudante leve pratos e copos para a mesa.

Nas últimas semanas tive a visita da Lis, uma amiga querida que chegou anunciando: vim provar tudo aquilo que tu diz que cozinha! Certo, então, botemos as panelas para trabalhar. Foram semanas de bolos (laranja com chocolate, cappuchino com raspas de limão), sopas (batatas com alho poró), um bom conjunto de massas, chili com feijão (ao que parece provoquei amor eterno com esse) e, de saideira, o risoto de morangos, cujo nome tanto espanto causa em quem nunca provou. Resolvi fazer o risoto para a Lis e a Bruna, que veio com o filho Pedro, de 1 ano e meio. A Daiane, minha terceira convidada, já tinha provado.

A receita é simples e me foi servida há muitos anos por uma amiga (Valeu, Bia!). Desde então, tenho feito e juntado a ela meus toques, meus gostos, de um jeito que hoje acredito que o resultado seja bastante meu. Para quem acha que os morangos deixam o prato doce, desculpe a confusão, mas ele não fica não. Morangos são tão ácidos e doces quanto tomates, logo se está apenas substituindo um pelo outro. Aliás, minha preferência são por morangos bem maduros, que desmancham fácil e deixam o prato menos azedinho no final.

Para os aventureiros de sabores e panelas, aqui vai a receita sem quantidades (pois elas vão variar com o número de amigos). Antes, porém, uma dica/pedido: use um caldo de legumes feito em casa para hidratar seu risoto, ok? Os caldos comprados, cheios de saborizantes artificiais vão comprometer o resultado com aquele final metálico e levemente viciado que os químicos deixam ao fim de cada garfada. Eu costumo fazer o meu assim: lavo bem os legumes antes de usá-los e guardo as cascas até ter uma boa quantidade. Batatas, cenouras, tomates (é fruta, mas ok), a parte entre o branco e o verde escuro do alho poró, a ponta das cebolas, etc. Fervo tudo, coloco umas ervas que tenha à mão e, depois de frio, liquidifico, distribuo em forminhas de gelo ou potinhos pequenos, congelo. Voilá!

Tendo o caldo, basta derreter uma poção concentrada em mais água, aí é começar o risoto com a base comum: azeite, cebola, alho (uma pitadinha de açúcar ou a cabeça de dois cravos da índia, só a cabeça), folhas de tomilho fresco (o seco deixa um gosto terroso, não use), depois bacon (sorry, não elaborei ainda nenhuma alternativa vegetariana e sei que o leitor carnívoro está pensando: “bacon! porque ela não disse isso logo?”). Quando estiver douradinho, o arroz (eu gosto de usar o arbório ou o agulhão), uma fritada e segue uma medida de vinho tinto (sim, para esse prato fica melhor o tinto que o branco, já testei). Assim que o vinho evaporar, comece a hidratar o risoto colocando conchas do caldo de legumes, umas duas por vez, mexendo sempre enquanto conversa e ouve as piadas dos amigos. Lá pela metade, você incorpora os morangos já lavados e picados em rodelinhas (não precisa ser cubinho, pois eles desmancham fácil). Tempere com pimenta do reino moída na hora (com 5 Bayas também fica ótimo), teste o sal, experimente o arroz e não o deixe ficar recosido para poder sentir bem a textura gomosa. Coloque uma boa quantidade de parmesão ralado.

O prato fica violáceo, belíssimo. Eu gosto de servi-lo com ramos de tomilho fresco para serem incorporados pelo próprio convidado na quantidade que quiser. É difícil que alguém não se renda a usar esse temperinho na hora de comer. Para acompanhar, salada verde com compota de pimentões (esses sim, levemente adocicados).

Eu podia ficar me gabando do resultado, mas não vou. Como disse acima, adoro minha comida mesmo quando os convidados não apreciam tanto. No entanto, quando uma criança de 1 ano e meio brilha os olhos depois da primeira prova e passa a reclamar se a garfada vai pra mãe e não pra ela… Bem, acho que aí posso me gabar sim. Nunca recebi um elogio tão sincero em toda minha vida de cozinheira. Valeu, Pedrão! As panelas daqui de casa estarão sempre à postos para te esperar.

 

 

 

 

Nasceu assim

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Todos concordam: criar filhos não é fácil. Há os que acham que a natureza é sábia e guia. Os que defendem que não se pode isolar as crianças das influências do mundo. Os que se angustiam se estão fazendo tudo certo, os que sabem que estão errando em algum lugar. Há os que buscam ajuda e os que não ouvem nenhum tipo de conselho. os que dizem que não há manual de instrução, os que dizem que existem vários, mas é preciso lê-los.

Em qualquer das variantes, pais e principalmente as mães serão criticados. Afinal, seus filhos nada sabem do mundo, logo, dita a lógica é você que está errado. E como os pontos de vista são poliédricos, em algum sentido, com certeza, você, pai ou mãe, vai estar errado.

Eu já fui chamada de mãe má por chamar atenção de meu filho com menos de um ano. O que ele vai entender? Mãe má por não permitir doces antes dos dois anos. Pobrezinho. Mãe má por não colocar chocolate no leite. Coitado, não vai saber o que é bom. Mãe má por limitar os presentes que poderia receber de avós e tios. É só uma porcariazinha, que mal tem? 

Não raro ouço elogios ao comportamento do meu menino. Como ele é bonzinho! Como é fácil de lidar com ele, não? Que índole boa que ele tem.

A mãe aqui fica entre o discurso explicativo e a ironia. Tem dias que ganha a ironia: Pois é, ele nasceu assim. 

 

Front russo

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Tenho batalhado em tantas frentes que estou certa de que estou causando uma falsa impressão. Há poucos dias, uma amiga querida evidenciou isso em uma pergunta: e tu conseguirias ficar bem se não fosse assim?

Não sei como exatamente ela tomou a minha resposta, mas a pergunta me soou absurda. Então, dou a impressão que aprecio o turbilhão? Que não poderia ser de outra maneira? Nem eu, nem a vida que levo? Que engano! Que engano!

Veja bem, não sou infeliz, tampouco triste, mas meus pesadelos são feitos de ondas gigantescas que se erguem avançando sobre o continentes e arrastando tudo quanto estiver em seu caminho. E eu preciso correr delas. Ou então, são tornados, em quantidade assustadora que avançam sobre a vista da minha janela.

Não, querida amiga, é uma impressão errada a que passo. Não amo minhas frentes de batalhas, apenas faço o possível entre o ganha pão e o que me faz inteira e sorridente. Eu danço nas pontas dos dedos dos pés entre o que sou e o que tenho de fazer. Eu reluto entre as guerras para quais sou chamada e as que não consigo abandonar. Seria mais simples, muito mais simples, se eu abandonasse essas últimas, essas que nada me dão além de satisfação (sei que reconheces minha ironia, amiga).

Por vezes, quando escrevo aqueles resumos de currículo que volta e meia me pedem, fico contemplando a quantidade de atividades que posso colocar depois do meu nome e isso me apavora. Então, percebo que não há nada de raro na minha condição, que tantos e tantas outras pessoas são assim. Dou-se conta que, talvez, por mais que eu quisesse, não poderia ser diferente. Eu não conseguiria ser diferente, ser centrada, única, sem pedaços partidos de mim, caminhando por um único caminho.

Fico pensando se isso sou eu ou é o tudo que me envolve. Uma condição humana? Talvez sim, talvez não. Não conheço tantos humanos assim a ponto de formular estatísticas.  Talvez, seja apenas esse nosso ponto no tempo. Esse momento histórico em que o mundo social se fragmenta e nós vamos nos fragmentando com ele. Fazendo-nos em pedaços e sonhando em uni-los antes que tsunamis e tornados nos arrebentem.

Eu poderia terminar escrevendo o que disse à minha amiga: não é uma questão de gosto, mas de necessidade. Então, argumento comigo mesma: se fosse insuportável, eu diria não a algumas dessas necessidades? Teria tanta coragem assim? Ou assumo todas essas frentes de batalha porque sei que posso lidar com elas? E, nesse caso, não posso negar que há um pouco de gosto sim.

Os olhares e o bom dia

A internet e as redes sociais são uma realidade na vida de uma grande quantidade de pessoas. Falas contra e a favor estão disseminadas por toda a… internet e partilhadas nas redes sociais. Afinal, é uma verdade universalmente conhecida que, mesmo quem detesta a internet e as redes sociais, precisa delas para se comunicar com o mundo contemporâneo.

Minha intenção não é falar disso. Quero escrever é sobre amizade. Amizades virtuais? Não. Sobre amizades reais e eu tenho como provar que elas existem e que as redes podem ser suas aliadas. Numa época em que se vê tanta gente usando seus dispositivos para agredir mais que denunciar agressões, para desejar a morte ao invés de um mundo melhor para todos; eu estou ligada, através da rede, a um grupo de pessoas que usa seus dispositivos para me desejar um bom dia. E é um desejo real, forte, que me encontra onde eu estiver, por vezes, mesmo antes de eu me erguer da minha cama.

Nossa história começou há quase 10 anos e quando um nova febre, a da conexão, passou a fazer parte da minha vida. Mesmo já existindo, a internet só se tornou um apelo diário para mim em de 2005. Eu estava no meio do doutorado e passado por uma das inúmeras crises que acompanham a imersão solitária num objeto de pesquisa. A internet e suas redes apareceram como um espaço de fuga e de lazer. Passei a escrever fanfics como forma de depositar as histórias que se formavam na minha cabeça paralelas a tese (isso acabou sendo o germe de minha jornada de escritora, mas aí é outra história). O fato é que consegui leitores. Alguns foram se tornando fiéis em seus comentários e avaliações, me indicando caminhos e me ajudando a melhorar. Isso levou à conversas pelo MSN, depois aos fóruns, depois ao Twiter, depois ao Facebook, ao Instagran e ao Whatsapp. Grupos fechados com regras e ordálios para entrar.

Somos gente de quase todo o Brasil. Temos vidas bem diferentes e experiências idem. No entanto, a leitura é para nós uma paixão acima de todas as outras. Somos um grupo que, ao se encontrar, leva livros para ler juntos, marca encontro em lançamentos literários, e tem verdadeiro fetiche por livrarias.

O grupo nunca se dissolveu. Perdemos alguns no caminho, ganhamos outros. Fazemos amigos secretos virtuais trocando textos, desenhos, vídeos, nosso carinho. Já namoramos juntos, casamos, tivemos filhos, acompanhamos alegrias e também as dores dos acidentes e das perdas de familiares. Usamos as redes para apoiar e não só para trocar. Usamos os dispositivos para dizer que, mesmo quando não concordamos, continuamos sentindo um imenso amor nos unindo via computadores e Smartphones.

Tem sido, nesses quase 10 anos, uma experiência incalculavelmente generosa e incomparável. Eu poderia dizer que somos quase uma família, mas, creio que, na maior parte das vezes, essa amizade está além das definições. São quase 10 anos de histórias que se fizeram dentro e fora da internet e das redes, nem daria para contar todas. Por isso, quis registrar aqui apenas uma dentre elas: a dos meus adoráveis bons dias, E eles vêm assim:

Bom dia do Victor Hugo, de Recife.

Bom dia do Victor Hugo, de Recife.

Bom dia da Bruna, de Santos.

Bom dia da Bruna, de Santos.

Bom dia da Lívia, de Guaíra (interior de SP)

Bom dia da Lívia, de Guaíra (interior de SP)

Bom dia da Priscila, do Rio de Janeiro

Bom dia da Priscila, do Rio de Janeiro

Bom dia da Diana, de Goiânia (dado ao fim do dia, quando ela viu as mensagens)

Bom dia da Diana, de Goiânia (dado ao fim do dia, quando ela viu as mensagens)

Bom dia da Naty, de Mauá (interior de SP)

Bom dia da Naty, de Mauá (interior de SP)

Bom dia do Cláudio, de São Paulo.

Bom dia do Cláudio, de São Paulo.

Bom dia da Kelly, de São Paulo.

Bom dia da Kelly, de São Paulo.

Bom dia da Dani, de São Paulo.

Bom dia da Dani, de São Paulo.

Bom dia da Daiane, de São Valentim (interior de Santa Maria, interior do RS).

Bom dia da Daiane, de São Valentim (interior de Santa Maria, interior do RS).

Bom dia da Luisa, do Recife.

Bom dia da Luisa, do Recife.

 

Em terra de cego, quem tem um olho é louco

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Minha mãe conta várias histórias de seu avô Norberto. Ele imigrou do Uruguai para a fronteira gaúcha nos alvores do século XX e se estabeleceu no interior do interior, do interior desse mundo periférico que é o Brasil. Norberto Acosta D’Leon trabalhava no campo, fazia curas e tinha todos os dentes na boca, o que ele creditava ao fato de escovar-lhes cinzas todos os dias e espalitá-los com cuidadosamente elaborados palitos de guanxuma.

Não foi isso, porém, que o tornou um espécime estranho para os seus vizinhos ao longo da vida. Nem mesmo o fato de ser estrangeiro e de repetir, em bom portunhol, que:  “haça de seu culo un pito, que de mio hei de fazer un tambor e sair pum-pum na rua”, foram responsáveis pelo estranhamento. O fato é que o vô Norberto era um leitor em meio a um mundo de analfabetos e isso o fazia realmente um homem esquisito.

No início dos anos 1950, as filhas do vô Norberto já moravam na cidade e costumavam lhe guardar os jornais e trazê-los nas visitas de final de semana. Meu bisavô lia a todos com dedicação e pensava sobre cada assunto. Ao fim, se punha a falar e debater as notícias. Comentava sobre os russos e os americanos, os riscos da guerra fria, da corrida espacial e discorria sobre os satélites, que logo permitiriam que se soubesse o que acontecia do outro lado do mundo bem rapidinho. Costumava, inclusive, a defender que os russos chegariam a lua antes dos norte-americanos.

– À lua, seu Norberto? – inquiria algum interlocutor num semi-riso horrorizado.

– Á lua! Ora, tu não sabes que estão os cientistas trabalhando para levar os homens à lua? É a próxima conquista da humanidade.

Minha mãe conta que se fascinava com as falas do meu avô. Aos seus olhos de criança, ninguém era mais inteligente. Entretanto, ficava triste em ouvir os comentários dos vizinhos ao se afastarem do velho uruguaio.

– Como tu aguentas a prosa do Norberto louco?

– Ah – respondia o outro – eu dou risada.

A leitura lenta

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Estou lendo dois livros na lentidão que meu atual momento permite. São dois livros invernais*, de densidades diferentes. Por que invernais? Porque parecem combinar com uma introspecção cinzenta, primitiva, úmida, do tipo que antecede o criar. Com certeza, é uma classificação bem pessoal, pois sou eu que sempre vejo as zonas pré-criativas num tom cinzento de nebulosa cósmica, com tufos e explosões aqui e ali.

São dois livros sobre arte e ambos falam de conexão, a ligação que pode se estabelecer entre o artista e o seu público. E isso me tem sido um pensamento caro. Afinal, como tocar, sem manipular? Como sensibilizar sem fazer uso dos expedientes clichê e do horror? Será que em meio à fragmentação de cultural e social é possível uma linguagem comum que fale aos sentimentos? O meu abalo pode te abalar?

As respostas positivas estão imersas em nossa cultura comunicante, de entretenimento, de noções próprias e apropriadas. Reagimos, claro, mas no espectro dos códigos aceitos em nosso grupo de convivência sobre o bom, o belo, o justo e o injusto. Reagir diferente dá trabalho, implica em defender uma posição, em receber ataques.

Interessante perceber isso nas duas obras que agora leio. Uma fala a partir do lugar de alguém que sempre quis ser diferente. A outra fala de um pensar diferente como a raiz da criatividade. Porém, na altura em que me encontro, ambas falam que para se comunicar e conectar precisam compreender ou conduzir até o mediano, ao nível dos que não se querem dar ao trabalho. Não há qualquer desprezo aí, pelo contrário, esse é o público do artista. Apesar da “mitologia” nenhum artista quer verdadeiramente ser incompreendido. Afinal, sem conexão, sem tocar, sem atingir as notas sensíveis da alma de quem não quer se dar ao trabalho de sentir profundamente, o que resta? O que é da arte que não traz consigo nenhuma sensação? O que é da arte quando, ao final (do livro, do espetáculo, da obra), artista e público permanecem os mesmos?

Vou respirando essas ideias com o que tenho escrito. Vejo aí duas faces – que são minhas e não as direciono a mais ninguém.Tenho escrito contos para narrar histórias cujo fim é divertir. Escrevo os romances para me exorcizar. Mas isso não muda o que espero na recepção de ambos. Estarei satisfeita no entretenimento, pois ele é uma forma encantadora de tocar o público. Há um tempo precioso no entretenimento, um tempo de fuga do ordinário, de alegria em suspender o cotidiano. Não acho que minha face artística almeje muito mais. Porém, sempre haverá alguém que, por similidade de angústia, memória ou simples predisposição, ao tempo e espaço da leitura, verá algo mais nas minhas páginas. A estes eu dedico os meus demônios e as minhas esperanças.

“Tem um!” Breves considerações sobre sua vida não ser o parâmetro

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Os fãs do grupo de humor inglês Monty Phyton costumam ser um tanto chatos. Além de um sem número de piadas internas (só entre quem assistiu o material do grupo infinitas vezes) ainda sabem de cor falas, trejeitos, posturas. Ficam comentando e rindo de imagens dos filmes e esquetes, como se você soubesse do que eles estão falando ou vendo com os olhos da mente. Acredite, pode ficar ainda pior quando eles começam a cantar coisas como “olhe sempre para o lado bom da vida”, com o assobio característico.

Ah, claro, estou nesse grupo de fãs. Descobri os caras na adolescência, assistindo a Vida de Brian na Sessão de Gala de um sábado na casa do namorado. A coisa aprofundou com o tempo. Locávamos fitas VHS dos outros filmes e esquetes até decorá-los quase todos e podermos fazer o silly walk na rua. Nosso favorito sempre foi o Brian. Citamos longas passagens de cor. Numa determinada época, quando fazíamos novas amizades, presenteávamos as pessoas com cópias do filme para que eles pudessem entender as coisas que falávamos e, acredite, as comparações e usos de frases ocupavam uns 80% de nossas piadas e de nosso riso. Afinal, como não usar no cotidianos frases como: “Isso não é culpa de ninguém, nem dos romanos”; ou “Ninguém espera a Inquisição Espanhola”; ou “Capricórnio é isso, é?”

Sim, sim, chatos, chatos, nunca negamos. Aliás, o plural é porque não posso deixar de incluir nessa gang antiga além do namorado eterno, minha irmã e nosso melhor amigo Alexandre.

Mas o fato é que dá para se tirar ideias, críticas e sarros ad infinitum do fantástico grupo inglês. Um dos meus favoritos é o do vídeo abaixo. A famosa cena da Vida de Brian em que os revolucionários discutem o que os romanos lhes deram em troca da dominação imperialista.

A cena é genial, obviamente. Particularmente, eu adoro o momento da chegada do Brian, lá pelos 3 minutos. A piada é recorrente em todo o filme, aliás. Reg, personagem de John Cleese, solta uma generalização: “Todos aqui não hesitariam em dar a vida para nos livrar da dominação romana”. Alguém diz lá do fundo da cena. “Tem um”. “Certo, tem um – considera Reg – mas tirando este…”

É muito difícil não lembrar dessa passagem o tempo todo quando se é professor. Boa parte dos debates propostos em aula são levados em conta a partir de considerações pessoais em torno do “eu não” ou “eu sim”. Não estou desconsiderando o fato de exemplos pessoais serem ótimos para aprofundar o debate em alguns casos, mas, acreditem, não funciona 100% das vezes. Além disso, é mais comum ver o enunciado teórico ser colocado no mesmo nível do senso comum (e seus limitantes) do que ver o exemplo concreto ser lido como uma variante capaz de ampliar a complexidade.

Por outro lado, quando se observa a natureza de algumas postagens na internet, é possível ver a ampliação do “tem um” em níveis, por vezes, absurdos. Não, não estou me colocando no alto de um pedestal de quem nunca fez e aponta os outros. Eu fiz, você fez e podemos recitar todo o verbo. No entanto, é bom lembrar algumas ideias antes de saltar anunciando que você não se inclui na generalização que o outro fez.

1. Você é regra ou exceção?

Respondeu que é a regra. Ok.

2. Porque você acha que é a regra?

Conhece muita gente como você.

Excelente!

3. Quantas pessoas? Em termos percentuais – entre as pessoas que você conhece e as pessoas existentes no país, no continente americano ou no planeta – você precisa esse grupo de pessoas figurar em qual quantidade?

Ainda se sente a regra?

Bom, considerando o fato de que seu ponto de vista possa ser uma exceção, mais uma pergunta:

4. A generalização feita pelo outro é absurda? Considere, por favor, dados históricos, sociológicos e culturais?

5. No mesmo sentido da pergunta anterior e antes de você pular gritando: “Tem um”, é possível, mesmo que de longe, considerar que essa generalização que não se aplica a você, também não é dirigida a você? Isto é, ela não está te criticando, não está dizendo que você escolheu o caminho errado, nada disso. Pelo contrário, está até achando que gente como você devia ser a regra.

Legal, não é?

Obviamente também é importante considerar que você ou a sua vida não são o parâmetro, nem mesmo a amostragem, ou a contra-prova de qualquer exame social.

6. Últimas perguntas: você berrar “tem um” exercita sua alteridade com os outros? Exercita sua empatia? Acrescenta complexidade a fala do outro? Endossa ou refuta peremptoriamente o argumento do outro.

Se a resposta é sim: uau! Que bom que tem um. Que bom que temos uns exatamente como você.

Se a resposta for não… Bom, você decide. Pessoalmente, nesses casos, eu passo para o próximo.

 

Comidas desaparecidas 1

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O ano recomeça e entre o material escolar e os planos de ensino me vejo as voltas com a questão do lanche. Somos três estudantes. Dois eternos – já que o Guto e eu somos professores – e um iniciante – o Miguel indo para a primeira série do Ensino Fundamental. Nós dois nos viramos com as comidas de cantina que detestamos: gordurosas, de gosto muitas vezes intragável, acompanhadas de líquidos extremamente doces, industrializados, quando não, repugnantes. Tentamos levar alternativas caseiras, mas com o tempo escasso e o ano empurrando, sempre nos perdemos no meio do caminho.

Com o Miguel é diferente. O lanche é feito diariamente e, mesmo com a preferência dele por sanduichinhos acompanhados por água, gosto que ele leve tudo fresquinho de casa. Sei, nem todo mundo tem tempo de preparar, e isso nem é um ensaio de crítica. De fato, toda essa introdução é para lembrar da época em que comprar o lanche na cantina da escola, ou mesmo da faculdade, não era algo odiosamente apavorante.

Primeiro, naquela época, a minha época (estou cada vez mais nas antigas), se chamava merenda e não lanche. Segundo, éramos avisados por nossos pais constantemente que a comida do bar (não era cantina que é coisa de imigrante italiano) não era tão boa quanto a de casa. Eu costumava levar ovos cozidos que passavam a noite na salmoura e eu mesma cozinhava toda noite. Uma vez por semana levava bolo, que aprendi a fazer aos 8 anos. Quando finalmente fui liberada para ir ao bar do colégio, ainda preferia minha merenda vinda de casa e que eu mesma gostava de arrumar, acompanhada de suco do dia anterior (levemente oxidado) ou chá gelado (no inverno quente). As coisas do bar não me atraíam. Fui criada com medo de fritura fora de casa e a torrada demorava quase todo o recreio para ficar pronta, vinha insonsa ou com excesso de margarina.

Então, eu provei pela primeira vez algo que meus colegas adoravam e me juntei ao grupo de adoradores. Comprávamos por “meio-prensado” (e ignoro como isso era comido ou nomeado em outras partes do universo que não as escolas de Santa Maria, RS) algo que consistia em: 1/2 pão de xis (definição para gaúchos, acredito), queijo, presunto, maionese e molho de tomate (mas molho feito, não essa coisa industrializada com sabor de salsão que dá vontade de chorar, e acrescido de sal em quantidade para fazer um charque). Aquilo era uma delícia, tinha quase sabor de conforto.

Hoje em dia, os meio-prensados estão completamente desaparecidos das cantinas colegiais. Foram substituídos pelos pães de queijo farinhentos e pelos folhados cuja gordura hidrogenada cola no céu da boca, e cujo recheio de galinha é tão salgado que endurece a língua. Permanecem as torradas insonsas, duplicaram-se as frituras cujas massas caseiras são igualmente industrializadas.

Do meio-prensado não encontrei nem fotografias. E, como registro de uma memoriosa e melancólica nostalgia das comidas desaparecidas, lavrei este post.

 

A pior coisa em escrever…

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A pior coisa em escrever é não escrever. Não sei dos outros, mas escrever para mim se processa como uma necessidade alimentar. Há épocas em que pequenos bocados diários me satisfazem, há outras em que tenho fome o tempo todo. Uma fome que não se sacia fácil. Uma fome que tudo incomoda. Uma fome que só sente a si mesma. Todo o resto me irrita. Estou imersa em vidas exigentes e colocá-las em pausa para voltar ao cotidiano me aflige. Não quero saber do dia seguinte, não quero saber se há abobrinha na geladeira ou o cardápio do almoço de amanhã. Não quero lembrar se tenho o texto da xerox, se há notícias no jornal ou se o gelo polar está derretendo.  É horrível. Insano. Alienante. Ainda assim, as vozes dos personagens na minha cabeça reclamam de suas histórias não contadas. Queremos estar vivos, me dizem, me gritam enquanto dançam e dialogam sem parar. E eu quero que estejam vivos. Quero vivê-los, pois não me contento mais em tê-los apenas na minha cabeça. Só que não há portas que te separem do cotidiano, não há trancas que deixem o mundo lá fora o suficiente. Tenho sono, tenho compromissos, tenho amores. Ainda assim, represar histórias é uma dor física, uma urgência insatisfeita. Estar escrevendo é ter o diabo aos calcanhares, é ter alguém à espreita, é sempre ter algo inconcluso para fazer. Pior? Só quando não se consegue escrever.