A coisa toda do nome

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Nomes são complicados. Quem nunca pensou sobre isso é porque jamais teve de nomear nada. Poucas coisas exigem tanto quanto nomear alguma coisa ou alguém. As coisas são mais fáceis, eu admito. É possível nomeá-las por sua função. No entanto, pense comigo e imagine a primeira pessoa que deu ao pente, seu nome de pente. Daí veio pentear, mas o quê? O cabelo? Como foi que se ligou a palavra pente com a palavra cabelo? Pente, lembra pelo, mas só forçando muito a amizade.

Existem ciências que se dedicam unicamente ao histórico das palavras. Como foram criadas, como se desenvolveram, como começaram designando uma coisa e, depois, passaram a designar outra. É fato, as palavras caminham no tempo, e ganham estatura com ele. Ou podem diminuir e sumir.

Mitologicamente, dar nomes é nossa função mais primeva. Deus não chamou Adão e o mandou nomear a criação? Atividade que ainda chamamos de função adâmica. E lá vamos seguindo nossos dedos e apontando e dando nomes. Mais adiante inventaram-se também os adjetivos, mas essa é outra história, afinal, os adjetivos são os pais da crítica, essa horrível faladeira que cola nossos nomes ao que não somos, não queremos ou não gostamos de ser. A crítica dá nomes aos nomes.

Se nome de coisa é difícil. Imagine nome de bicho ou de gente. Minha irmã e eu geralmente usávamos nomes de novelas nas ninhadas de cãezinhos que nasciam lá em casa. Num verão particularmente sem nem nada de emocionante na TV, os filhotinhos foram nomeados: Nãodigo, Játedisse, Nãolembro, Ésegredo, etc. Algumas crianças têm nomes favoritos (que, claro, podem mudar). Minha prima Fernanda queria nomear tudo de Marcelo. Meu filho está apaixonado pelo nome Guilherme, que agora é também o nome de um resplandecente Beta Vermelho nadando na minha sala.

O estudo dos nomes de pessoas se chama Antroponímia (de antropos = homem [ainda no sentido de humanidade] e nímia/nomos/nome) e dialoga com diferentes ciências e pesquisas. Os nomes seguem modas, têm ápices, e quedas. Isso significa que chegaremos a um tempo que somente os muito velhos se chamarão Rodrigo ou Lucas, como hoje já não vemos nenhuma Emerenciana ou Genoveva. É certo que nomear uma criança, um filho, não é fácil. Afinal, a pobre criaturinha há de carregar esse nome como fardo e identidade para o resto de sua vida e isso dá uma responsabilidade enorme aos nomeadores. Tanta e tanto que é muito comum ouvir os pais relatando sonhos em que os nomes dos filhos aparecem magicamente. Sem desfazer dos sonhos meus amigos, é bom lembrar que eles ajudam a dividir o peso horrível de nomear com o transcendente ou, se permitirem, algo do tipo: “seu nome é esse, mas a culpa não é só minha, entendeu Vitoriana Mariah?”

Complica tudo se formos dissertar ainda sobre a história e forma dos sobrenomes. Cada cultura lida de forma diferente com eles. Alguns colocam apenas o sobrenome do pai (e engolfam a mãe nesse jogo de posse familiar), outros colocam o nome do pai na frente, outras culturas (como a nossa) ao fim. Há aquelas que empilham nomes e as que flexionam estes com o gênero – no Brasil dos séculos anteriores ao XX era comum encontrar uma Joana Pedrosa, filha do Pedroso. Há casos em que as mulheres usavam somente os sobrenomes maternos, e outros em que os sobrenomes se dividiam, o pai nomeava o primogênito, a mãe o segundo e aí por diante. Isso complica bastante para os historiadores que gostam de conhecer suas gentes e persegui-las pelos nomes História adentro.

Voltando aos primeiros nomes, atualmente, estão na moda os simples e de raiz portuguesa (ao menos na classe média, à falta de uma definição sociológica melhor). Assim, pululam Pedros, Joãos, Luisas e Manuelas. Gabriel foi uma febre e agora é Bernardo e Miguel (é, pois é, em defesa, escolhi quando a febre era Gabriel). Quando nasci, há 40 anos, nomes diferentes é que eram o grito da moda. Se tivessem letras inexistentes no alfabeto da época (K, Y, W) melhor ainda. Se eu fosse menino, me chamaria Lawrence, como o Lawrence da Arábia, nasci menina e veio Nikelen. Me escapei a risco de um Y, mas ganhei um K (solitário, sem C para acompanhar e, ao meu ver, um pouco mais digno que um QU). Era diferente. E isso bastava para meus pais, que também achavam (e acham) meu nome lindo.

Acreditem, não foi nada fácil crescer sendo Nikelen. Não foi uma, nem duas vezes, em que eu chorei e perguntei: por que não me chamo Cláudia, Fernanda, Andreia? Eu odiava ser a “Ni… o que?” dos professores. E por um tempo, lá pelos 3 ou 4 anos, eu me apresentava como Simone (sim, eu tinha um namorado invisível chamado Cristiano). Outra vez troquei por uma semana de nome com uma amiguinha e virei Nichele. Nossas mães recusaram a troca como ilegítima, vejam só. Quando comecei a escrever, ainda envergonhada do resultado, usei pseudônimo, ninguém jamais me disse nada. Quando comecei a usar o meu nome, perguntaram se era pseudônimo. E recebi sugestões de não me apresentar como autora brasileira, afinal, com um nome desses… Em suma: o amor ao meu nome foi uma construção bem difícil.

Ainda penso que algumas tribos indígenas é que têm razão: deveríamos dar um nome de criança, algo a agradar aos pais e diminuir o incômodo de nomear de bebê, nenê, gurizinho, guiriazinha, mana, mano, etc. Depois, mais velhos, nos nomearíamos, esplendorosamente como quiséssemos. Provavelmente, alguns passariam o resto da vida nos diminutivos, mas… ora, viva a liberdade de escolha.

Sendo assim, nomear este blog – uma coisa minha, pessoal, manifesta – não foi fácil. Acabei lembrando do conto imortal de Andersen (para derrubar os que acham que Sapatinhos Vermelhos foi uma escolha fashion de minha moda pessoal). Sapatinhos Vermelhos é uma história de obsessão, forte e dolorosa. Me diz muito, pois luto com várias obsessões todos os dias. As que preciso me livrar e as que cultivo, me apego, e defendo. Sempre me foi um nome visceral, já que o meu, vindo de uma história conflituosa, ainda era difícil de usar como bandeira.

A troca do nome do blog, se você está pensando que este é um post confessional de auto aceitação, é, na verdade, prática. Tenho desenvolvido trabalhos em várias frentes: como educadora, como historiadora, como escritora, como ativista social e feminista. Tudo isso sou eu e tem meu nome. Tudo isso, assim como o blog, são espaços e matéria de mim. Em tempos de Google, diversificar nas nomenclaturas pode não ser a melhor opção para fazer as engrenagens se movimentarem.

Assim, como os gregos antigos, resolvi unir nome e potência, e ser tudo isso.

Bem vindos: a casa é velha, mas a pintura é nova.

 

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8 comentários

  1. Adorei o texto, como sempre. Me lembrei de alguns casos.
    Na faculdade de Direito, a primeiríssima aula teve o tema: O Nome Natural das Pessoas Civis (ou nome das pessoas naturais, não sei dizer o que faz menos sentido… rsrsrs). E eu me lembro disso como se fosse ontem. E foi no início de 1999, veja só! Lembro inclusive de refletir sobre o quanto aquela aula teria relevância no curso e depois eu soube que tem, e muita.

    Meu avô nasceu em 1903, foi teólogo, filósofo, leitor assíduo e por consequencia amante das letras. Ele era o único que ficava sabendo quando minha avó estava grávida, pois ela era gordinha e disfarçava bem a barriga. (tem histórias engraçadas de minhas tias quando crianças acordarem com choro de neném em casa e descobrirem assim, de repente, que tinham um irmãozinho. Imagina a felicidade.) E então meu vô pastor passava os 9 meses de gestação da vó Palmyra (sim, com Y mesmo) estudando os nomes e significados e criando nomes, pra que tivessem significados relevantes e/ou que ele achasse relevantes e principalmente, bíblicos. Segue a lista por ordem cronológica:
    Else
    Éris (a Deus da Discórdia, sim. E se encaixa perfeitamente, velhinho sabichão!)
    Aristeu
    Edél
    Eucléria (que foi apelidada de Quéia, e ainda é conhecida pelo apelido)
    Joedí (meu pai. Sim, com acento no i, o que faz dele meio único, já que ele procurou em todo lugar e achou um cara, mas sem acento.)
    Deócleo (apelidado Kéu e esse sim é dos casos que poderia trocar de nome com autorização judicial, pois ele mora em cidade do interior e tem gente que o conhece há anos, mas pode jurar de pé junto que nunca topou com um cara chamado Deócleo.)

    Lá na casa da vó sempre tinha tentativas de argumentar com o vô pra não dar nomes assim pras crianças, que eles seriam envergonhados na escola, e etc. Mas, ele era firme e a palavra dele era lei em casa, portanto, ficou.

    Acho interessante ver essa dinâmica na minha família e o valor que sempre demos aos nomes e ao nosso sobrenome também. Tem uma grande parcela de orgulho, uma boa pitada de arrogância por nos chamarmos Carmo dos Santos, que somos os melhores, e blábláblá…

    Por isso e pelo fato de que o sobrenome Carmo dos Santos foi mais ou menos criado pelos meus ascendentes em algum lugar e momento que eu não sei, que eu quis preservar ao menos o Carmo no meu sobrenome de casada. Por que um dia não teremos mais ninguém com o sobrenome Carmo dos Santos. Mas, isso também é bobagem, a herança que meu avô deixou é algo muito mais profundo do que esse apego ao nome.

    Meu nome foi meu vô que mais ou menos escolheu. Ele achava que seria menino e falava que se fosse meus pais poderiam me chamar de Daniel. Como vim menina, ficou Daniela. Meu irmão chama-se Filipe. Também com I, igual ao Filipe da Bíblia, o que também não é tão comum. Todo mundo o chama de Felipe ou Fe e escrevem o nome dele com E. Ele sempre tem que dizer: “Filipe, com I”… rsrsrsrsrs…. E segundo meus pais, tem que dizer que é com I, pois o Filipe da Bíblia é com I, senão fica errado.

    Achei o texto muito legal e me identifiquei muito, afinal, essa coisa de nome sempre fez parte da minha vida, como você pode ver…hehehehe…

    Apoio totalmente deixar tudo com seu nome lindo pra todo mundo saber que as peripécias que você realiza vem de você mesma. Sim, essa moça bonita e inteligente, com um nome tão diferente e bonito. Adoro seu nome e seu apelido, amiga.

    Super bjo!!!

  2. Adorei, e vou trabalhar vários de seus textos com os alunos (as) na graduação! Obrigada pela partilha

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