156 anos de Santa Maria, uma história…

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Meu livro Dizem que foi Feitiço: as práticas de cura no sul do Brasil (1845-1889) está esgotado em sua versão física. Sei que ele reside em algumas bibliotecas universitárias fora do Brasil; sei de muitos colegas que o usam seja em aulas, seja como elementos de debate, seja para compor um retrato das práticas de cura no século XIX; sei que vez ou outra um exemplar dá as caras na Estante Virtual e também logo desaparece. Em todos estes fatos, só posso declarar meu contentamento em acompanhar este trabalho, quase 15 anos depois de sua construção e cerca de 13 de sua publicação, ainda sendo lido e rendendo frutos. Incomoda-me um pouco, portanto, que ele não esteja acessível por completo (há uma visualização parcial no Google Books) e, tenho pensado em relançá-lo apenas em e-book (com ou sem revisões, dependendo do meu tempo). Minha intenção não é, de forma alguma, segurar o trabalho tornando-o raro e pouco acessível. Pelo contrário, é um trabalho acadêmico cujo objetivo é chegar ao maior número de pessoas possível para, assim, poder ser estudado, criticado e ultrapassado. É assim que se faz ciência. Algumas pessoas, por vezes, me cobram uma reimpressão física do livro. Infelizmente, sua editora original não se interessou. Obviamente, relendo-o, eu encontro muitos elementos e conclusões datadas; pontos em que, como pesquisadora, eu avancei; coisas que faria diferente; academicismos próprios de um trabalho de mestrado; excesso de notas; debates que poderiam ser incluídos no texto, etc. No entanto, o trabalho ainda é válido e me orgulho dele.

Hoje, o cenário de minha pesquisa, a cidade de Santa Maria da Boca do Monte, completa 176 anos. Não é incomum, nessas datas comemorativas, que as pessoas lembrem os seus ilustres cidadãos, as pessoas que por aqui nasceram ou viveram e suas contribuições para o grande mundo. É bem natural, como forma de “relevo” aos “feitos” da cidade, dizer que ela deu ao mundo ou formou fulano ou sicrano. É um jeito de dizer: vejam, é bom que essa cidade exista, ela permitiu beltrano de tal existir. Sendo assim, e como eu realmente gosto de Santa Maria, vou lembrar mais uma vez de uma sua antiga cidadã, por tanto tempo anônima e esquecida, mas cuja vida me deu um mestrado e um livro. No aniversário de Santa Maria, eu agradeço à cidade que me acolheu no nome dessa ilustre desconhecida: a curandeira preta forra septuagenária Maria Antônia.

Abaixo a primeira página da introdução do livro:

A preta forra Maria Antônia tinha cerca de 70 anos em 1866, quando foi indiciada por envenenamento. A vítima era uma mocinha de nome Henriqueta, filha de um casal de lavradores pobres que moravam nas cercanias da Vila de Santa Maria da Boca do Monte, região central da então Província do Rio Grande do Sul. Maria Antônia tinha o ofício de roceira, porém, possivelmente, a maior parte de seu sustento vinha de suas agências como curandeira. Conhecida pelos habitantes daquele local por suas habilidades nessa atividade, a preta foi chamada pelos pais da jovem Henriqueta, José Pires de Arruda e sua mulher Florisbella, para curá-la. A moça vinha padecendo de uma “estranha moléstia”. De acordo com os vizinhos, que presenciaram os fatos, ela tinha “ataques” e, às vezes, expelia barro, linha, lã e agulhas pela boca e pelo nariz.

Maria Antônia não fora a primeira curandeira a ser chamada. Tinha sido precedida pela índia Maria Nungá. E, mesmo que a preta tenha conseguido trazer melhoras ao estado da moça, como sua antecessora, ela falhou em curá-la completamente. A família da enferma recorreu, então, ao cirurgião-mor da Guarda Nacional, Francisco Custódio da Silva e, a seguir, ao médico homeopata Theobaldo Jaeger. De todos os que trataram de Henriqueta, Maria Antônia foi a única a conseguir algum resultado positivo.

Como não fora possível identificar a moléstia que acometia a jovem, o último curador a ser chamado, o homeopata Jaeger, sugeriu que Henriqueta estava sofrendo em razão de alguma matéria venenosa que lhe havia sido ministrada. Quando o caso foi denunciado às autoridades, a família de Henriqueta e os vizinhos que acompanhavam os acontecimentos foram unânimes em apontar a preta Maria Antônia como culpada. No processo de Sumário de Culpa instaurado contra a curandeira, as mesmas pessoas que lhe imputaram o papel de causadora da doença de Henriqueta se negaram a acusá-la diretamente. Essas testemunhas informaram ao delegado que não tinham certeza sobre o envolvimento de Maria Antônia, mas que a voz corrente, na região, era de que a moléstia da jovem se dera por obra do feitiço.

A leitura deste processo sugeriu-me uma série de questões. Por que tantos curadores diferentes foram chamados para tratar a jovem Henriqueta? Por que a única curandeira que logrou melhoras na enferma foi denunciada como causadora de uma moléstia, da qual ela nem mesmo fora a primeira a cuidar? Quais os elementos constantes na narrativa acima que, no século XIX, poderiam ser associados pela cultura popular à feitiçaria? Ao iniciar a análise do documento, notei que, mais do que perguntas intrínsecas ao relato, existiam aí uma boa quantidade de pistas que permitiam pensar as formas como a doença, as testemunhas e os agentes da cura eram percebidos no Brasil imperial. Somente a partir do estudo desses três elementos, e das relações que se estabeleciam entre eles, é que se tornaria possível começar a responder os pontos obscuros do processo contra a curandeira Maria Antônia.

 

 

 

Você escreve bem ou escreve com bacon?

50 bacon

A pergunta é uma paráfrase do Chef franco canadense Chuck Hugues. Num de seus programas, ele faz um prato vegetariano para servir como um mimo às suas garçonetes. Ao servi-lo, ele comenta com as moças que precisava testar aquela receita com elas, já que o grupo vivia dizendo que ele costumava colocar bacon em tudo. “Aí”, diz ele, “eu fiquei me perguntando: afinal, eu cozinho bem ou eu cozinho com bacon?”

Alguns dias depois, conversávamos aqui em casa sobre literatura, escritores grandes e pequenos e seus textos literários; conversávamos sobre nossos próprios textos e os recursos usados num e noutro como plot ou como arco criador de tensão. Num recurso associativo para explicar um ponto de vista, eu saquei: mas afinal, isso é escrever bem ou é escrever com bacon?

Reconheço que, sendo escritora de ficção fantástica, a pergunta pode soar estranha vinda de mim. Afinal, seguindo a metáfora: bacon is my busness em termos literários. Contudo, não é bem assim, não há viagem no tempo, vampiro ou lobisomem que disfarcem um texto ruim ou mal escrito. Por outro lado, um texto pode ser magnificamente escrito, arrebatador em termos literários, mas chega na hora de criar tensão e lá vem um assassinato, um suicídio, um adultério, um estupro ou sexo sado-masô em resumo… bacon (convenhamos, há inclusive literaturas que se sustentam só em cima da quantidade de bacon). Mas, sendo criteriosos em nossas leituras e escritas, o protagonista precisa mesmo ser um matador de aluguel que vai visitar a mãe velhinha? Ou a mesma tensão poderia ser obtida com o cara sendo um especulador na bolsa de valores e a mãe sendo uma operária sindicalista? Sei que muitas escritores vão gritar, não, não pode. Ainda assim, a pergunta é válida: precisa?

No caso da ficção fantástica, onde sim, o bacon está em tudo, acho importante nos perguntarmos sobre a quantidade do seu uso. Não, não estou defendendo uma literatura ascética – já vimos no que vampiros vegetarianos podem dar -, mas acho importante, como escritores, nos perguntarmos o quanto é preciso jogar de tripas, pedaços de cérebro e membros decepados sobre o nosso leitor para que ele realmente se impressione com o nosso texto. Lembrando que, quando essas coisas começam a entrar em escalada ascendente, é provável que, em pouco tempo, nada mais horrorize, nada mais “cause” impressão no leitor. A pergunta que precisa ser feita (com respostas variadas, claro) é: aquela descrição detalhada serve realmente para levar o seu texto para frente, para horrorizar, ou só para você preencher o nível mínimo de caracteres exigidos pelo editor?

Ainda na ficção fantástica, ontem entrei em contado com a polêmica das Mulheres na Geladeira no universo HQ. Qual é o bacon? Violentar, matar, mutilar ou aleijar personagens femininas com o fito de dar ao arco da história do personagem masculino um pouco mais de tensão. Claro que aí há outros exageros que envolvem todo sexismo com que as personagens femininas são tratadas nas HQs (sugiro o ótimo artigo José Abrão no República dos Quadrinhos). Por outro lado, sei que muitos objetarão classificar HQ como literatura e o debate é amplo, mas, no meu entendimento, é uma manifestação literária sim e, como tal, também pode se perguntar se alguns arcos narrativos são realmente necessários ou se não passam de muito, mas muito, bacon.

No primeiro final de semana de maio de 2014, participei do evento Uma Noite Alucinante, quando 9 escritores de ficção fantástica ficaram confinados na Athena Livraria, em Santa Maria (RS), para escrever um conto cuja temática era a noite, usando suspense e/ou terror. O confinamento foi antecedido por um debate sobre Mary Shelley e a literatura de terror. Na ocasião, eu defendi que um bom conto de terror pode, por vezes, ter uma única frase, tão forte e pesada em referências que não precisa ser necessariamente seguida de qualquer descrição para causar horror. E, há mestres nisso, como Stephen King ou a nossa Simone Saueressig no seu conto A Cisterna (só para comentar os dois que citei na minha fala). Ou seja, dá para fazer muito com pouco ou quase nenhum bacon.

Para quem consome literatura fantástica, é possível que um ou dois (até mais) textos cheios de pesadas descrições de torturas, mutilações e estripamentos não enfarem o leitor. E é sempre possível contar com a “virgindade” das gerações mais jovens de leitores para garantir a continuidade do interesse. Contudo, num longo prazo, qualquer um que escreva ou leia (aqui fala a consumidora desse tipo de literatura) poderia ou deveria se perguntar: afinal isso está realmente bom ou só tem muito bacon?

Como escritora, eu me pergunto isso sempre e garanto que tento manter a dieta. Começo toda a segunda-feira, termino na terça.