Experiência

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Costumamos idealizar a experiência como algo que começa a fazer sentido no momento em que nos ocorre. Tenho a impressão, inclusive, que só compreendemos realmente como experiência aquela mistura que ensopa pequenos e grandes traumas no acúmulo do tempo. No entanto, uma experiência – naquele sentido construtor e modificador – pode acontecer muitos anos depois de um fato (bem banal) ter ocorrido com a gente. Alguns superestimam isso, chamam até de iluminação. Merma, Bacco! Nem tanto. Contudo, é realmente extraordinário quando a poeira assenta e realizamos o que, por anos, esteve escondida atrás dela.

Em 1988, eu cursava o primeiro ano do ensino médio (2º grau, na época). Minha escola contava com uma disciplina que, hoje, considero brilhante e inovadora: Introdução à Pesquisa ou IPE. É possível que ela não tenha marcado tanto aos meus colegas quanto marcou a mim, mas naquela época, eu sonhava em fazer pesquisas e escrevê-las (não sabia bem sobre o que, mas o método me fascinava). O foco da disciplina era o de dar aos alunos a oportunidade de conhecer como eram elaborados projetos, recortados os temas, construidas as problemáticas e os instrumentos de pesquisa. Além disso, forneceu meus primeiros contatos com as normas técnicas textuais que viriam a dominar minha vida acadêmica anos depois.

Após formarmos os grupos de trabalho para o semestre, saímos à cata de algo que envolvesse a nossa cidade, que tivesse algum grau de polêmica e que afetasse a vida das pessoas. Não foi difícil. Meu grupo habitual de trabalho e amizado morava em um mesmo bairro. Até bem pouco tempo, esse bairro havia sido dominado mais por construções de alto padrão do que por casas habitadas. Todavia, tanto os novos quanto os antigos moradores eram acostumados à uma vizinhança calma, pacata, as pessoas se conheciam, se identificavam. Mesmo a contrução de uma grande avenida cruzando o bairro não havia mudado muito dessa vidinha.

Pois, exatamente por volta de 1988 (talvez um pouco antes) foi decidido que a nova rodoviária seria construída no bairro, o que, obviamente, iria mudar de forma significativa o cotidiano de todos os moradores do lugar. Com base nisso e até mesmo pensando que a geração que viria após a nossa não se criaria brincando na rua, como nós havíamos crescido, montamos nosso intrumento de pesquisa de opinião e saímos à campo. Obtivemos algumas respostas simpáticas de donas de casa (mais preocupadas com o nosso trabalho escolar do que com a pesquisa em si); evasivas dos comerciantes, enquanto outras pessoas simplesmente se recusaram a responder. Até aí, imagino que estivéssemos dentro de um padrão. Mas hoje, me recordo, havia um algo bem diferente do mundo cheio de opiniões em que vivemos atualmente. Não era que as pessoas não tivessem uma opinião sobre o fato, elas não queriam dar sua opinião, não queria seus nomes registrados, não queriam dizer o que pensavam. E por quê? Isso eu percebi naquela época. Por medo. As pessoas tinham medo de 4 meninas de escola, tinham medo de seus nomes anotados em papéis dizendo o que elas pensavam e que elas pensavam.

Minha recordação mais forte é a de um senhor que morava em uma casa verde, há cerca de duas ou três quadras de onde eu havia crescido. Ele conversou conosco, mas só o fez para nos convencer que éramos novas demais para se meter com aquilo! “Aquilo”? Mas “aquilo” era somente um trabalho de escola. “Não, meninas, vocês não sabem. Não entendem como é. Eles sabem tudo.” Mas a gente só que saber a sua opinião sobre a rodoviária e a estrada que vai passar aqui na frente da sua casa. “E o que vocês querem que eu responda?” Isso, a gente quer a sua opinião. “Não. Eu respondo o que vocês quiserem que eu responda. E não põe meu nome aí! Nem o número da casa!”

Eu lembro do quanto fiquei chocada. Ele tinha idade para ser meu avô e reagiu com medo… de mim. Meu pai me explicou sobre os anos da ditadura e eu sabia que a repressão tinha sido terrível. Minha professora ouviu nosso relato e também conversou conosco, aletando sobre o fato de não sabermos exatamente do que o velho senhor tinha tanto medo. Eu nunca duvidei da explicação do meu pai, mas não tinha idade ou experiência ou, mesmo, leituras para compreender o tamanho daquilo com que minhas colegas e eu havíamos nos deparado.

Esta semana, estudei com meus alunos textos sobre o Terror de Estado durante as ditaduras latino-americanas. Falamos sobre as mordaças instaladas na educação, na cultura, nos centros de conhecimento e saber. Na mordaça velada em jornais, rádio e TV. Falamos sobre a cultura do medo, instalada em cada período em que a democracia é colocada nos porões, torturada e mantida sob armas. Então, eu voltei a 1988 e à pequena varanda da casa verde escura, próximo à hora do meio-dia. E lá estava o senhor de bigodes brancos, com mais roupas que o necessário para aquela hora da manhã. Ele nervosamente nos perguntava o que queríamos que ele achasse, pedia muito que deixássemos de fazer aquelas coisas e que nunca, em hipótese alguma, deveríamos dizer onde era a casa dele.

Se tenho alguma experiência sobre os anos de chumbo, elas me foram passadas, mais que por qualquer outra coisa, pelos olhos daquele homem. Mesmo que essa experiência só tenha feito sentido depois de muitos anos e de muita leitura, ela é forte, poderosa o suficiente para que sua dor e trauma ainda me atinjam. E para que eu nunca esqueça disso é que eu resolvi contar aqui.

 

3 ideias sobre “Experiência

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