Doce de Bolicho

 

Em frente a casa da minha avó Mocinha havia um bolicho. Aos não versados sobre o tema, informo que bolicho é uma venda de secos e molhados, com maior ou menor ênfase no serviço de líquidos espirituosos (cachaça, branquinha, malvada, etc.). Diferente de alguns tipos de bares do interior do Rio Grande do Sul, onde a presença da clientela masculina diminuía ou quase impedia a presença feminina, os bolichos tinham um ar “família”.

Vó Mocinha volta e meia me pedia para ir comprar fermento para completar o bolo de farinha de milho, ou chá para acompanhá-lo, ou bicarbonato para bolachas (nosso nome para biscoitos). Nos domingos, ia pegar uma garrafa de refrigerante, um regalo só desse dia (mas, confesso que preferia suco de vinho). Algumas vezes, também ia lá chamar meu avô. Encontrava-o escorado ao balcão, copinho pequeno perto da mão, conversando com o bolicheiro e mais um ou outro bebedor de plantão.

Minha lembrança fala de um lugar meio escuro, com duas pequenas janelas para a rua não calçada e poeirenta e um porta para a “avenida” de um lado só. As paredes eram abarrotadas de coisas e o lugar tinha um cheiro que misturava erva-mate, milho para galinhas, açúcar e cachaça. Muita coisa era vendida em sacos abertos, onde ficava um caneco de latão (do qual não sabia e nem sei o nome) que se usava para encher sacos que podiam ser de papel ou plástico grosso, mas também algum recipiente trazido de casa. No balcão havia linguiças – algumas trazidas para venda pelos próprios consumidores – e queijos e mortadela bolonha grande. Alguma banha em sacos e algum leite, mas eu e meu avô, que era leiteiro, torceríamos o rosto se víssemos alguém comprando leite num saquinho, ora, faça-me o favor! Fermento para pão também ficava ali e eu lembro de vir buscá-lo junto com a erva doce, que faria o pão cheirar antes de ir ao forno enquanto crescia numa bacia azul.

Contudo, havia uma categoria – e hoje sei que era uma categoria – de produtos que faziam meus olhos brilharem: os doces! Ah, não imaginem nada extraordinário, estes doces eram apenas porções estupidamente grandes de açúcar em formas e cores generosas. O inventário é quase uma aula de história desses sabores específicos de um lugar e uma época (mesmo que ainda possamos encontrar alguns deles por aí):

1. Sorvetes secos: a casquinha de sorvete com um pedaço de Maria Mole em forma de sorvete italiano, empanada com coco ou com açúcar cristal. Colado a ele um “brinde” – uma bexiguinha colorida ou um anelzinho de plástico.

2. Merengões: alguma coisa feita com um pouco de clara de ovos e quilos de açúcar, com cores de anilina. O tamanho era em torno de 10 x 5 cm e, dependendo da tolerância da criança ao doce, se podia comer por dias.

3. Pirulito em forma de bico infantil: era vermelho, brilhante, transparente. Doceeeeee!

4. Tijolinhos de banana, também conhecido por mariola.

5. Tijolos coloridos de doces feitos de gelatina e mais alguma coisa. Estes, em geral, tinha duas cores, sendo as mais comuns amarelo e vermelho, e eram empanados em açúcar cristal.

6. Rapadurinhas de leite e de amendoim com melado e com mel.

7. Cocada e doce de abóbora, em geral feito na casa ou por alguma vizinha;

8. Goiabada que se podia comprar fechada em caixa de madeira ou lata ou aos nacos para comer com o queijo que ficava sob o balcão.

9. Saquinhos de Mumu, ou mumuzinho (doce de leite), espalhados em tripas longas.

E, o favorito: o imenso baleiro de 3 ou 4 andares com balas Soberana recheadas com mel ou geleia, balas de hortelã em papel verde, balas Soft coloridas, balas de Banana, balas Poca e chicletes Ploc. Digo, favorito, não por ser uma amante de balas, mas porque, toda vez que ia lá, o bolicheiro me dizia para escolher uma das tampas, enquanto ele girava o baleiro para que eu pudesse ver tudo. Depois da tampa apontada, esta era desenroscada e vinha a frase mais maravilhosa de todas: – Pode encher a mão, guria!

Eu tinha menos de seis anos, e até hoje minha mão é pequena, mas, naquela época, era como se eu pudesse me servir do mundo todo.

 

Exercício de Intolerância

É um ritual, desde que começamos a morar juntos, sair no sábado para almoçar. Domingo é dos outros, o sábado é nosso. Em nossos sábados já elaboramos rotinas maravilhosas, incluindo cinemas, livrarias, caminhadas sem fim. Hoje, os sábados são do Miguel, o que também é incrível, mas mantivemos o almoço fora de casa. Ele nos livra da louça (amém!) e, de quebra, ainda serve para socializar o guri em lugares públicos (o que é feito com mais ou menos sucesso dependendo do humor da figurinha). Nesses passeios, o Miguel criou uma geografia com nomes próprios para designar cada um dos locais em que costumamos ir comer. Tem o do Peixe (restaurante que possui um tanque com carpas), o restaurante dos tios, o lugar do lago, o lugar legal, o lugar que tem brinquedo, o lugar depois dos trilhos do trem. Destes, seu favorito é o lugar legal. O Guto e eu não desgostamos. A comida é variada, leve, bem feitinha, nada extraordinária, mas honesta.

Entretanto, de tempos em tempos, ou pegamos um dia cheio de mais – o que é um incomodo meu, admito – ou acabamos sendo abalroados pela conversa da mesa ao lado. Veja bem, nada contra quem vai ao restaurante e grita suas convicções como se estivesse em comício. Quem sou eu para desfazer das palestras alheias? Ironias à parte, confesso, porém, que algumas têm o dom de despertar minha intolerância e colocá-la além dos níveis razoáveis. No último sábado fomos brindados com algumas frases de efeito, tipo:

“Bom era antigamente em que as pessoas trabalhavam por um prato de comida e um lugar pra dormir. Ainda eram gratos e faziam referência para o patrão. Hoje é tudo no sindicato.” (Adicione nojo à última palavra).

Segue o discurso:

“Enfiei o dedo na cara dela e disse que eu não era sua assalariada para receber ordens dela”. (Ênfase e nojo no assalariada).

Responde um dos ouvintes:

“É isso aí, mãe. Tem de mostrar pra essa gente quem é que manda desde o início.” (Nojo no essa gente.)

Para completar a sessão (a essa altura da mais completa tortura auditiva):

“Ele é assim… sabe, meio intelectual. Sabe como eles são meio estranhos.” (Obviamente, a palavra intelectual veio recheada do mesmo nojo que as anteriores).

As pessoas da mesa ao lado pareciam muito desconfortáveis em dividir o mundo com trabalhadores que não conhecem seu lugar e exigem salário e com esses intelectuais que tem a estranha mania de pensar. Eu, por meu lado, só agradecia por meu filho ser pequeno o bastante para não precisar apontá-los e dizer: “olha, Miguel, nós que trabalhamos por salário, nos sindicalizamos e vemos o estudo como a mais importante das atividades humanas, achamos que gente assim tem de entrar em extinção para que o mundo melhore”.

Como calei diante daquele conjunto de barbaridades, acabei, mais tarde, maldizendo não ter a verve e a capacidade de resposta da grande Marilena Chauí, que, esta semana, causou furor nas redes sociais com sua a participação no Coletivo dos Estudantes em Defesa da Educação Pública realizou, na Faculdade de Ciências Sociais da USP (28/08). Assistir o vídeo de 20 minutos, não apenas me fez admirar ainda mais a pensadora, no trabalho de transformar as agruras cotidianas em compreensão do mundo, mas também elaborar um desconforto antigo. Sempre incomodou-se grandemente as pessoas que agem como se o universo estivesse aí para servi-las. De alguma forma, consolava-me imaginar que este era algum tipo de defeito pessoal dos seres humanos indigestos que cruzavam meu caminho. Ver esta como uma característica de grupo – como sugere Chauí – não é apenas assustador: é vergonhoso.

Contudo, com base na experiência, acabo por discordar de Chauí em dois pontos. Primeiro, não acho que as características definidas por ela sejam apenas uma faceta da classe média. Nossa elite econômica é, no geral, tão prepotente, violenta, iletrada e hierarquicamente posicionada quanto os exemplos de Chauí. A classe média, que ela denuncia, é formada por aqueles indivíduos que tentam imitar esse exemplo, esses valores e, de quebra, ser aceitos por esta elite. O segundo ponto é quando ela afirma que São Paulo possui o pior grupo do Brasil com essas características. Basta sair para almoçar, num sábado qualquer, no RS (e em outros lugares do país), para perceber, tristemente, que São Paulo não carrega essa taça.

Por fim, se algum leitor achou que o título se referia às pessoas da mesa ao lado, desculpe o engano. O título se refere a mim. Isso porque sendo filha de operários, de pequenos trabalhadores rurais, de gente que tem a fome e o trabalho em sua história, tendo crescido aprendendo sobre a importância do estudo, estudando história e ensinando todas lutas dos trabalhadores por cidadania e respeito, sabendo quantos pessoas morreram por isso, eu sou intolerante com quem pensa e age como as pessoas da mesa ao lado. Sim, eu assumo: tenho nojo, asco verdadeiro, desses elitismos ultrapassados no tempo, dessas relíquias infelizes do passado. E, meus caros concidadãos da mesa ao lado, sou das que lutam para que continuem desconfortáveis nesses mundo de trabalhadores que sabem que seu lugar não é obedecer gente como vocês. Boa extinção!