Sem açúcar, mas não sem amor

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No último ano aconteceu de novo. A combinação de estresse, atividades em excesso, muito trabalho e alimentação quando dá (cheia de compensações), resultou mais uma vez numa crise severa de hipoglicemia. A diferença entre as pequenas crises (que os hipoglicêmicos resolvem erradamente comendo um docinho) e as severas, é que, nas severas, comendo um docinho, você fica pior, muito pior. Eu sabia o que precisava. Cortar o doce drasticamente, já tinha acontecido, três meses e as coisas voltariam aos eixos.

Busquei um endócrino e uma nutricionista com quem tenho grande empatia. Do primeiro, depois da vista dos exames, saí com medicação para pré-diabetes: da outra vez que te aconteceu, você não tinha quarenta anos – me disse ele.

Já a minha amorosa nutricionista, entre dicas e ideias, foi suave ao dizer: creio que deves pensar que açúcar não é algo que te pertence mais.

Não farei uma longa postagem sobre os malefícios do açúcar e o fato de que, na verdade, não precisamos dele (a não ser como uma auto carícia). Isso é coisa para sites especializados em saúde e dá para ler aos montes por aí.

O grande problema é como o açúcar tem sido percebido. Açúcar é afeto, é amor, é carinho, é cuidado. Vai-se agradar uma criança, dá-se a ela um pirulito. Não sabe o que dar de presente a um adulto, leva-se um chocolate. Quer dar um mimo? Um bombom é ótimo para isso. Como assim, não vai repetir a sobremesa? Prova, prova!

Claro que é amor. O que mais seria? Ninguém presenteia ou acaricia com doces pensando que pode causar males graves, pelo contrário: é só por hoje, é só agora. Contudo, não é “só hoje”, uma exceção a regra, nunca é só por esse único momento em toda a sua vida.

Não há maldade no pensamento. Não é uma cultura maldosa. Mas pense: quantas vezes você presenteou com doces um amigx que deveria ficar longe deles? Quantas vezes, mesmo sabendo que o colega com diabetes se esforçou para resistir à torta servida na reunião você insistiu para que ele provasse? Está tão gostoso, só um pedacinho, vai. Um pedacinho não fará mal. Quem nunca fez isso? Eu já. Um monte de vezes

O problema é que faz mal. E nunca será só um pedacinho. Deixar de comer algo que toda a cultura te ensina ser uma tentação exige um bocado de disciplina. Contudo, não é um sacrifício como a maioria das pessoas imagina. Quando comentei minha nova condição, a frase que mais ouvi foi: ah, eu não conseguiria, eu morro se não comer doce, eu sou formiga, não consigo ficar sem chocolate, etc, etc.

Não, você não morreria, pelo contrário. Dá para ficar excepcionalmente bem. E não comer doces poder ser uma atitude nada exigente. Na verdade, é até bem simples. De um lado, basta lembrar o quanto a gente passa mal se comer. Em segundo, basta ter amigxs compreensivos que, simplesmente, não te oferecem e nem mesmo insistem para você comer mais (não só doces, mas todas as coisas, afinal todo carboidrato terá peso e não estou falando de balança).

Eu não sei porque (e posso estar errada) creio que as pessoas acham mais difícil compreender a abstenção se você não coloca uma alergia ou doença grave na frente, tipo diabetes, alergia à glúten (celíacos), alergia a laticínios ou ovo. Mas, também, as pessoas costumam implicar com determinadas decisões alimentares, como não comer carne ou qualquer produto animal. Parece que a alergia real é ao comportamento diferente e ao fato de que alguém que se alimenta de forma desigual da maioria, causa desconfortos na comensalidade. Mas aí, creio, tenho material para outra postagem.

Até lá, um pedido: me deem longos abraços ao invés de mimos açucarados. Presenteiem-me com vasos de temperos ao invés de caixas de chocolates. E me ofereçam frutas ou mais chá ao invés de um docinho ao final da refeição. Entenderei tudo isso como afeto, e sem açúcar.

 

Para adoçar, fica o Chico Buarque.

https://www.youtube.com/watch?v=C7Zcyk_lWms

2 ideias sobre “Sem açúcar, mas não sem amor

  1. “Deixar de comer algo que toda a cultura te ensina ser uma tentação exige um bocado de disciplina.” Apeguei-me a essa frase, estou vivendo isso mais que nunca, ainda que por razões diferentes das suas, amiga. Que você possa passar flanando pelo atoleiro da incompreensão e da insistência, que, mesmo quando bem intencionada, enche o saco. :-/

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