Esporte e filhos

 

Esportes, definitivamente, não são minha praia. Faço exercícios (quando dá), não esportes. Sou igualmente avessa a paixões esportivas e, juro, até tentei. O fato é que quase sempre senti-me ridícula ao torcer por qualquer coisa. Eu obviamente interpretava os comportamentos ao lado, mas não me convencia, aliás, nem as pessoas que estavam comigo se convenciam. É um tipo de incapacidade. Não me orgulho. O envolvimento é difícil, para que aconteça, é preciso ter muito, mas muito mesmo em jogo.

Por outro lado, sendo gaúcha é difícil não ter um “lado” e, acredite, isso vai muito além de ter ou não algum interesse esportivo. Aqui, ser colorado ou gremista é uma definição. Pergunta-se isso para bebês de berço em plácido sono, como se se estivesse perguntando a cor dos olhos. É um tipo de marca, sei lá.

Venho de uma família de colorados. Minha mãe, os irmãos dela são colorados. Minha avó materna também era, mas acho que mais para se opor ao meu avô que era gremista (a pequena guerra, imagino, teve “alguma” influência na escolha dos filhos). Meu pai não liga a mínima, nem torce, mas a mãe dele ganhou uma camiseta autografada pelo Taffarel, por ser a torcedora mais velha, num público que foi vê-lo numa visita ao interior do RS. Com estes antecedentes, sempre entendi essa coisa de ter um time como algo meio genético, do tipo que não se escolhe. Talvez, por isso, ache até estranho quando alguém muda a torcida.

De qualquer forma, ninguém pode dizer que não fiz minha parte. Sempre namorei colorados – sem preconceitos, apenas aconteceu. Casei com um, dos fanáticos, também vindo de uma família de colorados – avô, pai, primos, tios, filhos dos primos, e por aí vai. Estabelecemos uma convivência tranquila quanto a isso e, quando engravidei, nem estranhei receber camisetinhas e sapatinhos vermelhos com o símbolo do Inter de presente. De fato, eu até costumo presentear bebês de mães e pais colorados com esse tipo de mimo.

O Miguel aprendeu rápido. Identificava a cor, o símbolo e, logo que falou, passou a dizer “gol do Inter” toda vez que queria agradar ao pai. Tem  dias em que até assiste ao jogo, na parceria. Ele não entende completamente. Ele nem ao menos consegue identificar o Grêmio, apesar dos insistentes “Grêmio ca-ca-ca” que o pai lhe diz. O Miguel é colorado sem saber exatamente o que é isso. Futebol, para ele, é algo que se joga com o pé ou a mão ou a cabeça, tanto faz. É algo que o pai dele gosta e, na idade dele, agradar o pai é uma coisa importante.

Por tudo isso, eu continuei fazendo a minha parte. Se sei que o time venceu, visto o Miguel com alguma das camisetas ou abrigos identificados que ele tem. Deixo o garoto sair à rua, orgulhoso de ser algo que o pai dele aprecia. Quando o Inter perde, ajo na forma das regras não escritas e não o visto com essas roupas. Deixo que os meninos e meninas gremistas saiam com as suas e possam ostentar seu orgulho. É o momento deles.

No entanto, esse tipo de tranquilidade num estado partido ao meio esportivamente é raro. Os adultos involuem rapidamente e, acredite, nem sempre voltam a ser crianças. O comportamento é muito pior. Imagine, você tem dois ou três ou quatro anos, você está vestido de uma maneira que seus pais aprovam, você se sente bem e lindo. Aí, um adulto desconhecido ou pouco conhecido ou recém conhecido lhe diz: “que camisa feia! Detestei essa sua camisa”. Certo, eu sei que a criatura está exercendo seu direito de torcedor, está querendo usar um didatismo às avessas, está marcando território, o escambau. Mas, de verdade, minha vontade de mãe é mandar esse adulto tomar bem longe e perder com ele qualquer resquício de educação.

Trollar uma criança que não escolheu e mal sabe o que faz. Incomodar, estimular a agressividade, xingar. Que nome se dá a isso?  É tão diferente atirar pedras nas crianças dos outros porque são judias, ou árabes ou muçulmanas, ou protestantes? Palavras incomodam e, imagino, nenhuma criança pode achar agradável ser hostilizada simplesmente por estar vestida de vermelho ou azul.

Ontem, descendo as escadas do meu prédio passei por meu vizinho que subia os degraus com os dois filhos. O mais novo, de quatro anos, carregava uma florescente bola do Internacional. Todos estes pensamentos me vieram à tona, pois sei que o pai é colorado e que os meninos andam frequentemente com camisetas e outros objetos do time. Pensei na quantidade de vezes que algum adulto os incomodou como incomodam ao meu menino e, depois do “oi, tudo bom” não resisti e saquei.

– Linda essa sua bola.

Ele ficou tímido e depois agradeceu. Fiquei pensando o que eu faria se caso ele estive orgulhosamente carregando uma bola do adversário… Acho que ficaria quieta. Afinal, eu respeito os filhos dos outros, mas também não vou sair por aí, mentindo pras crianças.

 

 

 

 

O Fim do Mundo e a História

A UFRGS propôs este ano, em seu ciclo de cinema, debater o Fim do Mundo. Afinal, com tantas apostas em 2012, por que não debater as visões cinematográficas da tão aguardada catástrofe? Contudo, o Fim do Mundo é uma prima-dona, faz barulho demais e, no final, ou leva poucos ou deixa alguns e, de fato, o mundo não acaba. Ainda assim, os ensaios (no cinema) são válidos e, por vezes, até empolgam.

Fiquei muito contente em ser convidada a participar e comentar o filme Contágio (2011), de Steve Sodenbergh, juntamente com o Professor Cassius Ugarte Sardiglia, microbiologista da IFSUL. A sessão e o debate que se seguiu foram muito interessantes. O filme prestou-se a isso, tanto por seus acertos quanto por suas falhas, e, muito provavelmente, poderia ter-nos permitido falar mais sobre o tema.

O filme conta com um elenco estelar, daqueles com que normalmente Sodenbergh nos brinda. Não estou me referindo à astros especificamente, mas atores realmente bons e capazes de trabalhos que impressionam a academia e o público. Confio totalmente no Professor Cassius e ele afirmou em sua palestra que, em termos de avanço epidêmico, o filme não comete grandes erros e, em sua maior parte, apresenta corretamente o processo de trabalho com vírus altamente contagiosos. Contudo, não cheguei a perguntar-lhe se ele gostou do filme ou não.

Não sei as intensões do diretor, nem tenho a pretensão de fazer crítica de cinema, mas a mim, o filme soou fraco. Não pelo excesso de personagens – coisa comum no cinema catástrofe dos anos 1970 e que parece, de alguma forma, ter inspirado o diretor – nem pelas tramas paralelas, nem pelo jogo “vida de gente comum x vida de gente que tem responsabilidade”. Nada disso. Também não me incomodou o simulacro de documentário ou as estratégias maniqueístas para dispor o espectador contra alguns personagens – a paciente zero ser uma adúltera que leva o filho à morte é digno de ser execrado por seu odioso moralismo embutido.

O filme é fraco, no meu entendimento, por tratar com leveza o tema de uma pandemia mundial. Os realizadores parecem acreditar que saques, invasões, quebra-quebra, alguns ataques,  multidões em polvorosa, desorganização de alguns serviços são o suficiente para demonstrar o caos potencial de uma epidemia. Talvez, tenha faltado um historiador a dizer-lhes: senhores, isso que o filme mostra, não é NADA. E não é mesmo. Leituras sobre a Peste Negra (que foi sim um fim de mundo, pois toda a vida precisou reorganizar-se depois), ou sobre a conquista da América (que teve populações inteiras eliminadas), ou mesmo sobre a Hespanhola (que avançou sobre um mundo já abalado e enfraquecido) poderiam ter feito o diretor ser mais imaginativo sobre o quanto os seus personagens poderiam fazer.  Fiquei esperando os rasgos de crueldade, os desatinos, a loucura, a perda da noção das coisas. Não, o filme não mostra nada disso.

Algumas críticas repetiram a ideia de que o cineasta quis filmar o impacto da epidemia sobre a vida das pessoas. Creio que sim, porém, Sodenbergh aposta no racionalismo (sim, saques neste contexto são racionais, bem como a busca por “milagres” caseiros) e na angústia. Somente. E, aí, o filme falha. Ele não consegue dar medo, não consegue fazer com que fiquemos apreensivos com a situação. Depois do início virulento, as mortes vão lentamente virando números, estatísticas, rostos em fotos. Logo, a identidade com os mortos vai se perdendo junto com os corpos em sacos azuis depositados na vala comum. A última morte sentida pelo espectador é a da médica vivida com a habitual competência por Kate Whislet, mas que, por culpa do roteiro, acaba protagonizando a mais constrangedora cena do filme. Se o filme tivesse o peso adequado ao tema, a cena teria o poder pretendido, contudo, em meio a água morna, ela figura patética ao mostrar a médica, já à morte, retirar de si um casaco para dar ao paciente ao lado que implora um cobertor.

Jean Delumeau em seu já clássico História do Medo no Ocidente, ao tipificar os comportamentos em tempo de peste, aponta que heroísmo e covardia aparecem como os dois lados de uma mesma moeda. Mais cedo ou mais tarde, se estaria de um dos lados, ou, até mesmo, se poderia ir de um ao outro. Sodenbergh elege, claramente, os heróis. Sou menos otimista.

[youtube]http://youtu.be/eif4myB-Cuk[/youtube]

 

O comentário aqui é apenas um conjunto de impressões sobre o filme. O assunto debatido de forma mais longa em um artigo para o livro do Ciclo de Cinema, a ser lançado em outubro na Feira do Livro de Porto Alegre.

 

A fina arte do equilíbrio

Ontem, fiz duas coisas que não fazia há algum tempo. Assisti a um filme (já tanto faz se bom ou ruim, assistir é a vitória). E fiquei a conversar com meu melhor amigo. A vida fica meio sem sentido quando você mora na mesma casa que seu melhor amigo e não consegue conversar com ele, repartir-se e ouvir o que ele tem a dizer. Felizmente, o filme era bom. Assistimos com atraso o aclamado Meia-Noite em Paris. Woody Allen reúne alguns estereótipos para contar uma boa história, ou apenas para flanar com a câmera por Paris, ou ambos. Gostei, mas não achei extraordinário. Identifiquei-me com os devaneios próprios dos escritores, e até com o protagonista de vida certinha que descrê da própria arte por não viver anos loucos ou não comportar-se como se vivesse neles. Fora isso, não é um filme de grandes surpresas, apenas de deleite. E um deleite esperado, tranquilo, finalizado. Não sou uma grande consumidora do cinema de Allen, no entanto, neste filme – podem me corrigir, por favor – o encanto com o fantástico, sua aceitação, e sua recusa parecem seguir uma linha de equilíbrio, pouco preocupada em colocar em cheque o espectador. Nem o protagonista, nem a assistência parece estimulada a ir dali para a cadeira do analista. De fato, creio que ir para Paris é o maior estímulo (contudo, por experiência própria: Paris é bem melhor se você for lá depois de um tempinho conversando com seu psicanalista de estimação).

Entretanto, o filme rendeu depois (o que veio a demonstrar que ele é menos tranquilizador do que parece). Para nós dois, abriu espaço para uma conversa que pedia vinho, horas que não tínhamos e, talvez, mais alguns amigos. Uma mistura de crise dos 40 e angústias profissionais que desembocou na lembrança dos conceitos de Norbet Elias de engajamento e distância.  O sociólogo alemão os trabalha em sua sociologia dos afetos, na qual ele questiona o trabalho sociológico que não mede em seus entrevistados o quanto as informações prestadas os afetam, os marcam. Para Elias, nosso processo de vida é também o de elaboramos respostas o tempo todo. A maioria delas responde-nos mais do que aquilo que os outros querem saber. Em outras ocasiões, cumprimos tabela, nossas respostam são tão somente o que queremos que pensem de nós, e em nada se parecem verdadeiramente conosco. Há também as vezes em que nossa distância na resposta gera a real análise do que nos foi perguntado. Elias defende a necessidade de equilíbrio entre o engajamento e a analítica capacidade de distanciar-se, de não envolver-se.

Debatemos o filme nesta ideia, depois, debatemo-nos. Fizemos essa busca do que nos engaja e do que deveria nos engajar. Daquilo que tomamos distância e daquilo que, ano após anos, continua a colher tão somente a nossa assistência indiferente, sem conseguir cooptar qualquer afeto. Sim, analisar é necessário, olhar-se, olhar o que nos rodeia, não deixar-se sugar pelo turbilhão; mas a dor e a fúria, o êxtase e a felicidade só residem no engajamento. É o fino equilíbrio buscado pelo Allen (interpretado com simpatia por Owen Wilson) do filme. É o equilíbrio que só atinjo nas conversas que tenho com meu melhor amigo. Aliás, quero um dia retornar Paris com eles – com o equilíbrio e com o meu melhor amigo – nem que seja só para andar na chuva e me molhar.

 

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O Sapatinhos Vermelhos está agora de casa nova. E aí, gostaram? Venham sempre e desculpem qualquer coisa…

Refletindo sobre musselinas, por Jane Austen

Sua obsessão, agora, era escolher o vestido e o penteado para a grande ocasião. Não se tratava de um escrúpulo inocente. O zelo em relação ao traje é por vezes sinal de frivolidade, e a dedicação excessiva frequentemente aniquila as melhores intenções. Catherine sabia tudo isso muito bem; pouco tempo antes, no Natal, sua tia-avó a recriminara neste tema. No entanto, ela permaneceu acordada na cama por dez minutos naquela noite de quarta-feira, tentando decidir se seria melhor usar musselina estampada ou bordada, e somente a escassez de tempo impediu-a de comprar um vestido novo para o baile. Ela incorria num erro comum de julgamento, grave porém comum, do qual poderia ser prevenida por alguém do sexo oposto (mais do que por uma mulher) ou por um irmão (mais do que por uma tia-avó), pois apenas um homem pode ter ideia de como o homem é insensível diante de um vestido novo. Muitas damas cairiam em grande mortificação se chegassem a entender o quão pouco o coração de um homem é afetado por peças dispendiosas ou novas nas vestes femininas; o quão pouco é influenciado pela textura de uma musselina, e como é impassível e incapaz de fazer distinção entre tecidos finos ou de algodão, estampados ou bordados. A mulher se veste bem para satisfazer apenas a si mesma. Nenhum homem terá mais admiração por ela, nenhuma mulher lhe dedicará mais apreço. O asseio e a elegância bastam ao primeiro, e um aspecto andrajoso ou inadequado será bastante apreciado pela segunda. Mas nenhuma destas sérias reflexões transtornou a alma de Catherine.”

Jane Austen,  A abadia de Northanger. L&PM, 2011, p. 81.
O extraordinário de ler Jane Austen é constatar a agudeza e a atualidade de sua descrição do ridículo de cada criatura. Acabo imaginando-a como uma profunda estudiosa e, por isso, conhecedora da alma humana. Porém, neste caso, seria preciso acreditar que o humano possui um substrato que lhe é inerente, mesmo que metamorfoseado em função das raízes culturais. Seria acreditar que, no fundo, somos variações do mesmo e  patético serzinho. Tal reflexão, no entanto, caberia mais a um filósofo que a uma profissional da História (ou das histórias). Creio que minha conclusão, ao fim, não seria melhor. Talvez, fosse ainda mais desencantada. Pois, se não somos todos iguais em nosso fundamento, então, a verdade, é que, em algumas áreas, mudamos (a não ser nos modelos do guarda-roupas) bem pouco, nos duzentos anos que nos separam da inglesinha.