Como criar um leitor

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Um leitor em criação.

Um leitor em criação.

Apesar do título, este não é um post de autoajuda. Também não pretende seguir uma linha Mary Shelley de criação. É um post sobre experiência. Uma sucessão de tentativas mais ou menos bem sucedidas e ainda incompletas. Sobre uma experiência materna/paterna e não do lugar de educadores (disso, posso falar num outro momento).

Quando começamos a imaginar o Miguel, deixamos uma grande margem de liberdade. Fazíamos votos que ele herdasse algumas características fenotípicas, que tivesse algumas inclinações. Duas coisas, porém, resolvemos não dar tanta margem de liberdade. O time do coração (no caso do pai dele) e o fato de que não queríamos apenas um filho, a gente queria um leitor. E decidimos agir proativamente para isso.

Eu sei. Vai ter quem diga: “Ora, vocês dois são leitores, é claro que ele também será.” Bom, eu não acredito muito nesse tipo de lógica. Embora o exemplo seja importante, já vi muito pai/mãe leitores criar filhos que acham que livros servem para nivelar estantes. Então, sinceramente, achei que não deveria deixar margem ao acaso.

Antes mesmo de o Miguel nascer, estava preocupada em adquirir lentamente os livros que eu queria que o cercassem (inclusive, escrevi sobre isso aqui: A biblioteca do Miguel). Mas, decidi, não bastaria que ele apenas visse livros à sua volta, então, fui criando, meio desajeitada e meio planejadamente, algumas técnicas.

  1. O livro de banho. Os livros de banho são ótimos. Coloridos, de fácil manuseio, vão à qualquer lugar, são mordíveis, babáveis, podem coçar gengivas, serem desinfetados com álcool, alguns tem até barulho. Mais que brinquedos, se tornam parceiros. Companheiros que se pode folhar. Fiz ponto aqui.
  2. Livros com música. Usei muito para fazer o Miguel dormir. Folhava as páginas, mostrava as figuras coloridas, fazia tocar a música que eu cantava ou cantarolava o que vinha escrito na página. Por que? Associação: página, música nova e a minha voz. Sempre uma novidade. A cada página uma surpresa. Quantas vezes repeti cada livro? Infinitamente. Os pequenos amam repetição e eu dei toda a que o Miguel pediu. Só trocava quando ele cansava ou eu estava quase surtando com a musiquinha.

OBSERVAÇÃO: Alguém vai dizer: “que bom que você tinha tempo para fazer isso pelo seu filho”. Bom, falando claramente, acho que tempo ninguém tem. Eu abdiquei da minha hora de leitura, eu trabalhava até às 22 ou 23h da noite. Apenas, bem, como eu disse acima, meu projeto não era só um filho, era um leitor. Seguindo…

3. Livros com folhas cartonadas e barulho. Miguel tinha 1 ano e 6 meses quando me pediu o primeiro livro (sim, conto isso como vitória). A obra em questão tinha folhas acartonadas (aquelas mais grossas) e um botão azul que soltava o apito de um trem. Como sei que ele me pediu, se ele mal falava? Vimos o livro num dia e no outro ele me puxou para a loja dizendo piuí, foi até a prateleira, pegou o livro e abraçou. Eu achei eloquente. Tivemos um longa linhagem de livros sobre trens e caminhões e outros veículos nessa época.

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

4. Livros baratos. Pois é, sabem aqueles livros fininhos, que a gente compra em bando, custando cerca de 0,75 centavos (preço da época) e que tem contos de fadas tão mal adaptados que dá horror de ler? Pois é. Comprei uns quantos daquele e larguei nas mãos do guri. O objetivo era que no processo de refinar seu processo de apreensão e motricidade fina, eles o pudesse rasgar sem perigo de grande perda. O que eu fazia quando os livros apareciam rasgados? Um dramão. Dizia que ele tinha feito algo muito feio, fazia de conta que o livro chorava, fazia curativo com fita adesiva, embalava o livro e dizia que tudo ia ficar bem, fazia o Miguel pedir desculpas para o livro. Você dava um livro só para poder passar um pito no seu filho? Exatamente. Pergunte hoje o que ele acha de livros rasgados, queimados ou proibidos, vai pergunte!

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

5. Livros Brinquedos. Esse tipo de livro foi um desafio. Para mim, não para ele. Eu sabia o que o estava atraindo e sei que muitos pais se enganam nessa fase. Dizem ele/ela adora livros, quando na verdade as crianças não estão nem aí para as letras ou a história, mas apenas para o brinquedinho que vem junto. O que ocorre é que o entendimento do livro como brinquedos, faz com que muitas crianças abandonem ambos quando começam a transicionar para outros interesses. Eu sempre fazia questão de ler as histórias. Quando o Miguel não se interessava por elas, em algum momento iria ouvir-me cortar algum tipo de privilégio ligado ao consumo. Por outro lado, encarei como uma fase, depois de um tempo, passei a dizer que ele somente ganharia o livro se me mostrasse a história e que os livros com brinquedos eram para bebezinhos (não me olhe assim, não há jogo limpo quando se cria um leitor).

Por outro lado, os livros também podem “ser” brinquedos. Veja o vídeo abaixo.

Cuidado!… Cuidado!!

O FATO É QUE: Encher a casa de livros não adianta nada se você não lê… com ele/ela (falo das crianças).

6. Lendo com as crianças. Por algum tempo estudei a História da Leitura, mas não precisaria disso para saber que durante cerca de 98% da nossa história, a esmagadora maioria da humanidade foi completamente analfabeta, iletrada, esteve longe das letras e dos livros. Ainda assim, as pessoas contavam e sabiam histórias. Quando os níveis de leitura começam a crescer no século XIX não se está falando apenas de maiores níveis de alfabetização, mas também do que viemos a chamar de leitura partilhada. O fato de alguém não estar alfabetizado não o impede de ser um leitor, desde que a leitura seja compartilhada. Não basta pegar um livro na beira da cama da criança e ir contando com base nas figurinhas ou do que você lembra da História de João e o Pé de Feijão. A leitura partilhada é ler. Prestar atenção ao texto, às linhas, aos parágrafos, ao ritmo de cada página. Perceber o que desperta a criança, o que a embala, o que a entedia. É uma troca. É envolver a criança no texto e conversar com ela sobre ele.

Nessa fase, marquei meu primeiro ponto lendo Branca de Neve para o Miguel. No meio da história ele me faz parar a leitura e comenta: “são folgados esses anõezinhos, hein?” Por que? “Ora, mãe, você me disse que eles não são crianças, mas eles querem que a Branca de Neve faça tudo para eles”.

Hoje, contabilizo mais pontos. Leitura de A Fantástica Fábrica de Chocolates (duas vezes em sequencia); Charlie e o Elevador de Vidro; toda a coleção do Capitão Cueca (12 livros, recomendo); os 7 volumes de Harry Potter; O feiticeiro de Terramar (da Úrsula Le Guin); O bom Gigante amigo; Matilda (Roald Dahl é sucesso absoluto, estamos esperando As Bruxas)…

Agora, ele começa a ler no ritmo dele, está descobrindo HQs, mas mantém os livros na leitura partilhada, vendo neles também uma fase de aprendizagem. “Logo vou ler esses sozinho, não é mãe?”  É.

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