Nunca amamos tanto nossas crianças, e ainda não as amamos o suficiente

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Sobre “A Infância no Brasil”, de José de Aguiar

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Creio que poucas publicações para o grande público tem o impacto de A infância no Brasil. A HQ de José Aguiar, publicada pela Avec Editora neste último ano de 2017, consegue esse efeito raro. O quadrinista escolhe tratar de um assunto bastante espinhoso: ser criança num país múltiplo e desigual como o Brasil. Mais que isso, o autor não se furta a fazer uma viagem pela história violenta e cruel do país em que vivemos.

Ao longo de suas páginas desfilam caravelas, povos indígenas, missionários jesuítas, bandeirantes, escravocratas, crianças abandonadas na roda ou fugindo de seus algozes. Mas, em cada século, o autor faz uma comparação com o princípio do século XXI. O que mudou e o que não mudou tanto assim estão ali.a-infância-no-brasil-jose-aguiar-avec-editora-post-cosmonerd-4

O bandeirante que quer um filho macho e o ultrassom celebrado pelo casal de classe média que mostra uma menina. Os indígenas apresados como escravos que entregam suas crianças aos jesuítas e os povos desenraizados que vendem cestos nas vias públicas para sobreviver. As crianças abandonadas e famintas de qualquer século. Os filhos nascidos nas senzalas e os que estão encarcerados com suas mães nas doentias prisões brasileiras. O cinema que faz o deleite das crianças operárias e os filhos de papeleiros que pedem nos sinais.

Não é uma obra fácil de ser lida e vista. As ilustrações são poderosas, trazem subtextos doloridos, batem direto em nossa ignorância, mas ainda mais forte em nossa indiferença.

O que faz uma criança ser diferente da outra?

O que faz uma infância ter mais direito que a outra?infancia_cap06_p02A_PT

O que faz um juiz achar que uma menina de 13 anos que se prostitui é uma mulher; e que protege sua filha, da mesma idade, com o zelo amoroso de quem a deixa na porta da escola e cuida para ver se ela entrou direitinho?

Lembrei de meu filho, aos 8 anos, chocado por saber que nazistas – que mandavam crianças em fila para as câmaras de gás – podiam ser bons pais. Ele também acha que sou uma mãe maravilhosa; mas o que sabem nossos filhos de nossas pequenas maldades, de nossa indiferença para com os outros, nossos pré-julgamentos e preconceitos?

O fato é que, para além da História do Brasil, pelos olhos quase sempre tristes de boa parte de nossas crianças (para não dizer a maioria), José Aguiar propõem outras questões. Profundas e filosóficas perguntas como: o que é ser bom? O que é cuidado? Como podemos amar tanto os nossos filhos e fechar os vidros dos carros para as crianças que estão do outro lado?a-infância-no-brasil-jose-aguiar-avec-editora-post-cosmonerd-5

As respostas podem parecer fáceis, mas a HQ deixa claro que não são. Ela vai a nossa história de dor e desigualdade. Mostra que o Bem se modifica a partir dos pontos de vista e da cultura. E deixa claro que o conceito do que é infância, do que é ser criança, não é apenas mutável no tempo, as também a partir do nosso lugar social.

José Aguiar faz uma obra poética e forte, sem cair no didatismo. Contudo, deixa claro que seu trabalho teve por base uma pesquisa histórica de fôlego, e baseada em uma historiografia de ponta, a qual, bem indicada, aparece ancorada em metodologia científica e em uma documentação amplamente analisada.noticia_583696_img1_esp2f1

É uma obra fundamental, penso. Para se ter em casa e provocar perguntas aos pequenos privilegiados que criamos. Porém, como professora formadora de professores também indico-a fortemente para ser usada nas escolas. Em especial a partir dos 5º anos do Ensino Fundamental, tanto nas aulas de História, quanto de Língua Portuguesa ou filosofia. Aos professores, indico também a leitura da obra História das Crianças no Brasil (já indicada por mim no portal Sul21), organizada pela historiadora Mary Del Priore (que, aliás, assina o prefácio da HQ). Creio que eles perceberão que as duras, mas poéticas imagens e texto de José Aguiar “pegam leve”, pois a realidade de abusos de nossos pequenos pode ir ainda mais longe.

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