Sobre a imposição de padrões de Beleza

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Na semana passada, os alunos do curso de jornalismo da UFSM, na pessoa do Sandro Lacerda Schlemmer entrou em contato comigo para marcar um programa no qual me entrevistariam sobre a imposição dos padrões de beleza. Como passei a semana afônica, a entrevista acabou sendo por escrito. No final, combinamos que após o áudio ir ao ar, eu colocaria a entrevista por escrito aqui no blog, como um registro.

1 – Qual sua opinião sobre o assunto em geral?

Vivemos numa sociedade baseada na imagem. Somos bombardeados por elas o tempo todo. Revistas, jornais, TVs, internet. Esses veículos têm um poder quase ilimitado de fazer valer padrões estéticos idealizados e transformar esses padrões, que de fato não existem no mundo real, em algo que é normal. Ou seja, a exceção, aquilo que é extraordinário, diferente, passa a ser aceito pelas pessoas como se fosse o normal. Ao mesmo tempo é aquilo ao que você jamais irá se ajustar. Ninguém será tão magro quanto à modelo (que muitas vezes está morrendo para representar esse ideal), nem tão sarado quando o ator ou modelo que ganha dinheiro justamente por passar horas malhando. A imensa maioria das pessoas trabalha para comer, não para ficar “bonito” conforme esses padrões.InMySkin_interna1

2 – Você acredita que essas “regras” atingem mais as mulheres do que os homens?

É interessante pensar em termos de números. A maior parte dos anúncios e imagens que vemos dizem respeito às mulheres. São elas que estão nas capas da grande maioria das revistas, é o corpo delas que está exposto nos anúncios em grande parte das vezes. As roupas em que as mulheres aparecem são geralmente mais reveladoras, ou possuem a intenção de revelar. Os padrões estéticos sobre as mulheres estão de tal forma disseminados que mesmo as mulheres que não se sentem atraídas pelo corpo feminino passam a julgar os corpos das outras com base nesses padrões. Ou seja, somos bombardeados com uma superexposição e com isso passamos a assimilar ideais de beleza como a julgar isso. Nesse sentido, sim, as mulheres são mais atingidas pelas regras de beleza que, analisadas ao fundo, demonstram um cerceamento, uma limitação para todas as mulheres. Entenda, não é estar contra a beleza, mas quando esta é a maior ou a única preocupação, o que sobra para o resto da existência? Por outro lado, a insistência sobre a beleza feminina parece afirmar que o lugar ideal das mulheres é este decorativo, o de ser enfeite para o mundo.

36843 – Em sua opinião, os padrões de beleza para mulheres são definidos por homens?

Acho que é conjunto. Os padrões de beleza são definidos por uma cultura que privilegia o olhar masculino, mas isso não se reduz a homens ou mulheres. É uma questão cultural. Nossa cultura vê o masculino como protagonista, e as mulheres como acessórios. Ora, os acessórios ficam melhores quando são bonitos. Mas não dá para reduzir isso aos sujeitos homens ou mulheres, pois é maior.

4 – Afinal, os padrões são criados pelas indústrias, pela mídia ou pela sociedade?

Novamente é um conjunto. Um autoriza, endossa e alimenta o outro. Nos apropriamos das imagens e tentamos nos moldar a elas, fazendo isso, lhes damos legitimidade, reproduzimos, recriamos e fortalecemos. Nosso consumo é a base da coisa. Consumir um padrão X de beleza, faz com que ele se mantenha e se prolongue no tempo. Deixamos de consumir o ideal de mulheres com cintura de vespa (como foi no século XIX e nos anos 1950), mas passamos a consumir mulheres hiper magras, com ossos salientes. Moda e cultura são elementos para se pensar onde essas coisas surgem e são mantidas.

5 – Você acredita que esses padrões foram criados pelas indústrias para incentivar o consumismo?

141Os padrões estéticos existem em todas as sociedades. Cada uma a sua maneira. Se a indústria do mundo industrial usa isso? Sim, ela usa. Usa os padrões que nos são caros, transforma-os de acordo com a audiência e os reproduz para estimular determinados consumos. Mas, não, ela não inventou esses padrões.

6 – Você acredita que os padrões de beleza divergem muito ao redor do mundo hoje?

Sim, ainda hoje divergem. Apesar da imensa globalização midiática, os padrões de beleza regionais não estão completamente mortos. Talvez, em fase de agonia, mas não mortos.

7 – Como eram os padrões antigamente, como nas primeiras sociedades, na época medieval, Europa antiga e Ásia antiga?

padrão-de-beleza-durante-os-séculosCada época tem sua forma corporal e sua moda. Isso dá um curso inteiro sobre beleza. Há épocas em que corpos atléticos são o modelo da beleza, como foi entre os gregos, em outros, formas mais rechonchudas como no Renascimento. Há ainda determinadas modas que alteram o corpo para torná-lo apropriado a determinado padrão, como os pés quebrados e enfaixados das chinesas para se manterem pequenos; os cabelos raspados até a metade da cabeça das europeias do século XVI para aumentar a testa; os espartilhos, as sobrancelhas raspadas. Corpo, cultura e moda são inseparáveis para compreendermos cada época.

8 – E como eram há pouco tempo atrás no Brasil, como nos anos 40, 60, 80 e 2000?

Quando se estuda as décadas do século XX se percebe que boa parte do padrão estético proposto por cada uma só consegue ser percebido na posteridade. Isto é, só depois que nos desvencilhamos daquilo que a década propôs, conseguimos realmente entender a sua estética. Além disso, é preciso costurar esses modelos físicos com o mundo e a sociedade que o cercam. Nesse sentido, o cinema tem um papel bem importante em propor padrões de beleza, os quais não envolvem apenas uma beleza objetiva (se é que se pode pensar em algo assim), mas também cabelos, maquiagem, roupas, formas artificialmente dadas ao corpo por meio de certos exercícios, plásticas ou peças que moldem as formas. O Brasil foi e é, como o restante do mundo ocidental, uma presa desses valores. O principal desses valores, no entanto, não está na forma, mas no que cada filme ou publicidade parece afirmar, ou seja, de que a beleza é algo jovem. Se você não é jovem, não tem como ser belo. Isso se intensifica ainda mais numa sociedade de consumo e numa sociedade em que o valor do trabalhador enquanto experiência é descartado em nome de menores salários.

9 – Dietas, academia, cremes, loções, remédios… Saúde ou estética?

Na maior parte das vezes estética. A ditadura das dietas, os anúncios de “perca peso”, endureça, firme, etc. são elementos voltados a adequar os corpos comuns ao padrão estético dos corpos extraordinários que são veiculados pela mídia. Por outro lado, os anúncios que apelam para saúde, não raro começam a criar um clima de terrorismo, com o não pode isso, não pode aquilo. A gordura é a vilã; o ovo é o vilão; tudo o que não é industrializado é o vilão; o açúcar é o vilão (bem, esse tem bastante culpa mesmo, ainda mais nessa nossa cultura doce). O que quero dizer é que muitas pessoas acabam aderindo usando a saúde como desculpa, mas que no fundo vemos a tirania de um padrão estético. Veja: você está bem de saúde, seus exames médicos estão legais, você sobe escadas com fôlego e consegue brincar no final de semana com as crianças. Diga: por que raios você “precisa” perder 4 quilos?

10 – Qual sua opinião a respeito das cirurgias plásticas, implantes e demais tratamentos?

Para mim é um terreno delicado. Não é possível colocar tudo isso numa sacola só. O corpo é a base da nossa identidade e pode ser fonte de sofrimento psicológico e físico. Sim, há uma indústria que estimula isso e, em muitos casos, percebemos que se espalham procedimentos completamente desnecessários. Nesse sentido, uma cultura de aceitação do próprio corpo, de des-normalização dos padrões de beleza midiáticos, e até mesmo acompanhamento psicológico podem auxiliar em desinflar o apelo para as “correções” cirúrgicas. Mas eu não parto do princípio de que as intervenções cirúrgicas são más por definição. Eu mesma fiz redução de mamas e minhas costas até hoje agradecem, assim como a minha conta bancária, pois não preciso mais de roupas feitas sob medida. Quanto aos outros tipos de tratamento, há uma discussão que vai além da estética e que envolve os níveis de intervenção que estamos dispostos a aceitar em nosso corpo. Nesse ponto, compreender a imagem corporal que temos (e que é a soma de elementos individuais, sociais e culturais) é também uma forma de defesa contra os excessos.Barbie-02

11 – O que você acha das pessoas chegarem ao ponto de desenvolver distúrbios alimentares para se manterem a “bonitas”?

Ontem mesmo eu lia um texto sobre o tema. Aliás o segundo em pouco tempo. O primeiro que li foi Mulheres Famintas, da Lélia Almeida. O outro é Transtornos alimentares, uma questão feminista, da Carol Marques. As duas autoras apontam o fato de que muito do controle exercido sobre as mulheres vem dessa obsessão com o peso, fonte de instabilidade emocional, de “loucuras”, de doenças. Muitas mulheres nem mesmo tem outro assunto se não a questão do peso. Além disso, o padrão de beleza midiático tem se mostrado extremamente nocivo para o grupo mais frágil: as meninas. Estas passam a adentrar no martírio das dietas com medo do “supremo fracasso” que é o de não ser magra”. Claro que a obesidade infantil é também uma questão importante. De fato, acredito que ela é o outro lado da moeda. É recusa, resistência, mas também falta de informação, de controle dos pais, excesso de industrialização na alimentação, dificuldade em dizer o pedagógico não, falta horários. Todos estes elementos podem criar crianças obesas e/ ou adolescentes bulímicos. Nossas “loucuras” para atender aos padrões de beleza irreais da mídia não afetam apenas a nós. Os padrões ideais da mídia afetam o futuro. Afetam nossas crianças.

12 – Esses “defeitos”, assim julgados pelas pessoas, seriam baseados na saúde perfeita ou no consumismo que as indústrias desejam?

Essa assimilação entre beleza e saúde é um dos principais problemas com os quais nos deparamos. Até porque saúde não é se parecer com Gisele Bünchen. Saúde não é algo que deva ou sequer possa ser equacionado com um padrão estético de beleza. É uma falácia. O pior é que, aí, quem não se enquadra passa a ser visto como um candidato a doenças X e Y. O “defeito estético”, vira descuido com a saúde e, portanto, um defeito de caráter. É uma lógica perversa. Por outro lado, não dá para ver as indústrias como uma entidade que paira acima da cultura e da sociedade. Essas coisas estão juntas, ligadas, amalgamadas. É também importante destacar o papel que o julgamento moral que vem sob o julgamento estético tem outras consequências danosas, como a exclusão de grupos ou a auto-exclusão. Individualmente, isso pode ter efeito de tragédia, coletivamente é sim uma orientação para determinados tipos de consumo. Mas é interessante pensar que a mesma construção sócio-cultural que nos impõe a magreza como sinônimo de beleza, também nos faz ser obcecados por comida. Se fala de comida o tempo todo, se vê comida o tempo todo, se coloca a comida como um índice de civilidade e de nível de consumo. Empanturre-se de refrigerantes e fast foods, mas ai de você se não vestir 36.

 

Para finalizar, se você ainda não assistiu, vale uma olhadinha nesse vídeo.

 

A pior coisa em escrever…

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A pior coisa em escrever é não escrever. Não sei dos outros, mas escrever para mim se processa como uma necessidade alimentar. Há épocas em que pequenos bocados diários me satisfazem, há outras em que tenho fome o tempo todo. Uma fome que não se sacia fácil. Uma fome que tudo incomoda. Uma fome que só sente a si mesma. Todo o resto me irrita. Estou imersa em vidas exigentes e colocá-las em pausa para voltar ao cotidiano me aflige. Não quero saber do dia seguinte, não quero saber se há abobrinha na geladeira ou o cardápio do almoço de amanhã. Não quero lembrar se tenho o texto da xerox, se há notícias no jornal ou se o gelo polar está derretendo.  É horrível. Insano. Alienante. Ainda assim, as vozes dos personagens na minha cabeça reclamam de suas histórias não contadas. Queremos estar vivos, me dizem, me gritam enquanto dançam e dialogam sem parar. E eu quero que estejam vivos. Quero vivê-los, pois não me contento mais em tê-los apenas na minha cabeça. Só que não há portas que te separem do cotidiano, não há trancas que deixem o mundo lá fora o suficiente. Tenho sono, tenho compromissos, tenho amores. Ainda assim, represar histórias é uma dor física, uma urgência insatisfeita. Estar escrevendo é ter o diabo aos calcanhares, é ter alguém à espreita, é sempre ter algo inconcluso para fazer. Pior? Só quando não se consegue escrever.

Lembrando Antígona

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Eu tenho um caso de amor com Antígona. Longos e longos anos redescobrindo-a vez por outra, sempre grandiosa, sempre extraordinária. Mil coisas podem ser ditas sobre ela e ainda restará o que pensar. As camadas que revestem a personagem parecem infinitas, pois se renovam a cada leitura e, em essência, está lá a narrativa de um amor que não hesita, que não se diminui. A dignidade de Antígona é esteticamente bela e metaforicamente feroz. Mesmo sendo princesa, ela é mulher, sua linhagem é amaldiçoada, seu sexo está a serviço do outro. Não há nada que ela possa. Ninguém quer ouvir suas razões. Seu dever para com o mundo é calar e obedecer. No entanto, Antígona se posta em pé, não se verga, não se dobra, reivindica o direito de ter consciência, de ter deveres para consigo mesma, de ser fiel ao que acredita, ao que entende do mundo.

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Antígona é um libelo contra a tirania. É essa eterna dúvida entre o que me é exigido e o que eu quero, entre quem sou e como o mundo deseja que eu me comporte. Os deveres que ela clama são, claro, auto impostos e sua decisão, já tomada desde as primeiras linhas da peça de Sófocles, não isenta de perceber sob ela as lacerações dolorosas da escolha. Esse é, para mim, um ponto fundamental do mito e da peça: nenhum dos caminhos que se apresentam para Antígona são isentos de dor, qualquer um deles irá levá-la a um tipo de morte, e ela escolhe o que lhe parece mais suportável, continuar fiel a si mesma.

Filha de Édipo e Jocasta, Antígona sobreviveu ao horror do incesto que levou o pai a cegar-se e a mãe/avó ao suicídio. Confrontada com a morte dos dois irmãos numa mesmo dia, ela se vê obrigada a acolher a ordem de seu tio Creonte, agora no papel de rei de Tebas. Um dos irmãos, Etéocles, que morrera defendendo Tebas do ataque de exércitos estrangeiros deveria ser enterrado com honras. Já Polínice, que se valera de estrangeiros para fazer valer seu direito ao trono, deveria ter o corpo abandonado ao tempo e às feras. Para os gregos antigos não poderia haver pior sentença. O corpo insepulto era a desgraça da alma que jamais encontraria descanso ou adentraria ao mundo dos mortos. Uma sentença de horror pela eternidade.

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As duas irmãs sobreviventes dão voz às possibilidades. Ismena resolve calar, pois teme a sentença de morte que virá à sua desobediência. Antígona sabe da morte, mas esta a apavora menos que conviver com a memória ultrajada do irmão. A apavora menos do que conviver consigo mesma e a certeza de não ter agido com sua consciência. O dilema de Antígona não se perdeu nos milênios que avançam entre a peça e os dias de hoje. Sua decisão, contudo, ainda soa revolucionária.