Meninas Tristes

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Minhas redes sociais se encheram nos últimos dias com o relato da morte da menina de 8 anos que morreu em sua noite de núpcias com o marido, 32 anos mais velho que ela. Abstive-me de compartilhar. O que eu diria? Que é um absurdo, como corretamente enfatizaram os meus amigos? É claro que é. Repetir isso, infelizmente, não torna o caso mais assimilável ou o explica ou o impede. Não temos de denunciar? Claro que temos. Estou sempre fazendo isso. Mas dessa vez, como de outras, a dor calou fundo. Tão fundo que minha única atitude possível foi esperar que a dor assentasse para poder pensar sobre ela.

Quando um fato como esse vem à público nossa indignação o define, porém, o define nos nossos termos, dando pouco espaço às idiossincrasias do outro. Não, não apelarei à relatividade cultural como instrumento de compreensão e acomodação de nossa genuína raiva por um episódio assim. Sim, claro, é outra cultura, mas isso não nos isenta de forma alguma. Não nos livra da ocorrência de inúmeros casos semelhantes. Não nos faz mais santos, não nos coloca numa redoma ética de proteção à infância. Não faz da nossa sociedade um espaço de pleno respeito às mulheres, aos seus corpos, às suas vontades. Nosso quintal é tão sujo quanto o do vizinho.

Gostaria de pensar a notícia em mais de um nível.

Primeiro, relativizando o horror que ela causa com casos acontecidos aqui no Brasil. Nesta mesma semana, várias redes sociais compartilharam o pedido de se ajudar numa vaquinha para reconstituir o corpo de uma menina que foi estuprada aos 10 anos. Ficou famoso o caso da menina de 9 anos, que engravidou violentada pelo padastro e cujo aborto foi amplamente noticiado porque a equipe médica e a mãe foram excomungados. Eu poderia citar as meninas vendidas em todos os cantos desse país, as que se prostituem nos sinais, as que são entregues em casas de tolerância do norte ao sul, as que fazem qualquer coisa em troca de comida. Eu poderia juntar mil notícias do Brasil e mais um milhão do mundo inteiro com casos semelhantes. Essas meninas são menos vítimas porque não morreram? São menos vítimas porque não tiveram seus corpos dilacerados? São menos vítimas porque, como aparece numa decisão do STJ, meninas de 12 anos que se prostituem não podem ser estupradas, pois já não têm pureza. A não ser claro, que morram ou tenham terríveis sequelas físicas.

Meu argumento é que o caso da menina do Iêmen não é isolado. Pelo contrário. E mais, o Brasil assiste e fecha os olhos para casos desse tipo todos os dias. Ah, mas nós não permitimos casamentos com crianças? Não, mas permitimos que sejam prostituídas. Temos inúmeros graus de poder que acobertam, usam, estimulam e, sim, permitem que isso ocorra. Nossa indignação é válida, violenta e correta. Mas, há mais, desgraçadamente, há muito mais. E está ali, na esquina, não só no Iêmen.

O segundo ponto que gostaria de chamar atenção é a forma como a notícia foi construída no Ocidente e assim traduzida e vendida. Porque se observarmos com atenção é possível ver que o texto – vindo de uma agência de notícias alemã – não só nos encobre (encobre as desgraças do Ocidente e os homens ocidentais que viajam para países do terceiro mundo para usufruírem de sexo com crianças, meninas e meninos) como trabalha na construção dos “terríveis povos muçulmanos” que casam crianças com adultos. O texto jornalístico faz ênfases. Enfatiza que foi o padastro, porque afinal (isso é uma ironia) um pai nunca faria isso, não é mesmo? E lá retornamos nós aos contos de fadas em que todos os padastros e madrastas são intrinsecamente maus. Enfatiza a venda e o preço. Um pouquinho de história e sociologia e falar-se-ia em dote e não em venda. Só que dote nos parece aceitável e venda não. VENDA, com o perdão do trocadilho horroroso, vende muito mais notícias. É claro, podemos argumentar, mas dote não é uma espécie de venda também? Sim, dependendo do seu formato, é sim. E isso não é terrível? É, claro que é. Não é um absurdo que ainda exista? Com todo a certeza. No entanto, usar conscientemente, um termo que aumenta a monstruosidade do caso e o ódio contra os países árabes e suas inúmeras culturas e aspectos religiosos não pode nos passar desapercebido. Não, no momento político internacional que vivemos.

Meus comentários não pretendem esvaziar a notícia ou a justa indignação que causou. Apenas acredito que o caso e seu noticiamento comportam outras leituras. A mais grave de todas é o terceiro aspecto que eu gostaria de enfatizar: trata-se da permanência dessa cultura que objetifica as mulheres, que as esvazia de vontade, que faz da virgindade um tipo de troféu ou segurança da masculinidade. No mundo todo, assistimos regularmente as mulheres sendo tratadas como cidadãos de segunda classe, como apêndices do masculino. Isso está entranhado em nós, em nossos sistemas de pensamento, em nossa linguagem, em nossas condutas, na forma como lemos o mundo. Mais do que pensar nos inúmeros casos que assistimos ou somos informado, é preciso pensar em impedir que eles continuem a ocorrer. E para isso é preciso alterar a forma como encaramos o que é ser homem, o que é ser mulher. A revolução mundial é, antes de tudo, a superação deste mundo em que ser menina ainda é um vaticínio de azar em grande parte do planeta e ali, na nossa esquina.