Dos usos das panelas

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Particularmente, o melhor uso que dou para minhas penelas é fazer comida. Gosto especialmente de enche-las bastante para receber amigos. Cheiro de tempero fresco, o povo na cozinha dando risadas, bebendo vinho ou cerveja de acordo com o clima, o gosto ou o espírito. A algazarra das crianças pulando na sala e vindo contar histórias.

Não me considero uma cozinheira particularmente habilidosa, muito embora possua um defeito gravíssimo: ADORO minha comida. Assim mesmo, com maiúsculas. E gosto, claro, de dividir isso. Porém, e tenho isso bem presente, cozinhar para os outros, num mundo tão gourmetizado, é um exercício de humildade. Comida de casa nem sempre dá certo. O que eu amo, pode não soar legal ao paladar de outra pessoa. Outras vezes, os insumos falham, não se apresentam com a perfeição de sabor que gostaríamos. Tipo a vez que eu fiz uma massa com molho de mostarda e cascas de laranja. Primeira tentativa: divina; na segunda… a massa não ajudou nada (eu não soube fazê-la direito) e ficou meio eca, mesmo que não ruim de todo.

Talvez, o erro tenha a sido a escolha do prato. As massas têm combinado com meu dia-a-dia corrido, acabo achando que os risotos combinam mais com as noites de amigos. Podem me chamar de bruxa (que eu gosto), mas eu amo mexer um caldeirão. Aliás, a não ser que eu peça, não precisam se oferecer para ocupar esse lugar. É muito gentil o “quer que eu mexa?”, mas sei lá, há coisas que somente o meu olhar e o meu olfato são capazes de captar no brilho, na textura e no cozimento do risoto. Sendo assim, agradeço de coração, mas prefiro que o ajudante leve pratos e copos para a mesa.

Nas últimas semanas tive a visita da Lis, uma amiga querida que chegou anunciando: vim provar tudo aquilo que tu diz que cozinha! Certo, então, botemos as panelas para trabalhar. Foram semanas de bolos (laranja com chocolate, cappuchino com raspas de limão), sopas (batatas com alho poró), um bom conjunto de massas, chili com feijão (ao que parece provoquei amor eterno com esse) e, de saideira, o risoto de morangos, cujo nome tanto espanto causa em quem nunca provou. Resolvi fazer o risoto para a Lis e a Bruna, que veio com o filho Pedro, de 1 ano e meio. A Daiane, minha terceira convidada, já tinha provado.

A receita é simples e me foi servida há muitos anos por uma amiga (Valeu, Bia!). Desde então, tenho feito e juntado a ela meus toques, meus gostos, de um jeito que hoje acredito que o resultado seja bastante meu. Para quem acha que os morangos deixam o prato doce, desculpe a confusão, mas ele não fica não. Morangos são tão ácidos e doces quanto tomates, logo se está apenas substituindo um pelo outro. Aliás, minha preferência são por morangos bem maduros, que desmancham fácil e deixam o prato menos azedinho no final.

Para os aventureiros de sabores e panelas, aqui vai a receita sem quantidades (pois elas vão variar com o número de amigos). Antes, porém, uma dica/pedido: use um caldo de legumes feito em casa para hidratar seu risoto, ok? Os caldos comprados, cheios de saborizantes artificiais vão comprometer o resultado com aquele final metálico e levemente viciado que os químicos deixam ao fim de cada garfada. Eu costumo fazer o meu assim: lavo bem os legumes antes de usá-los e guardo as cascas até ter uma boa quantidade. Batatas, cenouras, tomates (é fruta, mas ok), a parte entre o branco e o verde escuro do alho poró, a ponta das cebolas, etc. Fervo tudo, coloco umas ervas que tenha à mão e, depois de frio, liquidifico, distribuo em forminhas de gelo ou potinhos pequenos, congelo. Voilá!

Tendo o caldo, basta derreter uma poção concentrada em mais água, aí é começar o risoto com a base comum: azeite, cebola, alho (uma pitadinha de açúcar ou a cabeça de dois cravos da índia, só a cabeça), folhas de tomilho fresco (o seco deixa um gosto terroso, não use), depois bacon (sorry, não elaborei ainda nenhuma alternativa vegetariana e sei que o leitor carnívoro está pensando: “bacon! porque ela não disse isso logo?”). Quando estiver douradinho, o arroz (eu gosto de usar o arbório ou o agulhão), uma fritada e segue uma medida de vinho tinto (sim, para esse prato fica melhor o tinto que o branco, já testei). Assim que o vinho evaporar, comece a hidratar o risoto colocando conchas do caldo de legumes, umas duas por vez, mexendo sempre enquanto conversa e ouve as piadas dos amigos. Lá pela metade, você incorpora os morangos já lavados e picados em rodelinhas (não precisa ser cubinho, pois eles desmancham fácil). Tempere com pimenta do reino moída na hora (com 5 Bayas também fica ótimo), teste o sal, experimente o arroz e não o deixe ficar recosido para poder sentir bem a textura gomosa. Coloque uma boa quantidade de parmesão ralado.

O prato fica violáceo, belíssimo. Eu gosto de servi-lo com ramos de tomilho fresco para serem incorporados pelo próprio convidado na quantidade que quiser. É difícil que alguém não se renda a usar esse temperinho na hora de comer. Para acompanhar, salada verde com compota de pimentões (esses sim, levemente adocicados).

Eu podia ficar me gabando do resultado, mas não vou. Como disse acima, adoro minha comida mesmo quando os convidados não apreciam tanto. No entanto, quando uma criança de 1 ano e meio brilha os olhos depois da primeira prova e passa a reclamar se a garfada vai pra mãe e não pra ela… Bem, acho que aí posso me gabar sim. Nunca recebi um elogio tão sincero em toda minha vida de cozinheira. Valeu, Pedrão! As panelas daqui de casa estarão sempre à postos para te esperar.