Já ouvi falar de Moda do Bem?

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Durante os últimos dois anos ministrei disciplinas no curso de Tecnólogo em Design de Moda. Trabalhei com duas matérias: História da Moda e Moda, Cultura e Sociedade. Em ambas pude desenvolver, com as turmas com as quais trabalhei, excelentes debates. Seguindo a orientação do curso, marcamos junt@s a necessidade de se desenvolver produtos de moda com características inclusivas, sustentáveis e que valorizem os produtores e trabalhadores locais.

images (15)De minha parte, investi bastante para que tod@s percebessem que: 1) o vestuário é apenas a parte mais visível da moda e que ela envolve desde o nosso gestual, até o uso que fazemos das palavras. 2) Que a moda (esse fenômeno histórico-social do ocidente nascido em fins da época medieval) é, acima de tudo, política. E, por ser política, é ao mesmo tempo definidora e restritiva. A moda define gênero, classe social, etnia, religião. Ao mesmo tempo, ela restringe igualmente o gênero ao binário, as mudanças de classe social, impõe os limites entre religiões e etnias.

Cada item de moda tem uma história conectada não apenas com sua origem, mas também com as diferentes apropriações, recriações, sobrevivências e rupturas. Nossos usos disso são ao mesmo tempo pessoais e coletivos. São objetivos e subjetivos. Conscientes e inconscientes. Ninguém usa a moda exatamente como ela é proposta, nós a elaboramos de acordo com nossas necessidades, vontades, desejos (desde o que entendemos, até os que não conseguimos definir).

images (14)Parece incrível que a moda esteja em tantos níveis ao mesmo tempo, mas ela está. Isso não nos torna vítimas. Somos colaboradores mais ou menos engajados, estamos imersos em suas características de produção, distribuição, mercado, consumo. Até mesmo quem acha que está fora de tudo isso, não está, como brilhantemente explica Miranda Priestley em O Diabo veste Prada.

Tudo isso se torna mais complicado quando se toma consciência de que a industria responsável pela nossa vestimenta é uma das mais cruéis, poluidoras, desrespeitosa dos direitos trabalhistas e promovedora de escravidão moderna que se tem monitorado no mundo contemporâneo. Se quer uma mostra disso, não deixe de assistir o documentário The True Cost (o verdadeiro custo), disponível no Youtube e na Netflix.MV5BMTAwNzMyMDEyMTBeQTJeQWpwZ15BbWU4MDY2OTA5NDQx._V1_UY1200_CR90,0,630,1200_AL_
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É claro que é mais fácil entrar numa fast fashion da vida e tentar não lembrar que tem trabalhador explorado por trás da roupa de baixo preço e qualidade duvidosa que você compra. Aquela que vai 3 vezes à máquina e se desmancha, mas você não liga porque custou 20 reais. Esquecer que tem rio poluído e morto e crianças da idade do seu filho costurando em confecções insalubres do outro lado do mundo por centavos. Dá para esquecer sim. Dá para não lembrar.
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Mas também, dá para fazer melhor, sabe?
Um, dá para valorizar quem faz roupas perto de você. Dá para ir mais vezes ao brechó. Dá para trocar com @s amigues aquelas roupas que você já enjoou. Dá para comprar roupas de melhor qualidade para precisar comprar menos ao longo do tempo. Dá para comprar menos. E dá para se interessar e buscar empresas que respeitem seus trabalhadores e, por consequência, seus consumidores.
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Esse último, parece difícil, mas não é. Se você tem um smart phone, você pode baixar o aplicativo Moda Livre, o qual monitora 77 marcas e lhe informa quais são claramente comprometidas com a melhoria das condições de trabalho de seus operários. Sempre há um link para o site da empresa e algumas têm lojas virtuais que funcionam de forma excelente. Indo no site, você pode até se inteirar de outras preocupações da empresa, como por exemplo, o cuidado ecológico, com tingimentos e o uso de defensivos nas matérias primas (seu algodão e linho são plantados, logo, não esqueça que o veneno que vai à mesa também está em contato com a sua pele), como a Malwee.
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Outra dica, procure marcas perto de você que tenham a preocupação com uma produção inteirada com essas questões. E até com outras, como por exemplo, o feminismo, o antiracismo, a nerdice, etc. Sugiro a superfofa Toda Frida, a gaúcha Conceito Ada ou a Santamariense Criolando, de uma ex-aluna minha. Vá aos sites e explore um pouco. Meu bolso, meu guarda-roupas e minha consciência têm agradecido. Então, ficam as dicas para quem quiser aderir à moda do bem.
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Como criar um leitor

Um leitor em criação.

Um leitor em criação.

Apesar do título, este não é um post de autoajuda. Também não pretende seguir uma linha Mary Shelley de criação. É um post sobre experiência. Uma sucessão de tentativas mais ou menos bem sucedidas e ainda incompletas. Sobre uma experiência materna/paterna e não do lugar de educadores (disso, posso falar num outro momento).

Quando começamos a imaginar o Miguel, deixamos uma grande margem de liberdade. Fazíamos votos que ele herdasse algumas características fenotípicas, que tivesse algumas inclinações. Duas coisas, porém, resolvemos não dar tanta margem de liberdade. O time do coração (no caso do pai dele) e o fato de que não queríamos apenas um filho, a gente queria um leitor. E decidimos agir proativamente para isso.

Eu sei. Vai ter quem diga: “Ora, vocês dois são leitores, é claro que ele também será.” Bom, eu não acredito muito nesse tipo de lógica. Embora o exemplo seja importante, já vi muito pai/mãe leitores criar filhos que acham que livros servem para nivelar estantes. Então, sinceramente, achei que não deveria deixar margem ao acaso.

Antes mesmo de o Miguel nascer, estava preocupada em adquirir lentamente os livros que eu queria que o cercassem (inclusive, escrevi sobre isso aqui: A biblioteca do Miguel). Mas, decidi, não bastaria que ele apenas visse livros à sua volta, então, fui criando, meio desajeitada e meio planejadamente, algumas técnicas.

  1. O livro de banho. Os livros de banho são ótimos. Coloridos, de fácil manuseio, vão à qualquer lugar, são mordíveis, babáveis, podem coçar gengivas, serem desinfetados com álcool, alguns tem até barulho. Mais que brinquedos, se tornam parceiros. Companheiros que se pode folhar. Fiz ponto aqui.
  2. Livros com música. Usei muito para fazer o Miguel dormir. Folhava as páginas, mostrava as figuras coloridas, fazia tocar a música que eu cantava ou cantarolava o que vinha escrito na página. Por que? Associação: página, música nova e a minha voz. Sempre uma novidade. A cada página uma surpresa. Quantas vezes repeti cada livro? Infinitamente. Os pequenos amam repetição e eu dei toda a que o Miguel pediu. Só trocava quando ele cansava ou eu estava quase surtando com a musiquinha.

OBSERVAÇÃO: Alguém vai dizer: “que bom que você tinha tempo para fazer isso pelo seu filho”. Bom, falando claramente, acho que tempo ninguém tem. Eu abdiquei da minha hora de leitura, eu trabalhava até às 22 ou 23h da noite. Apenas, bem, como eu disse acima, meu projeto não era só um filho, era um leitor. Seguindo…

3. Livros com folhas cartonadas e barulho. Miguel tinha 1 ano e 6 meses quando me pediu o primeiro livro (sim, conto isso como vitória). A obra em questão tinha folhas acartonadas (aquelas mais grossas) e um botão azul que soltava o apito de um trem. Como sei que ele me pediu, se ele mal falava? Vimos o livro num dia e no outro ele me puxou para a loja dizendo piuí, foi até a prateleira, pegou o livro e abraçou. Eu achei eloquente. Tivemos um longa linhagem de livros sobre trens e caminhões e outros veículos nessa época.

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

4. Livros baratos. Pois é, sabem aqueles livros fininhos, que a gente compra em bando, custando cerca de 0,75 centavos (preço da época) e que tem contos de fadas tão mal adaptados que dá horror de ler? Pois é. Comprei uns quantos daquele e larguei nas mãos do guri. O objetivo era que no processo de refinar seu processo de apreensão e motricidade fina, eles o pudesse rasgar sem perigo de grande perda. O que eu fazia quando os livros apareciam rasgados? Um dramão. Dizia que ele tinha feito algo muito feio, fazia de conta que o livro chorava, fazia curativo com fita adesiva, embalava o livro e dizia que tudo ia ficar bem, fazia o Miguel pedir desculpas para o livro. Você dava um livro só para poder passar um pito no seu filho? Exatamente. Pergunte hoje o que ele acha de livros rasgados, queimados ou proibidos, vai pergunte!

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

5. Livros Brinquedos. Esse tipo de livro foi um desafio. Para mim, não para ele. Eu sabia o que o estava atraindo e sei que muitos pais se enganam nessa fase. Dizem ele/ela adora livros, quando na verdade as crianças não estão nem aí para as letras ou a história, mas apenas para o brinquedinho que vem junto. O que ocorre é que o entendimento do livro como brinquedos, faz com que muitas crianças abandonem ambos quando começam a transicionar para outros interesses. Eu sempre fazia questão de ler as histórias. Quando o Miguel não se interessava por elas, em algum momento iria ouvir-me cortar algum tipo de privilégio ligado ao consumo. Por outro lado, encarei como uma fase, depois de um tempo, passei a dizer que ele somente ganharia o livro se me mostrasse a história e que os livros com brinquedos eram para bebezinhos (não me olhe assim, não há jogo limpo quando se cria um leitor).

Por outro lado, os livros também podem “ser” brinquedos. Veja o vídeo abaixo.

Cuidado!… Cuidado!!

O FATO É QUE: Encher a casa de livros não adianta nada se você não lê… com ele/ela (falo das crianças).

6. Lendo com as crianças. Por algum tempo estudei a História da Leitura, mas não precisaria disso para saber que durante cerca de 98% da nossa história, a esmagadora maioria da humanidade foi completamente analfabeta, iletrada, esteve longe das letras e dos livros. Ainda assim, as pessoas contavam e sabiam histórias. Quando os níveis de leitura começam a crescer no século XIX não se está falando apenas de maiores níveis de alfabetização, mas também do que viemos a chamar de leitura partilhada. O fato de alguém não estar alfabetizado não o impede de ser um leitor, desde que a leitura seja compartilhada. Não basta pegar um livro na beira da cama da criança e ir contando com base nas figurinhas ou do que você lembra da História de João e o Pé de Feijão. A leitura partilhada é ler. Prestar atenção ao texto, às linhas, aos parágrafos, ao ritmo de cada página. Perceber o que desperta a criança, o que a embala, o que a entedia. É uma troca. É envolver a criança no texto e conversar com ela sobre ele.

Nessa fase, marquei meu primeiro ponto lendo Branca de Neve para o Miguel. No meio da história ele me faz parar a leitura e comenta: “são folgados esses anõezinhos, hein?” Por que? “Ora, mãe, você me disse que eles não são crianças, mas eles querem que a Branca de Neve faça tudo para eles”.

Hoje, contabilizo mais pontos. Leitura de A Fantástica Fábrica de Chocolates (duas vezes em sequencia); Charlie e o Elevador de Vidro; toda a coleção do Capitão Cueca (12 livros, recomendo); os 7 volumes de Harry Potter; O feiticeiro de Terramar (da Úrsula Le Guin); O bom Gigante amigo; Matilda (Roald Dahl é sucesso absoluto, estamos esperando As Bruxas)…

Agora, ele começa a ler no ritmo dele, está descobrindo HQs, mas mantém os livros na leitura partilhada, vendo neles também uma fase de aprendizagem. “Logo vou ler esses sozinho, não é mãe?”  É.