A mosca na sopa

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Aqui em casa o friozinho chega e eu logo começo a inventar sopas. Sei que as sopas não são unanimidade (a Mafalda detesta). Pessoalmente, porém, eu as sinto como um carinho, um tipo de abraço que vem em pratos. Minha mãe e meu pai são fazedores e apreciadores de sopas (a de linguiça é épica). E sempre me lembro de meu avô que comia uma mesma sopa todas as noites: carne, arroz, batata e cenoura, temperada no prato com meio limão. Sopa têm gosto de infância, logo, eu as levo à sério.

No entanto, não sou nutricionista, apenas uma comilona assumida. Do tipo que se aventura, do tipo que inventa, do tipo que busca sabores. Comecei a ler sobre comida por volta de 2002, quando principiei a dar aulas sobre História da Alimentação. Em função disso, passei a pensar mais sobre temperos, texturas, harmonias, e começaram a me incomodar dois elementos da nossa culinária ordinária: nosso excesso de sal e nosso excesso de açúcar (do qual sempre falo nos meus posts sobre bolos). Passei, portanto, a levar a sério os excessos das receitas, não por saúde (um pouco sim), mas especialmente por conta do sabor. Afinal, que comida ruim essa cujo o gosto é apenas de sal ou de açúcar.

Foi por essa época que aprendi a ler rótulos. Na verdade, uma coisa puxou a outra. Se eu me importava tanto com o gosto do que comia, eu queria ver como esse gosto era produzido (por vezes tentava reproduzir). Mesmo sabendo cozinhar e dividindo essa tarefa com o marido, nenhum dos dois tinha nada contra a uma rápida comida pré-pronta. Quando mergulhamos no doutorado, elas muitas vezes eram a salvação da lavoura, do estômago e do cansaço. Nada de maravilhoso, mas comestível. Há gente que se alimenta quase exclusivamente disso. Não só jovens, mas pessoas que moram sozinhas e acreditam que é ruim cozinhar apenas para um; pessoas idosas; mães e pais atarefados; gente exausta de todo tipo.

Por conta disso, a indústria tem se tornado cada vez mais pródiga nessas ofertas. Hoje é possível se encontrar quase tudo pronto ou semi-pronto nos super-mercados. E obviamente é preciso render homenagens aos criadores dos processos que nos permitiram diminuir nosso tempo no preparo de refeições. Julios Maggi, o inventor das sopas pre-cozidas; Will Keith Kellog e seus flocos de cereais; Karl Heinrich Knorr e seu trabalho com a secagem de alimentos e sua transformação em farinhas, bem como a criação dos caldos de sabor em tabletes.

No entanto, uma coisa é a facilidade do preparo, outra o sabor que levamos ao nosso prato. Há uma certa convenção nas afirmações: “comida pronta é sempre ruim, logo devemos nos acostumar a isso”. “Quer comer comida pronta? Então aguenta ou aprende a cozinhar”. “Ah, você sabe que comida pronta não é saudável e insiste”. “Comida pronta é coisa de gurizada que se entope de qualquer bobagem”.

O que aprendi durante uma breve estada fora do Brasil é que não é a comida pronta que é ruim, nós é somos péssimos consumidores. Antes que os nacionalistas saltem na cadeira, é importante dizer duas coisas: primeiro, que esse tipo de consumo não é problema apenas do Brasil, os EUA conseguem ser piores; segundo, meu comentário se refere a um ponto específico e não ao conjunto de qualquer sociedade. Dito isso, vamos voltar à vaca fria e em cubinhos: sim, somos péssimos consumidores. Aceitamos o que a indústria nos propõe, questionamos pouco, nunca nos posicionamos, somos ignorantes com o que “colocamos para dentro”, não nos organizamos, não fazemos boicotes. Quando alguém na sociedade se organiza para isso, sempre aparece a turminha do “não gosta, não come”; “isso vai contra a liberdade de expressão” (hein?), “a indústria não obriga ninguém a comprar”, “sabem que é ruim e ficam tentando inventar moda”, “isso é coisa de nutricionistas (vegetarianos, veganos, naturebas, etc) chatos”, “vão aprender a cozinhar”.

Assim, movimentos como “Põe no rótulo” ou que pedem menos açúcar, menos sódio, menos conservantes, menos saborizantes artificiais em nossas prateleiras de supermercado são atacados e deslegitimados. Somos consumidores ruins porque defendemos as indústrias que nos vende o que quer e não a nós mesmos. Somos consumidores ruins porque nos comportamos como gado e acreditamos em tudo o que está embalado (pode ser formol no leite ou conservantes cancerígenos). Acreditamos nas palavras “nova fórmula”, sem nos perguntar qual é ela. Acreditamos na palavra “natural” sem ir ao rótulo e perguntar o que isso realmente significa. Talvez, já tenhamos sido piores e estejamos melhorando, no entanto, eu ainda lembro o que era o sabor dos iogurtes há 30 anos e o fato de que quem tem menos que essa idade, provavelmente, nunca provou nenhum que não tivesse gosto de farinha, espessante, conservante sorbato de potássio, etc.

Velouté de Cresson ou Sopa creme de agrião. No rótulo: Sem colorante artificial, sem realçador de sabor, sem conservante.

Velouté de Cresson ou Sopa creme de agrião. No rótulo: Sem colorante artificial, sem realçador de sabor, sem conservante.

Como deu para perceber, a mosca não está só na sopa, e é uma mosca bem grande. A pergunta é: dá para ser diferente? A indústria pode ser diferente? A resposta é sim, pode. Aliás, a mesma indústria pode fazer coisas BEM diferentes e vou ilustrar a minha afirmação.

Trouxe 3 sopas de pacote da marca Knorr de uma viagem que fiz em dezembro à França. Trouxe porque da outra vez que estive lá, com bolsa de doutorado sanduíche, essas sopas salvavam nossas refeições, pois todo centime gasto era computado na ponta do lápis. Trouxe porque sabia que elas eram muito diferentes do que as que encontramos nos nossos supermercados. Trouxe porque elas são o exemplo de uma indústria alimentar que é pautada pelo consumidor. Um consumidor atento e exigente que leva comida à sério.

Ingredientes: legumes (33% - batatas, agrião e 2,3% de cebolas); fécula de batata, sal, óleo vegetal, extrato de levedura, lactose, proteínas do leite, açúcar, especiarias e temperos (salsa, curcuma, noz moscada), aromas.

Ingredientes: legumes (33% – batatas, agrião e 2,3% de cebolas); fécula de batata, sal, óleo vegetal, extrato de levedura, lactose, proteínas do leite, açúcar, especiarias e temperos (salsa, curcuma, noz moscada), aromas.

Na parte de trás do pacote há um box com o seguinte texto: O sabor é a nossa natureza. Nossa paixão: ajudar você a preparar pratos deliciosos totalmente naturais! É por isso que nossos legumes e temperos são cultivados diretamente na terra, ao sol, e são colhidos na sua estação própria, eles são em seguida desidratados cuidadosamente para preservar seu sabor e sua textura. A Knorr criou também o Cultivo para o futuro, um programa de agricultura sustentável a fim de proteger o planeta e garantir ingredientes de qualidade. Para saber mais, entre em www.knorr.fr.

Esse é o momento em que eu gostaria de dar uma prova a cada leitor, fazendo com que sentissem o aroma dessa sopa e depois pudessem dar uma boa colherada. O comentário preciso não é “na França o produto é melhor” ou como já ouvi: o solo é melhor por isso a comida é mais gostosa e o produto é melhor (sério? vocês nunca estudaram nada de história medieval, certo?). O comentário necessário é “por que a Knorr oferece aos franceses um produto melhor?” Por que nós, brasileiros, aceitamos produtos tão inferiores, por que os compramos, por que os consumimos? Junto com essa sopa, eu trouxe uma de cogumelos que é inacreditável (o rótulo dela abre essa postagem). O resultado dela no prato não perde para o que consumi em alguns restaurantes e não perde nem mesmo para minha própria feitura dessa receita.

IMG_5535Em contrapartida, o que a mesma Knorr nos oferece no Brasil? Vamos à sopa Quick. Ela é ótima para quem chega, como eu, por volta de 23 horas em casa, exausta, com frio, querendo pijama e algo quente e leve, sem precisar sujar panelas. O rótulo da frente é igualmente explícito, assim como o francês: Contém aromatizantes sintético idêntico ao natural. Ok, vamos fingir que é “idêntico”. Pequenininho, num círculo vem escrito: Com ingredientes naturais. Ok. Vejamos o rótulo, afinal, o importante é que não tenha gordura trans, certo? (Isso foi ironia, não resisti).

 

IMG_5536Ingredientes: amido, maltodextrina, creme de leite, batata, gordura vegetal, sal, queijo (parmesão), cebola, cogumelos (fungui e champingnon), açúcar, alho, salsa, pimenta-do-reino branca, realçadores de sabor glutamato monossódico e inosinato dissódico, espessante goma guar, aromatizantes, antiumectante dióxido de cálcio e corante caramelo IV.

Algumas perguntas: quais as quantidades? Por que algo que tem amido, maltodextrina, batata e creme de leite precisa de goma guar? Por que é preciso de 3 tipos diferentes de sódio para salgar isso? (Dúvidas sobre os realçadores de sabor? Se depois de comer o gosto da comida se prolongou na sua boca até ficar com um sabor que lembra levemente o de remédio, então, tem saborizador artificial. Nossa mania nacional de escovar os dentes imediatamente após as refeições é o que nos livra disso).

A intenção dessa postagem é menos a de questionar a Knorr (ou a Maggi ou a Kellogs ou qualquer das industrias alimentares) do que a nós, os consumidores. Ou deveríamos dizer aceitadores? Afinal, quem é que pauta o que comemos? Será que a saída é mesmo ficar lamentando que a vida “moderna” não permite que se coma direito ou que a gente se alimente bem? Olhando esses rótulos, me parece uma outra desculpa para simplesmente aceitar, consumir sem perguntar, deixar que outros informem a quantidade exata de porcaria que você pode colocar para dentro sem te matar em curto prazo. Afinal, se tiver bastante sal (ou açúcar) terá sabor, se não tiver nenhuma gordura trans será saudável. O importante é comer rápido para poder voltar logo para o computador.

Para terminar, se não ficou bem claro: para mim (na contramão das ideias jurássicas de boa parte da nossa indústria e de suas máquinas de propaganda), consumidor bom é o que incomoda. Aliás, o que incomoda muito. Eu prefiro ser a mosca da sopa a ter de aturar moscas na minha sopa.

 

 

Frankenstein, de Mary Shelley

Em 2012, diariamente, durante todo o período da Feira do Livro de Porto Alegre, o Portal de notícias Sul21 publicou textos a respeito de “melhores livros” na visão de seus colaboradores e leitores. O texto abaixo foi publicado em 31 de outubro.

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Não é o melhor livro de todos os tempos, claro. A escrita de Mary Shelley é prisioneira dos formalismos de sua época e de não poucos clichês, marcada por arroubos juvenis e alguns debates filosóficos ingênuos. Contudo,Frankenstein, ou o Moderno Prometeu é um dos maiores livros de todos os tempos e nisso não há qualquer tipo de exagero. Não pelo que lhe retornou a crítica de sua época, ou mesmo posterior (que soube vê-lo maior), mas por aquilo que um livro tem (ou deve ter) de mais visceral: sua interlocução com os leitores.

Talvez, a palavra interlocução não seja apropriada, é acadêmica e formal demais. Frankenstein conversa com seus leitores, sim, mas de uma forma pessoal, noturna, complexa, em outras palavras, ele os atinge, os abalroa como um navio enorme impulsionado pelos ventos gelados do Ártico. Por conta disso, não é um livro cujo apelo possa ser resumido ao intelecto, mesmo que ele ocupe um grande espaço aí. A bizarra história de um homem que constrói outro homem a partir de cadáveres extrapolou nos últimos dois séculos muito do que sua autora pretendia com ela. Mary Shelley desejava escrever um conto de terror, como os que ela e seus amigos partilhavam nas noites chuvosas de um verão na Suíça. Acabou forjando uma fábula poderosa, que mais se aproxima do mito por sua inesgotável capacidade de produzir interpretações, leituras, e, especialmente, pela imortalidade das emoções que provoca.

Em função disso, falar de uma leitura pessoal de Frankenstein é reduzi-lo. Por outro lado, mergulhar em suas inúmeras interpretações é passear pelos difíceis caminhos dos incontáveis ensaios a seu respeito. Críticos, historiadores, escritores, filósofos, Frankenstein foi e é material para todos, substantivo e gerador. Em minha formação, eu o utilizei em uma cadeira de meu mestrado em História. Como professora, atualmente, eu o indico para se estudar o romantismo (como, aliás, Harold Bloom, recomenda) com meus alunos de História Contemporânea I. No passado, convidava meus alunos a lê-lo em uma cadeira de Ética e Cidadania.

Aliás, foi numa leitura desta última cadeira, que tive o prazer de compreender o tamanho fenomenal deste livro. Quando analisamos o romance, muito falamos da questão da paternidade, tão fundamental em Frankenstein, assim como a responsabilidade pelo que se cria, bem como a incapacidade de controlar as criaturas. Pensamos em termos de famílias, de ciência, de Deus e de suas religiões, debatemos os terrores e implicações éticas da transfusão de órgãos, bem como os desconfortos de algumas crenças com o radicalismo deste tipo de terapia que, para outros, já parece absolutamente normal. Então, duas alunas do curso de Serviço Social – apoderando-se do livro para seu trabalho final – fizeram uma belíssima análise comparando o “monstro” com as crianças abandonadas às ruas, cuja violência cresce e apavora aos Victors Frankensteins encastelados em suas casas de condomínios fechados e apartamentos com grades nas janelas. A máscara de Frankenstein – que é o criador e o monstro ao mesmo tempo – pode ser também lida no egoísmo social que faz jogar sempre a culpa nos outros, amaldiçoando-os e nós mesmos, mas fugindo, virando o rosto, brincando de esquecer que para além do corpo monstruoso há um ser que sofre.

Outro grupo de estudantes, em nossos debates, mergulhou na metáfora do aristocrata que usa pedaços de corpos mortos de pessoas do povo e um cérebro de grande capacidade, para criar um ser superior a si próprio. É sedutor pensar em ecos das revoluções ou nas ideias libertárias que circulavam pelos círculos em que vivia a autora. E isso não é tudo, a cada ano, cada novo leitor a quem apresento o livro em minha sala de aula fixa-se num dos grandes debates que permeiam a história. Afinal, eles ainda se perguntam: como aquela jovem de 19 anos pode profetizar, há 200 anos, coisas que sua época intuía, mas mal chegava a imaginar?

Como leitora, a mim, ainda assombra o final de semana em que o li pela primeira vez. Tinha 14 anos e era um verão infernal, ainda assim, nos últimos capítulos, foi possível sentir frio, não pelo ambiente descrito, mas pelo tom do drama que se desenrola nas últimas páginas. Essa impressão, a de um livro que adentra a madrugada e vence o sono, pois se recusa a ser fechado antes do fim, é minha memória fundamental de Frankenstein e sempre estará comigo.

Atualmente, tenho vivido uma paixão nova, não pelo romance, mas pela autora. A vida extraordinária de Mary Godwin Shelley me tem sido digna do maior interesse. Este desembocou num conto em que ela é a personagem principal e que será lançado, na Feira do Livro de Porto Alegre (04/11, às 16h), na coletânea Escritores Fantásticos. Mary era filha de dois grandes literatos rebeldes do final do século XVIII, William Godwin e Mary Wollstonecraft. Ele, um libertário; ela, uma das precursoras do pensamento feminista. A autora de Frankensteincresceu assombrada pelo tamanho intelectual da mãe – morta 10 dias após seu nascimento –, e foi criada por um pai que esperava dela uma nova Wollstonecraf. A própria Mary admitia que Percy Shelley, o marido, sempre esperava que ela viesse a fazer jus a seus progenitores. Não creio que Mary – cuja vida foi constantemente perseguida pela tragédia – um dia tenha imaginado ter alcançado os pais. Contudo, ninguém há de negar que sua imortalidade os supera em muito. Godwin e Wollstonecraft podem ficar orgulhosos de sua criatura.

MaryShelley