Nasceu assim

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Todos concordam: criar filhos não é fácil. Há os que acham que a natureza é sábia e guia. Os que defendem que não se pode isolar as crianças das influências do mundo. Os que se angustiam se estão fazendo tudo certo, os que sabem que estão errando em algum lugar. Há os que buscam ajuda e os que não ouvem nenhum tipo de conselho. os que dizem que não há manual de instrução, os que dizem que existem vários, mas é preciso lê-los.

Em qualquer das variantes, pais e principalmente as mães serão criticados. Afinal, seus filhos nada sabem do mundo, logo, dita a lógica é você que está errado. E como os pontos de vista são poliédricos, em algum sentido, com certeza, você, pai ou mãe, vai estar errado.

Eu já fui chamada de mãe má por chamar atenção de meu filho com menos de um ano. O que ele vai entender? Mãe má por não permitir doces antes dos dois anos. Pobrezinho. Mãe má por não colocar chocolate no leite. Coitado, não vai saber o que é bom. Mãe má por limitar os presentes que poderia receber de avós e tios. É só uma porcariazinha, que mal tem? 

Não raro ouço elogios ao comportamento do meu menino. Como ele é bonzinho! Como é fácil de lidar com ele, não? Que índole boa que ele tem.

A mãe aqui fica entre o discurso explicativo e a ironia. Tem dias que ganha a ironia: Pois é, ele nasceu assim. 

 

Front russo

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Tenho batalhado em tantas frentes que estou certa de que estou causando uma falsa impressão. Há poucos dias, uma amiga querida evidenciou isso em uma pergunta: e tu conseguirias ficar bem se não fosse assim?

Não sei como exatamente ela tomou a minha resposta, mas a pergunta me soou absurda. Então, dou a impressão que aprecio o turbilhão? Que não poderia ser de outra maneira? Nem eu, nem a vida que levo? Que engano! Que engano!

Veja bem, não sou infeliz, tampouco triste, mas meus pesadelos são feitos de ondas gigantescas que se erguem avançando sobre o continentes e arrastando tudo quanto estiver em seu caminho. E eu preciso correr delas. Ou então, são tornados, em quantidade assustadora que avançam sobre a vista da minha janela.

Não, querida amiga, é uma impressão errada a que passo. Não amo minhas frentes de batalhas, apenas faço o possível entre o ganha pão e o que me faz inteira e sorridente. Eu danço nas pontas dos dedos dos pés entre o que sou e o que tenho de fazer. Eu reluto entre as guerras para quais sou chamada e as que não consigo abandonar. Seria mais simples, muito mais simples, se eu abandonasse essas últimas, essas que nada me dão além de satisfação (sei que reconheces minha ironia, amiga).

Por vezes, quando escrevo aqueles resumos de currículo que volta e meia me pedem, fico contemplando a quantidade de atividades que posso colocar depois do meu nome e isso me apavora. Então, percebo que não há nada de raro na minha condição, que tantos e tantas outras pessoas são assim. Dou-se conta que, talvez, por mais que eu quisesse, não poderia ser diferente. Eu não conseguiria ser diferente, ser centrada, única, sem pedaços partidos de mim, caminhando por um único caminho.

Fico pensando se isso sou eu ou é o tudo que me envolve. Uma condição humana? Talvez sim, talvez não. Não conheço tantos humanos assim a ponto de formular estatísticas.  Talvez, seja apenas esse nosso ponto no tempo. Esse momento histórico em que o mundo social se fragmenta e nós vamos nos fragmentando com ele. Fazendo-nos em pedaços e sonhando em uni-los antes que tsunamis e tornados nos arrebentem.

Eu poderia terminar escrevendo o que disse à minha amiga: não é uma questão de gosto, mas de necessidade. Então, argumento comigo mesma: se fosse insuportável, eu diria não a algumas dessas necessidades? Teria tanta coragem assim? Ou assumo todas essas frentes de batalha porque sei que posso lidar com elas? E, nesse caso, não posso negar que há um pouco de gosto sim.

Os olhares e o bom dia

A internet e as redes sociais são uma realidade na vida de uma grande quantidade de pessoas. Falas contra e a favor estão disseminadas por toda a… internet e partilhadas nas redes sociais. Afinal, é uma verdade universalmente conhecida que, mesmo quem detesta a internet e as redes sociais, precisa delas para se comunicar com o mundo contemporâneo.

Minha intenção não é falar disso. Quero escrever é sobre amizade. Amizades virtuais? Não. Sobre amizades reais e eu tenho como provar que elas existem e que as redes podem ser suas aliadas. Numa época em que se vê tanta gente usando seus dispositivos para agredir mais que denunciar agressões, para desejar a morte ao invés de um mundo melhor para todos; eu estou ligada, através da rede, a um grupo de pessoas que usa seus dispositivos para me desejar um bom dia. E é um desejo real, forte, que me encontra onde eu estiver, por vezes, mesmo antes de eu me erguer da minha cama.

Nossa história começou há quase 10 anos e quando um nova febre, a da conexão, passou a fazer parte da minha vida. Mesmo já existindo, a internet só se tornou um apelo diário para mim em de 2005. Eu estava no meio do doutorado e passado por uma das inúmeras crises que acompanham a imersão solitária num objeto de pesquisa. A internet e suas redes apareceram como um espaço de fuga e de lazer. Passei a escrever fanfics como forma de depositar as histórias que se formavam na minha cabeça paralelas a tese (isso acabou sendo o germe de minha jornada de escritora, mas aí é outra história). O fato é que consegui leitores. Alguns foram se tornando fiéis em seus comentários e avaliações, me indicando caminhos e me ajudando a melhorar. Isso levou à conversas pelo MSN, depois aos fóruns, depois ao Twiter, depois ao Facebook, ao Instagran e ao Whatsapp. Grupos fechados com regras e ordálios para entrar.

Somos gente de quase todo o Brasil. Temos vidas bem diferentes e experiências idem. No entanto, a leitura é para nós uma paixão acima de todas as outras. Somos um grupo que, ao se encontrar, leva livros para ler juntos, marca encontro em lançamentos literários, e tem verdadeiro fetiche por livrarias.

O grupo nunca se dissolveu. Perdemos alguns no caminho, ganhamos outros. Fazemos amigos secretos virtuais trocando textos, desenhos, vídeos, nosso carinho. Já namoramos juntos, casamos, tivemos filhos, acompanhamos alegrias e também as dores dos acidentes e das perdas de familiares. Usamos as redes para apoiar e não só para trocar. Usamos os dispositivos para dizer que, mesmo quando não concordamos, continuamos sentindo um imenso amor nos unindo via computadores e Smartphones.

Tem sido, nesses quase 10 anos, uma experiência incalculavelmente generosa e incomparável. Eu poderia dizer que somos quase uma família, mas, creio que, na maior parte das vezes, essa amizade está além das definições. São quase 10 anos de histórias que se fizeram dentro e fora da internet e das redes, nem daria para contar todas. Por isso, quis registrar aqui apenas uma dentre elas: a dos meus adoráveis bons dias, E eles vêm assim:

Bom dia do Victor Hugo, de Recife.

Bom dia do Victor Hugo, de Recife.

Bom dia da Bruna, de Santos.

Bom dia da Bruna, de Santos.

Bom dia da Lívia, de Guaíra (interior de SP)

Bom dia da Lívia, de Guaíra (interior de SP)

Bom dia da Priscila, do Rio de Janeiro

Bom dia da Priscila, do Rio de Janeiro

Bom dia da Diana, de Goiânia (dado ao fim do dia, quando ela viu as mensagens)

Bom dia da Diana, de Goiânia (dado ao fim do dia, quando ela viu as mensagens)

Bom dia da Naty, de Mauá (interior de SP)

Bom dia da Naty, de Mauá (interior de SP)

Bom dia do Cláudio, de São Paulo.

Bom dia do Cláudio, de São Paulo.

Bom dia da Kelly, de São Paulo.

Bom dia da Kelly, de São Paulo.

Bom dia da Dani, de São Paulo.

Bom dia da Dani, de São Paulo.

Bom dia da Daiane, de São Valentim (interior de Santa Maria, interior do RS).

Bom dia da Daiane, de São Valentim (interior de Santa Maria, interior do RS).

Bom dia da Luisa, do Recife.

Bom dia da Luisa, do Recife.

 

Em terra de cego, quem tem um olho é louco

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Minha mãe conta várias histórias de seu avô Norberto. Ele imigrou do Uruguai para a fronteira gaúcha nos alvores do século XX e se estabeleceu no interior do interior, do interior desse mundo periférico que é o Brasil. Norberto Acosta D’Leon trabalhava no campo, fazia curas e tinha todos os dentes na boca, o que ele creditava ao fato de escovar-lhes cinzas todos os dias e espalitá-los com cuidadosamente elaborados palitos de guanxuma.

Não foi isso, porém, que o tornou um espécime estranho para os seus vizinhos ao longo da vida. Nem mesmo o fato de ser estrangeiro e de repetir, em bom portunhol, que:  “haça de seu culo un pito, que de mio hei de fazer un tambor e sair pum-pum na rua”, foram responsáveis pelo estranhamento. O fato é que o vô Norberto era um leitor em meio a um mundo de analfabetos e isso o fazia realmente um homem esquisito.

No início dos anos 1950, as filhas do vô Norberto já moravam na cidade e costumavam lhe guardar os jornais e trazê-los nas visitas de final de semana. Meu bisavô lia a todos com dedicação e pensava sobre cada assunto. Ao fim, se punha a falar e debater as notícias. Comentava sobre os russos e os americanos, os riscos da guerra fria, da corrida espacial e discorria sobre os satélites, que logo permitiriam que se soubesse o que acontecia do outro lado do mundo bem rapidinho. Costumava, inclusive, a defender que os russos chegariam a lua antes dos norte-americanos.

– À lua, seu Norberto? – inquiria algum interlocutor num semi-riso horrorizado.

– Á lua! Ora, tu não sabes que estão os cientistas trabalhando para levar os homens à lua? É a próxima conquista da humanidade.

Minha mãe conta que se fascinava com as falas do meu avô. Aos seus olhos de criança, ninguém era mais inteligente. Entretanto, ficava triste em ouvir os comentários dos vizinhos ao se afastarem do velho uruguaio.

– Como tu aguentas a prosa do Norberto louco?

– Ah – respondia o outro – eu dou risada.

A leitura lenta

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Estou lendo dois livros na lentidão que meu atual momento permite. São dois livros invernais*, de densidades diferentes. Por que invernais? Porque parecem combinar com uma introspecção cinzenta, primitiva, úmida, do tipo que antecede o criar. Com certeza, é uma classificação bem pessoal, pois sou eu que sempre vejo as zonas pré-criativas num tom cinzento de nebulosa cósmica, com tufos e explosões aqui e ali.

São dois livros sobre arte e ambos falam de conexão, a ligação que pode se estabelecer entre o artista e o seu público. E isso me tem sido um pensamento caro. Afinal, como tocar, sem manipular? Como sensibilizar sem fazer uso dos expedientes clichê e do horror? Será que em meio à fragmentação de cultural e social é possível uma linguagem comum que fale aos sentimentos? O meu abalo pode te abalar?

As respostas positivas estão imersas em nossa cultura comunicante, de entretenimento, de noções próprias e apropriadas. Reagimos, claro, mas no espectro dos códigos aceitos em nosso grupo de convivência sobre o bom, o belo, o justo e o injusto. Reagir diferente dá trabalho, implica em defender uma posição, em receber ataques.

Interessante perceber isso nas duas obras que agora leio. Uma fala a partir do lugar de alguém que sempre quis ser diferente. A outra fala de um pensar diferente como a raiz da criatividade. Porém, na altura em que me encontro, ambas falam que para se comunicar e conectar precisam compreender ou conduzir até o mediano, ao nível dos que não se querem dar ao trabalho. Não há qualquer desprezo aí, pelo contrário, esse é o público do artista. Apesar da “mitologia” nenhum artista quer verdadeiramente ser incompreendido. Afinal, sem conexão, sem tocar, sem atingir as notas sensíveis da alma de quem não quer se dar ao trabalho de sentir profundamente, o que resta? O que é da arte que não traz consigo nenhuma sensação? O que é da arte quando, ao final (do livro, do espetáculo, da obra), artista e público permanecem os mesmos?

Vou respirando essas ideias com o que tenho escrito. Vejo aí duas faces – que são minhas e não as direciono a mais ninguém.Tenho escrito contos para narrar histórias cujo fim é divertir. Escrevo os romances para me exorcizar. Mas isso não muda o que espero na recepção de ambos. Estarei satisfeita no entretenimento, pois ele é uma forma encantadora de tocar o público. Há um tempo precioso no entretenimento, um tempo de fuga do ordinário, de alegria em suspender o cotidiano. Não acho que minha face artística almeje muito mais. Porém, sempre haverá alguém que, por similidade de angústia, memória ou simples predisposição, ao tempo e espaço da leitura, verá algo mais nas minhas páginas. A estes eu dedico os meus demônios e as minhas esperanças.