Quadro clínico

os-mandamentos-do-otimismo1

Sofro de otimismo patológico. Não se preocupem, estou bem. Essa coisa não chega a dar pintas pelo corpo. Faço exercícios regulamente e me alimento com um pouco mais de vontade que as pessoas normais. Meu histórico clínico registra apenas um ataque à transeuntes em via pública. Mas eu ainda afirmo que a criatura mereceu. As lentes cor-de-rosa não me pesam, mas se atrapalham um pouco com meu alto astigmatismo. Seria ele o responsável por ver tudo embaçado? Por dar excessos à minha imaginação? Olho a vida minúscula com carinho e a grande me enlouquece a ponto de tirar o sono. Choro pelas crianças desse mundo feio enquanto doentiamente acredito que irá melhorar. Sou filha do século XX, fui exposta a altas doses de iluminismo, contaminada desde o berço com a injustificada crença no progresso humano. No meio do caminho, admito, num revés de meu estado (ou seria um agravamento deste?), desfiz-me do agasalho das crenças nas forças externas. Decidi enfrentar o frio e esperar que o fogo venha das entranhas humanas e crie algo melhor. É uma doença, eu sei, eu sei. Estou conformada com essa condição, mesmo que não haja sombra de tratamento. Não, amigos, infelizmente, as doses regulares de jornais e redes sociais não adiantaram. Já tentei o tratamento, e é apenas um paliativo. Por este momento estou a me entorpecer apenas, auto-medicando-me com literatura alheia e alguma coisa de fabricação própria. Não ameniza os sintomas de forma alguma. Mas conforta meu olhar vesgo adentrar em mundos inexistentes ou que eu possa, minimamente, controlar.

Ligeira crônica de Amor

Eu tinha um amigo. Grande amigo. Grandes papos. Amávamos um monte de coisa juntos. Literatura, teatro, um certo tipo de música (ele sempre foi mais musical que eu), histórias, mistérios. Gostávamos de montanhas, de escalá-las e de olhar o vale. Ele contava piadas. Eu ria. Eu contava piadas. Ele as entendia. Nunca se chocou com meu sarcasmo maldoso e nem achou que isso mudava meu caráter.

Também odiávamos coisas juntos. O curso de Direito, as pessoas que se levavam à sério demais, os discursos hipócritas e grandiloquentes. Tínhamos algo que era só nosso: parecíamos certinhos, agíamos dentro do que todos aceitavam, mas não pensávamos certinho e nem achávamos que nosso jeito valia para os outros. Defendíamos os esquisitos, mesmo que eles nos achassem mainstream. O pessoal mainstream nos achava esquisito. Tínhamos uma montanha de livros. Escrevíamos apenas um para o outro ler.

Por que não namoram?

Já namoramos.

O quê?

Pois é.

E aí?

Éramos amigos que beijavam. Não era melhor que ser só amigo. Não sei. Faltava.

Faltava o quê?

Eu não sei. Uma liga. Uma coisa. Um inexplicável. Um não sei onde. Uma faísca.

O beijo era ruim?

Não. Era bom. Só não dava vontade de ir além do beijo.

Então acabou?

É.

E vocês continuaram amigos?

Sim. Por um tempo distantes. Depois, muito próximos.

Vocês são esquisitos.

Pois é.

Fomos esquisitos por um tempo. Quanto tempo? Não sei, difícil precisar. Seis meses, meio ano. Ou foi um ano inteiro? Teve aquela formatura em que ele não quis dançar comigo, mesmo que estivéssemos sem par. Pôxa, eu adoro dançar. Não é o que os amigos fazem? Mas ele sumiu e só voltou no fim do baile. Depois, teve a vez em que desmaiei na escada, nem tinha visto ele, mas estava ali e me segurou e levou pra casa. Aí veio o convite. “Vamos fugir, pra outro lugar, baby?” Vamos! Tem uma montanha pra escalar. De noite, teve papo longo, no carro, na rua escura, e um “eu te amo” tão alucinado que fez meu coração falhar. Depois, teve beijo. mas foi diferente. Deu vontade de mais. Bem mais. O não sei o quê estava ali. De um jeito… de um jeito que dava vontade de arrancar a roupa.

A montanha foi escalada, mas ficou diferente. O mundo lá embaixo tão menos interessante que o mundo lá em cima. O encontros viraram necessidade, mais que só prazer. Como se ter certeza, quando se tem certeza e se tem medo de ter certeza? Um mês às escondidas para anunciar o que todo mundo sabia.

Quem não sabia no que ia dar? A gente, claro. Mas só no começo.

Unknown