Despindo o corpo e a Moda além da Moda

Amanhã, sexta-feira, dia 22 de novembro, estarei na PUCRS, participando do seminário A Moda Além da Moda – Cultura Material e as Múltiplas Faces do Vestir. Estarei coordenando o simpósio temático: Não Se Nasce Com Gênero, Nos Vestimos Para Ter Um. Quando minha querida colega Taís Campelo me fez o convite e me propôs o tema: vestuário e gênero, uma série de coisas que eu já havia escrito e pensando vieram a minha cabeça. Assim, quando fiz a proposta do simpósio, eu a elaborei dessa forma:

A paráfrase de Simone de Beauvoir no título desse simpósio vem da necessidade de se pensar as roupas masculinas e femininas muito além dos rosas e azuis com que materializamos o sexo e definimos o gênero de nossas crianças. Temos uma educação “vestimental”  cheia de regras e interditos que mudam de época para época e nos dizem sobre nossas crenças, nosso erotismo, nosso sentido de alteridade. “São as roupas”, como escreveu Virginia Woolf, “que nos usam, e não nós que usamos as roupas; podemos fazê-las tomar o molde do braço ou do peito; elas, porém, modelam nossos corações, nosso cérebro, nossa línguas, nossa vontade.” Objetivos: Colocar em pauta pesquisas que tematizem as roupas como objetos na construção dos gêneros ao longo do tempo, bem como seu papel nas representações artísticas – literárias e plásticas – do feminino/masculino. Incluem-se aí também investigações sobre vestuário e gênero nas sub-culturas, sobre travestismo e androginia.

Hoje, aquecendo para o evento que começa hoje à noite, acabei por reler o texto abaixo, publicado no Sul 21 em 28 de novembro de 2011. A leitura me fez resolver republicá-lo aqui.

Despindo o próprio corpo

A primeira roupa que se veste é a pele. Depois, vem a cultura. Somente após esta camada é que aparecem os panos. No ocidente, eles podem ser cor de rosa para as meninas e azul para os meninos. Os pais que querem fugir disto optam pelos neutros: branco, verdinhos, amarelinhos, a gama de cores pastel em geral. Mas, cuidado: vista seu menino de cor de rosa para ver o que acontece? Os lilases são igualmente complicados. Azul para as meninas sem um grande laço definidor é igualmente visto com desconfiança. A ditadura da cor é a ditadura do gênero. Os que levantam a mão dizendo: eu não faço assim, apenas confirmam a regra geral.

A atriz Vesta Tilley.

A atriz Vesta Tilley.

Se a imposição fosse somente a cor, não haveria muito a ser dito, mas com a cor vêm tantos e tantos significantes e esta tirania desenvolve um tipo de prisão. Nela, são enquadrados os comportamentos. O que menina não faz, o que menina gosta. O que meninos devem fazer e do que não devem gostar. À medida que se cresce, pele, cultura e roupa se tornam uma coisa só. Os que fogem disso perdem em respeito social, atraem violência, despertam ira. Contudo, no espectro de luz das sexualidades, são os que pendem para o feminino que atraem mais desta repulsa. O tal cor de rosa se converte em preto branco e vira alvo.

Travestis vitorianos.

Travestis vitorianos.

A(O)s que vestem o corpo feminino se tornam o alvo da masculinidade dos machos. É sobre elas que eles se afirmam, se constroem, se fazem gente. Nas exigências de posse, de propriedade, de comportamento. O tal do “mulher minha isso ou aquilo”. Ou o “eu nunca me relacionaria com uma mulher dessas”. Ou ainda, o texto de tantos filmes e livros que, não raro, ganham para o herói os suspiros das espectadoras e leitoras: “você é minha”. É nessa posse que a sociedade se organiza para reconhecer o estatuto dos homens. E, claro, isto não se refere apenas ao Ocidente, os exemplos da cultura oriental são igualmente numerosos quando se trata restringir as mulheres para dar espaço à masculinidade dos homens.

De fato, basta um olhar rápido nas produções de nossa cultura para se perceber que dominar, subjugar, infringir sofrimento fazem parte inclusive da constituição da ideia de prazer masculino. Sob ele, um corpo feminino ou feminilizado sendo estuprado, sodomizado, maltratado, violado, deve restar passivo, agradecido, como se a violência lhe fosse necessária. Esta produção se “veste” de realidade, mas nem sempre parece querer contestá-la ou atuar para o seu fim. Engana-se quem pensa que somente a pornografia está cheia disso. Nossa cultura tem disso até às narinas. TV, cinema, literatura, as HQs consumidas por nossos filhos adolescentes. Em todas, há espaço para isso: para o feminino como alvo do ser masculino em construção.

Imagem de Hentai, tipo de ilustração que se aproxima do mangá, mas com conteúdo erótico/pornográfico.

Imagem de Hentai, tipo de ilustração que se aproxima do mangá, mas com conteúdo erótico/pornográfico.

O mesmo se repete com o ser feminina? Não. As mulheres não são ensinadas a colocar a construção desta persona no corpo do outro, mas no seu próprio. Daí, ser tão comum as mulheres que se sentem erradas, as que não conseguem cumprir todos os códigos e exigências desta mulher perfeita em imagem e super-treinada a ocupar o espaço que a sociedade, elaborada sobre o masculino, a elas designa. Não que haja qualquer tipo de parabenização por alguém ser mulher e aparentar-se com uma. Pelo contrário, as meninas jactam-se de seu passado “moleque”, que, muitas vezes, confunde uma ação masculina com possuir alguma liberdade. Isso porque – nesta visão – se ela fosse menina “mesmo” não se comportaria daquela maneira imprópria. Os comportamentos que, vindos da cultura, entranham na pele e passam às roupas, fazem-nos aquilo que o outro espera ao nos ver envergar as cores e os gestos que vestimos. Tornamos-nos o alvo. Ou o seu possuidor.

Por conta de um trabalho futuro, muito tenho pensado sobre o que se veste e o que se despe; e o que isto significa na construção de nossas identidades, seja as pessoais, seja as de gênero. Acabo caindo no excelente A Bela do Palco, de Richard Eyre, baseado em uma peça de Jeffrey Hetcher que enfoca, no mesmo palco, o último ator britânico a interpretar mulheres e a primeira atriz. Abaixo uma das mais tocantes cenas do filme, o qual recomendo muitíssimo.

http://youtu.be/QvQ8iIt9QWA

A cena instigante brinca com as posições sexuais e com as personas que vestimos. Contudo, ele, homem, encontra-se nu. Seu corpo – despido das roupas femininas que o acompanham dentro e fora do palco – não precisa cobrir-se. O dela, mulher, se constitui feminino pela falta de liberdade em despir-se. É coberto, de fendas entreabertas, mas velado, pois é no desvelamento desse corpo-alvo que o feminino é concebido histórica e culturalmente. Esta, porém, é somente uma parte pequena da bela cena que vai da intimidade à ao debate sobre atuação de ambos, como mulheres, no palco. A discussão se estende sobre Desdêmona, a infeliz esposa de Otelo, acusada e morta por uma traição não cometida. Mas é também um debate sobre atuar na vida, sobre viver de acordo com o gênero, sobre a sexualidade e sobre como se pode precisar e prescindir dela nas relações humanas. Dá para se amar alguém além do seu sexo? Para pensar mais, deixo como indicação o texto “A Bela do Palco — o feminino, de Freud a Winnicott”, de Edna Pereira Vilete.

E, de fato, este texto que ora escrevo não é mais que um pensar. Um pensar ainda sem fim, um pensar de busca. Um pensar que quer ver onde e quando a cultura deu aos corpos femininos este padrão de alvo para o masculino; e é um pensar que quer saber como se rompe com tal padrão. Como as próximas gerações podem ser mais livres das roupas-peles que as culturas lhes vestem? Como podemos nos livrar da violência que as exigências sócio-históricas impuseram ao comportamento do homem como ativo e da mulher – convertida em alvo – passiva.

Então, quando se vê, por vezes, a transgressão das exigências sociais, o que estamos vendo, pode ser também um tipo de resistência. As imagens dos homens vestidos de mulheres e das mulheres vestidas de homens foram buscadas em outras épocas unicamente para provocar o olhar. Afinal, quando se muda de roupa, se mudar de pele? E, quando se veste a roupa do outro, pode ser usar a pele do outro? O que resta quando nos despimos e o que fica é o corpo? Deveriam restar pessoas, porém, pelo olhar do mundo à nossa volta, mesmo quando estamos nus, nós estamos vestidos e as cores das primeiras roupas, entranhadas em nós. Quem perde? A divesidade. E, sem dúvida, a reflexão sobre gênero e sobre violência e liberdade.

De tudo, o que mais me incomoda é que a visão de um homem sem roupa é a imagem de um homem inteiro. Já, a de uma mulher sem roupa é a visão alguém que perdeu alguma coisa, até a si mesma. Eu discordo. Vocês, claro, lembrarão das que lucram em ser alvo. Eu, por aqui, vou lembrar em uma das que resolvem desvestir o alvo.

A jovem blogueira egípcia Aliaa Magda Elmahdy

A jovem blogueira egípcia Aliaa Magda Elmahdy