Lady Orlando

 

Estou lendo ou relendo Orlando, de Virginia Woolf, muito mais lentamente do que minha vontade deseja. Ano atribulado este, que já começou sem o ano anterior ter propriamente acabado, e que parece disposto a permitir menos prazeres que muito trabalho. Contudo, as palavras de Virginia me ganham, página à página, como um bálsamo num mundo louco e acabo eu, sempre que posso, falando sem parar de minha escritoras favoritas, meu panteão pessoal, ao qual sempre me vejo retornar.

Mas afinal, estou lendo ou relendo? Eu li Orlando há muitos anos ainda na adolescência e o livro não chegou a me marcar. Mais tarde tomei consciência de que lera uma versão recontada para jovens e que, de fato, mesmo conhecendo a história, jamais lera o livro. Agora, em minhas mãos tenho a edição da Nova fronteira, com a tradução poética de Cecília Meireles e  a bela capa ilustrada com um jovem elisabetano de beleza andrógina. Seriam vários destaques em seu texto, e há dias penso em destacar algum deles no blog. Ontem a noite, optei por este:

“Sua modéstia para com que escrevia, sua vaidade em relação à sua pessoa, esses temores pela segurança própria, tudo parece indicar que o que há pouco se disse da ausência de diferença entre Orlando homem e Orlando mulher começa a deixar de ser completamente verdadeiro. Tornava-se um pouco mais modesta, como as mulheres são, quanto ao seu espírito, e um pouco mais vaidosa, como as mulheres são, quanto a sua pessoa. Certas suscetibilidades aumentavam, outras diminuíam. Alguns filósofos diriam que a mudança de vestuário tinha muito a ver com isso. Embora parecendo simples frivolidades, as roupas, dizem eles, desempenham mais importante função que a de nos aquecerem, simplesmente. Elas mudam a nosso opinião a respeito do mundo, e a opinião do mundo ao nosso respeito. Assim, por exemplo, logo que o capitão Bartolus viu as saias de Orlando, já tinha um toldo preparado para ela, e insistia para que se servisse de outra fatia de carne, e convidava-a a descer para terra com ele, em sua lancha. Não teria recebido essas atenções se, em lugar de ondularem suas saias estivessem justas às pernas, sob a forma de calças. Ora, quando recebemos atenções, devemos retribuí-las. Orlando cumprimentara, aceitara, lisonjeara a fantasia do bom homem, como não teria feito se as elegantes calças do capitão fossem saias femininas, e seu casaco agaloado, um corpete de mulher, feito de seda. Assim, bem se pode sustentar a tese de que são as roupas que nos usam, e não nós que usamos as roupas; podemos fazê-las tomar o molde do braço ou do peito; elas, porém, modelam nossos corações, nosso cérebro, nossa línguas, nossa vontade. Assim, usando agora saias há muito tempo, era visível em Orlando certa mudança, mesmo no seu rosto, como o leitor pode verificar lançando os olhos às páginas 103-104. Se compararmos o retrato de Orlando homem com o de Orlando mulher, veremos que, embora sejam ambos, indubitavelmente, uma e a mesma pessoa, há certas mudanças. O home tem a mão livre para agarrar a espada; a mulher deve usá-la para impedir que as sedas escorreguem de seus ombros. O homem encara o mundo de frente como se ele fosse feito para seu uso e de acordo com seu gosto. A mulher lança-lhe um olhar de esguelha, cheio de sutileza, e até de desconfiança. Se usassem as mesmas roupas, é possível que sua maneira de olhar tivesse vindo a ser a mesma.

Isso é a opinião de alguns filósofos e sábios, mas nós temos outra. A diferença entre os sexos tem felizmente, um sentido muito profundo. As roupas são meros símbolos de alguma coisa profunda e oculta. Foi uma transformação do próprio Orlando que lhe ditou a escolha das roupas de mulher e do sexo feminino.E talvez nisso ela estivesse expressando apenas um pouco mais abertamente do que é usual – a franqueza, na verdade, era sua principal característica – algo que acontece a muita gente sem ser assim claramente expresso. Pois aqui de novo nos encontramos com um dilema. Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; e às vezes só as roupas conservam a aparência masculina ou feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra a vista. Cada um sabe por experiência as confusões e complicações que disso resultam; mas deixemos aqui o problema geral, e observemos somente seu singular efeito no caso particular de Orlando.” p. 123-24.

Herói

 

Quando se é professor e, como eu, não se é crítico de cinema, nem literário, tem-se, imagino, a impressão de que obrigamos nossos alunos assistirem certos filmes ou lerem determinados livros. A parte da obrigação é verdade, obviamente, mesmo que a disfarcemos em planos de ensino e propostas pedagógicas. (Embora, é claro, ninguém impeça aos alunos de levantar e ir embora, ou simplesmente não ler). No entanto, nosso recurso – ao menos falo por mim – é de dividir algo que nos apaixonou. E, talvez, nosso pecado seja esse. Nos apaixonamos. E só depois buscamos as coisas que nos fizeram nos apaixonar, as relacionamos, elaboramos, reconstruímos, debatemos com um ou outro companheiro e, ao fim, temos um novo filme ou livro. Algo, em parte, muito diferente do original. Algo só nosso. Eivado de nossa existência, de nossa experiência, de nossa leitura única. É claro que, sendo assim, nossos alunos, ali, obrigados a assistir ou ler, podem não ver o mesmo que nós. Terão seus contatos primários de outra forma, com outros tipos de encanto ou com nenhum encanto.

Tenho tido várias experiências neste desafio. Ano a ano eu mesma preciso lembrar-me o que me apaixonou tanto em determinada obra e porque me sinto na obrigação de dividi-la – segundo meu olhar – e, claro, por que a acredito didaticamente importante. Acontece todo ano quando elaboro os conceitos do romantismo a partir de A lenda do Cavaleiro sem Cabeça, de Tim Burton; ou mesmo algo mais ilustrativo como A Rainha Margot, para compreender as guerras de religião; nem comentarei sobre Jane Austen de quem falo o tempo todo (leia aqui, se interessar). Neste semestre, revisitando uma disciplina optativa acabei novamente diante do belíssimo Herói, de Zhang Yimou.

Amo o filme e amor não tem explicação. Ou tem, mas é preciso buscá-la com afinco. O fato é que, de alguma forma, Herói me toca. Vou desconsiderar nesse amor – já considerando – o fato de que na infância amava Bruce Lee e filmes de artes marciais, que assistia com meu pai e meu padrinho; que sou, por isso, acostumada a pessoas voando e movimentos improváveis com o corpo dentro de uma obra cinematográfica. Entendam, cresci aceitando a ilusão de acreditar que isso seria possível, pois, como me explicaram, os filmes narram o que em tese os lutadores – os grandes, os míticos – poderiam fazer. Aceito tantos mitos da minha cultura, nunca achei complicado aceitar este que pertence a outra.

Porém, para além de meu éden infantil de noites chuvosas e ir para a cama mais tarde, Herói me toca profundamente. Primeiro, com seu banquete visual. Embora haja muito mais nele que suas imagens oníricas, muitas vezes irreais, e que colocam nossa mente ocidental e suas formas narrativas em cheque. Na narrativa do Herói, o que acontece dentro e fora da mente têm a mesma relevância, enquanto para nossa cultura, o imaginário, o imaginado, está sempre no descrédito do não acontecimento, da não realização, como se, de fato, ele não provocasse nenhuma perturbação no mundo. De quem é a ilusão? Do oriental que não hierarquiza os acontecimentos reais e imaginados ou do ocidental que crê que seus pensamentos nada provocam no mundo a sua volta?

Herói narra a história da China antes da China, quando o imperador Qin se propõem a conquistar todos os reinos a sua volta e construir um grande Império. A ele se opõem três assassinos – que devem ser compreendidos como entidades políticas e não como criminosos no sentido ocidental da palavra. Céu, Neve e Espada Quebrada juram matar o Imperador e impedir seu plano. Neste contexto, aparece Sem Nome, prefeito de uma localidade obscura do reino central, mas de uma habilidade guerreira impressionante, uma espadá rápida e extraordinariamente precisa. Ele mata os três assassinos e é levado ao Imperador com honras de herói. O Imperador pede, desta forma, a Sem Nome que conte sua façanha, o que ele o faz. A narrativa então se abre. A mesma história é contada três vezes, com formas e interpretações diferentes. A cada narrativa, o Imperador e o guerreiro Sem Nome ficam mais próximos.

O Imperador é fascinante, como são também aqueles que juraram sua morte. Como boa apaixonada, eu devoto amor eterno a Espada Quebrada e sou completamente encantada por Neve. A guerreira Neve é enigmática e fria e em todas as narrativas é responsável pelas escolhas mais temíveis, mais dolorosas. Os personagens valem por suas qualidades guerreiras e pelos ideias que professam, os quais colocam acima de si mesmos. Homens e mulheres aparecem como capazes do sublime e do indizível, sem hierarquias, par a par.

Boa parte do filme desenrola-se em uma escola de caligrafia e ali temos outra das belas analogias propostas pelo filme. Na história, a caligrafia é associada a habilidade espadachim. No entanto, não é o braço do calígrafo e do guerreiro que se confundem, mas a palavra escrita (as ideias) e a luta por um mundo alternativo ao que se vive que se unem. Aí, a fascinante figura de Espada Quebrada reina num crescente sobre o filme. O maior de todos os espadachins, o mais temível e incomparável e, sua luta, resumida em sem nome e seus ideogramas, fala de coisas que os outros personagens do filme demoram várias narrativas para compreender. E nós também, iludidos pelas formas e cores, pelo onírico e pelo irreal, pela suprema confusão dos sentidos – esta tão ocidental – de tentar descobrir qual das três narrativas é a verdadeira.

Difícil colocar todas as minhas impressões e leituras do filme sem entrar nos fatídicos spoilers (ao que parece,um pecado em nossa época), mas o fato é que as três narrativas – marcadas pelas diferentes cores usadas pelos personagens – seguem um roteiro que pode ser pensado como o vivido, o histórico e o mito. E o último é o que ganha a dimensão da atemporalidade e, com isso, se faz a resposta daquela que é a pergunta fundamental desta obra: o que seria forte o suficiente para te fazer abrir mão da própria vida? A resposta do Herói é a que se imagina dos que carregam este título (e, de fato, o singular do nome do filme é ilusório), isto é: um ideal, e acima de tudo ele, é a força maior a nos fazer entregar nossa existência. Neste sentido, um herói verdadeiro não precisa ter seu nome conhecido, pode ser qualquer um, um Sem Nome, são suas ideias que devem permanecer e a elas que se deve honrar.

Fica minha recomendação a quem não viu deixar-se iludir e levar por uma narrativa extraordinária sobre um mundo de sonho, mas tão real quanto qualquer imaginação pode ser. Afinal, se a realidade é um lago, os pensamentos e ideias são as pedras que o colocam em movimento.

 

 

P.S.: Na sequência, assista o igualmente lindo O Clã das Adagas Voadoras, mesma pergunta e uma resposta completamente diferente ao dilema sobre a vida e ao que se pode entregá-la, sem remorsos.

8 de março, um dia incômodo

Não gosto de 8 de março, não faço segredo. Quando conheci pela primeira vez seu significado, ainda na escola, fiquei profundamente tocada. Causou-me a mesma dor de quando soube a origem trágica do 1º de maio como dia do trabalho, ou melhor, dos Trabalhadores. Com o tempo, porém, a data começou a me irritar. Tudo me parecia profundamente errado nela. Das flores aos sorrisos, da semana da mulher em faixas cor de rosas, aos descontos em eletrodomésticos, sapatos e maquiagem. Fora o “cor de rosa”, eu até aprecio descontos, eletrodomésticos, sapatos e coisas do gênero, mas porque usar este dia, esta semana, este mês para isso? Por que presentear as mulheres num dia marcado pelo horror da condição feminina? Por que risos e compras? É para comemorar nossos salários mais baixos? Nossa menor representatividade política? Nossos rostos deformados, nossos corpos violados, nossas vidas sem dignidade, nossos dias sem descanso, nossas noites de lágrimas escondidas, nossas mortas? Eu olhava 8 de março e me sentia oprimida por tanta alegria, tanta felicidade. Se ao menos se falasse das lutas da década de 1960? Não. Nada disso. Eu só via maridos brincando de dia da inversão: “hoje é dia da mulher, querida, deixe que eu lavo a louça, sente-se, faça o que você nunca pode fazer” ou “obrigado, querida, você é maravilhosa em cuidar de tudo tão bem, eu nunca faria igual.” Como não ser absolutamente feliz com tanto reconhecimento? Uma noite de louça lavada, flores, faixa comemorativa por uma semana no trabalho e um mês inteiro de descontos… Não é o paraíso? Como não ser grata a Deus por ser mulher e inspirar tantas homenagens?

Não lembro a idade em que meus pais começaram a me falar de feminismo e a estimular que eu me sentisse gente, capaz e dona de mim. “Não baixe a cabeça, nenhum homem é melhor que você, sua mente é tão poderosa quanto a de qualquer um mesmo que seu corpo não seja, tenha uma profissão e não dependa de ninguém, fique com alguém por sua escolha e não por necessidade, faça sexo porque é bom e quando você quiser e sempre exija que te respeitem”. Aos 14 já tinha fama de feminista na escola, mas acho que a fama vinha de longe, da época em que um garoto me mandou calar a boca e eu o mandei vir calar. Ele não veio e eu descobri que falar era uma arma poderosa. Contudo, demorei a dar forma aos meus desconfortos, a aprender os reais significados das palavras que usava e das minhas próprias atitudes.  Essa aprendizagem foi solitária por muito tempo, meio escondida, meio cerceada por não querer ser chata, não espantar, para não virar “mirritante”. Enquanto isso, 8 de março me esmagava cada vez mais. Há uns dois anos, eu comentei em casa: “queria dormir no dia 3 e acordar lá pelo dia 12, ou pular março inteiro para me ver livre dessa patacoada de dia da mulher”. Ano passado me pediram um texto para este dia e eu respondi que ficava irritada demais para escrever qualquer coisa sobre 8 de março. De mais a mais, como historiadora, o que eu poderia escrever além dos inúmeros e fantásticos textos que começavam a sair em blogagens coletivas e tudo mais. Fiquei quieta e nada escrevi em nenhuma rede social, limitei-me a ler e partilhar.

Contudo, algo mudou. Mudou muito e para melhor – ah, eu ainda morro de otimismo –, mas acho que foi para muito melhor. Começou com a fala infeliz de um policial canadense, que jamais poderia adivinhar que suas palavras seriam faíscas sobre pólvora, barris e barris recheados de pólvora e indignação e que ali um incêndio – há muito em fogo brando – ia se espalhar. A Marcha das Vadias acendeu o debate de todos os lados. Eu vi – e por isso não falo de impressões – pessoas começarem a se questionar e se descobrirem feministas. Nos últimos anos, cada vez mais mulheres e homens começaram a assumir a palavra, a usá-la, a perderem a vergonha de anunciarem em alto e bom som. Talvez, só meus mais próximos e alguns alunos tenham podido avaliar minha felicidade em ir percebendo o aumento destes movimentos e ideias.

Então, o fim do ano passado me foi o mais depressivo e doloroso que já vivi enquanto observadora dos acontecimentos do mundo. Foi como se toda uma onda de violência contra as mulheres viesse a me bater na cara. Foi como se a alegria do movimento murchasse em mim e o peso de todas as dores voltasse. Havia um por que estampado nos rostos de alunxs e amigxs. Já não adiantava chamar outros povos de bárbaros quando era claro que a mesma violência assolava nossas casas e ruas. Ainda somos o país de Doca Street, somos país que o absolveu. Não somos melhores que os que queimam, desfiguram ou fazem estupros coletivos de mulheres. Temos tudo isso, bem aqui, em cores nacionais e, pior, ainda temos os que defendem a culpa das vítimas. E são tantos… tantos.

Há muitos anos, li um texto analisando os crimes de Jack, o estripador – minha memória, infelizmente, perdeu o autor – nele, o historiador defendia a tese de que a violência contra as mulheres tende a aumentar nos períodos em que as lutas por emancipação e dignidade são mais ferrenhas. É uma resposta, uma estratégia não orquestrada de medo e terror, uma ofensiva da insegurança, um cala a boca. Quem estuda história sabe que a estratégia foi usada inúmeras vezes, tantas vezes que, caso se quisesse contar, se poderia dizer que a história é a história da luta para fazer as mulheres calarem a boca (já houve leis que as proibiam de falar em público). Porém, é uma luta inglória, fadada ao fracasso. Somos gente, nossa mente é tão poderosa quanto a de qualquer homem e não vamos calar a boca. (E não me venham com os nomes dos gênios numa história contada por homens e de tempos em que as mulheres eram proibidas de estudar, que me dá cansaço só de ler a ignorância).

Esta semana, porém, algo aconteceu. Algo poderoso o suficiente para jogar meu ranço com 8 de março pro espaço. Algo que me arrancou da tristeza que ainda me acompanhava por conta dos assassínios. Algo que me fez sentar e escrever este texto, meio confissão, meio desabafo. Começou com muitas e muitas mulheres dizendo nas redes sociais que nada havia para comemorar. Continuou com a recusa das flores e a justa indignação com as campanhas de “homenagem” que mais parecem uma piada de mau gosto. Completou com uma aluna linda e sorridente me mostrando orgulhosa os cartazes que seriam colados pela cidade, conscientizando que a violência, além das cifras, tem nome, rosto e dor. Terminou com as postagens desta noite nas redes sociais e a certeza de que não se vai calar a boca. Nunca mais. E que todo o terror e o medo só servirão a nos dar forças. Se o dia é incômodo, vamos incomodar. Muito.

Antes que me esqueça, é melhor dizer: Dia daS MulhereS, por favor. Somos muitas, somos várias, somos um coletivo, E NÃO VAMOS CALAR A BOCA. Aos saudosos (e eu já disse isso em algum outro texto, mas não adianta porque eles continuam a espernear): o tempo não para, mesmo com retrocessos, o mundo não voltara aos ridículos “anos dourados” ou ao século XIX. Mesmo que as trevas nos rondem. E, o melhor de tudo, tem cada vez mais gente do nosso lado. Então, é bom sair da frente!