Para não enlouquecer

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Li em tempo recorde A espécie fabuladora, de Nancy Huston. Não há nenhum mérito nisso, o livro é fácil ou facilitado (como queira enxergá-lo). O texto se compõe de sentenças quase sempre solitárias e parágrafos curtíssimos. Precisei me acostumar com isso, pois minha impressão de textos assim fica bastante craquelada, composta por saltos respiratórios de uma narrativa feita em vários fôlegos. Talvez, por conta disso, tenha gostado mais do livro após ter vencido o seu primeiro terço, quando o ensaio se estende com um pouco mais de calma, com parágrafos mais longos e menos vontade de simplificar. Quem sabe, o livro tenha sido composto para dois tipos de leitores, aqueles que leem apenas os primeiros capítulo e os que são capazes de vencê-los. No geral, porém, concordo com a opinião do Milton Ribeiro sobre o livro (que, aliás, me foi presente dele), inclusive, indico sua resenha. 
O ensaio de Nancy Huston versa sobre o humano e a necessidade básica de construir-se através de narrativas. Somos impelidos desde sempre a nos explicarmos como espécie e/ou como indivíduos narrando o que acreditamos ser. Usando um exemplo da autora: nós podemos dizer que viemos da barriga da nossa mãe; um chipanzé também reconhece sua mãe, mas jamais dirá que veio da barriga dela e nem terá essa imagem ou certeza, nem contará histórias sobre si mesmo e de sua a relação (cuidado, carinho, abandono, tutela) com esta mãe. 
Sob esta ótica, Huston examina os componentes da identidade: o nome, a filiação, a história do crescimento e a familiar, a profissão, os amores, a religião, as crenças, etc e, conclui: todas estas são narrativas. São fabulações que pretendem ser o real, mas que somente o são na medida em que nossos cérebros acreditam que tais narrativas são a verdade. Em outras palavras, toda a realidade sobre o que somos reside em acreditarmos sê-lo. Se tudo for retirado, se eliminarmos as ficções que nos compõem, resta somente a realidade da carne, absolutamente desprovida de identidade. Somos apenas mais um macaco pelado sobre a terra e nada mais..Tudo o que se coloca sobre isso, tudo o que constitui o self, são narrativas, ficções como diz a autora. Acreditamos que nosso nome é este e na história que nos contaram sobre ele. Acreditamos que nossos pais são os que se apresentaram a nós. Acreditamos que nossa história é a que nos foi contada. Porém, um simples exercício de deslocamento, um rápido passeio pela alternativa filosófica do: “e se você não fosse você, não fosse quem acredita ser?”; e tudo cai por terra. Resta o corpo e só ele. De fato, por vezes, até mesmo o corpo pode nos apresentar ficções e falsidades. 
Em suma, tudo o que confiamos e batemos no peito a afirmar “sou isso”, pode desmoronar se pensarmos que a maior parte das coisas em que acreditamos não o são por saber, mas porque nos contaram, porque nos afirmam. Huston não se limita nesse raciocínio e vai até mesmo às ficções teológicas e históricas nas quais a humanidade se apega com firmeza, como a uma boia para não afundar no mar das incertezas. Em certo momento, a autora diz que vivemos na eterna tensão entre nosso desejo de controlar o mundo que nos cerca e a acachapante realidade de que não podemos fazê-lo. Por isso precisamos de deus, ou deuses, ou do que quer que nos dê esperança de que existe algum tipo de inteligência no controle da coisa toda, de que não há apenas o abismo à nossa espera. Mas, tudo isso são somente crenças… nada mais. 
A romancista canadense faz um trabalho muito interessante de desconstrução das certezas e, imagino, alguns tipos de leitores podem até se sentir perturbados pelas proposições da autora. Afinal, ela é muito convincente e, certamente, não está errada. Mas, da mesma forma que – como ela afirma – as pessoas necessitam de ficções para suportarem o real, não vê-las sob a carga que o real lhes empresta pode ser desestabilizador e doloroso. Isso nada tem a ver com inteligência, mas com a firme decisão que muitos de nós tomam de, simplesmente, acreditar. 
Na tarde em que lia o miolo do livro, cada vez mais interessada, tirei uns 40 minutos para ir a manicure – coisa que tenho feito cada vez menos por tomar gosto nos pinceizinhos coloridos. Marquei num salão à mão com uma moça que não conhecia. Do silêncio inicial entabulamos uma conversa educada, de superfície. Começamos falando de nomes e sobrenomes. Como falei um pouco demais, justifiquei: sou historiadora. Não lembro bem de onde veio a pergunta:
– Tu é ateia? – e juntou em seguida. – Eu tenho um irmão que é ateu. E outro que é pastor. Sou espírita e já frequentei a umbanda. É bom, me ajudou muito quando perdi minha mãe. Mas, sei lá, tem coisas que nunca a gente vai saber, tipo, se Adão e Eva existiram mesmo.

Reprimi um “claro que não” e disse:
– Bem, cada o povo tem sua própria história de como surgiu na terra. Esta foi a história que nós herdamos.

Ela afastou os olhos da minha mão, pensou um pouco e respondeu uma das conclusões de Nancy Huston em seu livro:
– É… não dá para pensar muito nisso, se não a gente fica louco.
Tá certa a garota. Admitiu a incerteza e admitiu sua necessidade colocar algo em seu lugar para poder conviver com ela. Eu não sou tão corajosa assim, aferro-me as minhas incertezas com devoção religiosa. Cada vez mais. 

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3 comentários

  1. A "tal da crença" é realmente algo complexo quando falamos de sociedade. Eu sou católica, e canto nas missas de sábado. Leio e escuto o Evangelho com atenção e acredito nele. Fui criada assim e gostei do aprendizado (embora a Ciência fique martelando todos os dias em minha cabeça). E, realmente, se ficarmos pensando se realmente existe um Deus ou devemos acreditar na teoria de Big Bang e na evolução de Darwin para tudo o que se tem hoje, ficaremos malucos em saber em qual acreditar. Ou acreditamos em um ou outro. Discutir eternamente é loucura. Beijos, mana.PS: sinto falta de sua coluna na Fantástica!

  2. Muito bom. Lembro das crises que o curso de Ciências Sociais causavam nos alunos logo nos primeiros semestres – as discussões acaloradas sobre ser livre, sobre sermos culturalmente superiores aos índios e ao nosso próprio passado, sobre cada um ser o que é. Acho que é por isso que o índice de desistência é tão alto.

  3. É fascinante essa questão da identidade e de como ela pode ser frágil e incerta. Somos o que acreditamos ser. Isso é genial. Preciso encontrar esse livro.

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