Do pequeno e do infinito: Santa Maria, um ano.

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Somos pequenos. Bem pequenos. Diante do universo, do seu tamanho, seja na infinidade, seja na eternidade, o que somos? Poeira, nada mais que poeira. No entanto, há quem diga que a alma humana tem o tamanho do universo. Não se trata da alma de um único ser, mas daquela pensada e imaginada coletivamente, a que carrega toda a nossa arte, nossa criatividade, genialidade, capacidade construtora, nosso bem, nossa imaginação, nosso mal como espelho do que recusamos. Somos grandes como humanidade, como parte da História que nos persegue e nos constrói. Mas somos desprezíveis como indivíduos.

Ainda assim, cada minúsculo indivíduo carrega em si espaços e tempos infinitos. O corpo é só a ponta desse iceberg fantástico, e somos lá, sozinhos, o último floco de gelo. Indissociável. Único. Em cada humano no planeta, há um universo inteiro. Há o que ele é, o que acredita que é, o que crê que o mundo é e como o explica, o que imagina que os outros são e como interage com eles. Há também o que os humanos sabem e o peso enorme que carregam de seus desconhecimentos, de suas perguntas, de suas dúvidas.

Somos pequenos, nós humanos. Ainda assim, não raro nos sentimos como potes transbordantes. Incapazes de conter em nós todos os sentimentos que somos capazes de ter. Transbordamos de alegria, extasiamos de felicidades, nos consumimos em tristeza, podemos andar pelo mundo com nosso nome modificado para a palavra “dor”.

Somos seres de construção e de perda. Investimos e apostamos alto. E perdemos. Sempre perdemos. Não, não há culpas. É a natureza do tempo. E, nós, tão pequenos, somos seres no tempo, suspiros ao longo da eternidade. Não vai restar nada de nós, é fato. E, por isso, sempre perdemos.

No entanto, essa coisa coletiva, que se pode chamar de alma, de experiência, de natureza humana, essa sempre ganha, se enriquece, se fortalece.

Nada pode devolver os 242 jovens que minha cidade, ainda triste, perdeu. Nem mesmo a justiça feita. O universo pode nem ter percebido, mas 242 infinitos se foram naquela noite. Tanto foi investido neles: carinho, amor, orgulho, futuro. Tanto apostado e sonhado para cada um deles. E perdemos. Como sempre, perdemos. Ainda assim, mesmo se soubéssemos, mesmo se tudo estivesse traçado, abriríamos mão deles? Por conta de toda a dor, para nos pouparmos desse luto, dessa tristeza: abriríamos mão de tê-los conosco? Dispensaríamos os seus sorrisos, alegrias, gritos de raiva, desobediências, notas baixas, noites de DVD de mãos dadas, pizzas fora de hora e água tomada no bico da garrafa. Abriríamos mão da felicidade para não sentir dor?

Não sei qual seria a reposta dos pais, amigos e amores dos 242 universos perdidos, mas eu intuo que seria: não, não abriríamos mão. Um universo perdido é muito melhor do que um que nunca existiu. Pequeno e infinito. Colossal e efêmero.

 

 

Virginia Woolf, Peter Walsh e a Mrs. Dalloway de cada um

Hoje é aniversário de Virginia Woolf. Como estou afundada em outra escrita, fico devendo algo novo essa escritora que frequenta meu primeiro círculo de amores profundos. Republico um pequeno artigo escrito em 2012 e publicado pelo portal Sul21, em 17 de março daquele ano. 

 

Mrs. Dalloway tem quase tantos adoradores quanto Virgínia Woolf. Talvez, até mais. Algo nas palavras cuidadosamente pensadas de sua autora parece mexer profundamente com as pessoas que leem este romance. A beleza poética de cada parágrafo desliza na mente, fala ao que não nos é visível, sensibiliza. De fato, não é uma prosa completamente ligada ao consciente, especialmente nas passagens entre um e outro personagem. Nestas, há uma espécie de cortina, ora de fogo, ora de água, ora de fumaça, que fortalece ou suaviza o impacto de mudar de um fluxo de consciência a outro.

É certo que cada leitor há de constituir sua própria Mrs. Dalloway, bem como sua própria Virginia Woolf. A autora, para muitos, parece ela própria convertida em personagem, dentro e fora de sua obra. As semelhanças entre a trajetória da escritora e o livro publicado em 1925 sugerem a muitos leitores um acesso direto ao personagem oculto que é a narradora-escritora. Esta percepção é tão corrente e aceita que rendeu o romance As Horas (depois convertido em filme) que se utiliza do primeiro título pensado por Virginia para seu romance.

Nicole Kidman no filme As Horas | Foto: Divulgação

Não vi o filme oscarizado, nem li o romance que lhe deu origem. De fato, não quis ler nada que me dissesse sobre o que tratava Mrs. Dalloway antes de ler o livro. Terminada a leitura, procurei algumas resenhas no Google sem muito afinco. A maioria ressaltou pontos muito semelhantes. Devo ter parado minhas buscas no terceiro site que entrei. Bem claro que o primeiro foi a Wikipedia, mas incomodou-me que as resenhas de Mrs. Dalloway fossem tão semelhantes — era como se houvesse um protocolo sobre o que devesse ser dito a respeito do livro. As resenhas ressaltavam o estilo, o uso do fluxo de consciência, as similaridades com a autora, a questão da superficialidade da vida em sociedade, o suicídio (não a angústia ou a depressão), as similaridades com a vida da autora, as relações homossexuais, a passagem do tempo, a frivolidade das horas mortas do dia e… já falei que eles comentam muito sobre a similaridade do romance com a vida da autora?

Deixarei de lado o protocolo, não por sua falta de interesse, apenas porque já se falou sobre isso. Ficarei com as coisas que me chamaram a atenção e até com parágrafos que me marcaram fortemente. Então, caso você não tenha lido e não goste de saber a história antes de fazê-lo, abandone este texto neste ponto, vá ler o livro – que recomendo fortemente – e, depois, se lhe aprover, retorne.

Virginia: uma feminista na alta classe inglesa

Começo com a história de amor e, obviamente, com Peter Walsh. Apaixonei-me por Peter à primeira vista e odiei Clarissa Dalloway no mesmo parágrafo. Que orgulho tolo fê-la perdê-lo. Mesmo sem nunca ter retribuído seu amor na mesma intensidade, Peter não é um homem a ser desperdiçado sem dor. E Clarissa, no fundo, lamenta. Porém, Clarissa é uma inglesa, diz o romance, mas não só. Ela é da alta classe inglesa, e esta não é uma alta classe qualquer, é aquela forjada pelo Império; cheia de mesuras e auto-importância que somente a mais forte das contenções pode manter. Uma contenção que Peter Walsh não tem. Aos 52 anos, ele ainda chora o amor perdido aos 20 e a filha que poderia ser sua. É um cavalheiro que se coloca a resgatar uma jovem de um casamento infeliz e assumir seus filhos (com os ganhos disso, obviamente), porém, não tem carreira, emprego, ou qualquer das coisas respeitáveis que Clarissa tanto valoriza. Mesmo com toda a angústia que cada hora do longo dia de reminiscências vai lhe causando, o fato é que Clarissa adora ser Mrs. Dalloway. Ela não consegue imaginar-se como Mrs. Walsh, mesmo sabendo que isso poderia significar ser mais feliz.

Na casa dos 50 anos, os protagonistas avaliam as vidas, mas, fazem mais que isso. Eles lutam contra um sentimento de juventude que insiste em acompanhá-los, juntamente com esta percepção – nova para eles – que estão velhos e já dobram o cabo dos bons dias. Clarissa se angustia com as horas vazias dos dias enquanto mergulha nas preocupações fúteis de uma dama de sociedade. Peter se angustia por precisar de um lugar para envelhecer, porém, o lugar que ele quer é, e será sempre, Clarissa.

Duas coisas aí me chamaram a atenção. A primeira é o fato de Clarissa estar num espectro que me recordou passagens de Um teto todo seu. Ela é a mulher apagada pelo casamento. Sua maturidade é uma mescla do que ela poderia ter sido, do que perdeu e do que ela mantém. Permanece adorável a todos, perfeita nos gestos de grande dama, mas os que a conheceram no passado sabem que isto não é mais que uma pálida marionete da apaixonante Clarissa dos tempos idos. Este casamento que a consome é uma morte em vida, foi o que me pareceu ver Woolf repetir em ideia e exemplo nestes dois livros. O casamento, porém, atua diferente sobre os homens. Richard Dalloway (que protagoniza um delicioso momento intertextual do livro) melhora. Peter, a quem o casamento não ocorreu, permanece. Hugh Witbread desenvolve o resto de sua personalidade sebosa, nojenta e lambedora de botas, vivendo em torno de uma mulher sempre doentia ou (entrevê-se) sempre em fuga da vida medíocre com o marido.

Gabriel García Márquez: reverente à escritora que mais o influenciou

O segundo ponto foi a lembrança de que Gabriel García Márquez credita a Woolf uma de suas fortes influências literárias. De imediato Florentino Ariza, Fermina Daza e seus 50 anos de amor e espera me vieram à mente. A associação pode ser só minha, mas senti-me, novamente, próxima de O Amor nos tempos do Cólera.

A outra história de amor de Clarissa, entre ela e Sally Seton é bastante comentada por quem lê o livro, mas de novo fico a pensar se o motivo deste interesse é o livro ou a vida da autora. No romance, Sally e Clarissa se enamoram, beijam-se, mas jamais parecem pensar em tornar aquilo claro ou público. Clarissa não perderia sua posição, nem por Sally. E Sally acaba, com o passar dos anos, tornando-se mais próxima de Clarissa (mesmo que não de forma física). Ela se casa, tem cinco filhos e o sucesso financeiro do marido vindo das classes baixas (o que a orgulha, mas o empana para os senhores do Império) faz dela uma lady. Peter quase não acredita: a cáustica e contestadora Sally, uma lady, e, pior de tudo, confortável no papel.

A presença do Império na Índia: subjacente a toda conversa

A questão do Império é bem presente no livro, subjaz a tudo e a todas as vidas. A Índia parece mais próxima que a Irlanda ou a Escócia. É como se ocupasse o lugar que estas ocuparam no passado. A Índia preocupa. Está nas conversas, nas chegadas, nas partidas, nos estudantes de pele azeitonada quem vem aprender com os ingleses o que é civilização. A Índia circula por cartas e é o assunto a se puxar com o Primeiro Ministro. O Império é algo perene da primeira a última página. Está no carro oficial que abre o livro e na empáfia dos personagens: eles têm um rei, que é o imperador de terras além da imaginação. Todos partilham disso em maior ou menor grau. Os personagens de Woolf navegam nesta corrente e se deixam deslumbrar por ela, menos, claro, Peter Walsh. Ele viveu na Índia, ele sabe o que é o Império para além de seu esplendor. Não, o admirável Peter não se engana com as pompas imperiais inglesas e sua tola importância.

Assim como o Império, também a Primeira Guerra é uma presença. Ela acompanha um personagem paralelo a Clarissa, Septimus Warren Smith, o jovem veterano. Traumatizado, deprimido, afundando lentamente na loucura, ele se culpa. Ora pela morte de um amigo no conflito, ora pelo intempestivo casamento com uma jovem italiana e o sofrimento que agora causa nela. Rezia, a esposa, sofre a loucura do marido e o expatriamento. Ela é e será sempre uma estrangeira, o que aumenta sua solidão de forma quase insuportável, enquanto, desesperada, ela tenta inutilmente salvar o homem que ama. Mas, perde-o. Primeiro para a doença, depois para os médicos e, por fim, para a memória da guerra mais traumática do século XX (até, claro, virem as outras).

Woolf dois anos antes da publicalção de Mrs. Dalloway

Os médicos merecem um capítulo à parte. São detestáveis tanto aos doentes, quanto aos seus cuidadores, e até pelos que os conhecem de passagem. Os médicos, ao menos na figura de Sir Willian Bradshaw, são aqueles que roubam o poder que cada um tem sobre si mesmo, usurpam as decisões sobre nosso corpo e mente. Em suma, eles têm poder demais e são odiosos por isso.

O feminino é também uma questão cara ao livro, mesmo que isso seja feito na forma determinadamente não militante de Virginia. Sally Seton não é, nem de longe, a única mulher com quem as relações de Clarissa geram tensões (para o bem ou para o mal). Temos a ama de sua filha, a pobre (e isso é um defeito quase pessoal) e raivosa Miss Killman. Clarissa a acusa constantemente de ter-lhe roubado a filha, mas não é apenas isso. O ódio que se estabelece entre essas duas mulheres é mais profundo. A Clarissa chega a ser vital. E ela reconhece isso. Em seu ódio por Miss Kilman, ela se sente viva, pronta a fazer algo, ela ferve! Nas relações superficiais e teatrais de sua vida, Miss Kilman é seu oásis de Verdade. Ali, no ódio por aquela mulher, no enfrentamento, Clarissa existe, é real. É a velha (jovem) Clarissa novamente.

Já Miss Kilman tem um ódio de classe, um ódio de gênero, um ódio religiosamente alimentado por Clarissa, que é tudo que ela não é e aprendeu a detestar por lhe ser inalcançável.

Amargurada e raivosa, Miss Kilman entrara numa igreja, fazia agora um ano e três meses. Ouvira o sermão do reverendo Whittaker; cantavam os meninos do coro; vira apagarem-se as luzes solenes; e fosse a música ou as vozes (ela própria, quando sozinha, à noite, achava consolo no violino; era o som mais lastimável que tinha ouvido), o certo é que os iracundos sentimentos que lhe fervilhavam no íntimo se haviam apaziguado quando sentara, e tinha chorado copiosamente, e fora visitar Mr. Wittaker em sua residência particular, em Kensington. Era a mão de Deus, disse-lhe ele. O Senhor havia lhe mostrado o caminho. De modo que agora, quando lhe vinham aqueles exaltados e penosos sentimentos, aquele ódio à Mrs. Dalloway, aquele rancor contra o mundo, ela pensava em Deus. (p.118).

Woolf, presente nos muros ingleses | Foto: Brocco Lee

Elisabeth Dalloway também atormenta Clarissa. Ao observar a passagem de criança a moça, a protagonista se surpreende em não ver-se em nada na filha e se depara com uma estranha. Elisabeth é adorável, bela, mas não é uma versão do que sua mãe foi no passado. A jovem é silenciosa, fechada, e faz escolhas que a mãe não compreende. Prefere o campo e os animais à vida frívola de Londres e, mágoa das mágoas, escolhe Miss Kilman (como todos os seus defeitos) como companheira.

A última das contendoras (não que Virginia não nos faça perceber outras, sentadas nos cantos da sala de Clarissa) é a velha Lady Bruton. É certo que as duas não se suportam, mas se respeitam. No fundo, Lady Bruton é, de alguma forma, o que Clarissa gostaria de ser. Uma grande dama, mas também uma mulher influente, capaz de conversar assuntos “de homens”, aconselhar-se com eles, tendo até a deferência do Primeiro Ministro. Lady Bruton não tolera Clarissa, e parece ser a única a não se deixar enganar pelas fachadas da outra, mesmo sem ter isso tão claro. De qualquer forma, a velha lady a teme.

Woolf, consertando vestidos no entre-guerras?

A uma historiadora ainda chamam atenção momentos como o que Clarissa (rica, burguesa e cheia de empregados) conserta, ela própria, um vestido já usado anteriormente para sua grande festa. Em tempos de consumismo desenfreado, como o nosso, a imagem causa um deslocamento no tempo. Se, por um lado, vemos uma educação feminina persistente mesmo nas altas classes, por outro lado, o pós-guerra, por tantos descrito como uma era propícia ao esbanjamento, se revela, neste mísero detalhe. O grande Império não passara impune pela Guerra Mundial que devastara a Europa.

Também marcou-me uma frase, dita a Elisabeth: “todas as profissões estão franqueadas às mulheres de sua geração.” A frase é uma novidade, impensável na geração anterior. Mas também é uma mentira e Virginia sabe disso. As mulheres podem formar-se, em 1925, no que quiserem, mas exercer uma profissão é apenas para aquelas que não escolhem (ou são empurradas para) o casamento, seja o de fachada, seja o por amor. Os casamentos superficiais sugam e murcham as mulheres. Os por amor acabam por destruir tudo o que tocam. É o que pensa Mrs. Dalloway, presa ao primeiro e eternamente fugindo do segundo. Talvez, olhando com atenção, se possa ver Virginia Woolf escondida atrás dela.

WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. Trad. Mario Quintana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Pip e nossa época de Grandes Esperanças

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Não se mede um livro pelo tempo que se leva para lê-lo. O tempo dos livros é uma coisa única, intransferível; envolve o leitor da mesma forma que um relacionamento a um amante. Em alguns casos é arroubo, em outros, amor secreto. Eu costumo ter brigas e nunca mais com alguns livros; depois, sinto saudade, banco a mulher de malandro e volto. Outras vezes, eu preciso de distância, de respiro, e também daquela melancolia que as dores profundas, dos amores insondáveis, causam.

Foram seis meses para completar a releitura de Grandes Esperanças, de Charles Dickens. A edição da Companhia das Letras/Penguin está excelente. A tradução do Paulo Henrique Brito é rica, encantadora e especialmente hábil nas construções das variantes das linguagens populares inglesas do século XIX. A introdução feita pelo Professor David Trotter é um complemento extraordinário (embora, acredito, deva ser lida depois do romance). Então, por que seis meses para completar a leitura? Minhas desculpas são inúmeras: excesso de trabalho, exaustão mental, filho que dorme tarde, filho que acorda cedo, coisas para escrever, exigências profissionais de leitura, etc. Dá para escolher uma ou somar todas. Tanto faz. Há uma outra categoria de desculpas também: o romance é grande e cheio de notas (eu leio as notas); precisa ser degustado, seja na forma de sua escrita, seja na sua ambientação (tão cara ao meu eu historiadora).

Poderia ser tudo isso, e foi tudo isso. Mas houve também algo que só compreendi quando reencontrei Pip em meados de dezembro. Um incômodo, um mal estar, um reconhecimento que me jogou de volta à minha primeira leitura de Grandes Esperanças. O volume pesadão de Dickens ficou tantos meses fechado à minha cabeceira, agora eu sei, não só pelas minhas desculpas grandes ou pequenas, mas por conta desse reconhecimento. Por conta do Pip e do quanto eu não sabia da relação que eu tinha com ele.

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Esta não é uma postagem de resenha, apenas de impressões gerais sobre o livro. É fruto de uma leitura pessoal e, se você estiver buscando na postagem algum guia de leitura, talvez seja melhor parar por aqui. Aos que seguirem, gostaria de explicar as circunstâncias de minha releitura.

Sempre narro que cresci com muitos livros e que meus pais eram leitores. Mas a realidade foi menos romântica do que a frase sugere. Meus pais eram leitores sim, mas meu pai era leitor de pulp: espaçonaves, cowboys, coisas assim. Minha mãe sempre preferiu os livros de filosofia religiosa, auto-ajuda e outros do gênero. Eu, bem, eu lia até bula de remédio. Nenhum deles me guiou a qualquer tipo de leitura ou orientou na escolha das edições ou dos clássicos. Além disso, como a maioria das crianças e adolescentes, eu desconfiava das indicações escolares, quase nunca as seguia. Meu maior indicador de leituras era aquela lista de publicações que as editoras colocavam no fim do livros. Foi assim que cheguei numa coleção da Ediouro que recontava clássicos para juventude. Esse foi meu primeiro contato com Dickens e seu David Copperfield, depois Oliver Twist e, por fim, Grandes Esperanças. Devia ter em torno de 12 ou 13 anos. Assim, tenho passado alguns bons momentos de minha vida adulta a reler estas obras, agora, na sua forma completa, em alguns casos, até na língua original.

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Recordo isso porque, por mais que eu nunca tenha cessado de expressar minha admiração por Dickens – a qual sempre esteve ligada a minha irrecuperável tendência para a esquerda – o fato é que eu não tinha a dimensão do impacto do escritor inglês na minha formação literária. Veja, estou falando de textos que eram recontados, adaptados por bons escritores brasileiros, não das construções originais. Ainda assim, quem sou eu para, por conta disso, diminuir a força de uma grande história. Charles Dickens me orientou em direção ao século XIX, à história e ao desconfortos de viver em nossa civilização. De seus personagens emblemáticos, talvez Pip seja aquele que mais me tenha falado.

Pip é minúsculo. Um herói mesquinho. Sua história, porém, traz em seu âmago o desconforto que os últimos dois séculos de igualdade jurídica nos legaram. Pip sofre da mais absoluta sensação de inadequação. Quando pobre, criado pela irmã e pelo cunhado, ele se vê como alguém inadequado por ter sobrevivido aos pais, por nunca saber expressar corretamente a gratidão que esperam dele, por ser criança e sentir como criança num mundo de adultos. Quando é escolhido para ser o brinquedo de Estella e da Sra. Havishaw, ele passa a sofrer pela inadequação de suas roupas e modos para um mundo que ele pressente ser maior. Então, tudo o que o cerca torna-se pequeno, desprezível, porque todas as coisas que o formam o fazem pequeno e desprezível. Nesse olhar desabonador, está também a percepção de ser muito mais do que o destino se encarregou de lhe legar. Logo, a angustia de Pip é que ele nunca será o bastante para si mesmo. Todos são iguais, professa a lei, mas o que seria alcançar essa igualdade? Para Pip, essa igualdade só começaria quando ele pudesse ser superior a si mesmo e a todas as suas circunstâncias.

As grandes esperanças não são apenas de Pip, que aguarda que a vida melhore por conta de alguma fada madrinha que venha destacá-lo, reconhecer o valor intrínseco que só ele vê em si mesmo. As grandes esperanças são destes séculos novos – o XIX e o XX – que vieram a convencer-nos de que nunca, por mais que façamos, somos o suficiente para nós mesmos. Dickens não traçou apenas um retrato vivo do mundo industrial e capitalista, através de Pip ele foi até a alma das pessoas nascidas desse tempo. Eternamente inconformadas; presas a desejos inatingíveis; carregando, como as bolas de ferro dos forçados, essa insustentável sensação de inadequação ao que a existência lhes apresenta como dado. As ambições de ascensão de Pip são, por conta disso, mesquinhas, egoístas, materiais. Não são diferentes daquelas com que nos confrontamos todos os dias. Pip redecora dezenas de vezes os seus aposentos; Pip deslumbra-se com suas roupas de cavalheiro; Pip sente-se muito dono de si por poder pagar pelo que quer. Usando uma frase ao gosto das redes sociais: todos somos Pip. E também somos Estella, com todo o nosso alto conceito sobre nós mesmos e todas as más escolhas. E somos Sra. Havishaw e seu culto ao passado e aos rancores com o mundo em constante transformação.

Eu poderia falar ainda da romantização do velho Joe, essa pedra angular do romance. Pedra porque imutável, contendo em si toda a simplicidade e decência dos que aceitam o que são e, não nos enganemos, essa é uma virtude que Charles Dickens admira.

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Eu poderia falar da Sra. Havishaw que, para mim, continua a ser uma das mais atordoantes imagens literárias já criadas. O que essa noiva velha, em seu vestido decrépito. ao lado de seu bolo de casamento podre, causa em mim não é menor do que causou quando eu tinha 12 anos. Fantasmagórica e amedrontadora, para mim, ela sempre será uma imagem de pesadelo.

Ainda há Estella e Bidi e o fato de eu nunca ter conseguido simpatizar com nenhuma das duas. Não gosto também do exercício vingativo (me aproprio da interpretação do Prof. Trotten aqui) no destino de Estella ou das recompensas a Bidi, mas não interprete isso como uma crítica ao romance, são reações. As minhas reações ao romance. Sou tão somente a velhinha no fim da fila, a que houve a história e se escandaliza com seus rumos.

Mas, de todos, eu sei, foi Pip que me fez estagnar na leitura. Pip, esse espelho incomodo que Dickens levanta aos seus leitores. Esse garoto cheio de esperanças que envolvem o reconhecimento dos outros e não seus próprios esforços. Esse menino ambicioso, eternamente incompleto, buscando na matéria uma aceitação que não encontra em si. Pip é filho e pai da época que gestou nosso mundo. Sua inadequação e insatisfação são as nossas. Por isso é tão difícil lidar com Pip, e com a melancolia que acompanha o estar com ele.

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Não podemos continuar dependendo dos homens bons

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Quem já teve seus 11 anos, ou algo em torno disso, deve lembrar que a véspera de Santo Antônio (em alguns lugares de São João também) era o dia das “provas” para saber com que se ia casar. Estão lembrados? Enfiar faca na bananeira para descobrir a primeira letra do nome do prometido e ficar imaginando se era Ivo ou Ignácio (sim, eu sempre olhava a bananeira e não a faca). Ou pingar cera derretida de uma vela branca (tinha de ser branca ou rosa) num copo de água e tentar ver ali o que se formaria, se uma letra ou um indício profissional (como um prédio, um navio, uma máquina de escrever). Era possível colocar nomes de conhecidos, interesses, possibilidades, esperanças em pequenos papeizinhos que, dobrados, eram colocados numa bacia sob o sereno*. No dia seguinte, o que abrisse… era o destino. Rodar a casca da laranja recortada inteirinha para ver se ela caía formando a 1ª letra de um nome especial. Eu queria G e sempre fazia L; minha irmã queria L e sempre fazia um G. Eu tenho um Luís e ela um Gustavo, mas acho que é só coincidência. Imagino que um inventário total dessas provas pelo Brasil resultaria num volume rechonchudo e curioso.

Na minha casa as “provas” eram uma farra. Seguiram dos 11 até os meus 17, mais ou menos. De início minha mãe nos ensinava, ou alguma tia que estivesse lá por casa. Depois, nós começamos a ensinar as primas e primos mais novos, que também se divertiam. Uma brincadeira. Ninguém levava a sério. Era um entretenimento para as noites frias de junho, com bolo, quentão, pipoca e risadas.

Estudando História e, em especial, a história das mulheres, acabei dando-me por conta que o significado dessas “provas” havia sofrido uma radical transformação. O tempo pode ter um efeito estranho sobre algumas coisas. Descaracteriza-as, ridiculariza-as ou, simplesmente, as joga na vala comum das tolices. Quase toda a chamada “sabedoria popular” ou as “crenças populares” segue esse caminho. Não farei defesa do tópico, tenho trabalhos inteiros sobre essa outra lógica publicados de forma acadêmica. O que afirmo aqui é que se engana quem vê nestas prática somente um exercício ignorante ou uma brincadeira.

As “provas” são, antes de tudo, a tradução da imensa angustia que era casar-se no passado, especialmente se você fosse uma mulher. Por passado refiro-me ao mundo que engendrou essas “provas”: o europeu, o Brasil colonial e imperial, quem sabe não vindo algo de África. O fato é, que nesses tempos, no Ocidente que nos concebeu, os casamentos eram em sua esmagadora maioria arranjados, negócio de família, casava-se à conveniência e, para as mulheres, casava-se pela sobrevivência. Casar era o destino das mulheres, assim como ter filhos. Ai daquelas que não conseguissem. Culpa delas, é claro. Não tiveram encanto para despertar interesse ou um dote capaz de tentar algum pretendente. Solteironas. Azedas. Mal-amadas. Um casamento impedia de viver da caridade alheia, dava dignidade, pertencimento, respeito. Contudo, não bastava um casamento. Era preciso, de alguma forma, assegurar que esse casamento resultasse em algum tipo de afeto e que esse afeto fosse capaz de manter essas esposas fisicamente à salvo de seus maridos. Sorte daquelas que além de casarem, casavam-se com “bons homens”, que não lhes batiam, não as humilhavam, não as violentavam.

Acabo lembrando daquelas conversas registradas na literatura, no cinema, na TV, no inconsciente coletivo, na voz de uma avó ou tia mais velha: não reclama do teu marido, ele é um homem bom. Não bebe, não joga, não é chineiro**, não bate em ti, põe dinheiro em casa. O que queres mais?

O homem bom era uma sorte. De se elevar as mãos aos céus. Como então julgar as jovens de todas as classes sociais que viam nas “provas” uma forma de tentar conhecer e, talvez, controlar esse destino? Essas moças que iam buscar junto aos santos uma segurança, uma dependência, uma possibilidade de serem brindadas com um futuro que não lhes fosse hostil e violento? É tentador dizer que a violência era comum e estava mais para regra do que para exceção. A frase “ele nunca te bateu” como elogio a um “homem bom” é tão plasmada em nossa cultura, que nos obriga a pensar na violência interna das casas e das famílias com dimensões bem diferentes das que gostaríamos de imaginar.

Por outro lado, olhando as notícias corriqueiras dos jornais, bordadas de feminicídios, ataques com ácido, agressões das mais diversas, percebemos que mesmo que as “provas” tenham caído no ridículo, a violência engendrada pela ideia de posse sobre as mulheres ainda continua firme e forte. Alguém dirá: ah, mas agora são as mulheres que escolhem. Sim, e elas apostam fortemente que estão escolhendo um “homem bom” ou tolamente num homem que irá mudar suas atitudes por amor à elas. Então, dir-me-á o interlocutor: a culpa é dela por não saberem escolher. Claro, de quem mais seria a culpa? (Estou sendo irônica).

Contudo, não repetirei esse discurso, pois o fato é que as escolhas vem menos ao caso que o ponto central dessa postagem. A imensa verdade é que não podemos continuar a depender dos “homens bons” ou da sorte em encontra-los, nem mesmo podemos continuar a depender das nossas escolhas para fugir dos abusos e maus tratos. A não violência contra as mulheres não é algo que deva passar pela “bondade” de ninguém, nem por seu caráter. Ela tem de ser uma regra, uma regra educacional. Nada da bobagem de “não se bate numa mulher nem com uma flor”. Mas da regra absoluta de que a posse de qualquer homem sobre qualquer mulher não existe, que o corpo da outra não é território conquistado, que casamento não é troca de dono, e que nenhum relacionamento dá qualquer tipo de direito que não esteja num claro acordo entre as partes.

No texto A violência contra as mulheres e os homens de bem, que saiu no Biscate Social Clube, a autora ressalta a estatística de que 40% do assassinatos de mulheres (em nível mundial) são cometidos por homens próximos a elas. Aí vem o parágrafo mais doloroso do texto:

“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Esses caminhos não são de agora. Vem de longo tempo. Infelizmente, há tanto tempo que algumas décadas não são suficientes para superá-los. É preciso uma nova educação. E temos caráter de urgência em engendrá-la. Precisamos construir um novo jeito de ensinar a ver os outros, sem desmerecer seu gênero, sem constituir o masculino como parâmetro de humanidade. Necessitamos de um novo jeito para educar as meninas (e as suas escolhas) e, principalmente, carecemos uma maneira nova, diferente, de se educar os meninos. Claro que os queremos bondosos, claro que os queremos com caráter, claro que os queremos gente do Bem. Mas, em relação às mulheres, o importante que é que eles saibam que elas não lhes pertencem, não os servem, não estão aí para enfeitar o mundo. Essa ideia fundamental que as mulheres não são prêmio nem estorvo, são gente.

 

* Sereno: orvalho em gauchez.

** Chineiro: no Rio Grande do Sul significa homem que frequenta prostíbulos ou contrata serviços semelhantes com grande frequência.

As bibliotecas e o paraíso

anatomia de uma leitora

Minha relação com os livros nunca teve nome. Jamais imaginei que pudesse haver um nome específico. Sou uma leitora, ponto. Desde quando? Mal sei. Não brinco quando digo que lia antes de saber ler e que minha maior ambição na infância era ler um livro todo sem figurinhas. Usei imensamente a biblioteca da escola. Minhas fichas de retirada foram grampeadas apenas uma vez, depois, a bibliotecária passou a usar um clips por conveniência. Não fui instruída nem pela escola, nem pela família a utilizar a biblioteca pública. De fato, só depois de adulta vim saber de sua existência. Por felicidade, meus pais acreditavam que, para livros, não se devia fazer economia. Assim passei a adquirir os que não encontrava na biblioteca ou os que eu retirava em demasia (comprei O Conde de Monte Cristo após tê-lo retirado 18 vezes no ano dos meus 12 anos). Sempre preferi ganhar livros de aniversário. Nunca fiz coleções, a não ser de livros. O resultado é que, por volta de meus 17 anos, eu tinha em torno de 400 livros MEUS. Digo meus por não serem partilhados com ninguém. Não eram livros que meus pais lessem e minha irmã, sendo disléxica, só se tornou a leitora que é hoje, bem mais tarde.

Casei aos 24 anos em comunhão de livros (eu com meus quase 500 e ele com 50, ou seja, fui vítima de um tremendo golpe da estante, mas o cara é bonito e me passou a conversa). Somos meios compulsivos, mas não excessivamente apegados (fazemos doações anuais do que já perdeu o interesse). Temos gostos que se confundem, outros que correm quilômetros em diferença. Como trabalhamos na mesma área, os livros de história são instrumentos de trabalho. Como somos escritores, os de literatura também. Temos uma biblioteca considerável, mas não absurda para nossas atividades. É uma biblioteca de leitura, de trabalho, nenhum livro fica nela para bonito. Invariavelmente todos são ou serão consultados (mesmo que não inteiramente lidos) em algum momento. De qualquer forma, somos esse tipo de gente que pensa qualquer mudança levando os livros. Pensa a casa tomando em conta os livros. Pensa a economia doméstica tendo em conta o que vai adquirir em livros. De fato, raramente achamos um livro caro (o que coloca o resto da economia doméstica sempre em segundo plano). Gostamos de comprá-los, porque os imaginamos úteis, sempre. Faltam roupas, mas não livros novos (ou de segunda mão). Não somos viciados em edições X ou Y (embora eu venha ficando cada vez mais criteriosa com as traduções). Não fazemos loucuras. E não nos achamos melhores do que ninguém por conta disso. Vivemos assim, simplesmente. É um estilo de vida.

Talvez, por sermos tão parecidos, jamais pensamos em dar um nome a isso. A ideia de que, de fato, não conseguimos viver sem estarmos cercados por uma biblioteca é tão natural que se, por algum funesto acaso, a nossa sumisse (bate na madeira), em poucos anos a reconstruiríamos, comprando novos e volumes ou os mesmos (daqueles mais amados e/ou necessários). Aliás, comprar duas vezes o mesmo livro não é incomum. Emprestamos, esquecemos, ou os livros não voltam ou (suprema agressão) voltam detonados. Ontem mesmo re-comprei um que acho que será fundamental para meu novo romance e que não consigo lembrar para quem eu emprestei.

Por outro lado, eu costumo achar, como uma espécie de jogador com crenças transcendentes, que há livros que me chamam, que me abordam e que, mesmo que eu não saiba, um dia me servirão. Aconteceu com A História Continua, do Georges Duby, e com tantos outros que nem consigo lembrar. Outros livros aparecem pra mim como aquele tipo de encontro amoroso de comédia romântica. De repente nos olhamos e… o tempo se suspende e… só existe nós dois e, claro, o caixa, em que eu passo para pagá-lo.

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Foi assim com minha primeira leitura terminada em 2014. O livro é Fantasmas na bibliotecaA arte de viver entre livros, de Jacques Bonnet. Estava na Athena Livraria em Santa Maria, ainda em seu endereço antigo, conversando agradavelmente com a proprietária Daniela Kliemman e, de repente, o livro branco saltou nos meus olhos. O título era fabuloso, os livrinhos antigos sobre o fundo claro, atraentes demais. Quase perdi a conversa. Havíamos prometido não comprar mais livros, mas vá… era dia do Livro (um dos vários que se vê comemorado nas redes sociais) e eu não tinha dado nenhum livro para o Guto. Shame on me. Comprei, claro. Fingi que li a orelha, fingi que li a parte de trás do livro. Eu queria o livro e nada poderia me convencer mais a comprá-lo do que isso. Como não ter aquele título entre meu livros sobre leitura e História da Leitura?

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Para os leitores contumazes não é incomum encontrar-se em um livro (eu mesma tenho vivido alguns encontros bem reveladores), mas o livro de Bonnet é um tanto mais. Primeiro, ele dá nome a essa compulsão de posse: bibliomania. Não bibliofilia, pois nesse caso há mais cuidado e mais trabalho na aquisição, menos idiossincrasias. É como se ele falasse de uma turma desconhecida a qual desde sempre pertenci. Os problemas com o espaço, as angustias de separação, o sonho de perder-se eternamente em uma biblioteca; a descrição destas, emprestada de Borges, como um paraíso.

Acontece que esta turma, ao que parece, é um grupo em extinção. Não, os livros não vão acabar, mas possuí-los em quantidade? Quem o fará? Quem terá, como Bonnet, 40 mil livros em sua casa? Ou, muito mais modestamente, os 1000 e poucos que possuímos aqui em casa? Com internet, Google, Biblioteca de Harvard on line, Amazon, etc. Quem investirá tanto, com as casas diminuindo de tamanho, o espaço contado nas grandes cidades e o mundo podendo ser acessado de um aparelhinho que cabe na palma da mão?

Sinceramente, acho que prefiro não pensar nisso. Não acho que tal vá ocorrer em minha existência. Se ocorrer, não sei se posso fazer algo para impedir e nem sei se quero. Fico feliz simplesmente em saber que, essa loucura, esse apreço pelos volumes, essa mania de bibliotecas pessoais ao alcance da mão, não é solitária como tantas vezes imaginei.

Além do mais, o livro de Bonnet oferece espaço para reflexões riquíssimas sobre a mágica da leitura. Sobre todo o tempo e o espaço que um livro pode conter dentro de si. Sobre a louca alegria que pode resultar de uma viagem aos confins do universo literário, da qual se pode sair exausto e plenamente descansado. Indico uma bela resenha do livro que saiu no The New Yorker e, claro, recomendo o livro.

Se os livros conversam entre si eu não sei, mas acho que Fantasmas na biblioteca fará bela figura em minha estante. Ou, então, acabará influenciando os meus livros a se acharem grandes coisas. Afinal, aqui em casa, fantasmas ou vivos, eles são membros da família.

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