De cheiros, perfumes e História

Uma das coisas chatas em História é o fato de toda vez que se inicia a fazer algo fora do ordinário pesa um pouco a necessidade de elaborar uma justificativa. Isso ocorre porque temos plasmado em nossa avaliação do mundo uma hierarquia de assuntos, dos mais importantes aos menos, e isso constitui a base de grande parte de nossas avaliações. Obviamente, com alguns segundos a mais de pensamento, tal edifício se desmonta, mas, convenhamos, há um grande número de pessoas que não se dá ao trabalho de pensar esses segundos preciosos a mais. Não se preocupem, não direi que tal hierarquia é culpa da sociedade burguesa, da ignorância veiculada pela grande mídia, nem mesmo de algum partido político, ou do descaso sobre a educação. A hierarquia de assuntos é humana, civilizacional e levou milênios sendo construída, logo, não é culpa de ninguém em especial, “nem dos romanos” (diria o Monty Python).

Algumas das hierarquias em que nos baseamos estão estruturadas sobre o que consideramos fundamental, ficando lá, no fim da várzea, tudo o que é visto como supérfluo e fútil. A economia, a fundamentações políticas e o gênero, aparecem como algumas da principais réguas nessa medida. Um exemplo do que estou falando foi a reação que colhi de algumas pessoas quando ministrei História do Vestuário na universidade. As associações com moda, futilidade, preocupações “femininas” pareciam argumentos suficientes para risinhos laterais e uma visão antiquarista sobre homens de meia-calça e mulheres com vestidos (ah, os vestidos) de “princesa” Disney. Comecei a disciplina com duas palavras que, a meu ver, calam esses argumentos: revolução industrial. A partir delas fui construindo com meus alunos uma visão de vestuário que passava pela identidade, religião, organização social dos povos até a indústria que capitaneou a ascensão do capital e que move bilhões hoje, indo do mercado do luxo, à escravidão moderna nos países asiáticos e em alguns pontos da América Latina (Brasil incluído).

Outra régua, bem mais antiga, remontando ao nascimento da civilização é a que se baseia nos sentidos. Fomos elegendo os que nos faziam mais civilizados e nos lembravam menos nossa porção animal. Assim, o olfato caiu para o fim da fila. Nosso aliado em farejar o perigo, os feromônios, as memórias, foi considerado menos necessário que a visão e a audição, menos ligado ao intelecto, menos preciso na conceituação do que quer que fosse. Essa percepção acabou dando-nos, modernamente, a ideia de que a percepção olfativa não tem uma história, ou se tem, ela é acessória, supérflua e pouco importante. Se nesse tópico ainda adicionarmos a questão dos perfumes – sinônimo de luxo e do conceito estereotipado de feminino frívolo e condenavelmente sedutor – então, estamos levantando e estudando a mais desnecessária das Histórias, certo? Obviamente, não se poderia fazer suposição mais errada (como provam apontamentos de Febvre e Bloch que, claro, mapearam quase todas as possibilidades de temas para a História muito antes do resto da classe se dar conta delas)..

Eu poderia fazer um retorno à pré-história para provar meu ponto de vista, mas serei mais breve. Pense na cidade em que vive. Na sua estrutura: o lixão longe do centro e os aterros sanitários, o cemitério deslocado para longe das catedrais, ocupando também a periferia, nossa classificação de limpo e sujo, os centros saneados, as periferias com esgoto à céu aberto, “sou pobre, mas sou limpinho”, o olhar repugnado dos transeuntes aos moradores de rua (olhar? são seus narizes que se torcem), os shoppings desodorizados como hospitais e limpos das gentes mal cheirosas. Se hoje os cheiros parecem nos menos importantes são porque foram domesticados e nos agridem quando não o são. Isso, claro, tem uma História.

No ocidente, a renascença marca o início de uma obsessão: a busca pelos perfumes, pelos cheiros agradáveis. Queria-se tornar as casas mais agradáveis e a convivência estreita da nascente sociedade de corte também (nada mais ilustrativo dessa busca do que o romance, O Perfume, de Patrick Süskind). No século XVII, mais que buscar cheiros agradáveis, iniciou-se a caça aos maus cheiros, em especial os do ambiente. O cheiro foi visto como o veículo dos males pestíferos, as doenças, eram os miasmas e o trabalho por sua domesticação levará os três séculos precedentes (acredito que ainda não se possa considerar que tal trabalho esteja plenamente acabado). No XX, a indústria do luxo capturou os aromas, mas não só ela. A industria da higiene colocou em sabonetes, desodorantes e shampoos não apenas um conceito de limpeza, mas também, doravante, uma classificação social. A domesticação dos cheiros, mais que nunca, passou a ter um papel fundamental na classificação que se faz dos espaços e, claro, das gentes.

No Brasil, esse assunto é ainda revestido de outras questões, preconceitos (alguns herdados do tempo da escravidão) e, como não poderia deixar de ser, de alguns mitos cultivados por nossa sociedade que acredita que o banho é seu índice máximo de civilização. Nosso costume – tão pleno dos auto-elogios que nos jactamos – nos coloca acima dos europeus, dos indus, do resto do planeta. Oh, fantásticos nós que tomamos banho todo o dia, por vezes, mais de um. Neste raciocínio se perpetuam pérolas do anacronismo: “nós (brasileiros) aprendemos a tomar banho com os índios”. Ou “o perfume foi inventado porque as pessoas não tomavam banho”. Neste sistema, o banho é o dado e todo o resto é reação, oposição.

O fato é que, não se “aprendeu” a tomar banho com os indígenas  Sim, eles tomavam banho, mas de forma lúdica, como parte das brincadeiras ou até afazeres do dia. Não há percepção higiênica, em outras palavras: é banho sim, mas não é o nosso tipo de banho. Por outro lado, quando o banho se tornou um hábito nas cidades brasileiras (primeiro nelas, depois no campo), há muito já não existia um convívio estreito com os indígenas que mantivessem os costumes ancestrais. Por outro lado, imagine se: com o frio de menos de 10º – como o que faz no momento em que escrevo -, algum habitante do sul, antes do chuveiro elétrico, se arriscaria ao banho diário.

Sobre o perfume ser inventado porque as pessoas não tomavam banho, trata-se de uma frase é invertida em suas proposições. O banho não era um dado. Os romanos o tomavam como parte de suas atividades politicas e, principalmente, masculinas. No entanto, os banhos romanos foram vistos como culpados pela propagação de doenças e pestes ao longo do medievo. O banho era um risco. A pele ficava porosa justamente aos terríveis e mortíferos miasmas. O cheiro do corpo e sua oleosidade o protegiam. O perfume era uma busca do agrado, do prazer, do estimulo dos sentidos. Não se pretendia apagar os cheiros, eles tinham uma função. A busca hedonista não é funcionalista. Sua justificativa está onde não se quer percebê-la, em nossa animalidade, nessa coisa estranha e de difícil classificação que é a percepção e a sensibilidade olfativa.

A história dos cheiros e dos perfumes é um mergulho em todos estes pontos. Em elementos constitutivos de nossa humanidade, em nossa estrutura urbana e social. É um pouco de tudo isso que pretendo estudar com meus alunos no segundo semestre deste ano em História do Perfume, disciplina optativa do curso de História da UNIFRA. Quem ficou curioso por mais, pode perguntar. Devo voltar a comentar sobre isso, pois o assunto é instigante e pleno de apelos a todos os sentidos e intelectos.

 

 

 

Declaração de cor


Começarei deixando duas coisas bem claras. A primeira é que sou total e absolutamente à favor das cotas, acho que elas tem se mostrado um ganho para a promoção da igualdade no Brasil, o que não nos isenta de continuar pleiteando tudo aquilo que, ao fim e ao cabo, as tornará obsoletas como um ensino público básico de qualidade e a luta pelo fim de qualquer tipo de discriminação. A segunda coisa é que não pretendo – com o que direi a seguir – imaginar qualquer benefício advindo das cotas para mim ou para meu filho. Nosso fenótipo branco nos têm mantido fora de qualquer tipo de discriminação no sentido da cor, logo, estamos num grupo que já tem bastantes privilégios (inclusive econômicos e culturais) e seria ridículo pleitearmos mais alguns ou invés de, simplesmente, fazer o melhor possível com o que temos.

Feitas as ressalvas, queria expressar meu incomodo, meu completo e absoluto descontentamento, com a forma que a lei que nos obriga a declarar a “raça” tem sido aplicada no Brasil. Começa pelo termo: raça. Sim, eu sei que as pessoas se acostumaram com ele, mas, sinceramente, não seria melhor as pessoas se acostumarem com a ideia mais simples de que raça não existe entre os seres humanos?  Aliás, a raça é só uma, a HUMANA. Ponto. É isso que somos. Nossa cor, é nossa cor, não nossa raça. Que nos peçam para declarar a cor, ma não a raça, nunca a raça. Tenho sempre vontade de usar a sigla que os veterinários usam para os cães: SRD (sem raça definida). Ou sei lá… vira lata, guaipeca (essa bem gaúcha), ou o que sou, uma mestiça de fenótipo branco, assim como o meu filho também o é.

De onde vem meu maior incômodo? O fato de não haver espaço para OUTROS nas opções dos formulários em que devo declarar minha “raça”/cor. E a obrigatoriedade que fico em declarar que sou CAUCASIANO BRANCO, já que não me enquadro em PARDO, ou AMARELA. Interessante é que há liberdade para se escolher como essas cores serão representadas nos formulários e fico me perguntando que raio de pensamento leva as pessoas a definirem o branco como caucasiano? O que é um caucasiano, afinal de contas? Percebem acaso a ideia de eugenia que subjaz no conceito? E mais, todos os brancos, sejam eles de onde forem, são também mestiços (mesmo que longínquos), porque, ora bolas, um pouquinho de estudo de História não faz mal a ninguém.

Sou branca sim e não tenho nenhum orgulho especial disso. Podia ser preta, amarela, ter bolinhas rochas ou escamas. O fato é que não sou caucasiana, nem meu filho. Deu o acaso de que da mistura de onde viemos (negros, mulatos, indígenas, portugueses, espanhóis, imigrantes alemães – e no caso do meu guri – italianos) acabamos brancos, até um pouco azedos eu diria (não pego cor nem com promessa prá santo). Minha declaração de cor, se eu pudesse, seria simplesmente branca ou o que me faria melhor: mestiça branca. Mas caucasiana… não. Definitivamente, não.

Assim, fica um apelo – daqueles que a gente sabe que ninguém vai ouvir, mas… – aos que fazem esses benditos formulários: isso é Brasil e uma das coisas mais lindas desse país é que podemos e devemos assumir nossa identidade mestiça, seja na cor, seja na cultura. Isso não é feio, não é ruim, é maravilhoso. Não obriguem os mestiços brancos a negarem isso se declarando caucasianos, nos deem liberdade de lembrar que, lá no fundo, temos o mesmo sangue e os mesmos genes que todos os mestiços, de todos os humanos desde que saímos da África (hello!!) em diferentes tempos. O acaso nos rendeu os “privilégios” dessa cultura excludente em que vivemos, mas é justamente por isso que nosso papel deve ser transformar a cultura e apagar dela toda a discriminação, lutar para que o mestiço negro ou mulato tenha os mesmos e iguais privilégios do mestiço branco. A cor, o fenótipo, o visível é só isso, nada mais. Pessoas se medem pelo bem que fazem aos outros, pelo intelecto, pela disposição em amar, pela garra, pelo quanto elas conseguem atingir no que construímos como o mais alto conceito de humanidade. O resto é só o resto e, claro, um formulário sem noção.