A criação do leitor

Ainda sonho com uma nação que deixe de se envergonhar por ler e passe a envergonhar-se do contrário. Livro tem de estar na gondola do supermercado e ser comprado junto com leite e farinha, arroz e feijão. Tem de estar no catálogo que vai de casa em casa e na parada do ônibus, esquecido no banco da praça e recolhido para ser lido noutra casa ou noutro banco. Livro é o melhor presente, pois um livro nunca, nunca acaba. Acabei encontrando eco desta paixão e das angústia por ver tantos perdendo tanto nos textos que tenho lido com meus alunos de História da Leitura. Relendo Mempo Giardinelli (escritor, intelectual e ativista da leitura argentino) salta-me esta imensa e deliciosa passagem:

Toda vez que viajo, há muitos, levo comigo algum exemplar do Quixote. É meu único livro consorte e a razão disso – descubro ao redigir estas linhas – é que todos escrevemos querendo criar o nosso leitor. Queremos saber, ou poder, criar um leitor idôneo para o livro que traçamos. Não o fez, por acaso, Julio Cortázar, que forçou todos, e já há várias gerações, a lê-lo como ele queria, isto é, com um sentido lúdico e lógica de burguês bem informado? Não o fez Marcel Proust, e ainda antes Howard Phillip Lovecraft, e depois Franks Kafka, para citar exemplos em outras línguas?

Criar o leitor que nos mereça, merecer um leitor e, sobretudo – aspiração maior -, formar um leitor que seja toda uma nação.Escrever para alguém capaz de seguir nossos passos na andança, de compartilhar conosco a peripécia de sentir e gozar e sofrer como nós gozamos e sofremos sendo cada personagem. Cervantes sabia bem disso. Pressentiu isso como um gênio. E traçou o caminho através do qual todos foram – fomos, somos – seus devotos acólitos, seus arcanjos denunciadores, seus pregadores.

Escrevemos para ser lidos. ainda que alguns declarem, resisto a acreditar que alguém escreva, realmente, para si mesmo. Desacredito da escritura onaninista porque cada um sempre tem um Leitor Ideal implícito. A ele nos dirigimos ao escrever e é dessa maneira que cada texto cria e impõe seu leitor de antemão. Esse leitor nasce com o texto como se a própria criação o convocasse. Isso nos permite imaginar, ou saber, que quando escrevemos o fazemos para alguém. Às vezes um amigo, um professor ou a pessoa amada. Vivos ou mortos. 

Cervantes – eu tenho certeza – procedeu dessa maneira. Ele escrevia para alguém concreto, para pessoas com rosto, nome e sobrenome. Por isso criou esse modo maravilhoso de exercitar a escritura fazendo com que o texto conversasse com seu leitor. Não era apenas cortesia. Era docência. Cervantes queria formar seus leitores, era consciente da necessidade de fazê-lo. Foi tão grande sua genialidade, talvez pelo ressentimento que então sentia pela idade e pela raiva diante do fracasso mais ou menos generalizado de suas produções, que deve ter percebido que somente quebrando os moldes se fazem grandes obras. E quebrar os moldes implica, evidentemente, em abrir caminhos novos e, sobretudo, educar os olhos para que saibam ver o caminho.

[…] Cervantes escreveu uma novela que necessitava, imperiosamente, criar seu próprio público leitor, e esse foi nada menos que o povo da Espanha e o seus novos territórios ultramar, esta América conquistada educada a ferro e fogo, a Cruz e a Espada, em que hoje habitamos.”

Ainda me perco na riqueza das palavras e na quantidade de reflexões que daí advém. Escolho para começar esta ideia: a de que o leitor é, em parte ou totalmente, criação de quem escreve. A palavra criação para mim, ao menos, também pode ter diferentes sentidos: criar no sentido de educar, levar ao entendimento, à reflexão transformadora; criar no sentido de que o texto comporta em si também este personagem quimérico e distante, o leitor; criar no sentido de que um texto não conquista leitores, mas os atravessa e, por conseguinte, os molda e conforma à estrutura daquela narrativa.

Consigo entender assim o que diz Giardinelli de sua paixão por Quixote. Ele não possui o livro. É o inverso. O livro o possui e consegue a cada leitura surpreende-lo. É o que ele quer dizer quando fala de seu livro consorte, imagino. Ele o compara a um amado (ou amada), um parceiro de afetos e dores, de identificação e repulsa, mas sempre novo, sempre instigante, sempre sedutor.

Exatamente por isso, eu diria mais: um livro, um grande livro, é maior, bem maior que seu autor. Isso porque o que o escritor constrói e desconstrói em palavras para seu imaginário leitor pode vir a ser tão poderoso que pode, realmente, CRIAR. E, ora, todos sabem que o resultado da criação é algo incontrolável. O leitor criado (mesmo a partir da imagem prévia do escritor) não é um leitor dócil ou submisso. O grande texto forma um grande leitor. Por vezes, leitores tão grandes, mas tão grandes, que ocupam uma nação inteira, fazem uma identidade, um universo. Pense nos escritores que causam arroubos e deslocamentos de seus leitores, sejam eles vivos ou mortos, e compreenderão o que quero dizer.

Segundo Giardinelli, Cervantes criou os leitores da língua espanhola. No mesmo raciocínio, Shakespeare criou os da língua inglesa e Camões os da fala portuguesa. Seria possível aprofundar no que cada um destes legou aos seus leitores e aos escritores que os sucederam. Não sou especialista, apenas apaixonada, mas ouso dizer que Camões não era menor que nenhum destes outros. E se tem algo do qual este pai criador de leitores na língua portuguesa nos dotou foi do sentido da aventura, da superação, do limite ultrapassado. O pai da língua portuguesa nos mandou navegar – mesmo com medo, mesmo com dor – mas navegar sempre nos mares de palavras. Talvez, por isso, ainda haja uma certa confusão e pensemos que os leitores tem de ser conquistados. Não. Eu concordo com Mempo. É preciso criá-los e, no processo, fazê-los consortes da leitura. Afinal, esse amado/amada não exige menos que uma paixão para toda vida.

 

A obra de Mempo Giardinelli se chama Voltar a Ler: propostas para uma nação de leitores, e está publicada em português pela Companhia Editora Nacional.

 

 

A leitura partilhada

 

Quando se começa a estudar a história da leitura uma das primeiras coisas que se aprende é sobre o papel da leitura partilhada. Em outras palavras, em sociedades de maioria analfabeta, a presença dos leitores que leem e de outros que escutam é uma regra. Aliás, é como substituta da fala que a leitura nasce e foi na voz do outro que a leitura chegou à maioria das pessoas por um longuíssimo tempo. Quando a estrutura da leitura começou a mudar e, lentamente, se passou a construir a leitura silenciosa, transformações fundamentais ocorreram, tanto na compreensão do mundo, como nos inventos que passaram a povoá-lo, num número cada vez maior.

No entanto, o advento da leitura silenciosa – ocorrido em algum ponto do mundo medieval, pensando em termos de Ocidente – não modificou nem a primazia, nem a necessidade da leitura falada. Há quem acredite que foi a invenção de Gutemberg que permitiu à leitura tornar-se mais próxima, mais cotidiana. De fato, a letra impressa aumentou o número de livros e textos, mas não o de leitores. Ao menos, não substancialmente. Foi no século XIX, com aumento da escolaridade e da alfabetização que as coisas começaram efetivamente a mudar. Como é preciso dar a César o que é de César, é bom lembrar que este processo se inicia inspirado pela difusão das ideias iluministas que acreditavam que a diferença entre os homens estava em suas bases culturais e não em seu nascimento (Marx ainda não havia dito que as bases eram também sociais).

É no conjunto de transformações, de que o século XIX, foi palco que nasce aquilo que se veio a chamar de cultura de massa. Ora, não se pode pensar que esta surge em razão do aumento do numero de textos, sua base fundamental é o aumento do compartilhamento destes textos. E é neste ponto que devemos ajustar o nosso olhar ao passado. O aumento do número de leitores, neste contexto, não queria dizer apenas mais pessoas lendo em silêncio, mas, principalmente, mais pessoas lendo umas para as outras. Se em uma casa houvesse um alfabetizado, logo, o número de leitores ouvintes multiplicava-se. O leitor ocupava o centro dos entretenimentos noturnos, mas também podia ser visto nas esquinas, nas praças, nas boticas, nos cafés. Sempre cercado de seus leitores ouvintes.

Antes da metade do século, o investimento nessa nova “área cultural” – a das massas – já havia criado livros de tamanho e preço irrisórios, já criara o romance à vapor – com um capitão e vários ajudantes – para publicar em quantidade para um público cada vez mais ávido de emoções. Encontrou-se o tesouro? A jovem conseguiu casar-se com quem queria e não como pretendente paterno? Havia fantasmas na casa? Uma máquina para andar sob o mar poderia realmente existir? Conquistaríamos a lua? A tensão irmanava o público sedento por narrativas.

Ora, esta relação entre os textos e a leitura fazia com que desde há muito os autores fossem eles próprios a lerem seus textos para seu publico. No XIX, esta prática já comum aos salões aristocráticos e burgueses, adentrou os palcos. Não era teatro, mas leitura. Um autor que lia seu texto de forma forte, dramática, para depois conversar com seu público e estimular-lhe a leitura de outras partes de sua obra. O mais célebre destes autores-leitores foi Charles Dickens. Uns acreditam ter sido o escritor inglês a primeira grande celebridade literária, não se possa esquecer daqueles dois franceses, diferentes no estilo, mas de fama igualmente internacional: Alexandre Dumas pai e Victor Hugo.

Sou uma admiradora de Dickens, não nego. E, igualmente, dos outros dois. Dumas marcou minha infância com suas aventuras; Hugo e Dickens introduziram minha experiência literária no engajamento social. Afora isso, me lembro de, há muito, ter conhecimento das leituras de Dickens e tratá-las como uma espécie de relíquia de outro tempo. Claro que ouvir leituras ainda é um ato presente: audio-books, audio-contos, etc. Mas, com certeza, não é a mesma coisa. Primeiro, porque no caso dos audio-books e audio-contos nem sempre é o autor quem lê; depois, é diferente porque não há encontro entre o leitor/autor e o público. Não há o contato.

Alguns escritores mais recentes têm retomado esta prática, lendo trechos de suas obras em seus lançamentos ou em palestras. Apenas aqueles mais incensados se aventuram a ler capítulos inteiros. No geral, pesa a ideia de que o público não aguentaria, se entediaria, ou que o tempo seria diminuto para inserir esta parte em uma atividade coletiva. Ora, já não todos reclamam quando vão a uma palestra e o palestrante lê? Obviamente, a resistência é ainda maior quando se trata de Brasil e dos costumes dos brasileiros. E, claro, ainda há os que acham que “ler para” é algo que se faz para crianças.

Pois bem, por razões que envolvem o processo de editoração e divulgação – como devem saber os familiarizados com o universo dos livros – do meu romance de aventuras que sai em novembro, não foi divulgado nada escrito além do título – Territórios Invisíveis – e da sinopse, publicada pelo Blog Criando Testrálios. Contudo, resolvi fazer uma leitura do capítulo inicial do livro para alguns amigos, que já há algum tempo, acompanham minhas investidas folhetinescas. Confesso que, como são meus leitores habituais, eu talvez tenha subestimado as reações que o contato com a leitura causou a eles e a mim. Neste sábado, eu repeti a experiência com um público diferente. E, como pesquisadora e escritora, eis minhas conclusões:

1. Entendi porque Dickens nunca deixou de ler, até sua morte, para seus leitores.

2. Compreendi a força deste contato e sua importância e o que ele poderia ser em épocas mais pautadas na imaginação que nas imagens. Um tipo de compreensão não apenas intelectual, mas física, de uma forma que somente a experiência permite.

3. Percebi a necessidade de se reler em voz alta o que se escreve para que o texto fique realmente fluente.

4. Lamentei o fato de a leitura em voz alta estar esquecida nas escolas. Ler e ouvir ler são partes importantes da experiência humana. Se a primeira nos é inerente, a segunda não deveria nunca ser abandonada.

5. Alcancei outras significações da palavra contato nos termos literários. percebi o quanto ele nos faz crescer, e que, abrir mão disso, é perder mais do podemos mensurar.