A leitura lenta

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Estou lendo dois livros na lentidão que meu atual momento permite. São dois livros invernais*, de densidades diferentes. Por que invernais? Porque parecem combinar com uma introspecção cinzenta, primitiva, úmida, do tipo que antecede o criar. Com certeza, é uma classificação bem pessoal, pois sou eu que sempre vejo as zonas pré-criativas num tom cinzento de nebulosa cósmica, com tufos e explosões aqui e ali.

São dois livros sobre arte e ambos falam de conexão, a ligação que pode se estabelecer entre o artista e o seu público. E isso me tem sido um pensamento caro. Afinal, como tocar, sem manipular? Como sensibilizar sem fazer uso dos expedientes clichê e do horror? Será que em meio à fragmentação de cultural e social é possível uma linguagem comum que fale aos sentimentos? O meu abalo pode te abalar?

As respostas positivas estão imersas em nossa cultura comunicante, de entretenimento, de noções próprias e apropriadas. Reagimos, claro, mas no espectro dos códigos aceitos em nosso grupo de convivência sobre o bom, o belo, o justo e o injusto. Reagir diferente dá trabalho, implica em defender uma posição, em receber ataques.

Interessante perceber isso nas duas obras que agora leio. Uma fala a partir do lugar de alguém que sempre quis ser diferente. A outra fala de um pensar diferente como a raiz da criatividade. Porém, na altura em que me encontro, ambas falam que para se comunicar e conectar precisam compreender ou conduzir até o mediano, ao nível dos que não se querem dar ao trabalho. Não há qualquer desprezo aí, pelo contrário, esse é o público do artista. Apesar da “mitologia” nenhum artista quer verdadeiramente ser incompreendido. Afinal, sem conexão, sem tocar, sem atingir as notas sensíveis da alma de quem não quer se dar ao trabalho de sentir profundamente, o que resta? O que é da arte que não traz consigo nenhuma sensação? O que é da arte quando, ao final (do livro, do espetáculo, da obra), artista e público permanecem os mesmos?

Vou respirando essas ideias com o que tenho escrito. Vejo aí duas faces – que são minhas e não as direciono a mais ninguém.Tenho escrito contos para narrar histórias cujo fim é divertir. Escrevo os romances para me exorcizar. Mas isso não muda o que espero na recepção de ambos. Estarei satisfeita no entretenimento, pois ele é uma forma encantadora de tocar o público. Há um tempo precioso no entretenimento, um tempo de fuga do ordinário, de alegria em suspender o cotidiano. Não acho que minha face artística almeje muito mais. Porém, sempre haverá alguém que, por similidade de angústia, memória ou simples predisposição, ao tempo e espaço da leitura, verá algo mais nas minhas páginas. A estes eu dedico os meus demônios e as minhas esperanças.

2 ideias sobre “A leitura lenta

  1. “O que é da arte que não traz consigo nenhuma sensação? O que é da arte quando, ao final (do livro, do espetáculo, da obra), artista e público permanecem os mesmos?”

    É incrível como você expressou tanto em tão poucas palavras. E como conseguiu descrever, mesmo não sabendo, por que eu ando tão chata com filmes e livros.

    Obrigada. Por ambas as coisas e outras mais.

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