Amor? Que História é essa?

 

mão amadaA pergunta me foi feita em um programa de rádio do qual participo semanalmente*. A provocação surgiu porque, ao longo deste semestre, estarei ministrando a disciplina de História do Amor na universidade em que trabalho**. As perguntas quando se oferece uma disciplina diferente dos moldes habituais se sucedem. Não chegam a ser originais (como costumo trabalhar com recortes não usuais da História, ouça as mesmas perguntas várias vezes), mas refletem a curiosidade encantadora das pessoas, seu estranhamento (que eu acho mais encantador ainda) e o fascínio do tipo: “sério? é possível fazer isso?” Há reações negativas também, claro. Mas prefiro deixá-las de lado, pois, em sua maioria, são fruto do desconhecimento da proposta.

Resolvi fazer esta postagem para falar de Amor e responder: afinal. que história é essa? Assista o curta abaixo (clic no link) e me responda: o Amor é isso para você?

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A pequena obra-prima de Christophe Beck e John Kahrs, apesar da beleza, da poesia e de falar uma linguagem que somos capazes de reconhecer e, mesmo sem palavras, compreender, é um conto de amor datado. Por favor, não leia a palavra “datado” como algo pejorativo. A maior parte das coisas que pensamos ou consumimos são datadas, no sentido em que são parte de uma História muito maior. Uma História que antecede o que somos e pensamos e que seguirá em frente após nossa partida. Em termos humanos nada (ou quase nada) pode ser dito atemporal. Uma de nossas mais importantes características como seres humanos é o fato de que nos reinventamos a cada geração e, com isso, atualizamos os conceitos, as ideias e a forma como nos expressamos no mundo.

Isso serve para o Amor? Sim, claro. Mas o Amor é um sentimento, você dirá. Sim, é um sentimento (ou um impulso), mas é também um conceito. Um conceito que nos permite reconhecer o sentimento. Um conceito cultural, histórico e socialmente determinado, o qual acessamos na mesma medida em que somos introduzidos, ensinados e adestrados em nossa cultura-mãe. Um conceito que nos permite investigar nosso íntimo, nossa alma, nossas entranhas e saber: sim, eu estou amando.

A antropóloga física Helen Fisher

A antropóloga física Helen Fisher

É claro que se pretendermos saber se as formas de “sentir” o Amor se modificaram ao longo do tempo, se há mais ou menos intensidade neste “sentir”, estaremos entrando num beco sem saída, mesmo que com algumas janelas. Nesses termos, nosso melhor material de estudo são os poetas, os escritores, as cartas de amor, os diários. Ainda assim, sem um “amorômetro” respostas conclusivas sobre intensidade e sentimentos são em grande parte relativas. A neurobiologia, no entanto, tem avançado na compreensão de como o nosso cérebro e o nosso corpo reagem quando nós dizemos e sentimos que estamos amando. Existe, conforme os cientistas, uma fisiologia da paixão e também do Amor. É nesse sentido que estudiosos como Helen Fisher dizem que o Amor mais que um sentimento é um impulso bioquímico, um movimento do cérebro em direção à alguém, ou alguma coisa. Abaixo a palestra de Helen Fisher no TED Talks e que vale à pena em cada minuto.

Helen Fisher e o Cérebro que ama – TED Talks

É claro que estudos como este não são apenas interessantes, mas também fundamentais em nosso atual estágio civilizatório, na medida em que são ferramentas para que possamos compreender melhor quem somos. Por outro lado, que espécie de investigares seríamos se reduzíssemos tudo aos nossos impulsos biológicos? Sendo seres culturais, aprendemos a controlar, dominar e até a recalcar nossos impulsos. Alguns desses impulsos encontram explicações fáceis na biologia, adequando-se a ideias como reprodução, preservação da espécie, controle de natalidade, etc. No entanto, também a biologia é uma ciência histórica e, não raro, o que interpretamos sobre suas descobertas tem a ver com compreensões que são datadas pela História e pelo tipo de moral constituída dentro dessa História.  (Volto a sugerir aqui no blog o livro de Thomas Laqueur, Inventado o sexo: corpo e gênero dos gregos à Freud. que dá um ótimo panorama da biologia humana como uma ciência do indissociável do tempo).

Sendo assim, seria bem reducionista se acreditássemos que amamos “apenas” porque queremos reproduzir e garantir o sucesso da criação de nossos filhotes – fornecendo defesa e alimento – dando, com isso, continuidade à nossa espécie. Vários elementos desse tipo de interpretação podem ser relativizados. Vejamos: trata-se de uma racionalização do “amor”. Uma transformação de um impulso que toda a nossa cultura se moldou para afirmar “irracional”, “incontrolável”, “irrefreável”, para algo que possamos entender e domesticar aos parâmetros morais e históricos da sociedade em que vivemos. De fato, o Amor não é indissociavelmente ligado a isso: digo reprodução, crias e toda essa questão da espécie. Na verdade, historicamente faz bem pouco tempo que “precisamos” do Amor para justificar essas coisas. O Amor, aliás, nem sempre foi sequer uma justificativa necessária para o sexo (e pra muita gente ainda não é). A relação sexual pode ser um “fim” encantador para algumas histórias de amor, mas não é um fim obrigatório. Por outro lado, sexo é algo que os humanos aprenderam a fazer por diversão e não só reprodução, certo? E isso, biologicamente falando, já que, pelo menos em tese, nossos corpos estão sempre disponíveis para o sexo. Logo, o Amor pode ou não ser um componente disso.

amor caravaggioO primeiro ponto a se pensar quando se mergulha num tipo de explicação estritamente biológica é que: uma coisa é descrever o que acontece no cérebro ou no corpo, outra é definir estas explicações a partir de um ponto de vista funcionalista. Sim, amamos. Sim, nossos corpos e cérebros reagem. Agora, daí a dizer que amamos para isso ou aquilo é um tanto diferente. Nesse ponto nos voltamos para a História e a Cultura: para que amamos? E as respostas da História e a Cultura falam do Amor como um afeto vivido em sociedade ou, se preferir, em termos de relações sociais que nos afetam de diferentes formas; mas, certamente, não como uma obrigação biológica. Embora tenhamos construído o gosto por pensar no Amor como um sentimento que nos abalroa como um raio ou nos invade como um Tsunami, o Amor tem várias faces e várias formas de nos alterar e alterar as nossas relações com os outros. Tais formas, ao contrário do que gostamos de pensar, têm uma História. Tais formas se alteram no tempo, tais formas sofrem sansões, repressões e autorizações. O que quero dizer com isso? Ora, quero dizer que você pode amar tanto quanto o Romeu de Shakespeare, mas que ao invés de ir sussurrar na sacada de alguém é bem possível que você lhe mande um carro de som com música brega ou piche o muro em frente a casa do seu amor.

Não nos expressamos no Amor – como em nada – da mesma forma ao longo do tempo. De fato, alguns autores acusam nossa sociedade, fixada nos ideais do Amor Romântico, em reduzir largo o espectro do Amor. Roman Krznaric, por exemplo, volta a Grécia Antiga para encontrar pelos menos seis formas de amar:  eros, o amor sexual; Phila, o amor amizade; ludus, o carinho lúdico entre crianças ou amantes casuais; pragma, o amor maduro e o profundo conhecimento que se desenvolvem em relações duradouras; ágape, o amor altruísta estendido a todos os seres humanos, oferecidos incondicionalmente e sem expectativa de reciprocidade; e Philautia, ou o amor-próprio, que pode ser tanto negativo, manifestadas como ganância e narcisismo (depois do mito de Narciso), quanto positivo, como um alargamento nutritivo da nossa capacidade de todo o amor, a partir de dentro.

Krznaric acredita que boa parte da sensação de desamor que sentimos modernamente está no fato de querermos encontrar em um único alguém, se não todas, a maioria destas vertentes amorosas. Uma noção mítica de que ao encontrarmos nossa “alma gêmea” todas as nossas incompletudes serão saciadas.

Nós podemos navegar por essas dificuldades de amor – e aumentar as suas alegrias – segurando a importância de duas grandes tragédias da história das emoções. A primeira é que nós perdemos o conhecimento das diferentes variedades de amor que existiram no passado, especialmente os que estão familiarizados com os gregos antigos, que reconheciam que o amor poderia ser descoberto não apenas com um parceiro sexual, mas também nas amizades, entre estranhos, e com eles mesmos. A segunda tragédia é que ao longo dos últimos mil anos, essas variedades foram incorporadas uma noção mítica do amor romântico, que nos obriga a acreditar que todos eles podem ser encontrados em uma pessoa, uma alma gêmea única. Podemos escapar dos limites dessa herança, procurando por amor fora do reino de ligações românticas, e cultivando suas diversas formas.

Para Krznaric, a pergunta sobre o que é o Amor e a busca por definir sua essência é uma falsa questão. Para ele, o Amor assume diferentes formas pessoais e mesmo históricas e, como filósofo, sua resposta é que deveríamos cultivar mais essa diversidade do nos mirarmos no ideal romântico.

Como historiadora, interessa-me o Amor como ele vem sendo expresso (e impresso) ao longo da História. Como as pessoas elaboraram a leitura de seus sentimentos de acordo com os ideais amorosos de sua época? Como as sociedades usaram de seus mecanismos permissivos e repressores para autorizar determinadas formas de Amor e desautorizar outras? Como o sublime Amor dos gregos entre iguais se tornou um “amor contra a natureza”? Como a “imposição biológica” da gestação se tornou o “Amor materno incondicional”? Como o Amor virou condição para casamento? Além disso, não amamos somente pessoas: mas também coisas, atividades, trabalhos, animais. Amamos, acima de tudo, o prazer que sentimos com tudo isso. E, ainda resta perguntar: por que e para que amamos fora das relações pessoais?

Estas perguntas nortearão meu semestre com meus alunos. Acima de tudo, quero partir com eles por uma viagem que desnaturaliza o sentimento como um dado sem tempo ou espaço. Nossa viagem pretende, como fim, compreender a fragilidade das relações humanas e o Amor como seu principal amálgama. Um Amor que, no entanto, na compreensão de pensadores como Zygmunt Bauman, tende a se tornar líquido, fluido e tão cheio de vazios quanto as pessoas que dizem senti-lo.

 

* Programa de Debates Jogo de Cintura, na Antena 1 SM, das 13 às 14h – estou no time das sextas-feiras. Pode ser ouvido on line.

** Centro Universitário Franciscano, Curso de História.

 

 

 

A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells

Máquinas marcianas e seus raios de calor incendiando a Terra.

Máquinas marcianas e seus raios de calor incendiando a Terra.

Ontem, depois de algumas noites com pesadelos fugindo de marcianos, terminei minha leitura de Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. O livro era desejado há muito e o ganhei em meu último aniversário. Acho meio ridículo fazer aviso de spoilers num livro de mais de 100 anos com uma vasta filmografia e mil adaptações, mas se isso afeta você, fique sabendo que recomendo muito a leitura e pare por aqui.

A boa edição da Alfaguara, com tradução de Thelma Médici Nóbrega e Introdução de Brian Aldiss.

A boa edição da Alfaguara, com tradução de Thelma Médici Nóbrega e Introdução de Brian Aldiss.

Quando se lê um romance super icônico e altamente adaptado como este, costuma-se achar que se está prevenido. Que lerá a maioria das páginas do livro como um original de todos os clichês nos quais você cresceu imerso, seja pela TV, seja pelo cinema. Não se espera realmente surpresas. Como uma fã descarada dos escritores do século XIX e do início do XX, sempre pronta a me encantar com o muito que parece ficar escondido nas adaptações, mantenho diligentemente em minha bagagem de leitura uma visão histórica. Colocar o autor em sua época, tentar entender suas influencias e ideias conforme foram postas, ao menos, para mim, refresca a obra, a enriquece, a mantém absolutamente viva. Além disso, essa percepção me ajuda a escolher quais romances obrigarei meus alunos a lerem minha disciplina de História Contemporânea I (se algum estiver lendo esse post, já fique avisado que Guerra dos Mundos entrou na grade curricular da matéria).

Há casos, porém, em que as verdades de um bom romance extrapolam sua época, às vezes, até as intenções do autor. Então, não importa o tempo ou as adaptações, o livro será sempre uma surpresa, uma maravilha, um encontro com o prazer da leitura. Não, não acho que todo o bom romance seja imune à passagem do tempo, mas isso é assunto para outro post. Voltemos à Guerra dos Mundos.

Orson Welles e a célebre transmissão radiofônica do livro em 1938. O povo entrou em pânico e por muito tempo se achou que isso se devia à ingenuidade dos ouvintes daqueles anos. Hoje em dia, em tempos de internet, a tese da ingenuidade dos primeiros anos das mass media caiu por terra. Atire a primeira pedra quem nunca caiu numa notícia falsa da Web.

Orson Welles e a célebre transmissão radiofônica do livro em 1938. O povo entrou em pânico e por muito tempo se achou que isso se devia à ingenuidade dos ouvintes daqueles anos. Hoje em dia, em tempos de internet, a tese da ingenuidade dos primeiros anos das mass media caiu por terra. Atire a primeira pedra quem nunca caiu numa notícia falsa da Web.

Eu gostaria de destacar muitas coisas e cada uma delas guarda um universo. Ouvi muitas vezes o romance ser criticado por criar a imagem dos extraterrestres “maus”, que querem dominar a Terra e que passou a ser combatida em filmes como E.T, de S. Spielberg, e todos aqueles que imaginam de forma idealista que evolução tecnológica coincida com superioridade ética (interessante que Spielberg também dirigiu a versão mais recende de GM, aquela com Tom Cruise). Sinceramente, não foi isso que encontrei no livro, que, sim, me surpreendeu. Não vi nele nenhum marciano “mau”. Não encontrei nenhum dos clichês celebrizados pelo gênero invasão espacial, com heroicos humanos usando de planos mirabolantes e coragem suicida para livrar o planeta da destruição. Os humanos falham miseravelmente em todas as tentativas de guerra aos marcianos, que são tolas, canhestras e arrogantes. O que resta é a covardia, o medo, o desvario, egoísmo e toda a feiura humana que aparece nas situações limites. E, eu confesso, tive medo. Meus sonhos são testemunhas: tive muito medo.

Manchetes da época do programa de rádio de Orson Wells.

Manchetes da época do programa de rádio de Orson Wells.

Não é de admirar que cada leitor leia um livro diferente. Eu, por exemplo, li um livro que critica ferozmente o imperialismo, que coloca em cheque o conceito de civilização, de superioridade branca europeia e mesmo humana diante das outras espécies. Li um ensaio sobre os medos irracionais, a selvageria, a loucura. Li um ataque frontal às religiões de aparência (ou a qualquer religião, se você quiser). Li um lamento sobre os apoios ilusórios que nos são fornecidos pelas ideias de ser escolhido, eleito, especial, piedoso, abençoado. Para Wells, os marcianos não são diferentes do humanos (exceto fisicamente), assim como os humanos não diferem dos outros animais, sobre os quais exercem domínio, sem piedade, como se o planeta estive aqui unicamente para servi-los. Li críticas que acham o final previsível. Sério? O que seria não previsível? O gênio e a coragem humana derrotarem os alienígenas? O maior ataque de Wells é a própria arrogância humana. Inclusive e, especialmente, em seu desfecho, cujo trecho mais célebre, eu reproduzo abaixo.

Acontecera o que eu e muitos poderiam ter previsto se o medo e a catástrofe não tivessem cegado a nossa inteligência. As bactérias portadoras de doenças haviam castigado a humanidade e nossos ancestrais pré-humanos desde o começo dos tempos, desde que a vida começou no planeta. Mas, por virtude da seleção natural, nossa espécie desenvolveu resistência contra elas; a nenhum micróbio sucumbimos sem nos defender, e a muitos – àqueles que putrefazem a matéria morta, por exemplo – nosso organismo vivo é totalmente imune. Mas não há bactérias em Marte e, assim que os invasores chegaram, assim que começaram a comer e beber, nossos microscópicos aliados começaram a preparar a sua queda. Enquanto eu os observava, eles já estavam irremediavelmente condenados, morrendo e apodrecendo mesmo enquanto se moviam de um lugar para o outro. Era inevitável. Pelo preço de um bilhão de vidas, o homem comprara seu lugar de direito na Terra, que lhe pertence em detrimento de todos os invasores e que continuaria a pertencer-lhe ainda que os marcianos fossem dez vezes mais fortes do que eram. Pois o homem não vive nem morrem em vão. (p. 223).

 

Então, quando fechei o livro meu pensamento não foi apenas para romance perturbador e do qual realmente gostei. Veio-me imediatamente à mente aquelas horríveis propagandas que mostram criancinhas tomando banho e lavando as mãos com sabonetes bactericidas. Com aqueles pais e mães que acham que esterilizar casa, banheiros, quartos de bebês e até mesmo a pele é um índice de saúde, uma forma de proporcionar segurança e de eliminar as doenças da nossa vida. Estudei as práticas de cura por 10 anos da minha vida, destes, 4 anos foram dedicados ao estudo das epidemias. A minha compreensão de nossa interação com os microrganismos é muito semelhante à expressa acima (não me refiro a “possíveis invasões alienígenas”, mas a coisas bem terrenas). De fato, minha percepção do jogo entre nós a as micro-espécies é suficiente não apenas para que eu concorde com Wells, mas para que ache as tais propagandas potencialmente tão assustadoras quanto seu livro.

Memória do calor antes das redes

O ventilador da minha avó. Ainda lembro que fazia melhor vento que os "modernos".

O ventilador da minha avó. Ainda lembro que fazia melhor vento que os “modernos”.

Os mais jovens talvez não acreditem, mas eu lembro de já ter passado muito calor. Certo, vocês responderão com os números e os recordes históricos anunciados nos sites climatológicos e na impressa. De minha parte tenho só meu testemunho, alguns tão distantes no tempo que nem lembro o ano exato, mas como nasci em 1973, vocês podem datar a partir daí. Minha intenção não é refrescar ninguém com essas lembrança, de fato, meu inventário é pessoal. Sua única utilidade é dizer a mim mesma: já vivi e sobrevivi.

1. Na era pré-ar condicionado, na fronteira gaúcha, eu costumava ficar presa dentro de casa entre as 10h da manhã e às 4h da tarde. Lembro de sentar à porta da casa da minha avó e ter a impressão de que, se saísse para a rua, eu seria achatada pelo sol e escorreria como um tipo de manteiga de shorts e frente única.

2. Meu pai e seu melhor amigo eram técnicos da CRT, deles tenho a descrição do asfalto de Uruguaina grudando nas solas do sapato e sensações térmicas próximas aos 50°C.

3. Passei vários anos dormindo enrolada em toalhas molhadas ou com uma bacia de água ao lado da cama para me molhar durante a noite.

4. Dias desesperadores em que passávamos panos molhados nas paredes do quarto para refrescá-la.

5. No ano de 1998 tive vários desmaios por conta do calor. Em casa e na rua.

6. No verão de 1999/2000 costumava levantar da cama, entrar no chuveiro de camisola e voltar para cama sem me secar.

7. Neste mesmo verão, uma falta de luz me fez arrastar meu jovem marido numa caminhada às 5h da manhã para a casa da minha mãe (onde havia luz e ar condicionado).

8. No verão de 2006/7 em Porto Alegre, a secura do ar aliada ao calor nos fazia prender toalhas molhadas nas janelas para poder dormir. Pela manhã, elas poderiam ser quebradas ao invés de dobradas.

Pelo menos 8 momentos para lembrar que a resistência é importante e que toalhas molhadas podem ajudar, inclusive a poupar um pouco de energia. Será muito pior se o sistema entrar em colapso pelo uso abusivo de milhões de split e ventiladores. Aí, todos perdem. Fiquem bem, mas lembrem de desligar os aparelhos quando saírem sala, ok?

Como aprendi a viajar

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A conversa do “é bom viajar e melhor ainda voltar” tem sobre mim o efeito de me lembrar de duas coisas: odeio fazer/desfazer malas e simplesmente adoro a minha casa. Fora isso, amo viajar. Ver lugares diferentes é uma coisa fantástica e poucos não hão de concordar com isso. Gosto especialmente de viajar com o Guto. Ele é engraçado e sempre tem um olhar antropológico sobre as pessoas, anotando as variantes e fazendo esquemas inteligentes sobre a diversidade que encontramos.

Mas viajar também pode ser um estressante exercício de “nós e eles”. Pode gerar um monte de incômodos, pode testar nossos limites, acabar com o bom humor e, por vezes, uma coisinha tola estragar tudo. Confesso que minha tendência a ostra sempre preferiu as viagens em que os contatos interpessoais fossem mínimos. No entanto, num dado momento, as viagens ficaram mais longas e eu acabei morando longe da minha quadra o suficiente para perceber que não estava mais no Kansas e que nunca teria um cãozinho chamado Totó.

Confesso que perdi algum tempo nessa horrível obsessão sobre “nós e eles”, como se a forma dos outros agirem me causasse alguma obrigação de mudança em mim ou pior! O que poderia ser pior? Reforçar o sentimento de que MEU modo de viver é o correto, e o deles, não. Ora, quem pode viajar assim? Ou, modificando a pergunta: isso lá pode ser chamado de viajar? Quando me dei por conta disso, senti vergonha. O problema não era o mundo dos outros invadindo o meu, mas eu invadindo o mundo dos outros.

Perceber tal coisa mudou minha forma de viajar e constitui uma percepção nova sobre meu próprio eu viajante. Hoje em dia eu tenho mais ânsia por morar em lugares diferentes, conhecer seu dia-a-dia, entender os meandros de seu cotidiano a simplesmente passar e julgar num espaço de 5 ou 6 seis dias. No morar, eu me reconheço mais. No morar, eu identifico onde ficam as boas padarias. No morar, eu traço geografias e rotinas afetivas. No morar, os lugares passam a me pertencer também e eu faço do lugar estrangeiro uma parte fundamental e constitutiva de mim.

Talvez, isso venha de uma estrangeirice que assumi ainda criança. Mudei-me com 6 anos para a cidade de Santa Maria e não fui fácil nessa mudança. A cidade que eu reconhecia como minha, onde havia nascido, onde todos me conheciam, me foi arrancada na minha percepção. Lembro de me imaginar como uma planta que fora tirada da terra e levada para outro canteiro. E a imagem não pode ser melhor. Só que o que antes era horror, hoje me parece magnífico. Que extraordinário transplantar esse que te leva adiante, te faz crescer e conhecer. Como é bom estar em lugares em que ninguém te conhece ou sabe de ti. Como é bom desarmar-se do que se pensa ou imagina sobre os outros e construir novas relações. Na minha cidade, meus amiguinhos se conheciam de sempre conhecer, na nova cidade, tive de pegar minha irmã mais nova pela mão e ir até um grupo de crianças estranhas e perguntar: querem ser nossas amigas?

Alguns anos depois disse ao meu pai: eu perdi minhas raízes, agora quero ver o que há no mundo afora. Mas esse desejo era só um desejo. Aprender a viajar veio depois. Hoje, eu acho que aproveito mais as viagens e as pessoas. O que não quer dizer que goste de tudo, que tenha vontade de vivenciar realidades extremas. Apenas – e essa é a verdade que me serve – quando me disponho a viajar, vou com o coração e a mente abertos para aprender sobre os outros, mesmo que me choque, mesmo que nada tenha a ver comigo. Acima de tudo, tento navegar nesse mundo diferente e não ficar reclamando porque o mar não se comporta como eu gostaria.

Fiquei com vontade de ler este livro.

Fiquei com vontade de ler este livro.