“Tem um!” Breves considerações sobre sua vida não ser o parâmetro

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Os fãs do grupo de humor inglês Monty Phyton costumam ser um tanto chatos. Além de um sem número de piadas internas (só entre quem assistiu o material do grupo infinitas vezes) ainda sabem de cor falas, trejeitos, posturas. Ficam comentando e rindo de imagens dos filmes e esquetes, como se você soubesse do que eles estão falando ou vendo com os olhos da mente. Acredite, pode ficar ainda pior quando eles começam a cantar coisas como “olhe sempre para o lado bom da vida”, com o assobio característico.

Ah, claro, estou nesse grupo de fãs. Descobri os caras na adolescência, assistindo a Vida de Brian na Sessão de Gala de um sábado na casa do namorado. A coisa aprofundou com o tempo. Locávamos fitas VHS dos outros filmes e esquetes até decorá-los quase todos e podermos fazer o silly walk na rua. Nosso favorito sempre foi o Brian. Citamos longas passagens de cor. Numa determinada época, quando fazíamos novas amizades, presenteávamos as pessoas com cópias do filme para que eles pudessem entender as coisas que falávamos e, acredite, as comparações e usos de frases ocupavam uns 80% de nossas piadas e de nosso riso. Afinal, como não usar no cotidianos frases como: “Isso não é culpa de ninguém, nem dos romanos”; ou “Ninguém espera a Inquisição Espanhola”; ou “Capricórnio é isso, é?”

Sim, sim, chatos, chatos, nunca negamos. Aliás, o plural é porque não posso deixar de incluir nessa gang antiga além do namorado eterno, minha irmã e nosso melhor amigo Alexandre.

Mas o fato é que dá para se tirar ideias, críticas e sarros ad infinitum do fantástico grupo inglês. Um dos meus favoritos é o do vídeo abaixo. A famosa cena da Vida de Brian em que os revolucionários discutem o que os romanos lhes deram em troca da dominação imperialista.

A cena é genial, obviamente. Particularmente, eu adoro o momento da chegada do Brian, lá pelos 3 minutos. A piada é recorrente em todo o filme, aliás. Reg, personagem de John Cleese, solta uma generalização: “Todos aqui não hesitariam em dar a vida para nos livrar da dominação romana”. Alguém diz lá do fundo da cena. “Tem um”. “Certo, tem um – considera Reg – mas tirando este…”

É muito difícil não lembrar dessa passagem o tempo todo quando se é professor. Boa parte dos debates propostos em aula são levados em conta a partir de considerações pessoais em torno do “eu não” ou “eu sim”. Não estou desconsiderando o fato de exemplos pessoais serem ótimos para aprofundar o debate em alguns casos, mas, acreditem, não funciona 100% das vezes. Além disso, é mais comum ver o enunciado teórico ser colocado no mesmo nível do senso comum (e seus limitantes) do que ver o exemplo concreto ser lido como uma variante capaz de ampliar a complexidade.

Por outro lado, quando se observa a natureza de algumas postagens na internet, é possível ver a ampliação do “tem um” em níveis, por vezes, absurdos. Não, não estou me colocando no alto de um pedestal de quem nunca fez e aponta os outros. Eu fiz, você fez e podemos recitar todo o verbo. No entanto, é bom lembrar algumas ideias antes de saltar anunciando que você não se inclui na generalização que o outro fez.

1. Você é regra ou exceção?

Respondeu que é a regra. Ok.

2. Porque você acha que é a regra?

Conhece muita gente como você.

Excelente!

3. Quantas pessoas? Em termos percentuais – entre as pessoas que você conhece e as pessoas existentes no país, no continente americano ou no planeta – você precisa esse grupo de pessoas figurar em qual quantidade?

Ainda se sente a regra?

Bom, considerando o fato de que seu ponto de vista possa ser uma exceção, mais uma pergunta:

4. A generalização feita pelo outro é absurda? Considere, por favor, dados históricos, sociológicos e culturais?

5. No mesmo sentido da pergunta anterior e antes de você pular gritando: “Tem um”, é possível, mesmo que de longe, considerar que essa generalização que não se aplica a você, também não é dirigida a você? Isto é, ela não está te criticando, não está dizendo que você escolheu o caminho errado, nada disso. Pelo contrário, está até achando que gente como você devia ser a regra.

Legal, não é?

Obviamente também é importante considerar que você ou a sua vida não são o parâmetro, nem mesmo a amostragem, ou a contra-prova de qualquer exame social.

6. Últimas perguntas: você berrar “tem um” exercita sua alteridade com os outros? Exercita sua empatia? Acrescenta complexidade a fala do outro? Endossa ou refuta peremptoriamente o argumento do outro.

Se a resposta é sim: uau! Que bom que tem um. Que bom que temos uns exatamente como você.

Se a resposta for não… Bom, você decide. Pessoalmente, nesses casos, eu passo para o próximo.

 

Comidas desaparecidas 1

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O ano recomeça e entre o material escolar e os planos de ensino me vejo as voltas com a questão do lanche. Somos três estudantes. Dois eternos – já que o Guto e eu somos professores – e um iniciante – o Miguel indo para a primeira série do Ensino Fundamental. Nós dois nos viramos com as comidas de cantina que detestamos: gordurosas, de gosto muitas vezes intragável, acompanhadas de líquidos extremamente doces, industrializados, quando não, repugnantes. Tentamos levar alternativas caseiras, mas com o tempo escasso e o ano empurrando, sempre nos perdemos no meio do caminho.

Com o Miguel é diferente. O lanche é feito diariamente e, mesmo com a preferência dele por sanduichinhos acompanhados por água, gosto que ele leve tudo fresquinho de casa. Sei, nem todo mundo tem tempo de preparar, e isso nem é um ensaio de crítica. De fato, toda essa introdução é para lembrar da época em que comprar o lanche na cantina da escola, ou mesmo da faculdade, não era algo odiosamente apavorante.

Primeiro, naquela época, a minha época (estou cada vez mais nas antigas), se chamava merenda e não lanche. Segundo, éramos avisados por nossos pais constantemente que a comida do bar (não era cantina que é coisa de imigrante italiano) não era tão boa quanto a de casa. Eu costumava levar ovos cozidos que passavam a noite na salmoura e eu mesma cozinhava toda noite. Uma vez por semana levava bolo, que aprendi a fazer aos 8 anos. Quando finalmente fui liberada para ir ao bar do colégio, ainda preferia minha merenda vinda de casa e que eu mesma gostava de arrumar, acompanhada de suco do dia anterior (levemente oxidado) ou chá gelado (no inverno quente). As coisas do bar não me atraíam. Fui criada com medo de fritura fora de casa e a torrada demorava quase todo o recreio para ficar pronta, vinha insonsa ou com excesso de margarina.

Então, eu provei pela primeira vez algo que meus colegas adoravam e me juntei ao grupo de adoradores. Comprávamos por “meio-prensado” (e ignoro como isso era comido ou nomeado em outras partes do universo que não as escolas de Santa Maria, RS) algo que consistia em: 1/2 pão de xis (definição para gaúchos, acredito), queijo, presunto, maionese e molho de tomate (mas molho feito, não essa coisa industrializada com sabor de salsão que dá vontade de chorar, e acrescido de sal em quantidade para fazer um charque). Aquilo era uma delícia, tinha quase sabor de conforto.

Hoje em dia, os meio-prensados estão completamente desaparecidos das cantinas colegiais. Foram substituídos pelos pães de queijo farinhentos e pelos folhados cuja gordura hidrogenada cola no céu da boca, e cujo recheio de galinha é tão salgado que endurece a língua. Permanecem as torradas insonsas, duplicaram-se as frituras cujas massas caseiras são igualmente industrializadas.

Do meio-prensado não encontrei nem fotografias. E, como registro de uma memoriosa e melancólica nostalgia das comidas desaparecidas, lavrei este post.