A máquina de lavar roupas do Miguel

Tenho me empenhado em campanhas contra o estímulo ao consumismo infantil. Os argumentos são variados. Acho importante pensarmos nos adultos do futuro e sua relação com o consumo do planeta. Creio que o estímulo ao consumo pelo consumo possui um residual de vazio, pois as “coisas” – aquilo que é colorido, brilhante e pode ser comprado – não preenchem nem os espaços internos, nem as faltas de atenção, nem os afetos ausentes. Tenho convicção que mesmo em crianças é preciso estimular a conquista, a busca, e não a satisfação fácil. Por outro lado, há a questão dos limites. Por causa deles e de tudo o que falei acima, nunca me sinto culpada por negar algo ao meu filho. Ele tem tanto, de tantas coisas. Dizer não para ele é ensiná-lo que há limites.Para todas as coisas.

No entanto, como o estímulo ao consumo está em tudo – na TV, nas ruas, entre os amigos, nas conversas dos pais dos amiguinhos (engana-se quem pensa que o consumismo vazio vem apenas da mídia; alguns pais são de apavorar) – não é raro termos sessões de “eu quero”. Afinal, ele é criança, nem completou quatro anos. Houve, inclusive, o momento em que ele passou do “eu quero” para o “eu preciso”. Neste dia, tivemos uma conversa na qual minha fala foi: “Não, você não precisa. A gente precisa de água, de comida, de soninho, de beijinhos, mas não, você não precisa desse brinquedo, você o quer, mas não precisa dele”. As sessões de “eu preciso” encerraram-se ali. Venho conversando sobre o “eu quero”, estabelecendo datas e conquistas para este “eu quero” se manifestar. Meu menino não é bobo e logo alterou o discurso. Agora, seus pedidos vem com “eu posso querer?”

Há alguns dias, após assistirmos juntos uma propaganda, recebi um “eu posso querer” que me fez pensar. A publicidade – que arrepia até o último cabelo de minha cabecinha feminista e sobre a qual já escrevi – é a da Lava Lava, da Homeplay, cuja chamada diz que o brinquedo é uma máquina de lavar roupas “igualzinha a da mamãe” (porque, bem, homem não lava roupas, não é?). Miguel perguntou se podia querer a lava-roupas de brinquedo para lavar as roupas dos seus bonecos. O dilema pareceu. O primeiro impulso foi negar, porque, mesmo com a cabeça atenta, o brinquedo cor-de-rosa gritava para que eu o negasse a um menino. No entanto, o Miguel o estava pedindo por consumismo e por interesse, para ele, os significados sexistas não estavam aparentes e isso era bom. Pensar numa fração de segundos, era o tempo que eu tinha para responder ao pedido. Se eu negasse, ele poderia não entender que isso se referia ao consumismo, e interpretar que eu negava por ser rosa, ou por só ter meninas na peça publicitária (até porque, numa conversa com outras pessoas, elas poderiam dizer isso a ele). Respondi: “sim, filho, você pode querer”.

Mais tarde, conversei com o pai dele e resolvemos que daríamos o brinquedo. O problema é que o desejo do Miguel e nossa disposição acabaram esbarrando em nós realmente não podermos lhe dar o brinquedo. A tal maquininha é bem cara, em especial em nossas atuais finanças. O ajuste, no fim de tudo, foi feito pelo próprio Miguel. Certo dia, vendo-me colocar roupas na máquina de lavar, ele empurrou uma cadeira para junto de mim e a escalou:

“Posso ajudar?”

“Claro!”.

Na sequência, ele colocou o sabão em pó, o amaciante e girou os botões, com meu auxílio. Depois, fez questão de, como estava chovendo, ajudar-me com a secadora.

“Mãe, posso te ajudar a brincar com a máquina grande”.

Pode sim, filho. Ô, se pode.