Referências

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Há alguns dias, talvez semanas, uma leitora marcou-me com uma Tag em seu blog. Ela perguntava sobre filmes que haviam marcado a minha infância. Ora, sendo criança de Sessão da Tarde (da época áurea, eu acredito), a lista é grande. Por outro lado, depois de uma certa idade, a gente já passa a dividir a infância em fases. A minha tem uma fase até os seis anos e meio, que foi quando vim de Rosário do Sul para Santa Maria. A outra durou até mais ou menos os dez anos, quando as brincadeiras só começavam depois da Sessão da Tarde, a não ser que fosse filme de bichinhos (oh sim, eu gosto deles, só não curtia era ficar chorando em frente a TV por animaizinhos maltratados ou mortos). Desta interdição do gosto, escapavam Atari e Digby, o maior cão do mundo, dos quais eu gostava tremendamente. Depois, dos 10 aos 13, quando comecei a ir ao cinema e os filmes tinham outras atrações além do filme em si. Isso sem falar que a tal censura 12 anos, quando burlada, me permitia ver coisas mais adultas. Assisti História sem Fim e Amadeus na mesma época e gostei muito de ambos. Ora, mesmo sem saber onde realmente a infância acaba, sobre qual fase eu deveria responder?

Nesta manhã, deparei-me com a cena de um filme que, de tão marcante, já adquiri o DVD. Acredito tê-lo visto quase uma centena de vezes, num exagero não tão exagerado assim. Então, percebi. Não se tratava apenas de filmes que marcam a infância, mas de todo um universo de referências. Quando se é escritor, esta é uma pergunta comum em entrevistas – tanto nas que já li, quanto nas (duas) que respondi – : quais são as suas principais referências?

Lendo as repostas dos escritores, se pode percebê-los desfiando os nomes de autores significativos com os quais esperam corresponder ao entrevistador, mas também aos seus leitores. Ao fazer estas escolhas, os escritores percebem que sempre estarão limitados e, após a entrevista, ficarão a remoer os nomes de que não lembraram. De fato, se pode imaginar que, ao escolher suas referência, os escritores precisam achar um equilíbrio sutil entre a sinceridade, a originalidade e os clássicos que todos esperam que eles tenhas lido. Porém, convenhamos: é uma pergunta retórica e o é também a resposta. Digo isso porque, ao ficar pensando sobre as referências que informam a minha escrita, se alguém me perguntasse hoje, eu responderia: puxa, será que você tem tempo para escutar toda a minha vida?

Escrever é um ato visceral. Sai pelos poros algumas vezes. Pode-se começar imitando alguém, tentando empastichá-lo, reproduzi-lo. Contudo, quando um estilo seu começa a se revelar, não é em fulano ou cicrana que suas referências estão, ao menos, não somente neles. As referências se dispersam nos filmes da infância, no cheiro da cozinha da avó, nos livros que só tinham na casa daquele tio que você visitava uma vez por ano, numa comida salgada da qual você reclamou e foi repreendido por ser criança, no livro retirado 18 vezes em dois anos na biblioteca da escola, naquela enciclopédia que você pegava apernas para ver as imagens. O material da escrita é toda a vida, todo o ar que nos circunda, estas são as referências. Um autor, quando escreve, se rasga e mostra coisas mais íntimas do que ele é capaz de contar sobre si mesmo. Perguntar sobre isso faz com que os entendamos melhor e, algumas vezes, pode destruir toda a mágica. É uma navalha. Leitores e autores andam sobre ela.

Por fim, para não deixar a Tag sem resposta, aí vai a minha lista de filmes que marcaram minha infância, digo, marcaram-me, simplesmente. Nela, os 5 filmes que assisti em todas as vezes que passaram (ou quase). Lembrando-os, percebo como já se revelava meu gosto por história, fantasia e aventura.

Este filme é da primeira fase da minha infância. Faz-me lembrar da frialdade do chão da cozinha da minha casa em Rosário e da minha mãe passando roupas. Lembro de assisti-lo com a Julinha, a minha pequines preta de peito branco, acomodada no meu colo. Passei anos assistindo duelos de cavaleiros que se passavam no pátio do meu vizinho, alguns metros abaixo do nosso.

Robin Hood, 1938. Um herói debochado defendendo fracos e oprimidos. Amor para a vida inteira.


Zorro, 1974. Mesma premissa do anterior. Igualmente irresistível. Sempre fico encantada com os trejeitos efeminados do herói e o desconforto que ele causa com isso. Langella maravilhoso.

Do próximo filme, lembro-me muito da segunda fase da minha infãncia. A Julinha já não assistia aos filmes comigo. Só gostava do Sítio do Pica-Pau Amarelo, para o qual eu a chamava ou ela corria ao ouvir a música. Nestas tardes, havia suco de laranja e biscoito salgado com geleia de uva.

http://youtu.be/Sc__57LQoPs
Scaramouche, de 1952. Na faculdade li o livro de Sabatini, igualmente delicioso, mesmo que a trama tenha diferenças substanciais. Abaixo a mais longa e melhor cena (não sou eu quem diz isso) de duelo de espadas já filmada. Como comentei no Facebook, gosto muito da trilha sonora deste filme, que é completamente silenciada nesta fantástica cena. Em tempo, sempre suspirei por estes dois atores.

A predileção por heróis debochados é óbvia. E também por aventuras e espadas. Coisas que se repetiram em minhas primeiras escolhas literárias. Por fim, o clássico dos clássicos da Sessão da Tarde e, ainda, único, pois desconsidero a refilmagem (apesar do talento do Tim Burton, ele pisou na bola).

A Fantástica Fábrica de Chocolates, 1971.

Da última fase, já no cinema.

Goonies, 1985. Aqui o clip da Cindy Lauper, nostalgia pura do Clip Clip das tardes de sábado.

História sem Fim, 1984.

Um lista incompleta. Como todas são. Para Kurai.

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1 comentário

  1. Awn obrigada por arrumar um tempinho para responder minha tag, confesso que estava ansiosa para conhecer sua listinha.Sorri com o Robin Hood no começo da lista, qualquer um que tenha lido algo seu já saberia que este seria o primeiro colocado rsReconheci alguns títulos outros não, mas fiquei especialmente interessada no "Amadeus" vou procurar mais sobre ele ^^Kisses Sally e toda a felicidade do mundo!

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