Tão saboroso, que não resisti…

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“Que Deus me perdoe as críticas que vou fazer, mas as noivas de hoje são todas fúteis, desmioladas… As noivas de antigamente queriam casar-se com um homem que fosse sério, severo, dono de capital, que soubesse julgar as coisas e conhecesse assuntos de religião, mas as de hoje ficam tentadas pela instrução. A gente tem que lhes apresentar alguém instruído, mas, quanto a senhores funcionários ou gente do comércio, não se pode nem mostrar a elas, começam logo a zombar! Existem diversos tipos de instrução… Há, naturalmente, gente instruída que atinge altos cargos, mas outros passam a vida toda como escriturários e, depois, não se tem com que enterrá-los. Gente assim não falta agora. Costuma vir aqui um desses… instruídos… trabalha nos Correios… Sabe tudo, pode redigir sozinho os telegramas, mas lava-se sem sabão. Até dá pena de olhar!

(…)

“É um desses… de cabelos compridos! – Mikhailo piscou o olho – Desses que têm ideias… Agora, existe um despropósito de gente assim! Não se consegue caçar a todos… Como soltou esses cabelos, o esqueleto! Toda conversa cristã lhe repugna, como incenso ao tinhoso. Está defendendo a instrução! pois bem, é de gente assim que as noivas de hoje gostam. Gente exatamente assim, Vossa Alta Nobreza! Dá até nojo, não é mesmo? No outono, fui chamado por uma filha de um pope. ‘Você tem de encontrar para mim, Michel (nas casas, costuma me chamar de Michel, porque friso cabelo de senhoras), um noivo que seja escritor’. Ora, para a felicidade dela, eu tinha um assim… Ele costumava ir a taverna de Porfíri Iemieliânitch e ameaçar todos de publicar coisas no jornal. (…) Era fraco, maltrapilho. Tentei o com o dinheiro do pope, mostrei-lhe o retrato da moça e fui apresentá-lo. Arranjei para ele um terno alugado… Não agradou à senhorita! ‘Tem pouca melancolia no rosto’. E ela mesma não sabia que diabo estava querendo”.

Nos banhos, Anton Tchekhov

O “problema” dos seios desnudos

* Nota Inicial 1: Este texto já foi publicado anteriormente no Blog Biscate Social Club.

** Nota Inicial 2: Neste texto não comentarei sobre o Femen. Existem vários textos excelentes sobre a organização, portanto, não pretendo repetir aqui o que já foi dito. Some o fato de que não sinto, como feminista, qualquer tipo de empatia ou afinidade com o referido grupo. Feita a nota inicial, segue o baile.

 

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Desde que o Movimento Marcha das Vadias começou, tenho ouvido constantemente críticas às mulheres que mostram SEUS seios (pronome possessivo destacado) nos protestos. Os comentários vão desde o tradicional: “como querem respeito se não se dão ao respeito?”; até os que são colhidos do próprio feminismo e que envolvem a objetificação da mulher ou que acusam as manifestantes de mostrarem os seios para terem a atenção da mídia. Eu poderia elencar a cansativa lista de contra-argumentos sobre estes comentários. Cansativa porque já foram repassados centenas de vezes, ao menos para quem costuma manter-se informado. Também poderia dizer que mesmo que todas estas críticas tivessem fundo de verdade, ainda não teriam razão de ser. Isso porque o corpo exposto nos protestos não pertence aos tais críticos e, portanto, eles nada tem a ver com a decisão das DONAS dos seios de mostra-los ou não.

Por isso a minha opção foi ir à raiz de todos estes comentários e olhar para eles com um olhar infantil, com uma pergunta de criança de 3 ou 4 anos: por quê? Por que não?

As mulheres não podem mostrar seus seios em público.

Por quê?

É feio para uma menina se “expor”.

Por quê?

É coisa de vadia.

Por quê?

É ruim.

Por quê?

Porque os homens ficarão pensando bobagens.

Por quê?

Porque homens são assim.

Por quê?

Ah, é assim!

Por quê?

Se você é inteligente, com certeza percebeu onde todos estes porquês batem. Eles se chocam contra uma imensa parede cultural restritiva dos direitos das mulheres. As desculpas que vão desde a moralidade – que é histórica e temporal, portanto, de validade sempre limitada – até a total e descabida desconstrução do masculino, transformado em “besta selvagem e irracional”. No fim disso está: “mulheres mantenham-se escondidas, fechadas, se guardem para os que podem protegê-las, pois todos os homens não prestam”. O raciocínio todo é retrógrado e fere as mulheres e aos homens. Limita ambos a papéis restritos, impõe formas de comportamento, cerceia uma reivindicação que pertence à raiz da luta contra o patriarcado: o corpo das mulheres pertence as mulheres.

Parece uma reivindicação tola? Óbvia? Um pouquinho de história e antropologia resolve isso. A bíblia permite aos homens vender suas filhas e também as esposas. Caso você não saiba os livros que compõe a bíblia pertencem a épocas diferentes e foram escritos de acordo com o que interessava a tal época, ou seja, não desceram do céu. Por conta disso, em alguns trechos, as filhas e esposas poderiam ser repudiadas, expulsas, prostituídas ou condenadas ao apedrejamento caso fossem desobedientes. O mandamento que fala em não cobiçar a mulher do próximo trata as mulheres como coisas. Aliás, o velho testamento é cheio disso. Mas não pense que isso se restringe à mitologia judaico-cristã. Os romanos proibiam os direitos às mulheres porque consideravam que se tornariam perigosas caso tivessem direitos. Aí você pergunta: perigosas por quê? Perigosas como? Os romanos também proibiram as mulheres de falarem nas ruas, de dizerem o que pensavam. Por quê? (Leia Deusas e Adivinhas, de Santiago Montero). Ao longo da História as mulheres foram tratadas como o outro, o intruso, o macho defeituoso, a subespécie, a coisa incompreensível, o incontrolável a ser controlado, o incapaz a ser desacreditado (leia Inventando o Sexo, de Thomas Laqueur). Foram vistas como pertence, como coisas, como parte daquilo que os homens trocavam, se desfaziam, possuíam, punham sua marca. Por quê? O que assusta tanto?

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Não tome estas perguntas como ingênuas. Não são. Eu não as estou formulando em tom de coitadinha, de mimimi (como gostam de usar na internet). Estou formulando estas perguntas como bandeira, como lança, como ataque! Por quê? Por quê? POR QUÊ?

Mais que tudo: por que você acredita que tem de se dobrar a isso? Seja homem ou mulher, por que acha que esta é a forma correta de ser e se comportar? Por que faz coisas e repete ações sem se perguntar por que faz isso? Por que continua sendo a vaquinha do presépio balançando a cabeça ao “sempre foi assim”?

Uma das coisas que a História me ensinou foi que nenhum comportamento, nenhuma forma de ver o mundo, nenhum tipo de construção cultural é eterno e impermeável à crítica e a mudança. Tudo muda e muda o tempo todo. O passado nos serve para refletir e entender o presente, não para engessá-lo, controlá-lo ou limitá-lo.

Os seios desnudos são uma reivindicação de posse. Qualquer seio é, sendo exibido ou não. Os úteros também são reivindicações de posse, são nossos, férteis ou não, são nossos! Ponto. Não há margem para discussão. Assim como são nossas as pernas, os braços, os cabelos longos e soltos, curtos e curtíssimos, raspados ou moicanos; são também nossas as tatuagens e a ausência delas. É nosso o grito, a voz que fala, o texto escrito, a palavra no microfone, o andar na rua, o estudar, o amar quem quiser, o fazer esportes, o transar quando estiver a fim. Tudo isso, em algum momento, já foi proibido, disciplinado, limitado, estigmatizado. A tudo isso, em algum momento, foi nos foi dito “não, vocês não podem!” Por quê? “Porque vocês são mulheres.” Isto é uma constatação e não uma resposta. Quem diz que não podemos? Por que não podemos? Pense bem. Encontre uma resposta que não seja vazia, tola, religiosa, eivada de preconceito. Pense! Depois responda: por quê? Por que isso te incomoda tanto? E quando você souber por que te incomoda, eu ainda estarei te perguntando, como a mais insistente das crianças: por quê? Por quê? Por quê?