Comidas desaparecidas 1

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O ano recomeça e entre o material escolar e os planos de ensino me vejo as voltas com a questão do lanche. Somos três estudantes. Dois eternos – já que o Guto e eu somos professores – e um iniciante – o Miguel indo para a primeira série do Ensino Fundamental. Nós dois nos viramos com as comidas de cantina que detestamos: gordurosas, de gosto muitas vezes intragável, acompanhadas de líquidos extremamente doces, industrializados, quando não, repugnantes. Tentamos levar alternativas caseiras, mas com o tempo escasso e o ano empurrando, sempre nos perdemos no meio do caminho.

Com o Miguel é diferente. O lanche é feito diariamente e, mesmo com a preferência dele por sanduichinhos acompanhados por água, gosto que ele leve tudo fresquinho de casa. Sei, nem todo mundo tem tempo de preparar, e isso nem é um ensaio de crítica. De fato, toda essa introdução é para lembrar da época em que comprar o lanche na cantina da escola, ou mesmo da faculdade, não era algo odiosamente apavorante.

Primeiro, naquela época, a minha época (estou cada vez mais nas antigas), se chamava merenda e não lanche. Segundo, éramos avisados por nossos pais constantemente que a comida do bar (não era cantina que é coisa de imigrante italiano) não era tão boa quanto a de casa. Eu costumava levar ovos cozidos que passavam a noite na salmoura e eu mesma cozinhava toda noite. Uma vez por semana levava bolo, que aprendi a fazer aos 8 anos. Quando finalmente fui liberada para ir ao bar do colégio, ainda preferia minha merenda vinda de casa e que eu mesma gostava de arrumar, acompanhada de suco do dia anterior (levemente oxidado) ou chá gelado (no inverno quente). As coisas do bar não me atraíam. Fui criada com medo de fritura fora de casa e a torrada demorava quase todo o recreio para ficar pronta, vinha insonsa ou com excesso de margarina.

Então, eu provei pela primeira vez algo que meus colegas adoravam e me juntei ao grupo de adoradores. Comprávamos por “meio-prensado” (e ignoro como isso era comido ou nomeado em outras partes do universo que não as escolas de Santa Maria, RS) algo que consistia em: 1/2 pão de xis (definição para gaúchos, acredito), queijo, presunto, maionese e molho de tomate (mas molho feito, não essa coisa industrializada com sabor de salsão que dá vontade de chorar, e acrescido de sal em quantidade para fazer um charque). Aquilo era uma delícia, tinha quase sabor de conforto.

Hoje em dia, os meio-prensados estão completamente desaparecidos das cantinas colegiais. Foram substituídos pelos pães de queijo farinhentos e pelos folhados cuja gordura hidrogenada cola no céu da boca, e cujo recheio de galinha é tão salgado que endurece a língua. Permanecem as torradas insonsas, duplicaram-se as frituras cujas massas caseiras são igualmente industrializadas.

Do meio-prensado não encontrei nem fotografias. E, como registro de uma memoriosa e melancólica nostalgia das comidas desaparecidas, lavrei este post.

 

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