Não podemos continuar dependendo dos homens bons

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Quem já teve seus 11 anos, ou algo em torno disso, deve lembrar que a véspera de Santo Antônio (em alguns lugares de São João também) era o dia das “provas” para saber com que se ia casar. Estão lembrados? Enfiar faca na bananeira para descobrir a primeira letra do nome do prometido e ficar imaginando se era Ivo ou Ignácio (sim, eu sempre olhava a bananeira e não a faca). Ou pingar cera derretida de uma vela branca (tinha de ser branca ou rosa) num copo de água e tentar ver ali o que se formaria, se uma letra ou um indício profissional (como um prédio, um navio, uma máquina de escrever). Era possível colocar nomes de conhecidos, interesses, possibilidades, esperanças em pequenos papeizinhos que, dobrados, eram colocados numa bacia sob o sereno*. No dia seguinte, o que abrisse… era o destino. Rodar a casca da laranja recortada inteirinha para ver se ela caía formando a 1ª letra de um nome especial. Eu queria G e sempre fazia L; minha irmã queria L e sempre fazia um G. Eu tenho um Luís e ela um Gustavo, mas acho que é só coincidência. Imagino que um inventário total dessas provas pelo Brasil resultaria num volume rechonchudo e curioso.

Na minha casa as “provas” eram uma farra. Seguiram dos 11 até os meus 17, mais ou menos. De início minha mãe nos ensinava, ou alguma tia que estivesse lá por casa. Depois, nós começamos a ensinar as primas e primos mais novos, que também se divertiam. Uma brincadeira. Ninguém levava a sério. Era um entretenimento para as noites frias de junho, com bolo, quentão, pipoca e risadas.

Estudando História e, em especial, a história das mulheres, acabei dando-me por conta que o significado dessas “provas” havia sofrido uma radical transformação. O tempo pode ter um efeito estranho sobre algumas coisas. Descaracteriza-as, ridiculariza-as ou, simplesmente, as joga na vala comum das tolices. Quase toda a chamada “sabedoria popular” ou as “crenças populares” segue esse caminho. Não farei defesa do tópico, tenho trabalhos inteiros sobre essa outra lógica publicados de forma acadêmica. O que afirmo aqui é que se engana quem vê nestas prática somente um exercício ignorante ou uma brincadeira.

As “provas” são, antes de tudo, a tradução da imensa angustia que era casar-se no passado, especialmente se você fosse uma mulher. Por passado refiro-me ao mundo que engendrou essas “provas”: o europeu, o Brasil colonial e imperial, quem sabe não vindo algo de África. O fato é, que nesses tempos, no Ocidente que nos concebeu, os casamentos eram em sua esmagadora maioria arranjados, negócio de família, casava-se à conveniência e, para as mulheres, casava-se pela sobrevivência. Casar era o destino das mulheres, assim como ter filhos. Ai daquelas que não conseguissem. Culpa delas, é claro. Não tiveram encanto para despertar interesse ou um dote capaz de tentar algum pretendente. Solteironas. Azedas. Mal-amadas. Um casamento impedia de viver da caridade alheia, dava dignidade, pertencimento, respeito. Contudo, não bastava um casamento. Era preciso, de alguma forma, assegurar que esse casamento resultasse em algum tipo de afeto e que esse afeto fosse capaz de manter essas esposas fisicamente à salvo de seus maridos. Sorte daquelas que além de casarem, casavam-se com “bons homens”, que não lhes batiam, não as humilhavam, não as violentavam.

Acabo lembrando daquelas conversas registradas na literatura, no cinema, na TV, no inconsciente coletivo, na voz de uma avó ou tia mais velha: não reclama do teu marido, ele é um homem bom. Não bebe, não joga, não é chineiro**, não bate em ti, põe dinheiro em casa. O que queres mais?

O homem bom era uma sorte. De se elevar as mãos aos céus. Como então julgar as jovens de todas as classes sociais que viam nas “provas” uma forma de tentar conhecer e, talvez, controlar esse destino? Essas moças que iam buscar junto aos santos uma segurança, uma dependência, uma possibilidade de serem brindadas com um futuro que não lhes fosse hostil e violento? É tentador dizer que a violência era comum e estava mais para regra do que para exceção. A frase “ele nunca te bateu” como elogio a um “homem bom” é tão plasmada em nossa cultura, que nos obriga a pensar na violência interna das casas e das famílias com dimensões bem diferentes das que gostaríamos de imaginar.

Por outro lado, olhando as notícias corriqueiras dos jornais, bordadas de feminicídios, ataques com ácido, agressões das mais diversas, percebemos que mesmo que as “provas” tenham caído no ridículo, a violência engendrada pela ideia de posse sobre as mulheres ainda continua firme e forte. Alguém dirá: ah, mas agora são as mulheres que escolhem. Sim, e elas apostam fortemente que estão escolhendo um “homem bom” ou tolamente num homem que irá mudar suas atitudes por amor à elas. Então, dir-me-á o interlocutor: a culpa é dela por não saberem escolher. Claro, de quem mais seria a culpa? (Estou sendo irônica).

Contudo, não repetirei esse discurso, pois o fato é que as escolhas vem menos ao caso que o ponto central dessa postagem. A imensa verdade é que não podemos continuar a depender dos “homens bons” ou da sorte em encontra-los, nem mesmo podemos continuar a depender das nossas escolhas para fugir dos abusos e maus tratos. A não violência contra as mulheres não é algo que deva passar pela “bondade” de ninguém, nem por seu caráter. Ela tem de ser uma regra, uma regra educacional. Nada da bobagem de “não se bate numa mulher nem com uma flor”. Mas da regra absoluta de que a posse de qualquer homem sobre qualquer mulher não existe, que o corpo da outra não é território conquistado, que casamento não é troca de dono, e que nenhum relacionamento dá qualquer tipo de direito que não esteja num claro acordo entre as partes.

No texto A violência contra as mulheres e os homens de bem, que saiu no Biscate Social Clube, a autora ressalta a estatística de que 40% do assassinatos de mulheres (em nível mundial) são cometidos por homens próximos a elas. Aí vem o parágrafo mais doloroso do texto:

“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Esses caminhos não são de agora. Vem de longo tempo. Infelizmente, há tanto tempo que algumas décadas não são suficientes para superá-los. É preciso uma nova educação. E temos caráter de urgência em engendrá-la. Precisamos construir um novo jeito de ensinar a ver os outros, sem desmerecer seu gênero, sem constituir o masculino como parâmetro de humanidade. Necessitamos de um novo jeito para educar as meninas (e as suas escolhas) e, principalmente, carecemos uma maneira nova, diferente, de se educar os meninos. Claro que os queremos bondosos, claro que os queremos com caráter, claro que os queremos gente do Bem. Mas, em relação às mulheres, o importante que é que eles saibam que elas não lhes pertencem, não os servem, não estão aí para enfeitar o mundo. Essa ideia fundamental que as mulheres não são prêmio nem estorvo, são gente.

 

* Sereno: orvalho em gauchez.

** Chineiro: no Rio Grande do Sul significa homem que frequenta prostíbulos ou contrata serviços semelhantes com grande frequência.

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4 comentários

  1. Muito bom,Nikelen!
    Me sinto muito mal todas as vezes que minha avó me diz: “Ta na hora de parar de estudar e arrumar um bom marido”. Não quero julga-lá, em seu tempo essa era a principal preocupação das moças.

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