De pernas e janelas

 

Querer morada é tomar consciência da forma que os sonhos tem. Casa ou apartamento? Não! A pergunta é: queres chão ou vista? Queres o espaço que se constitui da memória dos afetos da infância? A casa da avó, da madrinha, da mãe? A casa que é, quase sempre, de posse feminina, e que existe como uma força de aterramento, de não abandono, de criação. Pensa casa, geralmente, quem quer filhos. E filhos correm. Têm bicicletas e cachorros. Na casa, os imaginamos com as mãos e os pés sujos, o pescoço e o rosto suados, a bola sob o braço e a dificuldade de reconhecer a hora de encerrar a brincadeira.

Se não for casa, ergue-se o apartamento sobre escadas que simulam outras seguranças. Não mais as da memória, mas as de um moderno citadino, do menos enraizado, do marco das liberdades de quem acredita começar em si mesmo. O apartamento carrega um sonho de vista à uma paisagem que nem sempre se consegue. A cidade vai fechando o olhar e o apartamento ganha cores de uma intimidade onde as janelas são telas. Sem vista, o apartamento joga seus moradores aos escapes, às saídas, que são a TV, a internet e, por vezes, as portas. Menos generalista e emotivo que a casa, o apartamento especializa e foca.

Não se há de achar que tamanho não é nada, se é grande ou pequena a casa ou o apartamento. O número de quartos é o número de filhos ou de necessidades. Um lugar para os livros, um lugar para os amigos, uma cama de passagem. Uma cozinha para quem cozinha ou uma combinação de refrigerador, microondas e chaleira elétrica.

Quanto vale desistir de um desses? Quanto vale desistir de um quarto? Isto que é, de fato, desistir de quem estaria ali. Desistir do universo que ele ou ela construiria dentro do seu mundo. Qual o tamanho da perda que é não ter daquela janela sob a qual se colocaria a mesa de trabalho e os olhos abertos do sonho? O que fica? O que vai?

Afinal, qual é seu espaço vital? Aquele sem qual lhe é impossível viver, impossível ser em plenitude? Querer morada é perguntar-se, e, na busca, encontrar respostas e o que elas dizem sobre o que se é e sobre os sonhos dos quais você pode abrir mão. Por quantos metros há se espalhar sua cama? E as suas pernas… você tem ideia de até onde elas poderiam caminhar antes de encontrar seu descanso? Talvez, suas pernas, não tenham a mesma paixão por janelas que você.

 

“Aquele” livro

Tenho pensado muito sobre “aquele” livro. Sabe? “Aquele”! O que deu o estalo, o que preencheu a busca, o que me disse “é isso!”, o que me fez uma leitora acima de todas as coisas. Sabe? “O” livro. Na verdade, minha procura não vem de agora, embora ela tenha crescido após minha leitura da obra de Mempo Giardinelli (que comentei aqui e aqui). Giardinelli elege o Quixote, e, talvez, o tenha também feito Borges. Cada escritor e leitor tem o seu, é fato. Trata-se daquela obra fetiche, a qual você sempre volta e redescobre coisas e se redescobre.

Lembro que a primeira vez que vim a pensar sobre o assunto foi lendo uma crítica (positiva) à série Harry Potter. No texto, o autor (um escritor norte americano do qual não recordo nome, mas tenho quase certeza de não ter sido o King) escreveu que o apelo de Harry Potter aos leitores mais velhos estava em lembrá-los da mágica d”aquele” livro. O transformador. O livro que, em palavras escritas, lhe disse: ler é a melhor coisa do mundo. Lembro de ficar fascinada com uma frase que afirmava que “para o resto da vida, o leitor busca a sensação daquele primeiro livro, daquela leitura que fez dele um leitor”. O leitor seria, nesta visão, o buscador daquela sensação única e transformadora, daquele momento iluminado de conversão a um adorador da palavra escrita.

Creio, porém, que são duas situações. Numa temos o livro conversor (este descrito acima), no outro o livro-ícone, isto é, aquele que, de alguma forma, te explica, te referencia, te constrói. Ambos são, é claro, “aquele” livro.

Obviamente, nem sempre o “aquele” livro (em qualquer um dos casos) é o primeiro livro que se lê. Nem poderia. Eu, certamente, teria dificuldades em apontar essas transformações vindas de As Aventuras de uma Andorinha ou uma versão em versos de O Patinho Feio (meus primeiros livros). E, como afirmei ontem aos meus alunos, o bom livro é sempre aquele que, ao fim, de alguma forma, transformou o leitor. O bom livro não deixa que seu leitor termine-o tal qual o começou. Veja bem, o escritor muito raramente modifica a si mesmo entre o início e o fim do que escreve. Isso porque, quando ele começa seu trabalho, já tem (ao menos em tese) o que quer e o que pretende com aquela escrita. O leitor não. Ele entra, muitas vezes, sem ambições na paisagem do texto e vai colhendo o que vê semeado, vai absorvendo, apresando, incluindo, transformando. O leitor quase nunca é o mesmo ao fim de um livro (ou de um grande livro). Sua vantagem sobre o escritor é, portanto, nesses termos, inegável.

Minha angústia, porém, foi que estanquei em minha busca. Considerando o fato de que, se tive de promover uma busca, talvez – pânico – esse livro, “aquele” livro não exista pra mim. Ou seja, eu não consigo localizar um livro conversor. O que tenha me provado que ler é a melhor coisa do mundo. O fato é que a leitura me era um desejo antes mesmo de aprendê-la. E, se algum texto foi o suficiente para me convencer que eu seria uma leitura voraz pelo resto da vida, foi a cartilha do Davi. Se não me engano, foi o primeiro livro que devorei.

Tão pouco localizo o tal livro definidor, aquele cuja leitura me constituiu, fez de mim parte do que sou. Meus amigos leitores não raro erguem a bandeira de seus livros de cabeceira e, assumo, sinto inveja. Gostaria de poder escolher um, ou, quem sabe dois, até três. De verdade! Mas, quanto mais procuro, mais isso me parece uma tarefa impossível.

Minha orientadora de mestrado costumava dizer que os livros precisam de disponibilidade. Por vezes, um bom livro te encontra num momento em que você não se encontra disponível para ele. O resultado é a incompatibilidade. Contudo, isso não deve invalidar novos encontros, em outros momentos. Assim, me acho totalmente incapaz de apontar em mim “aquele” livro. Ao mesmo tempo em que eles parecem ser tantos, e tão variados e tão ligados à cada momento de vida que tive. Tem épocas em que sou disponível demais e tudo me afeta, me causa afetos. Em outros, viro ostra e nada me arranha.

Na adolescência e em outras fases da vida, como o doutorado, li alguns romances de forma intensiva. Foram 18 vezes O Conde de Monte Cristo aos 12 anos e 11 vezes  A Moreninha aos 13. Não sei quantas vezes Pollyana ou As Férias, da Condessa de Ségur. Mais trocentas vezes Julia dos Sete aos Dezessete. No mestrado, eu lia Garcia Marques e Calvino, no doutorado foi a vez de Jane Austen e Henry James, mas também de Harry Potter.

Agora, leio extensivamente, num amplo consumo de tudo o que quero ou que sempre quis ler. Mas, eu ainda estou procurando. Talvez, eu não seja capaz disso: de escolher, de ter apenas um livro-ícone. Talvez, possuir “aquele” livro não seja pra mim e, acredite, não me vejo com bons olhos por conta disso. Afinal, o problema não são os livros – escritos e criados para serem únicos no coração de seus leitores – sou eu e meu horrível deleite na quantidade. O problema é que, apesar de reconhecer minha falha (de caráter, sem dúvida), eu realmente não consigo me sentir mal por isso. Shame on me.