O que aprendi com 8 de março

Maria Isabel Gago, primeira professora da escola de engenharia nacional.

Maria Isabel Gago, primeira professora da escola de engenharia nacional.

Ainda lembro do primeiro 8 de março que me dei conta. Houve algum evento na escola. Algo que tinha a ver com homenagem e as professoras diziam que os meninos precisavam ser mais gentis com as meninas naquele dia. Foi em casa que descobri o motivo – o falso motivo da fábrica incinerada – mas, naquela época ainda não era um falso motivo. Eu vi o filme também. Meus pais sempre falavam que eu precisava estudar muito para, quando casasse, pudesse fazer isso por amor e não por interesse. Falavam sobre não precisar de ninguém para meu sustento, para não ter de ser servil. Falavam sobre eu poder ser o que eu quisesse. Ganhei uma arminha de brinquedo porque eu pedi e nunca me foi dito que era brinquedo de menino. Ora, eu era uma das Panteras! Como uma detetive não andaria armada? Minha casa era diferente em muitos aspectos, logo, como eu poderia compreender completamente o que significava 8 de março?

Quando meu pai me explicou aquela história do 8 de março, eu compreendi que mulheres, especialmente as pobres, valiam menos.

Depois, aprendi que meu pensamento também podia valer menos, quando ouvi de um garoto, na escola: “cala a boca porque tu é mulher”.

Estudando história na escola, aprendi a mentira de que o mundo “era construído” por homens, enquanto as mulheres ficavam em casa criando filhos, cozinhando, lavando, costurando. (É o motivo da imagem que ilustra este post).

Aprendi que querer trabalhar fora (de casa) significava trabalhar mais, pois o trabalho de casa não diminuía.

Aprendi que se eu quisesse um trabalho num mundo corporativo não precisaria me destacar apenas num certo número de pessoas, precisaria superar os homens. E essa noção me ajudou a ver o privilégio (não escolhido) de ser branca, pois os meninos e meninas negros estavam em situação ainda pior. E eu comecei a falar sobre isso ser errado.

Aprendi que as pessoas temiam as mulheres que falavam, mais ainda as que falavam alto.

Aprendi que termos como histeria, TPM, louca, eram usados para desqualificar a fala das mulheres.

Aprendi que as pessoas se agridem se você, mulher, não se parece com o que elas imaginam.

Aprendi que, em alguns lugares, as mulheres valem tão menos, que seu infanticídio ou aborto, seu estupro ou morte, sua tortura ou mutilação não recebem sanção.

Aprendi que ser menina pode ser uma sentença.

Aprendi que, ao andar na rua, eu deveria temer todos os homens que passassem por mim.

Aprendi que era preferível, numa cidade de porte médio, andar a pé do que de ônibus, para não aguentar mãos e membros estranhos se colando no meu corpo.

Aprendi que eu seria mais valorizada se dissesse não.

Aprendi que qualquer comportamento meu que não correspondesse aos desejos dos outros, me desqualificaria.

Que eu me desqualificaria se expressasse os meus desejos.

Aprendi que sempre e em qualquer ocasião: a culpa é minha.

Então, mesmo estando vivendo um 8 de março admirável – pois nunca vi tanto movimento de mulheres (e homens) contra tudo isso – eu ainda não gosto da data. Ela é amarga. É triste. Seu aprendizado foi um dos mais duros que já tive. E o mais necessário.

 

Guia Prático de Sobrevivência para mães e pais: Discovery Kids

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Trata-se de um post bem específico e, claro, direcionado. Dirijo-me especialmente à “classe” das mães e pais com filhos de até 5 anos, e aos que estão chegando nessa jornada, que possuam TV à cabo e que, regularmente, façam atividades com seus filhos: como brincar, assistir programas juntos e acompanhar suas mutantes obsessões infantis. Não pretendo discutir babá eletrônica ou as horas das crianças em frente à televisão. Meu interesse é partilhar a experiência de conseguir não odiar o que seu filho ama, viajar na arte das animações para a faixa etária pré-escolar e, principalmente, se divertir também. Quando não der para fazer nada disso, minha intenção é fazer piada da desgraça. Assim, segue abaixo um pequeno guia.

 

Backyardigans

the_backyardigans_desktop_wallpaper_5-normalHorsconcours nos amores das crianças há 10 anos. Conheci os Backy (abreviação carinhosa) com minha prima mais jovem e confesso, não gostava. Foi assistindo com atenção ao lado do meu filho que me fascinei pelos 5 amigos que dançam, cantam e imaginam um mundo inteiro nos limites de seu quintal. Para sobreviver: preste atenção nas coreografias (os bonequinhos não balançam aleatoriamente), nas referências da cultura pop (de Star Wars às séries psicodélicas dos anos 70) e, mesmo com a tradução em português (que não é ruim), ouça com atenção os ritmos.

 

Aventuras com os Kratts

Aventuras_con_los_KrattEsse começou há pouco. Traz de volta os irmãos biólogos que apresentavam live action o extinto Zoboomafoo. Os roteiros são incrivelmente educativos sem ser chatos. Para sobreviver: preste atenção ao que eles falam e aprenda, antes que seu filho venha lhe dar aulas inimagináveis sobre a vida selvagem.

 

Milly e Molly

Planting(1)(1)Para sobreviver: Apenas leiam o post do pai do Miguel.

 

 

 

 

 

 

Thomas e seus amigos

thomas-the-tank-engine_0Difícil se você tem inclinações pró trabalhistas, não workaholics e não considera que a ética protestante e o espírito do capitalismo sejam fundamentais para o ensino de qualquer pessoa. Para sobreviver: como não vai adiantar explicar o capital para sua criança, tente perder os horários ou, na pior das hipóteses, abrace o seu pequeno enquanto ele assiste e abra um livro para não atrapalhá-lo com seus bufos de impaciência (é só meia hora).

 

HY-5 e The Fresh Beat BandHi-5_header

Não são todas as crianças que curtem (felizmente). Se o seu for desses… Para sobreviver: invente brincadeiras em que a televisão não faça diferença ou possa ser desligada, convide-o para ir à pracinha ou andar de bicicleta; se não houver outro jeito, saia da sala ou aprenda a dançar a dança do robô (no caso do Hy-5, para TFBB não há soluções além do fone de ouvido).the-fresh-beat-band-characters-mainImage

 

 

 

 

 

Peppa Pig

images3Desenho britânico premiado com o Bafta como o melhor para pré-escola. É muito divertido, apesar dos deboches um tanto insistentes com a figura paterna, a mãe se sai melhor, mas também escorrega. Em resumo: ninguém é perfeito. Para sobreviver: divirta-se.

 

Doki

kids-chabelly-doky-112735O antigo anfitrião do canal virou sua principal estrela. Ganhou amigos, curtas e depois sua própria série animada. O grupo explora lugares interessantes ao redor do globo enquanto aprende sobre camuflagem, bicicletas, balões à gaz. Para sobreviver: divirta-se com pipoca.

 

Robi, o robô

headerDesenho super gracinha sobre a resolução de problemas. Gera brincadeiras engraçadas com os pequenos. Para sobreviver: brincadeira de inventar planetas.

 

Mike, o cavaleiro

header (1)Pessoalmente eu curto as referências históricas, mas não gosto do pai-rei que quase nunca aparece e da mãe-rainha sempre em atividades domésticas. Para sobreviver: converse sobre outras histórias de cavaleiros/bruxas com seu filho(a).

 

Barney

barneyandfriends_4718Não tem o que fazer, não há para onde fugir, ele te persegue e vai te pegar. Única sobrevivência possível: acesse a cena do filme 9 meses em que dois pais perdem as estribeiras com o dinossauro roxo (mas esconda seu gosto tétrico das crianças).

 

 

 

 

Angelina Balerina

1107962_Angelina_Ballerina_newMenina bailarina chata e egocêntrica. Para sobreviver: anti-ácido e insulina.

 

 

 

 

Bananas de pijamas

large_size_18375000001-640x360Não é de todo ruim (o live action de anos atrás era pior), mas é preciso cuidar para não virar bulling com os outros.

 

 

 

Peixonauta

peixonauta-9505beProduto nacional, fofo, educativo e atraente. Fácil de sobreviver.

 

 

 

 

 

 

Amigãozão

Imagem__Meu_AmigaoZaoProdução brasileira-canadense. Absolutamente encantadora. fala tão fortemente à nossa criança interior que, por vezes, é preciso puxar o lencinho. Falo sério.

 

 

My little Pony

my little pony gamesEu resisti um pouco no início, O excesso de cor de rosa me deixava enjoada. O Miguel venceu minha resistência. É legal um desenho com protagonistas femininas, com personalidades diferente e contraditórias. Para os meninos é um exercício legal torcer por heroínas que não estão à procura de príncipes. Para as meninas, então… Para sobreviver: esqueça o cor de rosa, escolha sua favorita e divirta-se. (Dificuldade extra: decorar os nomes das pôneis).

 

Como não serei exaustiva, nem falarei de todos, termino com meu favorito.

Caillou

PHhTlmikpk23jq_1_mUm menino encantador descobrindo o mundo com os pais mais centrados da TV. Adoraria ser amiga dos pais do Caillou e levar nossos pequenos no mesmo parque. Difícil vai ser sobreviver sem ele, quando o Miguel deixar de assistir.