Vício

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Dizer que o vício é inerente aos humanos é um erro. Até os animais viciam. É comum observar este comportamento em macacos. E até mesmo nos elefantes, que viciam (quem pode culpá-los) na frutinha da Amarula. Quem lê este blog, ou me conhece razoavelmente (superficialmente também vale), já deve imaginar que acabarei por falar em meu vício por leitura. E eu realmente gostaria de saber qual a fórmula que me colocou nesta dependência desde tão cedo, mas a desconheço.
Meus pais liam, mas não eram grandes leitores, nem leitores de grandes textos. Meu pai curtia Tex, o Fantasma, revistas Planeta e Seleções e, claro, os livrinhos do Perry Rhodan. Minha mãe, no que me lembro dos livros de sua cabeceira na minha infância, lia obras da Seicho no ie. Eu gostava de abrir livros e ficar olhando para as letras. Queria, um dia, conseguir ler inteiro um que não tivesse nem uma figura. Bebia todas as informações que me pai contava de suas leituras na revista Seleções e decorava nomes como Tutânkamon ou Krakatoa.
Porém, dizer que foi isso que me viciou? Não sei. Veja bem, com a mesma idade eu não perdia uma única corrida de Fórmula 1 e era apaixonada pelo Alan Jones. Assisti entusiasmada uma retrospectiva das lutas do Muhammad Ali que passou no Esporte Espetacular, depois do Fantástico. Eu também tinha fugido de casa e ido para o clube que ficava ao lado e onde havia ensaios de um grupo de danças gaúchas. Arrumei um par, treinamos de olho e quando minha mãe soube, eu já estava com lugar garantido no grupo infantil. Tinha uns 4 anos.
De tudo, porém, sobreviveu a leitura. Meu gosto pela Fórmula 1 morreu numa manhã de domingo, na curva.  Do grupo de dança não ficou nada. Substitui-o pelo balé e dancei 10 anos na ponta dos pés. Quando tive de escolher entre ele e a leitura, fechei a porta do estúdio pelo lado de fora, sem olhar para traz e nunca mais voltei.
Há alguns dias, no entanto, um desconforto me rondou. Parece que gosto de coisas demais. Que atiro para todos os lados, que me apaixono por um novo assunto toda semana. Ministrei aulas de história da alimentação e enchi uma estante de livros de culinária. Trabalhei com história do vestuário e meu passado de filha de costureira que desenhava modelos para a mãe veio à tona. Li um livro sobre perfumes e agora – eu que nunca me interessei por eles – estou sempre na prateleira de amostra das drogarias. Senti-me shakespeariana: “inconstância, teu nome é mulher”.
O Guto ouviu com calma e, então, sorriu. “Tu gostas é de conhecer. Teu vício é tanto este quanto a leitura. Tudo tu achas que se resolve procurando num livro.” Foi um alívio. Foi como reconhecer uma essência, senão imutável, ao menos, decididamente definidora.

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4 comentários

  1. Texto delicioso de se ler, Nika. E mais uma vez, uma prova de como você se identifica com nossa querida Hermione (foi impossível não relacionar HP..hihi)

  2. Nika, que bom que seus vícios só constroem e espalham por onde você passa: conhecimento,entusiasmo… Bom seria se o mundo fosse povoado de mais pessoas viciadas na vida e em tudo que ela remete de melhor!

  3. Adorei a crônica, seus textos sempre me fazem suspirar e sorrir com uma espécie de saudades.Não pretendo ser presunçosa com esse comentário, mas difícil não acreditar na teoria de que realmente o número de personalidades existentes é limitado, meu pai também lia O Fantasma e minha mãe tinha os livros espiritas dela, mas nenhum dos dois eram grandes leitores, como fui passar a infância e a adolescência sentada nem cerimônia nenhuma no chão da biblioteca da escola – ainda adoro a sensação de estar cercada por livros – não faltando a nenhuma edição da FLIP e da Bienal do Livro e surtando de felicidade nos sebos do Centro da Cidade? Por quê?

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