Das coisas pequenas

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De algum jeito, a vida comum – de coisas comuns e gostos comuns – parece ter parado, estacado. O momento é grandioso, dilacerante e grávido de esperanças, como também de temores. Enquanto não se sabe aonde tudo isso vai nos levar, parece que o trivial, o cotidiano, jaz embaçado e tolo a um canto qualquer, esperando. As semanas passam e já estamos na terceira de um país cuja alma não quer mais só comida, quer mais…

No entanto, com saudade das coisas comezinhas, é de comida que eu quero falar. Da trivial e da estranha. Da rasteira e da sublime. Da comidinha da mamãe (que hoje sou eu quem faz) à comidinha da vovó (que hoje é minha mãe quem faz). Isso traduz muito de mim, quero dizer, essa relação com a comida. Para mim, comer é satisfação, mas também contato, porque eu gosto mesmo é de repartir. Adoro meus amigos, todos, mas aqueles com quem consigo partilhar sabores acabam, com certeza, me conhecendo melhor.

Falar/pensar/escrever sobre comer e cozinhar e dividir refeições é também trabalho. São minhas aulas de História da Alimentação, minhas leituras, meus métodos de ensino, minhas trocas com meus alunos. Vamos das gordices à preocupação com a alimentação dos pequenos, com a saúde das gerações que nós, como professores, seremos influência (maior ou menor).

O gosto pela comida e a maternidade acabaram achando um terreno fértil em mim também. Um terreno do qual brotou não somente preocupação com meu pequeno, mas com outros, com os desnutridos (sempre) e os que vão acima do peso. Saiu disso uma visão política de produção de alimentos, do consumo, da educação, da atenção às marcas e à propaganda.

Além disso, ainda acredito firmemente que comida é alquimia. Pode dar muito certo, ou muito errado. Vai depender da alma, do desejo, da lua, do dia, do momento de quem cozinha. Daí a cozinha dos buffes e a pasteurizada e industrializada ter, para mim, com todos os seus sabores insossos e/ ou artificiais, “gosto de isopor”. Enche a barriga, engorda, até alimenta, mas não conta, não marca, não faz daquela hora uma hora mais genuína, mais presente, mais perfeita. De que vale comer, se a gente não está imerso em prazer? Daí serem a cozinha, a comida e aquele que transforma os ingredientes adeptos da mais fundamental bruxaria. Ora, não é a bruxaria aquela coisa mágica e inexplicável capaz de mudar nossas disposições e ações? Comida conquista, faz desejo, acompanha, aquece, sustenta, dá força. Comida é poder. Pronto. Nem precisa mais.

E essa introdução toda foi para falar de uma coisa bem trivial, bem comum, prosaica eu diria. Queria falar do Grande Livro dos Ingredientes, que ganhei do namorado, que tem coisas que eu simplesmente ignorava e que fiquei mais esperta apenas começando a lê-lo. Falar das receitas que testei (uma sopa de cebola épica). E, depois de duas semanas de chuva, falar do dia que saí e andei pelo sol morninho fugindo do frio, olhando e catando sabores. Acabei descobrindo coisas interessantes, coisas a alegrar o paladar e satisfazer as ânsias da criação. Vi barras de chocolate trufado com pedaços de  queijo – os sabores eram requeijão e passas, 4 queijos, parmesão e gorgonzola com ervas finas -, para completar tinha salame de chocolate trufado. Noutro lugar me perdi em geleias – de cabernet sauvingnon, de café, de morango com pimenta, de bergamota. Eu vi todas essas coisas, provei algumas e fiquei louca para dividir, porque é desse jeito que, para mim, a comida ganha sentido. Aliás, é dividindo que uma grande parte das coisas ganha sentido.

Claro, nada disso é importante. É sem sentido quando pessoas morrem, apanham, esperam respostas dos poderes públicos que nunca vem. Mas, como boa comida tem sabor de carinho, falar disso, parece um jeito de desanuviar o horizonte. Dar receitas parece um jeito de dizer: se cuidem, fiquem bem, e não esqueçam o chocolate, pois ele afasta a depressão.

Para a proveitar o frio, vai a receitinha da sopa de cebola épica:

Escolha uma panela de fundo grosso e derreta uma colher de sopa de manteiga em uma colher de óleo de girassol. Frite mais ou menos umas 500 a 600 gramas de cebolas cortadas à seu gosto (rodelas, cubinhos, etc – quem não gosta de morder a cebola pode passar no liquidificador depois). Deixe o fogo baixo e junte: uma colher de sobremesa de açúcar, algum sal, pimenta preta moída na hora e (meu toque pessoal) 3 cabeças de cravo esmigalhadas. Refogue por mais ou menos meia hora, até a cebola dourar bem. Acrescente meio cálice de vinho tinto (isso porque vinho medido em xícaras é uó!) e fique mexendo, ele vai evaporar logo. Na sequência, polvilhe duas colheres de sopa de farinha e mexa bem. Acrescente 1 litro e 1/2 de caldo (de carne ou de legumes para os vegetarianos). O meu eu fiz do jeito fácil, 1 cubinho pronto derretido na água quente (*nota: a patente dos cubos de caldo de carne está entre as invenções de Heyde Lamarr, descobri esses dias \o/). Bem, aí é bom deixar o caldo cozinhar e tomar corpo. Uns 40 minutos, mais ou menos. Hora de testar o sal, a pimenta (eu sempre coloco mais) e, para os que não gostam de morder as cebolas é hora do liquidificar.

Enquanto o caldo apura, corte uma cabeça de alho ao meio e passe em fatias grossas de pão (pode ser o de ontem, mesmo) e leve ao forno. Quando elas torrarem, estará tudo pronto.

Na hora de servir, coloque uma colher de conhaque no fundo do prato, ponha um pouco da sopa, o pão encimado por queijo (de sua preferência, eu usei um queijo colonial misturado a um pouco de provolone) ralado no ralo grosso. Despeje mais sopa por cima. Os puristas poderão gratiná-la, os famintos não precisarão deste detalhe.

 

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Um registro urbano

 

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A primeira coisa que notei foi o chapéu. Era branco, de aba mole, lembrava aquele usado por Bardot e que li em algum lugar que está de volta à moda. Sob ele, uma figura franzina, com um casaco rodando abaixo dos quadris, um tipo de vestido e calças por baixo. Todas as peças escuras, surradas, vestidas com cansaço. Nas mãos, uma sacola cheia. Ela olhava para a luz que vinha de uma vitrine. De longe, só consegui perceber essa imagem, não sei o que ia no seu rosto e também prefiro não supor. Passo naquela rua quase todos os dias e, por limitação minha, só tenho registrado ali a existência de um supermercado e uma padaria. Quando cheguei mais perto, a mulher se afastou, foi até o meio fio e catou um lata jogada ali e a colocou na sacola já cheia de recicláveis. Por curiosidade instintiva olhei para a tal vitrine e não encontrei a padaria (que eu supunha), nem alguma nova loja de roupas. Lá dentro, quatro moças altas, arrumadas, muito bonitas, eram servidas por uma quinta jovem (igualmente linda e arrumada) com champanhe na sala de espera de um salão de beleza. Ouvi a catadora atravessar a rua, mas uma espécie de pudor, ao mesmo tempo terno e doído, me impediu de buscar saber se ela havia olhado para trás.

Experiência

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Costumamos idealizar a experiência como algo que começa a fazer sentido no momento em que nos ocorre. Tenho a impressão, inclusive, que só compreendemos realmente como experiência aquela mistura que ensopa pequenos e grandes traumas no acúmulo do tempo. No entanto, uma experiência – naquele sentido construtor e modificador – pode acontecer muitos anos depois de um fato (bem banal) ter ocorrido com a gente. Alguns superestimam isso, chamam até de iluminação. Merma, Bacco! Nem tanto. Contudo, é realmente extraordinário quando a poeira assenta e realizamos o que, por anos, esteve escondida atrás dela.

Em 1988, eu cursava o primeiro ano do ensino médio (2º grau, na época). Minha escola contava com uma disciplina que, hoje, considero brilhante e inovadora: Introdução à Pesquisa ou IPE. É possível que ela não tenha marcado tanto aos meus colegas quanto marcou a mim, mas naquela época, eu sonhava em fazer pesquisas e escrevê-las (não sabia bem sobre o que, mas o método me fascinava). O foco da disciplina era o de dar aos alunos a oportunidade de conhecer como eram elaborados projetos, recortados os temas, construidas as problemáticas e os instrumentos de pesquisa. Além disso, forneceu meus primeiros contatos com as normas técnicas textuais que viriam a dominar minha vida acadêmica anos depois.

Após formarmos os grupos de trabalho para o semestre, saímos à cata de algo que envolvesse a nossa cidade, que tivesse algum grau de polêmica e que afetasse a vida das pessoas. Não foi difícil. Meu grupo habitual de trabalho e amizado morava em um mesmo bairro. Até bem pouco tempo, esse bairro havia sido dominado mais por construções de alto padrão do que por casas habitadas. Todavia, tanto os novos quanto os antigos moradores eram acostumados à uma vizinhança calma, pacata, as pessoas se conheciam, se identificavam. Mesmo a contrução de uma grande avenida cruzando o bairro não havia mudado muito dessa vidinha.

Pois, exatamente por volta de 1988 (talvez um pouco antes) foi decidido que a nova rodoviária seria construída no bairro, o que, obviamente, iria mudar de forma significativa o cotidiano de todos os moradores do lugar. Com base nisso e até mesmo pensando que a geração que viria após a nossa não se criaria brincando na rua, como nós havíamos crescido, montamos nosso intrumento de pesquisa de opinião e saímos à campo. Obtivemos algumas respostas simpáticas de donas de casa (mais preocupadas com o nosso trabalho escolar do que com a pesquisa em si); evasivas dos comerciantes, enquanto outras pessoas simplesmente se recusaram a responder. Até aí, imagino que estivéssemos dentro de um padrão. Mas hoje, me recordo, havia um algo bem diferente do mundo cheio de opiniões em que vivemos atualmente. Não era que as pessoas não tivessem uma opinião sobre o fato, elas não queriam dar sua opinião, não queria seus nomes registrados, não queriam dizer o que pensavam. E por quê? Isso eu percebi naquela época. Por medo. As pessoas tinham medo de 4 meninas de escola, tinham medo de seus nomes anotados em papéis dizendo o que elas pensavam e que elas pensavam.

Minha recordação mais forte é a de um senhor que morava em uma casa verde, há cerca de duas ou três quadras de onde eu havia crescido. Ele conversou conosco, mas só o fez para nos convencer que éramos novas demais para se meter com aquilo! “Aquilo”? Mas “aquilo” era somente um trabalho de escola. “Não, meninas, vocês não sabem. Não entendem como é. Eles sabem tudo.” Mas a gente só que saber a sua opinião sobre a rodoviária e a estrada que vai passar aqui na frente da sua casa. “E o que vocês querem que eu responda?” Isso, a gente quer a sua opinião. “Não. Eu respondo o que vocês quiserem que eu responda. E não põe meu nome aí! Nem o número da casa!”

Eu lembro do quanto fiquei chocada. Ele tinha idade para ser meu avô e reagiu com medo… de mim. Meu pai me explicou sobre os anos da ditadura e eu sabia que a repressão tinha sido terrível. Minha professora ouviu nosso relato e também conversou conosco, aletando sobre o fato de não sabermos exatamente do que o velho senhor tinha tanto medo. Eu nunca duvidei da explicação do meu pai, mas não tinha idade ou experiência ou, mesmo, leituras para compreender o tamanho daquilo com que minhas colegas e eu havíamos nos deparado.

Esta semana, estudei com meus alunos textos sobre o Terror de Estado durante as ditaduras latino-americanas. Falamos sobre as mordaças instaladas na educação, na cultura, nos centros de conhecimento e saber. Na mordaça velada em jornais, rádio e TV. Falamos sobre a cultura do medo, instalada em cada período em que a democracia é colocada nos porões, torturada e mantida sob armas. Então, eu voltei a 1988 e à pequena varanda da casa verde escura, próximo à hora do meio-dia. E lá estava o senhor de bigodes brancos, com mais roupas que o necessário para aquela hora da manhã. Ele nervosamente nos perguntava o que queríamos que ele achasse, pedia muito que deixássemos de fazer aquelas coisas e que nunca, em hipótese alguma, deveríamos dizer onde era a casa dele.

Se tenho alguma experiência sobre os anos de chumbo, elas me foram passadas, mais que por qualquer outra coisa, pelos olhos daquele homem. Mesmo que essa experiência só tenha feito sentido depois de muitos anos e de muita leitura, ela é forte, poderosa o suficiente para que sua dor e trauma ainda me atinjam. E para que eu nunca esqueça disso é que eu resolvi contar aqui.