Ainda Virginia Woolf

Minha renovação das leituras de Virginia Woolf tem me causado certa irritação. Não com a autora, certamente, mas com um grande número de seus leitores e uma boa parte da mídia literária. Como qualificar essa extravagante quantidade de comentários a tratar Virgínia como a escritora que se suicidou? A buscar nas obras dela, os indícios do “mal” que a assombrava? Parecem sempre querer apontar: está ali, está ali a lésbica depressiva suicida. É nojento (não encontro palavra melhor) e de uma religiosidade culpabilizante que dá engulhos.

No caso de seu romance mais famoso – Mrs. Dalloway – tem-se a impressão de que muitos leitores perderam o foco e praticamente deixaram de ler a obra para procurar Virginia nela. Será esta transformação da autora em personagem culpa do livro/filme As Horas, ou isso vem desde antes? Não consigo saber. Mas o raciocínio parece ser: há um suicídio no livro, então, isso é um indício. Indício do que? De que a autora pensava no assunto? Neste caso, quem não pensou no assunto que jogue a primeira pedra. Agora vejamos, o romance foi publicado em 1925, Virginia se suicidou em 1941. A diferença de 20 anos é suficiente ou é preciso desenhar? Ah sim, a questão da guerra. Ah sim, um de seus personagens não tolera a lembrança da 1ª guerra; Virginia demonstrou em cartas e bilhetes que não se achava forte para tolerar uma segunda. Pergunta, por que isso passou a ser usado como forma de reduzir sua obra? Toda a geração de Woolf foi marcada pelas grandes guerras e sofreu enormemente, mas isso é suficiente para que se fique achando que Septimus é Virginia? O que se pode dizer em relação à esta passagem, é louvar a imensa sensibilidade da autora em dar voz e vez às angustias que não eram apenas dela, mas de um sem número de homens e mulheres que habitavam a Inglaterra do Pós-Guerra.
Acho ainda mais incômoda a associação da autora com sua protagonista entediada, infeliz, sempre ciosa das aparências. Clarissa Dalloway é uma mulher que escolheu a alta sociedade em detrimento de relacionamentos mais satisfatórios. Clarissa teve um caso com uma amiga. Virginia teve alguns. Clarissa se casou com um homem rico. Virginia também. Mas isso não faz de Clarissa, Virginia, nem vice-versa.
(Parentese: ela também escreveu Orlando, que é sobre um homem que se torna mulher; escreveu Flush, que narra o ponto de vista de um cachorro. Virginia, como todo o escritor, está em todos os seus personagens e, igualmente, em nenhum deles).
Há associações possíveis? Sim, há. Porém, reduzir a leitura de seu mais adorado romance a isso ou reduzir a grande Virginia Woolf – escritora, feminista, ensaísta, crítica literárias, renovadora da linguagem – a isso, a mim, parece inaceitável. Penso que a própria Virginia, sempre ciosa em defender o poder da literatura por ela própria, sempre criticando o uso de bandeiras desfraldadas, tão avessa a tudo que diminuísse a obra pelos reducionismos do autor, também repudiaria fortemente esse tipo de leitura de sua obra. Sentir-se ia roubada no que lhe era mais sagrado: sua arte.
A sugestão (para combinar com o mau humor do resto do post) é: se quer saber sobre a vida da escritora, leia uma das inúmeras e interessantes biografias que existem sobre ela. Só leia seus livros se realmente quiser saber sobre sua obra e não por terem sido escritos por uma suicida ou por alguém que amou pessoas do mesmo sexo (aliás, e daí?).

Para que não digam que estou exagerando, deem uma olhada na imagem. Trata-se da capa de um livro de bonecos de papel com escritores. Lúdico, bem legal para apaixonados, cada autor aparece com uma vestimenta que lembra sua obra mais famosa: Hemingway com um peixe espada, Shakepeare como Hamlet. E Virginia está numa camisa de força! Qual o ganho da mídia literária em vendê-la como louca (seu lesbianismo entraria nisso?) e suicida? Por que não marcá-la pelo que ela foi: uma das maiores escritoras do século XX (e não a estou comparando somente com as suas colegas mulheres).

Minhas indignações acabam gerando ideias que sempre penso em escrever em camisetas. São tantas bandeiras que acabarei por criar uma grife (como já devem esperar meus alunos, a quem atormento com a descrição de meus futuros produtos). O nome da grife será NÃO É. Meus alunos de História lembram de alguns modelos já clássicos: Feudo NÃO É terra; Vassalo NÃO É servo. Agora adicionarei alguns modelos com temas literários e acabo de achar o primeiro:

Virginia NÃO É Clarissa!

 

Sport Club Literatura no StudioClio

O Sport Clube Literatura ocorre no StudioClio, em Porto Alegre. Trata-se de um embate de livros, mas como se fosse uma partida de futebol. Dois livros são resenhados em viva voz por dois árbitros que, entre pontos fracos e fortes das obras literárias, marcam gols até a vitória de um ou o empate. Eu gostaria de dizer que é a união de duas paixões nacionais, mas… Bem, não posso deixar de ter esperança. Quem sabe um dia lotaremos grandes salas e até teremos transmissões ao vivo de rádio e televisão. Até lá, iniciativas como a do StudioClio merecem o nosso aplauso. O reconhecimento já vem ocorrendo. Ano passado, o Sport Club Literatura recebeu o prêmio Fato Literário da RBS e, espero, seja só o começo.
No dia de ontem (02/04) participei de uma partida pela primeira vez. Ocupei a posição de árbitra com inexperiência, mas tive a companhia do Milton Ribeiro, já calejado de outros jogos, e formamos uma ótima  dupla. Tínhamos um jogo clássico para arbitrar: Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf x A Volta do Parafuso, de Henry James. Milton já comentou suas anotações para o jogo aqui (recomendo, pois lá ele faz um pequeno resumo das obras, o que não vou repetir) e, como ele, eu estava certa de uma vitória se não retumbante, ao menos, convincente de Mrs. Dalloway. Porém, como se diz: futebol é uma caixinha de surpresa e A Volta do Parafuso, mostrando tremendo vigor para um time, digo, obra de mais de 100 anos, por pouco não atropela a pensante Clarissa e meu amado Peter Walsh.
Como eu anunciara ao Milton, James fez um gol no primeiro minuto do primeiro tempo. O adversário mal entrara em campo, ainda estava frio, mal organizado, sem pegar gosto pelo jogo. A experiência foi fundamental. O gol saiu da primeira página do romance (novela?) de James.

“E se uma criança já da mais uma volta no parafuso, que tal duas crianças…?”

Ora, James se refere ao fato de que numa história de terror e suspense, a presença de crianças sempre ajuda a torcer ainda mais o parafuso pelo qual se regula a tensão de um mecanismo. Assim, em termos de tensão e emoção, já sai A Volta do Parafuso fazendo gol no susto do adversário, pois em Mrs. Dalloway não há criança alguma.
Eu gostei tremendamente do debate que se seguiu depois disso. Milton e eu tivemos percepções muito parecidas dos livros e, como eu avisei a ele, por vezes era preciso me cortar, pois sempre tendo a falar demais quando o assunto me empolga. Aliás, acho que este é um qualificativo bom para o jogo: foi empolgante. Conversamos sobre as inúmeras adaptações cinematográficas e teatrais de A Volta do Parafuso, suas referências nada obscuras à sexo e, até, a velada paródia dos antigos textos góticos de fins do século XVIII início do século XIX. Alguém da plateia gritou gol, por conta das referências sexuais, mas achamos que foi na trave. O narrador (narradora/personagem) nada confiável de James ganhou grande espaço na noite. De fato, a governanta foi o grande craque do jogo e roubou vários bolas, de outra forma, certeiras de seu adversário.
Obviamente, Mrs. Dalloway não foi bolinho. Jogou no ataque, fez bonito, com jogadas ensaiadas e uma boa inventividade em campo. Sua tática moderna seria suficiente para colocar a outra equipe de joelhos, porém… ah, o futebol. Sendo mais clara, nem sempre ter um jogo bonito resulta em gol e o vacilo do primeiro minuto custou caro à Mrs. Dalloway.
Seguindo os critérios propostos pelo Milton, aqui vão os gols acumulados durante a partida. Lembrando que ao final, o público presente clamou por mais alguns gols que foram acolhidos pelos árbitros apesar da relutância em ver o time, digo, obra favorita perder (provavelmente precisaremos de terapia depois disso).
1. Foco Narrativo: 2 x 1 (James já tinha um gol, lembram?)
(repasso abaixo minhas anotações, pois as do Milton estão no post dele)
Mrs. Dalloway, obviamente, tem muito de experimental. Muito já se falou sobre o fluxo de consciência, a alternância de personagens, a conjunção de mundos diferentes, do flaneur subjetivo que a autora realiza especialmente neste romance. Há consenso sobre a modernidade de sua narrativa, a qual, inclusive, já foi comparada ou estilo pontilhista em pintura. Como o pontilhismo, a obra de Woolf pareceria craquelada ao ser olhada muito de perto, sendo necessário a devida distância para realizá-la por completo. Mrs. Dalloway, por tudo isso é um livro pouco indicado para leitores devoradores. Quem fizer isso, perderá muito do livro em que cada parágrafo parece conter um mundo inteiro, o que desarma aqueles que o concebem apenas como um texto estético.  É uma obra de degustação lenta, que não deve ser vencida apenas para que o leitor a coloque em seus troféus de caça. De qualquer forma, falo longamente sobre o romance aqui, para quem tiver interesse.
Já James é um estilista notável e em A Volta do Parafuso, nos mantém amarrados a sua enganadora protagonista. É difícil não marcar gol num texto em que o duplo sentido é o próprio sentido da história. Você pode até dizer que é um livro de feição clássica, mas até esta dúvida ficará depois de terminar de lê-lo. Trata-se de um texto ilusionista. As várias leituras possíveis são orquestradas para enganar o leitor, para deixá-lo sem certeza alguma sobre o que é narrado. E.M. Forster dizia que James era um autor que não fugia aos padrões na hora de escrever. Mantinha-se rigidamente preso a eles. Se admitirmos que Forster está correto, então, AVP é um exemplo clássico de que o leitor não pode confiar em nada do que lhe é contado. De minha parte, já próximo ao fim, eu lia as palavras quase por seu contrário. Onde a narradora punha doçura, eu lia violência e assim por diante.
2. Construção de conflitos e estrutura do romance : 3 x 2
Tanto em James quanto em Woolf a realidade só existe a partir da visão que os personagens constroem dela. Logo, a ação de ambos os romances é muito mais interna do que externa. Isso não diminui a existência dos conflitos, pelo contrário. No caso de Mrs. Dalloway, os conflitos jamais chegam à superfície, mas todos eles estão lá, fortes, mesmo que não alterem as ações das pessoas. O tempo é que aparece como o grande catalizador desses conflitos. Seja nas horas vazias ou nos anos perdidos, na velhice ou na juventude desperdiçada. O tempo é a presença, a dor, está ali na forma do passado morto-vivo, do presente insípido e do futuro sem esperança.
A Volta do Parafuso vai num crescente de seus conflitos, com sustos e aumento do nível de tensão. Não tem como não fazer gol. Em ambos, os conflitos, externalizados ou não, são a raiz da estrutura do romance. Gol para as duas equipes.
3. Construção de Personagens : 3 x 3
Mrs. Dalloway empata. Muito difícil vencer em campo sua miríade de personagens cheios de nuanças e riquezas psicológica. Os 4 personagens de James perdem.
4. Relevância Sociológica : 3 x 4
Um gol belíssimo de Mrs. Dalloway. O livro faz referências à 1ª guerra, ao Império, à Índia, desfaz das hierarquias sociais. O time de James anda pelo campo, perde bolas sucessivamente, não se encontra, nem sabe o que fazer. O placar parece decidido: Virginia, de virada.
5. Análise Psicológica: 4 x 5
Pelo que foi exposto acima, fica claro que os dois times fazem golaços aqui. Estávamos prontos para o apito final, então… eu resolvi falar. Eu havia levado um último critério, caso desse empate, o qual acabou virando um gol de empate, no último minuto.
6. Emoção : 5 x 5
O time de A Volta do Parafuso quase sem surpresa faz gol no último minuto, empatando a partida. Duro golpe para a torcida de Mrs. Dalloway já pronta para festa e volta olímpica. Mas, vamos lá, o texto de Woolf é angustiado e duro, mas o de James, mantendo o leitor em suspense, entre a verdade e a mentira, entre o terror e a loucura… bem: gol.
Aceitaríamos com prazer o empate, mas foi quando o público orquestrou os pênaltis e foram mais 3 gols. O título de A Volta do Parafuso fez gol por ser uma importante chave de leitura do romance, estando inclusive em sua estrutura básica. Inapelável. O contra-ataque veio a seguir, o emblematismo da personagem título de Woolf levou a um novo empate. Porém, o último pênalti deu a vitória a Henry James: sua obra tem nuanças e possibilidades de leitura que o mantém extremamente atual. Sua atemporalidade foi o gol da vitória.
Um grande jogo, do qual fiquei orgulhosa em participar, mas, como a própria platéia comparou: era um jogo de nível de seleções, quase uma final de Copa.