Conclusões para começar o ano

 

Os muito jovens e famintos que me perdoem, mas é definitivo: detesto rodízios. Não me levem a mal, deve ser a idade e esse enfado que começa a acompanhá-la. A paciência vai se extinguindo com tudo que é corrido, caótico, dispersivo, excessivo. Já passei da época de querer comer até não poder mais. Quero antes um vagar lento, do tipo garfada por garfada. Quero olhar mais meus acompanhantes de mesa que os garçons. Quero não ficar interrompendo as minhas frases a cada minuto com um “muito obrigada” ou “não, obrigada” ou ficar pensando se quero ou não quero calabresa com bacon (aquele tipo de mistura que parece ótimo, mas que, na verdade, um sabor anula o outro). Eu quero comer por prazer, quero partilhar refeição para conversar. Não quero um zilhão de ofertas, quero o que procuro, apenas, e bem feito. Quero comer rezando, olhando o céu. Quero especular ingredientes e tentar adivinhar temperos. Quero ficar lembrando o sabor como quem rememora beijos. Quero ir nos lugares para comer algo que me faça voltar. E, no retorno, ao invés de me aventurar pelo menu, quero fazer o mesmo pedido, buscar de novo o gosto que me conquistou. Um tipo de fidelidade, admito, ou, talvez, nostalgia. Eu vejo charme na comida que me traz sabor de reencontro. E, se é para dizer o que quero, que seja então a companhia agradável e risonha, que entenda piadas sutis e fale de livros que lhe fizeram o encanto nas últimas semanas, e que tenha visto filmes novos e que saiba renovar os próprios problemas (porque problemas antigos são intragáveis como comida requentada), que fale de tudo e que ao provar a refeição se entregue a ela. Porque nem refeição, nem companhia têm gosto sem entrega. É por isso que detesto rodízios. Na minha idade, se me entregar a um deles, do jeito que a coisa tem de ser, é morte certa.