Descarrego

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Minha mãe é adepta dos banhos de descarrego no final do ano. De fato, ela é adepta  o ano todo, mas em geral prefere o sal grosso. O banho do Ano Novo é especial. Feito em panela grande para render pelo menos dois litros para cada casal da família e mais um litro para alguma amiga ou desavisado que passe pela casa dela. No banho vai de tudo: pétalas de rosas, alecrim, arruda, jasmim, alevante, cravos e qualquer outra erva que ela considere que vai trazer benefícios. Tudo é feito com concentração, amor e muitos bons desejos. Deve ser tomado depois do banho normal, sempre dos ombros para baixo, deixando claros as esperanças para o ano novo e agradecendo a ano que se foi.

Como diria o saudoso Darcy Ribeiro: “Eu que sou ateu, mas não sou bobo, vou lá entregar minha oferendas a Iemanjá”. Assim, como ele, eu, todo o ano, pego o banho prontinho na minha mãe, ouço as mesmas recomendações e acato todas elas.

Descarregar o que é ruim, mandar pro espaço tudo o que pesou, ritualizar a morte e o renascimento para que tudo se faça melhor, mais uma vez, e de novo o novo, são ações saudáveis e libertadoras. Independente de nossas crenças, somos seres rituais, e no reconstruímos todos os dias. Na virada do ano, os símbolos e forças nos permitem ir até as fundações de nós mesmos. Perder essa oportunidade por puro cinismo é, simplesmente, PERDER a oportunidade.

Além disso, se já houve um ano para ser descarregado, este é 2013. Claro, falo da minha experiência. Mas convenhamos que, mesmo que você não more em Santa Maria (que teve o pior ano possível), não saiba o que foi o circo de horrores que se tornou o Congresso Nacional ou tenha visto as jornadas de junho apenas pela TV, este não foi um ano para principiantes.  Em agosto eu já estava nele só pelo vinho (isto é, almejando que ao menos a safra deste ano forneça um vinho decente).

Então, que tal juntar ervas, forças telúricas, desejos, gratidão pela vida e mandar tudo que pesou, doeu, enfraqueceu pra longe? O fio terra da humanidade é a água. Taí uma coisa que os antigos acreditavam e que eu não posso deixar de concordar. Banho de cachoeira, mar, chuva, chuveiro ou simplesmente andar num gramado molhado, tudo isso nos renova. Somos seres de água, nascemos nela, voltar a ela nos faz de novo.

Sendo assim: bom descarrego! Bom banho! Bons desejos! Um bom ano, um ano muito melhor!

Ah, e não esqueça do ingrediente secreto da minha mãe na sua garrafada: um imenso amor pelos outros.

A coisa toda do nome

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Nomes são complicados. Quem nunca pensou sobre isso é porque jamais teve de nomear nada. Poucas coisas exigem tanto quanto nomear alguma coisa ou alguém. As coisas são mais fáceis, eu admito. É possível nomeá-las por sua função. No entanto, pense comigo e imagine a primeira pessoa que deu ao pente, seu nome de pente. Daí veio pentear, mas o quê? O cabelo? Como foi que se ligou a palavra pente com a palavra cabelo? Pente, lembra pelo, mas só forçando muito a amizade.

Existem ciências que se dedicam unicamente ao histórico das palavras. Como foram criadas, como se desenvolveram, como começaram designando uma coisa e, depois, passaram a designar outra. É fato, as palavras caminham no tempo, e ganham estatura com ele. Ou podem diminuir e sumir.

Mitologicamente, dar nomes é nossa função mais primeva. Deus não chamou Adão e o mandou nomear a criação? Atividade que ainda chamamos de função adâmica. E lá vamos seguindo nossos dedos e apontando e dando nomes. Mais adiante inventaram-se também os adjetivos, mas essa é outra história, afinal, os adjetivos são os pais da crítica, essa horrível faladeira que cola nossos nomes ao que não somos, não queremos ou não gostamos de ser. A crítica dá nomes aos nomes.

Se nome de coisa é difícil. Imagine nome de bicho ou de gente. Minha irmã e eu geralmente usávamos nomes de novelas nas ninhadas de cãezinhos que nasciam lá em casa. Num verão particularmente sem nem nada de emocionante na TV, os filhotinhos foram nomeados: Nãodigo, Játedisse, Nãolembro, Ésegredo, etc. Algumas crianças têm nomes favoritos (que, claro, podem mudar). Minha prima Fernanda queria nomear tudo de Marcelo. Meu filho está apaixonado pelo nome Guilherme, que agora é também o nome de um resplandecente Beta Vermelho nadando na minha sala.

O estudo dos nomes de pessoas se chama Antroponímia (de antropos = homem [ainda no sentido de humanidade] e nímia/nomos/nome) e dialoga com diferentes ciências e pesquisas. Os nomes seguem modas, têm ápices, e quedas. Isso significa que chegaremos a um tempo que somente os muito velhos se chamarão Rodrigo ou Lucas, como hoje já não vemos nenhuma Emerenciana ou Genoveva. É certo que nomear uma criança, um filho, não é fácil. Afinal, a pobre criaturinha há de carregar esse nome como fardo e identidade para o resto de sua vida e isso dá uma responsabilidade enorme aos nomeadores. Tanta e tanto que é muito comum ouvir os pais relatando sonhos em que os nomes dos filhos aparecem magicamente. Sem desfazer dos sonhos meus amigos, é bom lembrar que eles ajudam a dividir o peso horrível de nomear com o transcendente ou, se permitirem, algo do tipo: “seu nome é esse, mas a culpa não é só minha, entendeu Vitoriana Mariah?”

Complica tudo se formos dissertar ainda sobre a história e forma dos sobrenomes. Cada cultura lida de forma diferente com eles. Alguns colocam apenas o sobrenome do pai (e engolfam a mãe nesse jogo de posse familiar), outros colocam o nome do pai na frente, outras culturas (como a nossa) ao fim. Há aquelas que empilham nomes e as que flexionam estes com o gênero – no Brasil dos séculos anteriores ao XX era comum encontrar uma Joana Pedrosa, filha do Pedroso. Há casos em que as mulheres usavam somente os sobrenomes maternos, e outros em que os sobrenomes se dividiam, o pai nomeava o primogênito, a mãe o segundo e aí por diante. Isso complica bastante para os historiadores que gostam de conhecer suas gentes e persegui-las pelos nomes História adentro.

Voltando aos primeiros nomes, atualmente, estão na moda os simples e de raiz portuguesa (ao menos na classe média, à falta de uma definição sociológica melhor). Assim, pululam Pedros, Joãos, Luisas e Manuelas. Gabriel foi uma febre e agora é Bernardo e Miguel (é, pois é, em defesa, escolhi quando a febre era Gabriel). Quando nasci, há 40 anos, nomes diferentes é que eram o grito da moda. Se tivessem letras inexistentes no alfabeto da época (K, Y, W) melhor ainda. Se eu fosse menino, me chamaria Lawrence, como o Lawrence da Arábia, nasci menina e veio Nikelen. Me escapei a risco de um Y, mas ganhei um K (solitário, sem C para acompanhar e, ao meu ver, um pouco mais digno que um QU). Era diferente. E isso bastava para meus pais, que também achavam (e acham) meu nome lindo.

Acreditem, não foi nada fácil crescer sendo Nikelen. Não foi uma, nem duas vezes, em que eu chorei e perguntei: por que não me chamo Cláudia, Fernanda, Andreia? Eu odiava ser a “Ni… o que?” dos professores. E por um tempo, lá pelos 3 ou 4 anos, eu me apresentava como Simone (sim, eu tinha um namorado invisível chamado Cristiano). Outra vez troquei por uma semana de nome com uma amiguinha e virei Nichele. Nossas mães recusaram a troca como ilegítima, vejam só. Quando comecei a escrever, ainda envergonhada do resultado, usei pseudônimo, ninguém jamais me disse nada. Quando comecei a usar o meu nome, perguntaram se era pseudônimo. E recebi sugestões de não me apresentar como autora brasileira, afinal, com um nome desses… Em suma: o amor ao meu nome foi uma construção bem difícil.

Ainda penso que algumas tribos indígenas é que têm razão: deveríamos dar um nome de criança, algo a agradar aos pais e diminuir o incômodo de nomear de bebê, nenê, gurizinho, guiriazinha, mana, mano, etc. Depois, mais velhos, nos nomearíamos, esplendorosamente como quiséssemos. Provavelmente, alguns passariam o resto da vida nos diminutivos, mas… ora, viva a liberdade de escolha.

Sendo assim, nomear este blog – uma coisa minha, pessoal, manifesta – não foi fácil. Acabei lembrando do conto imortal de Andersen (para derrubar os que acham que Sapatinhos Vermelhos foi uma escolha fashion de minha moda pessoal). Sapatinhos Vermelhos é uma história de obsessão, forte e dolorosa. Me diz muito, pois luto com várias obsessões todos os dias. As que preciso me livrar e as que cultivo, me apego, e defendo. Sempre me foi um nome visceral, já que o meu, vindo de uma história conflituosa, ainda era difícil de usar como bandeira.

A troca do nome do blog, se você está pensando que este é um post confessional de auto aceitação, é, na verdade, prática. Tenho desenvolvido trabalhos em várias frentes: como educadora, como historiadora, como escritora, como ativista social e feminista. Tudo isso sou eu e tem meu nome. Tudo isso, assim como o blog, são espaços e matéria de mim. Em tempos de Google, diversificar nas nomenclaturas pode não ser a melhor opção para fazer as engrenagens se movimentarem.

Assim, como os gregos antigos, resolvi unir nome e potência, e ser tudo isso.

Bem vindos: a casa é velha, mas a pintura é nova.