Front russo

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Tenho batalhado em tantas frentes que estou certa de que estou causando uma falsa impressão. Há poucos dias, uma amiga querida evidenciou isso em uma pergunta: e tu conseguirias ficar bem se não fosse assim?

Não sei como exatamente ela tomou a minha resposta, mas a pergunta me soou absurda. Então, dou a impressão que aprecio o turbilhão? Que não poderia ser de outra maneira? Nem eu, nem a vida que levo? Que engano! Que engano!

Veja bem, não sou infeliz, tampouco triste, mas meus pesadelos são feitos de ondas gigantescas que se erguem avançando sobre o continentes e arrastando tudo quanto estiver em seu caminho. E eu preciso correr delas. Ou então, são tornados, em quantidade assustadora que avançam sobre a vista da minha janela.

Não, querida amiga, é uma impressão errada a que passo. Não amo minhas frentes de batalhas, apenas faço o possível entre o ganha pão e o que me faz inteira e sorridente. Eu danço nas pontas dos dedos dos pés entre o que sou e o que tenho de fazer. Eu reluto entre as guerras para quais sou chamada e as que não consigo abandonar. Seria mais simples, muito mais simples, se eu abandonasse essas últimas, essas que nada me dão além de satisfação (sei que reconheces minha ironia, amiga).

Por vezes, quando escrevo aqueles resumos de currículo que volta e meia me pedem, fico contemplando a quantidade de atividades que posso colocar depois do meu nome e isso me apavora. Então, percebo que não há nada de raro na minha condição, que tantos e tantas outras pessoas são assim. Dou-se conta que, talvez, por mais que eu quisesse, não poderia ser diferente. Eu não conseguiria ser diferente, ser centrada, única, sem pedaços partidos de mim, caminhando por um único caminho.

Fico pensando se isso sou eu ou é o tudo que me envolve. Uma condição humana? Talvez sim, talvez não. Não conheço tantos humanos assim a ponto de formular estatísticas.  Talvez, seja apenas esse nosso ponto no tempo. Esse momento histórico em que o mundo social se fragmenta e nós vamos nos fragmentando com ele. Fazendo-nos em pedaços e sonhando em uni-los antes que tsunamis e tornados nos arrebentem.

Eu poderia terminar escrevendo o que disse à minha amiga: não é uma questão de gosto, mas de necessidade. Então, argumento comigo mesma: se fosse insuportável, eu diria não a algumas dessas necessidades? Teria tanta coragem assim? Ou assumo todas essas frentes de batalha porque sei que posso lidar com elas? E, nesse caso, não posso negar que há um pouco de gosto sim.

Uma ideia sobre “Front russo

  1. Ah, querida, vejo que é dureza, sinto isso também e continuo acreditando que tu lutas todas essas frentes de batalha por saber que podes dar conta do recado. E não sei se consigo te visualizar sendo uma estrada reta, única, sem curvas, sem belvederes, sem paisagens montanhosas ou sem suspiros desacomodantes. Aliás, arrisco a dizer que o tédio te alcançaria, porém gostaria que todo esse turbilhão que vemos aumentar a cada ano que passa poderia deixar, ao menos de vez em quando, alguma paisagem do caminho sem tanta destruição, né? Um dia, daqui a não muito tempo, poderemos fazer como alguns privilegiados, e nos sentar num banco de praça, numa sacada ao por do sol, num quiosque de praia e conversar todos os assuntos que não conseguimos concluir pq temos que correr para o próximo compromisso. Amei o texto, querida!

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