Os perfumes têm intimidade

Um segredo também o é quando a gente não entendo o porquê de alguma coisa. Esta é, em parte, a conclusão da historiadora Tilar Mazzeo ao terminar seu livro O Segredo do Chanel nº5: a história íntima do perfume mais famoso do mundo. Depois de 245 páginas tentando decifrar o enigma, Mazzeo capitula. Por que o século XX se deixou capturar por este aroma que deixou rica e famosa sua criadora, mas teve uma existência a parte dela? Como uma fragrância (do cheiro até o rótulo e o frasco) pode se tornar um ícone cultural? Por que até mesmo que não se interessa por perfumes já ouviu alguma vez falar deste?
Quando fiz 15 anos, ganhei um frasco minúsculo de Chanel Nº 5. Avisaram-me que tinha valor de joia, contaram-me sobre Marilyn Monroe, mas, quando cheirei, não gostei. Lembrava talco e eu tenho aversão à talco por ter sido daquelas crianças que, após o banho, desfilava um pescoço branco empoado pela mãe. Hoje, depois de ler o livro de Mazzeo, acho que, como muitas coisas vividas na juventude, talvez, eu não não tenha compreendido o perfume. 
De fato, o livro foi capaz de me abrir um mundo sensorial que eu desconhecia. Mazzeo é hábil em traçar as diversas implicações existentes na criação da fragrância, da infância de Coco Chanel à Russia Imperial. Fala de antecedentes, parentes olfativos, vai até o mais íntimo que consegue imaginar das pessoas envolvidas. Mas o que ela prova é que um perfume – como uma música, um livro, ou um filme – é uma experiência emocional e, claro, pessoal. Então, de novo, cai-se no enigma: como uma única fragrância conseguiu ser este acessório tão íntimo para tantos?
A julgar pela primeira parte do livro, se pensa na conexão do perfume e da criadora. Pode-se (quase) achar que se trata de uma biografia da estilista, mas não é. A biografia é do perfume. E logo na segunda parte a autora nos apresenta ao universo que existe em cada um destes vidrinhos. Como desconhecedora total, saí do livro mais inteligente ao saber de notas e ingredientes e das três nuanças em cada fragrância. Depois, ela mergulha na estrutura do mercado dos artigos de luxo de princípios do século XX, nas duas grandes guerras, nas batalhas empresariais entre Coco Chanel e a Bourjois, a fabricante do Chanel Nº 5. Por fim, depois de desfazer-se dos mitos em torno do perfume e de mostrar sua complexidade histórica, Mazzeo tenta reconstruir sua trajetória na cultura do pós-guerra.
Sem conseguir largar o livro do princípio ao fim, só posso indicá-lo. Afinal, eu nem gosto tanto de perfumes, tampouco me interesso apaixonadamente por biografias e, ainda assim, só consigo pensar no meu minúsculo e perdido frasquinho de Chanel Nº 5. Preciso cheirá-lo novamente.

Como nasce um livro?

Não foi exatamente como no título que a pergunta me chegou, porém, era mais ou menos isso que ela pretendia.  A questão nasceu junto com o anúncio para a família de que eu publicarei meu primeiro livro de ficção até o final do ano. O próprio acontecimento da pergunta já abre espaço para pensar outras coisas. É meu primeiro livro de ficção, mas não o primeiro livro, nem escrito nem publicado. Escrevi a dissertação e a tese. Apenas a primeira foi publicada, mas ambas são livros. Demandaram tempo, esforço, planejamento. No entanto, este é o ponto interessante, nenhuma delas parece contar da mesma forma que um livro que escrevi sem ter qualquer “obrigação” em escrever. Este sim. Este é de verdade. Ao menos, é como as reações dos outros me parece. Talvez, porque este seja o primeiro que qualquer um possa ler, caso tenha vontade. Os outro dois exigiriam vontade e também um pouco de paciência.
Não se trata de uma crítica à reação das pessoas. Pelo contrário, há um pouco de razão nisso. De fato, há muita diferença na escrita destes três livros. Diferenças de linguagem, de ritmo de texto, de tempo empregado e (por que não?) de prazer na tarefa, de liberdade, de criatividade. Este, que ganhará sua forma impressa até o final deste ano, é minha entrada em um mundo, um mundo que eu já anunciava há algum tempo que queria pertencer: o mundo dos escritores. 
Contudo, não sei se escrever um livro (ou até três) é suficiente para fazer de alguém um escritor. Nem, auto-intitular-se. Talvez, a chancela final venha de quem edita e de quem lê. Acho bom confiar nisso. Se alguém leu o que foi escrito até o final, mesmo que para criticá-lo ao terminar, se pode bater no peito e dizer: sou escritor. Se, porém, o autor espantou seus leitores antes do fim, ainda não é um escritor. 
Afora tudo isso, a explicação daquela primeira pergunta fez-me pensar na imagem que os escritores têm para os que não escrevem, mesmo sendo leitores. Há uma ideia de quase iluminação. E, provavelmente, é por isso que a escrita de um trabalho de pesquisa não ocupe um lugar análogo no imaginário geral. Afinal, um livro de ficção é uma história, então, basta contá-la. Basta tê-la na cabeça, sentar e escrevê-la, do primeiro ao último capítulo, certo? Mais pessoas têm esta ideia do que se possa imaginar. 
Quem assistiu ao filme A Fonte da Vida pode não ter notado, ou se surpreendido, mas imagino que muitos, como eu, perceberam que o caderno da escritora vivida por Rachel Weiz é feito de frases lisas, sem correções, sem riscos, sem rasuras. A não ser que a personagem fosse Mozart, um gênio de quem a música já brotava quase perfeita (ou perfeita), ela não escreveria assim. O caderno de um escritor não é belo, não tem letra desenhada, não é limpinho. Ele é cheio de garranchos escritos às pressas, ou no ônibus, ou enquanto outras pessoas falam, mas você precisa, imediatamente, anotar uma ideia antes que ela fuja para nunca mais. O caderno é amassado de andar nas bolsas, ou nas malas, ou nas mochilas. Sovado de ser relido e muito, mas muito mesmo, riscado. Por vezes, até páginas inteiras. Outras, é preciso tentar ater-se às únicas linhas que foram salvas da revisão num dia de mau humor. 
É claro, cada escritor tem sua receita, alguns, inclusive, seguem receitas (o que, por vezes, pode render bons livros). Há os que escrevem primeiro um capítulo chave da história. Outros escrevem, por primeiro, o último capítulo (mesmo que depois acabem por modificá-lo). Outros seguem a cronologia do primeiro ao último, mas isso não os livra de correções, revisões e apagamentos. Eu fui do primeiro ao último. Mas, não simplifique isso. Em 2008, escrevi 4 capítulos que foram apagados quase na íntegra. Em 2009, apaguei outros dois, quase inteiros. Em 2010 as coisas fluíram:  reescrevi quase tudo. Em 2011, cheguei a média de 1 capítulo por semana em minhas férias, mas fui lenta ao longo do ano. Era época do fim. Quando terminei, foi preciso um capítulo inteiro nascer onde antes não havia; e não sei quantas vezes trabalhei nas últimas páginas. Não houve riscos, pois o texto já estava na fase do computador, mas muitas marcas amarelas pareciam brotar nas passagens em que eu ou meu leitor crítico duvidávamos. Depois, o pente fino dos revisores e ainda virão mais. 
Não é à toa que muitos comparam a escrita de um livro a um parto (escritas de teses e dissertações também). Os motivos são claros. Dói. Dá trabalho. É difícil. Mas há muito orgulho no final. Contudo, é bom lembrar, apesar do parto e do nascimento, textos não são filhos. Haverá críticas e haverá os que não gostarão do que se escreveu. Sendo assim, é bom colocar o texto produzido, tanto quanto possível, num lugar diferente do amor filial. Isso pode salvar a vida e o ego de um escritor.
Quanto à mágica que um livro pode realizar… este é o sonho de todo o escritor ao fechar seu livro e a esperança de todo leitor ao abri-lo.

Histórias de Carnaval

Ainda tenho fotos da roupa de bailarina com chapéu de fada do primeiro carnaval que minha memória alcança. Lembro da minha mãe forrando o chapéu com papel vermelho e do meu fascínio por aquilo. Lembro do lastex (era assim que chamavam) sob o meu queixo e do incômodo que eu aguentava por acreditar que estava linda. Foi a primeira vez que usei batom. Grudei os lábios um no outro, como via minha mãe fazer, mas não desgrudei mais. E se o batom caísse?

Meu gosto era usar fantasia. Fui de taitiana no ano seguinte. E de havaiana no outro. E ficar em cima da mesa. Então, eu fiquei grande demais (apenas para ficar sobre a mesa) e tive de me juntar aos outros. O carnaval perdeu a graça. Descobri cedo que detestava ser empurrada, que me pisassem os pés, que ser espremida entre pessoas mais altas que eu me dava aflição. Nunca mais fui num baile infantil.

Eu tinha uns 12 anos quando meu pai, levado por alguma nostalgia juvenil, resolveu nos levar para assistir ao carnaval de rua em Pelotas. Paramos na calçada, minha irmã e eu junto ao meio fio, nosso pais atrás. Um bloco de homens vestidos de mulheres – naquele estilo Vadinho na primeira cena de Dona Flor… – brincou conosco. Um deles passou uma cantada no meu pai, cujos olhos azuis chamam atenção. Então, eu fui puxada. Em segundos, não vi mais pai, nem mãe. Estava sendo arrastada no meio da multidão. Mãos me empurravam, passavam por mim, me tocavam. Entrei em pânico. Durou pouco. Durou uma eternidade. Meu pai nadou naquela correte humana e me resgatou. Saímos do rio para a margem e eu chorava muito. Foi preciso um sorvete enorme que não comi inteiro para me acalmar. Nunca mais quis saber de carnaval de rua. 

Aos 14 fui ao meu primeiro baile adulto. Por insistência da minha irmã, usamos fantasia. Como de costume (conforme descobri logo depois), minha irmã voltou a ser abóbora pelas 3 da manhã e quis ir para casa. Desta vez, fui junto. Afinal, mico em dois passa; carregado por uma única pessoa vira um orangotango. Mas aí começou um relação diferente com o carnaval que durou três anos. Eu ia à quase todos os bailes e pulava a noite toda. Descobri que no centro daquele redemoinho, que se forma no salão, era possível sambar. Ainda tocavam marchinhas e os maravilhosos samba-enredos da década de 80 e início dos 90. Vez por outra, um garoto convidava a mim e as minhas amigas para uma volta no redemoinho. Nunca fiquei muito, mas ia. Em meu ano mais entusiasmado, fiz baile do Havaí – quando eram apresentadas as rainhas -, as quatro noites e o Enterro dos Ossos.

Foi no ano seguinte que alguma coisa aconteceu. Talvez tenha sido o vestibular e as terríveis similaridades. Quatro dias, muito calor, muita gente, cansaço, inversão da rotina. O estresse foi a gota d’água. Quando o carnaval chegou, recusei todos os convites. Minha amigas não se conformaram. Levaram-me amarrada ao clube. Não é brincadeira, duas cordas foram passadas na minha cintura. Recusei-me a subir para o salão e fiquei sentada no chão do bar tomando água mineral. Pelas 3 da manhã, minha irmã, tal qual a Cinderela, ouviria as batidas do relógio e iria para casa. Desta vez, eu fui de bom grado. Nunca mais voltei.
Desde então, parece que as más lembranças do carnaval, esquecidas por três anos na adolescência,  voltaram a me assombrar a pele. É um feriado quente em que minha misantropia aflora de forma perigosa. Não gosto de ver a “folia” na TV e as escolas de samba hoje tem brilho demais, e estão absolutamente iguais para gringo ver. As vinhetas dos jornais quase me incomodam. Houve tempo em que isso foi mais forte. Já fiz retiro e me tranquei em casa. Hoje respeito, entendo, e até vou alegre a alguma reunião de amigos com cachorro-quente, chopp e marchinhas. Ainda gosto das fantasias.