Em terra de cego, quem tem um olho é louco

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Minha mãe conta várias histórias de seu avô Norberto. Ele imigrou do Uruguai para a fronteira gaúcha nos alvores do século XX e se estabeleceu no interior do interior, do interior desse mundo periférico que é o Brasil. Norberto Acosta D’Leon trabalhava no campo, fazia curas e tinha todos os dentes na boca, o que ele creditava ao fato de escovar-lhes cinzas todos os dias e espalitá-los com cuidadosamente elaborados palitos de guanxuma.

Não foi isso, porém, que o tornou um espécime estranho para os seus vizinhos ao longo da vida. Nem mesmo o fato de ser estrangeiro e de repetir, em bom portunhol, que:  “haça de seu culo un pito, que de mio hei de fazer un tambor e sair pum-pum na rua”, foram responsáveis pelo estranhamento. O fato é que o vô Norberto era um leitor em meio a um mundo de analfabetos e isso o fazia realmente um homem esquisito.

No início dos anos 1950, as filhas do vô Norberto já moravam na cidade e costumavam lhe guardar os jornais e trazê-los nas visitas de final de semana. Meu bisavô lia a todos com dedicação e pensava sobre cada assunto. Ao fim, se punha a falar e debater as notícias. Comentava sobre os russos e os americanos, os riscos da guerra fria, da corrida espacial e discorria sobre os satélites, que logo permitiriam que se soubesse o que acontecia do outro lado do mundo bem rapidinho. Costumava, inclusive, a defender que os russos chegariam a lua antes dos norte-americanos.

– À lua, seu Norberto? – inquiria algum interlocutor num semi-riso horrorizado.

– Á lua! Ora, tu não sabes que estão os cientistas trabalhando para levar os homens à lua? É a próxima conquista da humanidade.

Minha mãe conta que se fascinava com as falas do meu avô. Aos seus olhos de criança, ninguém era mais inteligente. Entretanto, ficava triste em ouvir os comentários dos vizinhos ao se afastarem do velho uruguaio.

– Como tu aguentas a prosa do Norberto louco?

– Ah – respondia o outro – eu dou risada.

3 ideias sobre “Em terra de cego, quem tem um olho é louco

  1. Minha mãe conta que meu bisavô era assinante e um leitor voraz do Correio do Povo. Mesmo morando no interior da Bossoroca ele recebia uma vez por semana (ou seria do mês) todos os exemplares e se punha a ler todos até que acabassem todos. Só não tenho registros do que se comentava dele na época.

  2. Minha mãe conta que, os idos dos anos 1930/40/50 meu avô Roberto era assinante e recebia jornais, revistas e sua correspondência do Brasil e de outros países, que chegavam até a região das Missões, no interior de uma localidade chamada Giruá, então sub-distrito de Santo Ângelo, através do trem, de tempos em tempos, e isto era um “acontecimento”, pois o Seu Roberto lia, falava e escrevia em 7 idiomas (tcheco, alemão, italiano, francês, inglês, espanhol e português) e ainda conseguia se comunicar em tupi-guarani. Como tinha e trabalhava com uma madeireira, um silo e um moinho, era considerado um negociante e um homem culto para os padrões daquele interior missioneiro. De educação muito rígida, sempre com a sua vida balizada pelos valores e respeito, que gostava de ouvir música, inicialmente no gramofone e depois no rádio. Acompanhava tudo o que acontecia no mundo, mesmo lá naquele interior. Um tipo que ouvia de alguns dos habitantes locais, manifestando apenas um sorriso discreto, os comentários de “pra que serventia tanta sabedoria?”. Minha mãe conta que ele preparou a família para as guerras mundiais muito antes mesmo das autoridades locais saberem do que estava por acontecer e que à noite, na casa deles, muitos vizinhos vinham pedir para ele escrever cartas, ajudar com documentos e até mesmo conversar a respeito do que estava acontecendo na capital do Brasil, de onde chegavam os jornais e revistas. Naquele tempo, acesso a informação e cultura, ainda era considerado uma “esquisitice”!!!

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