Metamorfose

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Numa manhã qualquer, ao acordar, o Sr. T se viu convertido em uma mocinha. Ainda preso à nébula do sono, acreditou-se num pesadelo estapafúrdio. Buscou virar de lado para voltar a dormir, mas o corpo o obedeceu de forma estranha, assumindo uma posição na cama que, com sua idade e peso anteriores, o Sr. T sequer julgava ser possível. Sentou para perceber, abismado, que o novo corpo, além de se mover melhor que o antigo, era real. Ou, ao menos, assim lhe parecia. O lençol escorregara na nova pele de pelos curtos e o cheiro dessa pele também lhe parecia real. Até mesmo um sabor diferente se espalhava por seu paladar. Havia uma sensação estranha à altura da cintura e uma falta de peso entre suas pernas. O pior era a cabeça que, por ter aquele corpo, inexplicavelmente, lhe parecia tão cheia de caminhos diferentes, desejos inconfessáveis, dores insondáveis. A força que se desvanecera de seus braços, outrora grandes e pesados, agora caminhava por seus sentidos, indo e vindo, de um para outro. Quando a força finalmente chegou à sua boca, o Sr. T gritou, como nunca havia sentido ser possível antes. Contudo, ninguém veio atendê-lo. Um bolha de silêncio parecia envolver aquele corpo e o quarto em que estava, era pavoroso ao Sr. T sentir que estava preso ali dentro. Da bolha, do quarto, do corpo de moça.

Foi quando se ergueu da cama, em busca de um novo equilíbrio, que um pequeno peso se revelou para ele. Estava ali, naquele lugar abaixo da cintura, mas era um peso líquido e não sólido. O Sr. T caminhou até o espelho, olhando seus novos pés e pernas, procurando e encontrando tudo diferente. Um segundo antes de ver sua imagem nova, o Sr. T se interrogou se seria bonita a moça que ele era. Uma preocupação fugaz, mas importante para o homem que ele tinha sido. No espelho encontrou a imagem de uma jovem que se tornava mulher num avanço de instantes, como se o tempo se acelerasse. O ventre bojudo revelava outro corpo dentro do seu. Um que ele não sabia como tinha ido parar lá. Só tocara em mulheres, o antigo Sr. T, como poderia ter um filho em seu ventre aquela moça que apenas amanhecera? O que faria? O que seria daquela criatura? Tão jovem, com um filho? Presa numa bolha de silêncio.

 

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Esse conto foi publicado anteriormente (março de 2014) no Caderno Planeta Ciência, de ZH, na seção chamada Fricções. O texto acima – obviamente uma homenagem a Kafka – foi inspirado na notícia de que cientistas japoneses criaram um equipamento que simula, para homens, a sensação de estar “grávido”. Ao vestir o “Mommy Tummy”, é possível não apenas sentir o peso do bebê, como os movimentos da criança e as mudanças pelas quais passa o corpo da mãe, como o aumento dos seios. O colete conta com balões, saco com água morna, vibradores, sensores de toque e estimuladores. Todos os nove meses de gestação são resumidos em dois minutos. 

 

 

Mini-Contos de Fadas III

1.
– Humpf, não dê atenção a estes meninos bobos – diz a mãe para o Pequeno Polegar. – Ninguém vai te chamar de baixinho quando você for MÉ-DI-CO.

2.
– Vocês colocaram uma ervilha debaixo de 20 colchões para saber se eu era uma princesa de verdade? – perguntou a moça, incrédula.
– Foi ideia da mamãe – respondeu o príncipe.
– Ótimo! Nem casei e já tenho sogra.

3.
– Ok, ela podia ser uma bruxa, mas tinha bom gosto. Roupa preta com sapato vermelho é über fashion.
– Com meias de listras?
– Tendência, querida…

 4.
Os sapatinhos vermelhos cor de sangue brilhavam como maçãs na vitrine. A menina não os queria, precisava deles, isso sim. O que queria era os olhos verdes da inveja acompanhando-a quando ela os pusesse nos pés.

5.
A Pequena Vendedora de Fósforos
Não há  como fazer graça, nem ternura, quando a história é sobre uma criança que morre de frio.

Mini-Contos de Fadas II



Para quem gostou dos primeiros, mais uma leva de Mini-Contos de Fadas.



Mini-contos de Fadas II

1. 
– Pele de Asno
– Schssssss ninguém conta essa história.
– Por quê?
– Um pai que quer casar com a filha é realidade demais para a cabeça das crianças.

2. 
– Só se tem duas chances na vida: ou se nasce bem ou se casa bem – discursou o gato.
– E como se faz para casar bem? – perguntou o filho do moleiro.
– Pareça que nasceu bem.

3.
Uma roupa que apenas os inteligentes veem? É melhor que esquente, porque, para a maioria, não vai tapar nada. 

4. 
Fecha o livro após a leitura do conto do Barba Azul.
– Mamãe? É ruim ser curioso, né?
– Não, filho. Ruim é matar pessoas e fazer disso um troféu.

5. 
– Dizem que nesse mar dá sereias.
– Sério? E qual é a isca?
– Amor eterno…


Comme ils disent

Por motivos alheios a minha vontade, não pude escrever nada, então resolvi partilhar algo. Trata-se de um conto que, como muitos devem conhecer e até gostar, vem em forma de música. O autor e interprete é um dos maiores da música francesa, Charles Aznavour. Conheci-o pequena ainda, pelo gosto da minha mãe. Lembro de imaginar que, com essa voz, falando francês, ele devia ser belíssimo. Minha mãe ria.
Descobri-lo pouco atraente para o meu gosto, porém, não diminuiu minha admiração pela sua voz e, com o tempo, fui ficando cada vez mais fã de suas composições e interpretações. Acabei viciando o Guto em ouvi-lo e, juntos, praticamente surrupiamos um CD que pertencia a minha mãe (mas fora eu mesma que presenteara, então…).
O vídeo com Charles cantando fala por si mesmo A letra e a tradução podem ser encontradas aqui. É nosso favorito. 

Fonte: Youtube


Mini-Contos de Fadas

Um pequeno divertimento meu.

Mini-contos de Fadas
1.
– Nossa, que pato feio. – Isso não é um pato, rapaz. É um cisne. – Ahh…
Nasce uma história.
2.
Uma hora de advertências. – E não saia sem sua capa!
Resmunga: – Humpf, se o lobo me atacar não vou precisar da capa.
3.
É só até a meia noite, mas não se preocupe, querida. Fiz o sapato um número maior para você poder dançar bastante.
4.
Sinal dos tempos
– Quer provar uma maçã, querida?
– Obrigada, vovó, mas não como frutas sem lavar.
5.
– Pai, se eu fosse um boneco de madeira, você brincava comigo?
6.
Ursinho choraminga:
– Papai, tem uma loira deitada na minha cama.
– Não seja luxento, menino! A gente não reclama da comida.
7.
Dormir 100 anos? Ela pelo menos podia jogar a praga para depois que a menina tivesse filhos.
8.
Os sapos serenateavam no brejo ao lado do convento.
Ainda assim, as freiras nunca descobriram com quem fugiam suas noviças.
9.
Ah, qual é? Cada porquinho mora em um lugar? O que é isso? Entraram no programa Minha casa, minha vida?
10.
Candelabro comenta com o Bule:
– A Fera está tão calma. Bela está fazendo bem a ele.
– É. E o Lexotan que eu ponho no chá também.
11.
– Lindo cabelo, menina! E tão comprido, nossa! É loiro natural?
– É sim.
– Quer vender?
12.
Essa casa de chocolate até é legal, mas se é para atrair crianças, sem TV a cabo, vídeo-game e internet isso aqui não tem futuro não, vovó.
 Já publicados no blog Pink Side

Luz Acesa

            

         Uma lufada de maresia destemperou o cheiro do ensopado. Mercedes desligou o fogo pela terceira vez e foi com pressa até a janela ver se Amaro vinha chegando. Onze e meia e nada. Vasculhou os cantos escuros da rua e achou ter visto a sombra de um navio grande no cais. Deviam ter ficado descarregando até mais tarde, por isso o atraso. Amaro ia chegar morrendo de fome, pensou enquanto voltava a mexer o ensopado. Pôs uma colherada na boca. Estava mais salgado que o que ela requentara ontem e que agora transbordava na tigela do gato. Tornou a espiar a janela e a fechou para abafar o cheiro da rua. Tinha dias em que ar recendendo a peixe que passeava pelas ruas próximas ao porto lhe embrulhava o estômago. Sentou em frente à porta segurando uma camisa descosturada que pegou para ocupar as mãos. Mercedes cuidava cada estalo da madeira como um anúncio de que o trinco já ia girar.
           Quando o relógio, que tinha em cima do balcão, marcou meia-noite, ela achou que ele não viria mais. De certo estava tão cansado que dormiu, pensou enquanto guardava o ensopado já frio na frigider azul. De vez em quando, Amaro não vinha dormir em casa, mas nunca tinha passado tantos dias sem aparecer. Pôs a camisola, deitou-se e pegou a Bíblia. Leu uns pedaços com dificuldade e acabou indo rezar um terço. Uma pancada na porta a jogou fora da cama como se fosse de mola. Chamou duas vezes pelo nome do marido, sem resposta. Abriu uma fresta calçando a entrada com o próprio corpo. A luz amarela que ficava na frente iluminava uma mulherzinha morena que sorria meio sem graça.

            – A senhora me desculpe a hora. É a dona Mercedes?
            A outra confirmou, mas não se afastou da porta nem ampliou a abertura.
            – A senhora não me conhece. Eu me chamo Rosa.
            Mercedes assentiu se dando conta de quem era. Ia perguntar o que ela queria, quem sabe o Amaro tivesse adoecido ou bebido demais depois do serviço, mas a baixinha não lhe deu tempo. Começou a falar aos borbotões, muito nervosa, parecia até que tinha decorado as palavras.
            – Eu sei que a senhora talvez não queira falar comigo, mas faz três noites que eu não durmo. A senhora pode achar que é muita ousadia minha ir aqui assim, mas eu precisava de alguma notícia. Se estiver tudo bem, a senhora pode bater a porta na minha cara, que eu vou embora. Mas se aconteceu alguma coisa é só me dizer que eu também não incomodo mais.
            Três noites repetiu Mercedes mentalmente. Fazia três noites que ela o esperava com a janta pronta e ia dormir com a luz da sala acesa, para que ele não chegasse no escuro. Num impulso, abriu a porta e mandou que a outra entrasse.
            Rosa, que não sabia o que fazer, entrou meio sem jeito. Achou que tinha que falar alguma coisa, mas como não sabia o que, ficou calada. A casa não era tão limpe e arrumada quanto Amaro dizia, mas era diferente. Vagueou os olhos pela sala que se separava da cozinha por uma cortina de contas de madeira. Tudo era tão azul. As paredes próximas demais tinham na pintura descascada uma cor intensa, algo que sufocava.
            – Senta – ordenou Mercedes.
            Rosa caiu na cadeira. De novo achou que devia dizer qualquer palavra, mas quando tentou falar viu que começaria a gaguejar e ia levar muito tempo para a outra entendê-la. Mercedes sentou-se à sua frente e passou a olhá-la até que Rosa desejasse ser engolida pelo assoalho.
            – Ele te trata bem?
            Rosa quase pulou, não esperava uma pergunta dessas. Abriu a boca, mas a voz empacou. Mercedes levantou e acendeu  fogo sob o bule de latão. Pegou uma xícara do armário, pôs açúcar e ofereceu a outra com o café requentado. Rosa quis agradecer, mas Mercedes repetiu a pergunta antes que ela articulasse alguma coisa. Era uma curiosidade estranha, mas não sem sentido, pelo menos, não entre mulheres. Uma cumplicidade às avessas pedia que Rosa falasse. Bebeu do café e começou bem devagar para não se atrapalhar nas palavras. Tentou observar o rosto de Mercedes, porém, acabou baixando os olhos para a xícara quente entre as mãos.
            – Ele é bem bom comigo. Quero dizer, ele não é muito de conversa, mas nunca deixou que me faltasse nada. De vez em quando, ele até me traz uns presentinhos e, quando pode, a gente sai para passear. Não por estas bandas, é claro – juntou rápido para a outra não achar que ela lhe faltava com o respeito. Mercedes ouvia sem expressão, mas Rosa achou que ela ia chorar. – Bom, isso quando ele não bebe. É, porque tem vezes que ele sai da estiva e vai para o boteco e teve dia que ele acabou dormindo por lá, isto é, lá em casa.
            Deu um sorriso enviesado pedindo desculpas. Mercedes continuava a olhá-la. Sempre achou que fosse muito mais bonita e nova, pelo que ouvia dizer. Mas Rosa era dessas mulheres de idade indefinida, quase como ela própria, porém não tinha rugas nos lábios, nem aquele jeito cansado de falar.
            – Ele te bate? – perguntou de chofre.
            – De vez em quando. – Rosa apertava os dentes. – Já disse que quando ele bebe, ele fica meio desnorteado. O pobre trabalha tanto, eu dou um desconto, sabe? E homem é assim mesmo, não é? Quero dizer, a gente aceita porque precisa de um macho em casa, alguém que imponha respeito. A senhora entende, não é?
            Rosa caiu em si nas últimas palavras. Era muita ousadia perguntar aquilo. Afinal, era a mulher dele, a mulher de verdade. Podia até ter vontade de bater nela por dizer aquelas coisas. O pensamento foi cortado por outro. Será que ela apanhava também? Devia, senão não havia de ter perguntado. Rosa largou a xícara sobre a mesa de pernas finas que ficava no centro da sala, alisou a toalhinha de plástico que imitava crochê e agarrou a bolsa como quem já ia levantar, mas Mercedes perguntou se ela queria mais café.
            – Não, muito obrigada. Eu nem mesmo devia ter vindo incomodar a senhora numa hora dessas. Aliás, acho que é melhor eu ir, o Amaro vai chegar e não vai gostar de me ver aqui.
            – E se ele não vier? Se ele não voltar para casa, nem para a minha, nem para a sua? – Mercedes levantou e caminhou até o armário de fórmica sem esperar resposta. Estava com pena da outra. Para si mesma sempre restava um certo respeito, desse que se tem pelas mulheres de família, independentes da situação em que se encontram. – Eu tenho um filho, sabe? Ele está sumido no mundo faz um tempo. Mas, de vez em quando me manda notícias, só não quer saber do pai, de jeito nenhum.
            – É – Rosa ficou com os olhos parados – eu entendo ele. Também briguei com o meu pai. Só que a minha mãe nunca mais falou comigo, ela disse que eu devia morrer.
            – Que coisa horrível! Não se diz isso a um filho, nunca.
            Rosa suspirou. Era assim mesmo, que se havia de fazer? Mercedes voltou para a cadeira em que estivera sentada de frente para Rosa. Tinha nas mãos uma foto que entregou a outra. Rosa olhou o menino sorridente. Parecia com o pai, comentou. Era mais velho agora, não era? Bonito, bem bonito. Mercedes devia ter orgulho dele. Pena que estava longe. Rosa começou a chorar. Ela tentava a todo custo secar as lágrimas com as mangas do casaquinho de linha marrom.
            Mercedes esperou que ela se acalmasse e, pela primeira vez, teve raiva dela, quase a mandou calar a boca, mas ficou quieta. Talvez devesse chorar também, só que as lágrimas não vieram. Olhou para a fotografia do filho, que a outra lhe devolvera, e pensou que devia ser bom poder ir embora, ter outra casa, qualquer lugar para ficar quando a comida estivesse ruim ou a cama fria ou simplesmente estivesse cansada. Uma sirene ao longe fez com que ambas emergissem os olhos, que voltaram a se encontrar. Rosa levantou-se de um salto secando o nariz e disse que ia embora. Na porta agradeceu pedindo desculpas por qualquer coisa. Mercedes destrancou a fechadura e saiu com ela para a rua gelada. Tinha uma última questão com a outra.
            – Rosa, você podia ter ido embora ou expulsado ele. Talvez, até te aparecesse coisa melhor.
            – É. Eu sei – ela respondeu apertando o casaquinho junto ao pescoço. – Mas é que eu gosto dele, sabe?
            Deu um meio sorriso e partiu. Mercedes entrou logo, por causa do frio. A casa sufocava-a, apertando-a por dentro. Trancou a porta e antes de se deitar apagou a luz da sala.